Menos Política

1964-2014: Contra ditaduras de todos os símbolos e de todas as cores

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Não sabemos se João Goulart planejava um golpe para salvar o seu governo em 1964. Não sabemos ao certo o que teria acontecido caso esse golpe realmente tivesse sido dado. Não sabemos se Goulart entregaria o país a Fidel, Khrushchev ou Brizola. O que nós sabemos foi o que realmente aconteceu. Na noite de 31 de março, as tropas comandadas por Mourão Filho saíram de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. Dias depois, João Goulart deixou o país, e a presidência foi decretada vaga. Os militares vieram garantir as eleições de 1965, mas só devolveram o poder aos civis 20 anos mais tarde.

Para o bem da democracia brasileira, os militares suspenderam liberdades civis, prenderam, torturaram e assassinaram. O estado brasileiro cometeu crimes e nem a violência da resistência ao regime pode relativizar esses fatos. As ações do regime militar brasileiro não se tornam menos imorais sob a lente da possível ameaça soviética, como as ações do regime cubano não se tornam menos imorais sob a ameaça de uma invasão americana. As vítimas do comunismo e do anticomunismo são vítimas e permanecem irremediavelmente mortas.

Como exercício de especulação, pode-se debater o que teria acontecido ao Brasil caso Goulart tivesse força para dar um golpe em 1964. Discutamos se o golpe nos transformaria em Cuba, União Soviética, Hungria ou Checoslováquia. Se os tanques soviéticos assassinariam manifestantes na Avenida Presidente Vargas (ou Karl Marx?) ao primeiro sinal de revolta ou se seriamos pioneiros da glasnost. Defensores da ditadura brasileira dizem que o Brasil teria virado Cuba. Defensores da ditadura cubana dizem que Cuba teria virado o Haiti. Defensores de ditaduras sempre tem suposições e números na ponta da língua, como se soubessem que todo o resto os desmoraliza.

A troca de ideias sobre o Brasil de amanhã permanece contaminado por uma pergunta de abril de 1964. Jamais saberemos o que teria acontecido sem a interferência dos militares nos problemas políticos que João Goulart enfrentava. O que não muda é o que nós sabemos que aconteceu após essa interferência: liberdades foram suspensas, a imprensa foi censurada, políticos foram cassados, partidos políticos foram extintos e muitas pessoas foram presas, torturadas e mortas.

Para os defensores do regime militar brasileiro, mais de 20 anos que vivemos sob a ditadura teriam sido menos livres e mais pobres com uma ditadura de outras cores e outros símbolos. Mas nós liberais não defendemos ditaduras, sob nenhuma justificativa, sob nenhuma cor ou nenhum símbolo. As vítimas do comunismo e do anticomunismo são vítimas e permanecem, inevitavelmente, traumatizadas ou mortas.

Questões hipotéticas sobre um Brasil comunista e a realidade das ditaduras socialistas não podem enevoar a avaliação do que de fato aconteceu nas duas décadas de regime militar: censura à livre manifestação, capitalismo estatista, repressão política e a suspensão das liberdades civis mais básicas. 

Sobre os rolezinhos: direitos de propriedade, estado de direito e um pouco de bom senso

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O problema do rolezinho poderia ter sido solucionado logo no primeiro dia, com a mistura de três ingredientes simples: direitos de propriedade, estado de direito e um pouco de bom senso.

Os shoppings são estabelecimentos privados de acesso público. Não são locais públicos. Teoricamente, não há o que impeça estabelecimentos comerciais privados de regularem de alguma forma a entrada de clientes. Casas noturnas revistam seus clientes, estabelecem um mínimo a ser consumido em suas dependências, e chegam até a verificar se o que vestem está de acordo com regras pré-estabelecidas. Essas normas nos soam comuns, por já termos nos acostumado a elas. Não há nada que impeça os shoppings de adotarem medidas semelhantes e “selecionarem” os seus clientes.

Mas não haver nada de errado com uma prática, não faz com que ela seja desejável. Afinal, você gostaria de fazer compras em um shopping que controlasse a sua entrada, verificasse a sua identidade e as roupas que veste, perguntasse quem são as suas companhias e estabelecesse um valor de consumação mínima para a sua permanência? Os shoppings são estabelecimentos privados e, como casas noturnas, poderiam adotar medidas de controle às suas dependências, mas o prejuízo que elas poderiam trazer inviabiliza qualquer ideia nesse sentido. Os shoppings acabarão por investir em segurança pontual para evitar tumultos e saques. E só.

Um pouco de Estado de Direito também não faria mal à reação aos rolezinhos. Se os lojistas e frequentadores do shopping devem ser suas propriedades e integridade física protegidas, as garantias do Estado de Direito devem ser estendidas a todos, inclusive aos participantes da “atividade”. Elas não podem ser relegadas como fatores secundários, principalmente durante a atividade policial. Em um estado democrático de direito, os papéis de mocinho (polícia) e bandido (os bandidos de verdade) são claramente demarcados, mesmo em uma época em que a violência se apresenta como uma praga nacional.

Os policiais não devem aguardar a agressão passivamente, mas devem agir conforme a lei. E é por um bom motivo que a lei limita os poderes da polícia e regulamenta o uso da violência. A polícia não pode bater gratuitamente, não pode ameaçar dar tapa na cara, não pode coagir menor. Nenhum cidadão jamais estará livre de agressões policiais enquanto não compreendermos que a polícia não está autorizada a agredir suspeitos e que a coação não faz parte dos poderes que o Estado a delega. Na semana passada, foram os funkeiros de bonezão. Amanhã, ninguém sabe.

Sou otimista em relação ao debate público no Brasil, mas quando a realidade se recusa a se encaixar nas ideias dos analistas, esse otimismo sofre. Colunistas falam dos shoppings como locais frequentados pelos filhos da elite, como se nunca tivessem conhecido um pobre ou ido a qualquer shopping center. Outros, falam dos adolescentes da periferia, dos pobres e dos funkeiros, como se eles fossem os enviados de uma ideologia maligna para corroer os alicerces da nossa civilização, e logo no nosso centro da alta cultura -- o shopping.

Quando eu tinha a idade dos garotos e garotas que protagonizaram os rolezinhos nas últimas semanas, o maior programa da minha semana também era ir caminhar em um shopping. Colocávamos nossas melhores roupas e olhávamos as vitrines, olhávamos as pessoas e encontrávamos os nossos amigos. Quando tínhamos algum dinheiro, comprávamos; quando não tínhamos, andávamos. Não éramos todos pretos, não éramos todos brancos, não éramos todos ricos e, apesar de sermos todos pobres, nem éramos pobres do mesmo jeito. Eu fui um adolescente pobre que gostava de funk e encontrava meus amigos em um shopping center. Talvez por isso a guerra de generalizações derivadas dos rolezinhos me irritem tanto.

Nos fins de semana, os shopping centers brasileiros são frequentados pelos trabalhadores e pelos seus filhos. Quem tem grana prefere suas casas de praia, suas fazendas ou os shoppings (de Paris). Os pobres e a classe média -que ganha como pobre, mas gasta como rica- vão ver vitrines, alugar um filme, comer na praça de alimentação. A retórica da luta de classes dos colunistas não resiste a uma visita a um shopping de grande cidade. E para esse diagnóstico, nós nem precisávamos do Datafolha: bastava olhar. Basta ser ou conhecer um brasileiro comum.

Um pouco de calma na emissão de veredictos definitivos também não faria mal: a era das notícias rápidas transformou a reação dos observadores. A emoção fala antes da análise e da avaliação racional. Depois, nos esforçamos para fazer a realidade se encaixar naquela primeira reação. É o elefante da emoção comandando o seu pequeno passageiro, a razão, na famosa analogia de Jonathan Haidt.

A sociedade é um organismo complexo, indivíduos são agentes do próprio destino e membros concomitantes de grupos distintos, mas tudo parece ser muito mais simples online. A briga entre os times vermelho e azul apaga todas as nuances. Quando uma polêmica chega à internet --e dela transborda para a mídia tradicional-- o time azul grita de um lado, o time vermelho grita do outro. Tudo se transforma em nós contra eles.  A cegueira partidária, de petralhas e reaças, transforma pessoas inteligentes em tias que compartilham no Facebook imagens com frases fora de contexto.

Em um debate político, a generalização e o exagero estão longe de ser instrumentos novos. No entanto, o padrão que se forma nessas discussões -- e que vem apagando a separação entre status updates e a mídia formal --, soa esquisito e assusta até mesmo observador otimista a respeito das próximas décadas no Brasil. A maioria da população vive ao largo desses debates e se quisermos engajá-la em algumas dessas discussões, devemos nos esforçar para que elas pareçam um pouco mais com o mundo onde as pessoas vivem e um pouco menos com os modelos maniqueístas da discussão política atual.

Campos e Marina: pelo legado de Lula, pela sucessão de Lula

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Tentar adivinhar resultado de eleição com 12 meses de antecipação é como tentar adivinhar o resultado de uma disputa de pênaltis: você pode saber as estatísticas do confronto, o contexto da disputa e a história de cada um dos envolvidos, mas o que sobra no fim das contas é apenas adivinhação e um pouco de torcida. No final da janela de transferências, a movimentação de Marina Silva, e principalmente de Eduardo Campos, confundiu um pouco os espectadores e ampliou o leque de possibilidades para as eleições presidenciais do ano que vem.

As disputas presidenciais concentradas em candidatos do PSDB e candidatos do PT acostumou boa parte dos observadores da política a verem as articulações em preto e branco. Até o aparecimento de Marina Silva em 2010, e com a exceção das candidaturas de Roseana Sarney e Ciro Gomes ainda no início da campanha em 2002, nenhum outro candidato conseguiu se colocar de fato como alternativa viável a tucanos e petistas. Focando a análise em apenas duas forças majoritárias, as atenções se concentravam no crescimento de um lado e no consequente enfraquecimento do outro, sem muito espaço a terceiros ou quartos partidos que pudessem desempenhar o papel de kingmakers no segundo turno.

As coisas ficaram um pouco mais complexas desde que Marina Silva, ex-senadora e ex-ministra, rompeu com o PT em 2009, depois de quase 25 anos de filiação. No ano seguinte, Marina obteve quase 20 milhões de votos nas eleições presidenciais, mesmo tendo direito a menos de dois minutos no horário eleitoral obrigatório. Marina pode não ser a cara nova cheia de virtudes da política nacional, como imagina ser. É provável que ela também não seja a aproveitadora que usa o discurso da novidade para iludir o eleitor, enquanto faz política tradicional por baixo dos panos, como acusam seus detratores. O que Marina é, ou foi em 2010, um o fato novo. Ela encontrou, com poucos recursos, quase 20% dos votos em um país dividido entre tucanos e antitucanos, entre petistas e antipetistas. E isso não é pouca coisa, apesar do tom quase paternalista com que tratam seus eleitores, os sonháticos – os sonhadores, claro, são sempre os outros.

Marina queria o seu próprio partido, a Rede Sustentabilidade, um movimento que, segundo ela, estaria fora da política, apesar de registrado como um partido político e ter políticos entre os seus membros. A motivação dos seus co-fundadores parecia ser diversa: Marina Silva queria uma legenda pura; Alfredo Sirkis preferia que o movimento permanecesse uma rede e não um partido político; Miro Teixeira procurava uma alternativa ao sufocamento político que sofria no PDT fluminense e concorrer ao governo do estado. Quando o tribunal anunciou que rejeitava o pedido do grupo de Marina, Campos ofereceu-lhe um plano B: abrigo para ela e seu grupo no PSB, garantias de que o partido não entraria na justiça para pedir os mandatos dos marineiros eleitos pela legenda e parceria para concorrer à presidência da república. Nada mal para um plano B.

Do desabrigo depois da decisão do TSE até o anúncio do acordo com Campos, Marina passou dois dias reunida com dirigentes de vários partidos. Indo para o PSB, ela não só contrariou todas as previsões dos analistas – cujas previsões colocavam-na em partidos inexpressivos ou no PPS --, mas juntou forças com ex-menino de ouro e atual ovelha negra da coalizão governista. Mesmo que as pesquisas ainda não mostrem avanços da candidatura de Campos,mas o contrário, os estrategistas petistas, e principalmente os tucanos, devem saber que Marina e Eduardo têm chances de ameaçar o protagonismo que PT e PSDB exercem nas eleições presidenciais desde 1994.

A narrativa dos governistas parece prever que a chapa Campos-Marina, ou Marina-Campos, dividirá os votos da oposição, o que acabaria enterrando a candidatura de Aécio Neves e entregando a reeleição à presidente Dilma. A narrativa da parte da oposição que apóia Aécio faz referências “às oposições”, no plural, como se elas se vissem como partes do mesmo campo e aliados naturais em um eventual segundo turno, apesar de admitirem diferenças nos seus projetos.

Nos próximos meses, deveremos observar com atenção dois movimentos. Um deles é a disputa entre as chapas do PT e do PSB pelo posto que chamaremos de “centro-esquerda moderada”, visando empurrar o adversário para o campo “esquerda indesejável”. O primeiro passo já foi dado por Marina Silva que, ao anunciar a sua adesão à chapa de Eduardo Campos, menciona o “chavismo que se instalou no Brasil”. O campo de Dilma deverá contra-atacar com as consequências indesejáveis que as ideias ecológicas de Marina poderiam trazer às indústrias e ao desenvolvimento.

O outro movimento que devemos observar será a estratégia da candidatura de Aécio Neves. O candidato do PSDB tem a possibilidade de se colocar como “a única verdadeira alternativa de mudança na política econômica”, concorrendo como uma alternativa mais liberal contra duas candidaturas de centro-esquerda. Será que Aécio dobrará as suas apostas na economia de mercado, no empreendedorismo, na apresentação de uma proposta menos estatista para as eleições de 2014 ou repetirá o erros das últimas três candidaturas tucanas à presidência, disputando com o PT, e agora com Campos-Marina, a centro-esquerda?

Aguardemos os próximos capítulos.

 

(Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO)

Por um Brasil dos batalhadores: o que esperar da candidatura de Aécio Neves?

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O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) desceu do muro. Foram longos 11 anos tentando encontrar um caminho e aprender, não só a fazer oposição, mas a oferecer ao país um candidato de oposição. O PSDB finalmente decidiu apresentar na sua propaganda na televisão, através de Aécio Neves, uma visão alternativa para o país. Pode ser que não dê certo, pode até ser tarde demais para reconstruir a identidade de um partido que há mais de uma década só faz gritar que teve as suas bandeiras roubadas. Mas era necessário começar de algum lugar. Pareceria estranho para alguém que chegasse agora ao Brasil, mas a grande novidade na política nacional é vermos o principal partido de oposição brasileiro dizendo abertamente que pensa diferente do governo.

Fazer previsões sobre eleições brasileiras com um ano de antecedência não é uma tarefa simples. Ainda mais difícil é discutir as políticas que os candidatos elegerão para as suas campanhas – não havia Plano Real em novembro de 1993, nem havia “Carta ao povo brasileiro” em novembro de 2001. Uma coisa, porém, é essencial: a construção de um arco narrativo. Os candidatos precisam agrupar um conjunto de ideias que crie uma impressão, que os diferencie dos rivais, e incluí-las em um contexto. Não precisamos ir aos Estados Unidos e lembrarmos da campanha de Barack Obama em 2008, basta lembrarmos da campanha de Lula em 2002.

Foi Duda Mendonça que, sob a supervisão de José Dirceu, reposicionou o PT e Lula, e deu uma maquiagem positiva às más impressões que determinado grupo de eleitores tinha do partido. Antes mesmo que a campanha efetivamente começasse, ele já buscava convencer o país que mesmo aqueles que rejeitavam o partido compartilhavam algumas das suas preocupações. Os comerciais que Duda preparou para o PT diziam aos brasileiros que se imagens de pobreza e injustiça os tocassem (e a quem não tocam?) eles também eram “um pouco PT”. O destaque não era mais o enfrentamento com os “agiotas internacionais” de 1998, era o entendimento para o crescimento econômico, conversando com “muitos empresários e os sindicatos de trabalhadores”.

A narrativa do PT era carregada de sentimentalismo. Tínhamos o Lula chorando, crianças abraçando estrelas, grávidas de branco, o Bolero de Ravel, e o Chico Buarque. No entanto, o sentimentalismo era apenas um instrumento para sinalizar que as coisas poderiam melhorar. Que tudo ficaria diferente depois do voto. Que dessa vez havia motivos para a esperança. Que havia vontade política (termo importantíssimo) para mudar.

A oposição tucana jamais conseguiu chegar perto disso. Nas últimas campanhas, e principalmente na campanha de José Serra em 2010, a oposição dizia poder fazer mais e melhor, mas pouco se diferenciava daquilo que defendia o governo. As suas prioridades pareciam as mesmas. O PSDB só prometia fazer mais, saber “tirar do papel”. Em 2002, quando era governo, a campanha de Serra disputou com o PT a bandeira da mudança. Em 2010, quando era oposição há uma década, a campanha tucana dividia com a campanha petista a afirmação de que o “Brasil tinha melhorado, mas ainda havia muito por fazer”. Até  Lula apareceu na campanha da oposição.

No início desse ano, escrevi que o Brasil vivia um estranho consenso político, com pessoas que lhe olham esquisito se você não defender a transferência de mais poder para o Estado. É esse consenso, benéfico para a situação, que a equipe de Aécio parece querer quebrar. Na parte final do programa do PSDB exibido em setembro, uma jovem pergunta a Aécio por que acreditar que com eles (a oposição, os tucanos etc.) vai ser diferente. Essa foi a sua resposta:

“Eu tenho uma visão de país que é um pouco diferente daqueles que estão no governo hoje, que acham que o Estado faz tudo pra você. Nada. Eu acho que quem muda o Brasil é você. Quem muda o Brasil é você que tá lá estudando, ralando. O Estado tem que dar condição. Tem gastar menos com a sua estrutura, para gastar mais com as pessoas. O governo não pode empatar a vida das pessoas, tem que ser um parceiro. Mas quem vai mudar a vida de cada um de vocês, ou de cada um de nós, somos nós mesmos, é quem tiver disposição de ralar e de enfrentar.”

As ideias principais da campanha parecem estar aí. Na resposta de Aécio aparece uma disposição de posicionar a oposição do lado liberal e menos estatista do debate político. O Estado não pode fazer tudo por você; não confie no Estado para fazer tudo por você; o seu futuro é você quem constrói, ralando, batalhando. O Estado não pode empatar a vida das pessoas.

Na campanha tudo pode mudar. Dilma e Serra foram à igreja. Alckmin vestiu a jaqueta com os logos das estatais. Políticos fazem malabarismos pela recompensa de curto prazo. Mas é importante destacar essa abordagem diferente, a tentativa de reposicionar o PSDB em um campo mais liberal. Uma iniciativa cujos frutos podem demorar um pouco para aparecer, mas com potencial de fazer do partido uma alternativa real às políticas – e ideologias – do PT.

A tentação de sair gritando “Mensalão! Mensalão!” estará presente em 2014, mas o julgamento de políticos corruptos, e a própria corrupção de políticos, parece ter pouca influência no resultado das campanhas. A oposição parece ter percebido que para vencer o governo é preciso apresentar alternativas às políticas do governo, não apenas se oferecer para realiza-las, para tirá-las do papel. Pode não ser suficiente para derrotar uma presidente bem avaliada, mas já é um bom começo.

Mais Liberdade, Menos Política

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A política é parte permanente do nosso cotidiano. Se você acredita que a política está restrita às campanhas eleitorais ou ao dia a dia do poder executivo e das câmaras legislativas, é melhor olhar de novo:  ela está em todo lugar e é inútil ignorá-la. O resultado de seus debates está nas regras que governam maternidades e cemitérios, casamentos e divórcios, escolas e teatros, compras e vendas. Se essa presença é inevitável, é melhor encará-la de frente, para nos anteciparmos às suas consequências indesejáveis e mantermos sob constante escrutínio aqueles que a ela servem. Adaptando o refrão de um funk carioca dos anos 1990: você pode correr, mas não pode se esconder da política.

A popularização da internet e de suas redes sociais parece contribuir com a lenta aproximação dos brasileiros à face mais visível e popular da política: as disputas eleitorais/partidárias. Casadas à profissionalização dos partidos e das campanhas eleitorais, que passam a alimentar ininterruptamente a ação de seus militantes com dados e argumentos, as facilidades trazidas pelas novas tecnologias ajudam a aumentar o interesse do brasileiro comum na participação e discussão de assuntos políticos – mesmo que por vezes esse interesse se manifeste de forma instintiva, atabalhoada ou pouco esclarecida. E esse interesse pode render bons frutos: é mais difícil atuar por baixo dos panos quando muita gente está olhando e os custos de uma decisão corporativista, como aquela não-cassação do deputado condenado à prisão pela justiça, se tornam muito maiores.

Mas a transformação da política nessa força onipresente não acontece sem problemas. A ausência de regras que limitem efetivamente a extensão dos poderes da política para permitir, proibir e regulamentar assuntos em áreas diversas -- do comércio de brinquedos à fabricação de preservativos --, fornece incentivos para que as decisões anteriormente reservadas aos indivíduos sejam gradativamente tomadas por agentes do Estado. Sobra menos espaço para as pessoas e mais espaço para os burocratas, para os grupos de interesse, para os rent seekers.

O ideal moderno de liberdade descrito por Benjamin Constant, aquele que busca preservar as ações na esfera privada dos cidadãos contra as ações da política, luta pela sua sobrevivência. Para a preservação da independência dos indivíduos, é necessário que a força da política seja limitada. Apesar de ser um meio valioso de mediação, a política não deve se estender a campos onde sua ação pode ser substituída pela interação voluntária do mercado. A tomada de decisões de cima para baixo, da burocracia para o cidadão, não pode servir como substituta permanente das opções alternativas que surgem em sentido inverso, de baixo para cima, do indivíduo para o coletivo. Uma sociedade livre necessita de normas simples e claras limitem os poderes do Estado de interferir na vida privada dos cidadãos. A política precisa ser um espaço para debate de ideias e mediação de visões discordantes, ela não pode ser uma ameaça.

Sob a nossa visão, o governo falha quando busca substituir o mercado na alocação de recursos na economia, falha quando tenta impor normas comportamentais aos seus cidadãos e falha muitas outras vezes quando políticos e burocratas atribuem a si a tarefa de solucionar problemas, cujas soluções encontram-se na esfera privada dos indivíduos. Nas sociedades modernas, a mediação da política nos parece necessária e benvinda, mas é necessário que as ações governamentais sejam limitadas e que os limites da politização sejam claros. Para uma sociedade com mais liberdade, é necessário menos política.

Vítimas do Protecionismo

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Lembro-me apenas vagamente da reação das pessoas mais próximas quando o então presidente Collor comparou os carros fabricados no Brasil a carroças. A memória que tenho é a da indignação por ouvirem um presidente com cara (e fama, e talvez vida) de playboy, que certamente poderia comprar bons carros importados, falando mal dos carros “nacionais”.

Depois da relativa abertura comercial, a visão de que Collor não estava tão errado assim ganhou terreno. Hoje já não é nenhuma surpresa quando nos lembram que a qualidade – e o preço – dos carros fabricados no Brasil são bem diferentes dos fabricados pelas mesmas montadoras em outros países. Foi isso que a Associated Press (AP) reportou ontem em matéria publicada em vários sites de notícias do mundo. Todos os anos, acidentes de automóvel vitimam milhares de brasileiros que poderiam estar vivos caso a fabricação dos carros para o mercado interno seguisse o padrão de outros países.

The cars roll endlessly off the local assembly lines of the industry's biggest automakers, more than 10,000 a day, into the eager hands of Brazil's new middle class. The shiny new Fords, Fiats, and Chevrolets tell the tale of an economy in full bloom that now boasts the fourth largest auto market in the world. What happens once those vehicles hit the streets, however, is shaping up as a national tragedy, experts say, with thousands of Brazilians dying every year in auto accidents that in many cases shouldn't have proven fatal. The culprits are the cars themselves, produced with weaker welds, scant safety features and inferior materials compared to similar models manufactured for U.S. and European consumers, say experts and engineers inside the industry. Four of Brazil's five bestselling cars failed their independent crash tests.

No ano passado, Edmar Bacha, um dos formuladores do Plano Real, culpou a “política de conteúdo nacional” por alguns problemas enfrentados por indústrias no Brasil, inclusive a automobilística:

Não vale a pena o governo tentar recuperar a indústria? Não através do protecionismo, do crédito subsidiado, nem de medidas pontuais. Estamos falando de recuperar a capacidade de concorrer e de termos uma indústria produtiva. Afora imposto, e de fato os impostos são extremamente elevados, uma das maiores travas para recriar a indústria é a política do conteúdo nacional. O governo, em vez de resolver, está ampliando. Eu sou a favor de acabar com a política de conteúdo nacional. Mas o governo diz querer incentivar produtores locais. É uma política míope, que resolve o problema localizado à custa de criar danos maiores para a economia. No pré-sal, por exemplo, a consequência dessa política, será que a gente não vai chegar ao pré-sal. Pergunta ao Carlos Ghosn, da Renault, por que ele não produz carro de boa qualidade no Brasil. Tendo que comprar tudo aqui dentro não dá. Protegem a indústria de componentes para criar o que chamam de "densificação da estrutura produtiva". O que é preciso é se integrar às cadeias produtivas internacionais.

A questão levantada por Bacha responde diretamente alguns dos questionamentos feitos pela matéria da AP. Além disso, o governo parece mais inclinado à oferecer recursos para convencer as montadoras a permanecerem no país, do que abrir o mercado para que outras montadoras possam competir pelo consumo dos brasileiros.

O caso dos computadores e dos vinhos nacionais nos lembram dos efeitos do protecionismo sobre a qualidade dos produtos produzidos por um setor. Com poucos competidores e com altas barreiras de entrada no mercado, há menos estímulo para inovação e investimento em qualidade.

Sem competição, a indústria brasileira produziu vinhos rejeitados pelos consumidores, mesmo quando eram vendidos por um preço abaixo dos produzidos em outros países. Com competição limitada, a indústria automobilística produziu carros de menor qualidade, que trazem riscos desnecessários aos seus passageiros, dando razão a um ex-presidente ao qual pouca gente dá alguma razão.