Por uma ordem livre
por Diogo Costa
Povos livres criam ordens livres. Como dizia Adam Ferguson, as instituições “são o produto da ação humana, mas não a realização de um desígnio humano”. Muitas pessoas acreditam que a existência de uma autoridade centralizadora é necessária para que haja harmonia e previsibilidade no mundo social. Mas ninguém planejou a complexidade das instituições que governam uma grande sociedade. Políticos, burocratas e generais jamais conseguiriam conceber a abrangência da ordem que emerge da interação entre milhões de pessoas livres, cooperando de acordo com seu conhecimento e interesse. Pierre-Joseph Proudhon já afirmava que a liberdade não é a filha, mas a mãe da ordem.
O mercado, a linguagem e a ciência são exemplos de ordens livres. As palavras e suas definições não foram criadas por um dicionário oficial, nem a evolução do conhecimento científico foi obrigada a seguir a formalidade de um programa de governo. Também não foi necessária a criação da teoria econômica moderna para que as pessoas pudessem comprar, vender e contratar. Anne-Robert Turgot, Jean-Baptiste Say e Adam Smith não planejaram o comércio e a divisão do trabalho, mas apenas descreveram os benefícios de comportamentos praticamente universais e, de suas observações, concluíram que, havendo liberdade, a sociedade civil é capaz de organizar a si própria.
Em contraste, os defensores do estatismo sempre acreditaram que cabia a eles o papel de organizar a sociedade, e criaram incontáveis teorias que justificassem a concentração de poder em suas mãos. Adam Smith entendia que os partidários do poder pretendiam manipular a sociedade como se arruma peças em um tabuleiro de xadrez. Mas, dizia Smith, “no grande tabuleiro da sociedade humana, cada peça tem um princípio autônomo de movimento, inteiramente distinto daquele que a legislatura possa impor sobre ela... Se esses movimentos são opostos ou diferentes, o jogo continuará desajeitadamente, e a sociedade permanecerá em um alto grau de desordem”. Seja sob o manto do absolutismo, do fascismo ou do socialismo, o resultado prático das ideologias do poder é igualmente desolador: miséria, injustiças, guerras e tirania.
Com o declínio dos totalitarismos do século passado, vemos uma nova difusão de liberdade e prosperidade. Mais gente pode se reunir para adorar a Deus, mais gente tem acesso à água potável, mais gente pode publicar suas opiniões, mais bebês sobrevivem ao parto, mais doenças podem ser combatidas e prevenidas, mais gente pode viver sem o terror de uma guerra presente ou iminente. Mas essa ascensão liberal não é homogênea. Por todo o mundo, centenas de milhões de pessoas sofrem perseguições religiosas, são condenadas por sua mera dissidência política e estão excluídas do Estado de Direito. Mesmo em países com maiores níveis de liberdade econômica, grupos de interesse ainda usam o poder político para espoliar a sociedade por meio de monopólios e legislações protecionistas. A luta pela liberdade é uma luta para que os direitos humanos sejam desfrutados por toda a humanidade.
Como já enxergava o protagonista da independência brasileira, José Bonifácio de Andrada e Silva, “sem liberdade individual não pode haver civilização nem sólida riqueza, não pode haver moralidade e justiça”. É essa filosofia de liberdade que o OrdemLivre.org divulga para os países de língua portuguesa. Nós, os liberais, reconhecemos os limites da inteligência e da capacidade dos homens para administrar toda a sociedade, e temos a firme convicção de que os seres humanos são diferentes em talentos e aspirações, mas iguais em liberdade. Não importa a cor da pele, a carga genética ou o cargo político: ninguém tem o direito de usar a coerção para determinar como outras pessoas devem viver. Liberdade individual significa sermos donos de nossa própria vida. Essa é a chama inspiradora da ordem social que promovemos, uma ordem livre, cosmopolita, de vanguarda, um novo alento em meio a tantas ideologias merecidamente desacreditadas. Somos a nova voz de uma tradição que não pertence a nenhuma época ou povo, bandeira ou cultura. Nossa tradição é a liberdade, e a liberdade é o bem comum de todos os homens.
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