Ordem Livre

 

por Diogo Costa

Mises e Hayek provavelmente foram os maiores economistas do século passado. Foram considerados hereges durante muito tempo por sua abordagem econômica diferir do mainstream da época. Não maquiavam a magnífica rede de cooperação humana com o pincel das ciências naturais. Não tentavam relacionar agregados, porque agregados não se relacionam. São as pessoas que se relacionam; são as pessoas que agem, que consomem, que interpretam, valorizam e transformam a realidade. Entendiam, fundamentalmente, que a economia é um estudo da ação humana.

Mas é claro que Mises e Hayek não eram hereges. Eram economistas. Seguiram e contribuíram para a tradição ortodoxa de Turgot, Smith, Say, Bastiat, Menger e Böhm Bawerk. Porém, ao serem lançados para fora do establishment, passaram a levar sempre a classificação de austríacos para acompanhar (e questionar) seus títulos de economistas.

O intrigante é que, em vez de a rejeitar, vários seguidores da escola austríaca abraçaram a condição de hereges. Em vez de lutar pela retomada do mainstream de seu campo, passaram a se alojar à margem. Economistas eram os outros, eles eram os austríacos.

Essa atitude pode ser chamada de austrianismo. Jovens estudantes ao descobrir Ação Humana ou Man, Economy, and State, ou uma obra inspiradas nesses fantásticos volumes, passam a não mais querer ser economistas, mas austrianistas.

Tornam-se, assim, exemplo daquela heresia combatida por G.K. Chesterton. Como diz Chesterton no parágrafo inicial de Heretics: “Antigamente, o herege tinha orgulho de não ser um herege. Eram os reinos do mundo e a polícia e os juízes que eram os hereges. Ele era o ortodoxo. Ele não se orgulhava por haver se rebelado contra os outros. Os outros é que haviam se rebelado contra ele.”

Entretanto, em nossos dias o simples uso da palavra herege (como o fiz no início do texto) já soa como uma denúncia contra os ortodoxos. Atualmente, completa Chesterton, as pessoas dizem “com um riso consciente, ‘acho que eu sou muito herege’, e olha em sua volta por aplausos. A palavra ‘heresia’ não significa mais estar errado. Praticamente significa ser corajoso e ter a mente limpa. A palavra ‘ortodoxia’ não significa mais estar certo. Praticamente significa estar errado. Tudo isso significa apenas uma coisa: que as pessoas se importam menos se elas estão filosoficamente certas”.

É esta a impressão que tenho de alguns austríacos: que eles estão mais preocupados em ser austríacos do que em descrever corretamente a realidade. É o que vejo acontecer com a atual crise econômica. Ao tentar compreendê-la, os austrianistas querem encontrar a resposta pronta no modelo austríaco dos ciclos econômicos, em vez de examinar os fatos e interpretá-los corretamente.

Cada recessão econômica é resultado de uma combinação de determinados fatores. Cada recessão econômica exige pesquisa e coleta de dados mais extensa do que a taxa de juros e a expansão monetária. Como dizia o economista Ludwig Lachmann, não existe a teoria austríaca dos ciclos econômicos:

“O Ciclo Econômico não pode ser adequadamente descrito por meio de um modelo teórico. Precisamos de alguns modelos teóricos, cada um mostrando o que acontece quando certas causas potenciais se tornam operantes. Os muitos modelos construídos pelos economistas no passado não são incompatíveis uns com os outros. Teorias de excesso de investimento e falta de consumo, por exemplo, não são mutuamente exclusivas. Nenhuma delas, é claro, é a verdadeira teoria do ciclo econômico; cada uma é provavelmente uma generalização exageradamente ampla de certos fatos históricos. Basta admitirmos a dissimilaridade de diferentes flutuações históricas para que não tenhamos de procurar por uma explanação idêntica. Ao lidar com flutuações financeiras e industriais, o ecletismo é a atitude certa. Não há razão para se acreditar que as causas da crise de 1929 foram as mesmas da crise de 1873”.

Assim como também não há razão para acreditar que as causas da crise de 1929 são as mesmas da crise de 2008. O que Rothbard disse das ações de Hoover e do Federal Reserve não basta para entender a crise dos financiamentos imobiliários nos Estados Unidos de hoje. A solução para a crise econômica passa por investigar o aparato burocrático contemporâneo.

É porque a visão da economia dos austríacos se aproxima mais da realidade que a das outras escolas que me incomoda ver austríacos se orgulharem e aprofundarem seu status de outsiders. Ao fechar seus olhos para as contribuições feitas pelos demais economistas, os austrianistas deixam de contribuir para a ciência econômica. Procuram apenas adaptar a realidade àquilo que os economistas austríacos disseram. Constroem teorias em busca de dados. Priorizam a identidade e não a ciência.

Em matéria de atitude, prefiro a abrangência de Chicago à mentalidade de culto dos austrianistas. Becker, Coase e Lucas não se referem a si próprios como Chicagoites, mas como economistas. Não existe economia marxista, economia heterodoxa, economia brasileira. Existem apenas dois tipos de economia: a verdadeira e a falsa. Espero que os economistas austríacos brasileiros da nova geração prefiram dedicar suas carreiras a explicar a realidade, em vez de se explicarem por meio de um rótulo.

Diogo G. R. Costa é editor de OrdemLivre.org

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