Ordem Livre

 

por Pedro Sette Câmara

É hora de continuar discutindo o que Arnaldo Jabor não falou. E é hora porque o fato de esses e-mails circularem mostra que as pessoas acham que concordam com o que está sendo dito – se realmente concordarem, a situação é pior ainda.

90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Já foi.(...)Hoje a realidade é diferente. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como “aviãozinho” do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas. Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.

Aqui está o poder de sugestão. Dizer que os pais de família querem que os filhos trabalhem para o tráfico é a mesma coisa que dizer que eles querem que suas filhas sejam prostitutas, ou que eles deveriam comer brioche se não têm pão. É uma suposição gratuita.

No mais, é claro que não basta ser honesto para enfrentar os bandidos e colaborar com a polícia. É preciso ser esperto para saber que o policial também é corrupto, ter coragem para arcar com os riscos para si e para a família e de preferência andar armado e saber atirar. Também é preciso ter espírito delator. Se um amigo meu fosse criminoso, mesmo assim não garanto que eu fosse entregá-lo à polícia (ainda mais à polícia brasileira; é fantástico como, nessa equação, as forças estatais são sempre boas), e prefiro viver num mundo em que as pessoas preferem abster-se de praticar esse mal a praticá-lo sem peso na consciência.

O autor do e-mail não deve entender argumentos morais, mas provavelmente entende um argumento de incentivos. Se houvesse uma cultura de delação, ou se a delação fosse amplamente premiada, a falsa delação viraria fonte de renda de gente maligna.

O Brasil é um pais democrático. Mentira. Num país democrático a vontade da maioria é Lei. A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim anarquia. Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.

Não, democracia não é o totalitarismo da maioria. Mas, pelo próprio raciocínio do autor do texto, se a maioria “sucumbe” à persuasão de uma minoria, então sua vontade é a da minoria. E isso, curiosamente, mostra algo da natureza da verdadeira democracia: a possibilidade de mudar a vontade alheia pela persuasão, mas não pela força. Por isso, na antiga Atenas “democrática” (com aspas, naturalmente: era uma “democracia” escravagista), ou mesmo nas jovens democracias modernas, tanta importância se dava à retórica. Talvez hoje o equivalente disso seja o discurso corporativo salpicado de neurolingüística.

E não é nem verdade que você tem direitos sem obrigações no Brasil. Você tem a obrigação de pagar muitos impostos e o direito de esperar bastante por um serviço caro e ruim. Isso é só um non sequitur no texto do rapaz enfezadinho.

Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores). Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar. Democracia, isso? Pense!

Esse toque final, esse “Pense!” que significa “Concorde comigo!”, é sempre delicioso. Mas bem. Não dá para discordar ao menos desse trecho. O Leviatã intervencionista é pior do que o feudalismo. Proporcionalmente, trabalhamos mais para sustentar o governo brasileiro do que um camponês trabalhava para sustentar o senhor feudal.

O famoso jeitinho brasileiro. Na minha opinião, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política brasileira. Brasileiro se acha malandro, muito esperto. Faz um “gato” puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar. No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais. Caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto... Malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí?Afinal, somos pentacampeões do mundo, né? Grande coisa...

Bom, caro autor enfezadinho, você tem razão em denunciar as pequenas desonestidades, mas a questão é que os políticos também são desonestos, também dão seu “jeitinho”. Só que o problema não é pagar a tal da maior taxa de juros do mundo e exigir uma contrapartida, e sim deixar de pagá-la, deixar de esperar que o governo dirija e planeje a sociedade.

Mas há realmente um ponto importante aqui. A ilusão da identidade coletiva pode fazer com que se perca de vista a idéia do bem comum. O desrespeito generalizado a contratos causa a erosão do bem comum que é o direito de propriedade claro. Uma coisa é a propriedade privada, e outra coisa é o privilégio, ou lei privada. A sociedade depende de que todas as propriedades sejam regidas pelo mesmo direito de propriedade, que é um bem comum.

Não se trata nem mesmo de evocar um certo coletivismo, mas de apontar para uma obviedade: duas pessoas que falem idiomas diferentes só vão se entender com muito custo, o número de coisas que poderão transmitir será muito pequeno. Não poderão discutir filosofia, por exemplo. A linguagem comum é que permite a troca e o enriquecimento mútuo. O direito de propriedade idêntico e respeitado é essa linguagem comum.

(...) Para finalizar tiro minha conclusão: o brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos, amigo: continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente. Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta. (...)Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?

Temos aqui mais um ponto importante. Claro que é bom que o governo esteja nas mãos de pessoas de bem. Mas não podemos depender delas – ao menos é o que a experiência mostra. Não é possível criar um sistema perfeito que funcione em piloto automático, mas é possível ter um sistema jurídico que minimize o mal que governantes podem causar a governados. Igualdade perante a lei, direitos claros de propriedade, o direito a um julgamento justo (mesmo que “a maioria” peça a sua cabeça), a confiabilidade dos contratos, direito de ir e vir, de eleger e ser eleito – eis alguns dos (relativamente poucos) elementos desse sistema.

Por isso, a boa vontade não é suficiente. Sei que a minha opinião pode não passar de achismo, mas acredito que a gigantesca maioria dos brasileiros deseja ter um trabalho honesto e prosperar em paz. O que causa amargura é ver que você pode ser obrigado a pagar INSS a vida toda e o governo pode mudar as regras quando quiser – azar o seu. Sua terra pode ser tomada por causa da “função social da propriedade”, e se você morrer é melhor deixar com seus filhos as senhas do banco, porque transmitir a propriedade será um inferno. Se as pessoas souberem que poderão guardar e transmitir o fruto de seu trabalho, sem que burocratas ponham esse fruto na cueca ou façam programas que nominalmente beneficiam aos pobres mas na prática beneficiam aos próprios burocratas, essa boa vontade ainda vai crescer exponencialmente.

Pedro Sette Câmara mantém o site O Indivíduo.

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