2012: Perspectivas para a economia mundial

O ano de 2011 vai ser lembrado como o ano da crise soberana europeia. Esta crise ainda não está superada. Ao contrário. O risco para 2012 é que a crise europeia se espalhe por contágio e afete também os países emergentes. A estagnação na Europa e nos Estados Unidos vai continuar. Junto com o Japão, as grandes economias mundiais estarão na crise. Passo a passo esta crise está afetando também os países em desenvolvimento. Crescimento A crise econômica se manifesta atualmente na crise da dívida soberana. Mas vale lembrar que a origem da miséria econômica foi a crise no mercado de imóveis nos Estados Unidos. A dívida soberana atingiu a faixa crítica por causa do impacto da crise nos mercados financeiros que provocou gastos exorbitantes dos governos ao mesmo tempo que a receita com tributos baixou por causa da recessão. Entretanto os efeitos da crise global são mais desastrosos na periferia da zona do euro. A Grécia sofre uma forte recessão e se mostra incapaz de pagar sua dívida pública sem a ajuda do Fundo Monetário Internacional e do Fundo de Estabilidade Financeira da União Europeia. As condições da entrega destes pacotes financeiros demandam um forte corte dos gastos públicos na Grécia. Assim, a crise financeira se manifesta também numa crise econômica e atualmente cada vez mais numa crise social. Durante 2011, a crise financeira piorou quando começou a afetar negativamente o refinanciamento da dívida pública de uma série de países da zona do euro. Uma crise que afetaria os grandes países europeus excederia a capacidade de ajuda financeira do FMI e da União Europeia e provocaria extremas turbulências na economia global com a consequência de uma recessão profunda da economia global. Entretanto as expectativas negativas atrapalham a atividade econômica não somente nos países em crise. As perspectivas para uma rápida recuperação da economia global permanecem negativas. No fim do ano de 2011 surgiram indicações que talvez a economia dos Estados Unidos pudesse encontrar o caminho da recuperação.  Mas por enquanto ainda falta uma base sólida para um crescimento econômico sustentável nos Estados Unidos. A economia americana ainda sofre de distorções profundas e a carga da dívida pública e privada é pior do que a dos europeus. Comércio internacional Há a necessidade de se dar um fim aos desequilíbrios no comércio exterior que se manifestam em muitos países e afetam negativamente a perspectiva para o comércio internacional. Uma grande parte do crescimento econômico na China depende do setor externo e manter um superávit no comércio exterior requer déficits em outras regiões. No passado, foram principalmente os Estados Unidos que absorveram o superávit chinês. Com a continuação da recessão nos Estados Unidos a China está confrontada com o desafio de encontrar outros destinos além dos países avançados dado que também a Europa sofre com a atividade econômica fraca, reduzindo a sua demanda de importações. Por enquanto, a Alemanha poderia ainda manter sua posição como o segundo maior exportador mundial devido à substituição das exportações para os países europeus e os Estados Unidos com exportações para os países emergentes. Dada a urgência de reduzir a dívida pública não somente na Europa, mas também nos Estados Unidos e no Japão, a pressão aumenta para compensar com exportações a fraca conjuntura interna nestes países. Assim, novos conflitos estão programados no comércio internacional. Entre as primeiras manifestações do ambiente mais conflituoso na arena do comércio internacional contam a crítica dos Estados Unidos à política cambial da China e as lamentações sobre uma “guerra cambial” lançada pelo Brasil. A preocupação que alguns países da zona de euro poderiam abandonar a moeda comum contribui ainda mais para assombrar as expectativas com o comércio internacional. Inflação Mesmo com as políticas monetárias extremamente expansivas implantadas nos Estados Unidos, na Europa e no Japão em um imenso esforço em conter a crise financeira global, a inflação ainda se mantém relativamente moderada no cenário internacional.  O banco central americano continua com uma política monetária que combina taxas de juros quase de zero por cento e aumentou recentemente a sua atividade de monetizar a dívida pública americana. Diante da crise da dívida soberana europeia que começou a afetar países de grandes economias como Espanha e Itália, o banco central europeu também iniciou um programa de monetização da dívida comprando títulos de governos que sofreram uma alta de taxa de juros no processo do refinanciamento da dívida. Assim, a liquidez mundial continua em alta e aumenta o risco de consequências inflacionárias em uma dimensão que pode se mostrar muito difícil de controlar no futuro. Até agora as forças anti-inflacionárias das últimas décadas continuam a funcionar, embora com menos impacto.  Entre os fatores que ajudaram a conter a inflação contam os ganhos da produtividade que chegaram com as novas tecnologias, a intensidade da concorrência global e a oferta de trabalho barato especialmente na China e no Leste da Europa. Em conjunto com a política monetária de metas de inflação em muitos países pelo mundo, houve uma prolongada fase de inflação controlada. Com a reorientação das políticas monetárias em favor de combater a recessão juntamente com o enfraquecimento do progresso tecnológico e com o uso da oferta de mão-de-obra barata perto do seu limite, a inflação mundial esta entrando numa trajetória de ascensão. Mercados Os leilões de debêntures de Alemanha e Itália em novembro de 2011 mostraram que não apenas os pequenos países da periferia estão em perigo, mas também as grandes economias. É bem provável que esta tendência continue durante 2012 e provoque um clima de angústia com taxas de juros mais altas para os Estados Unidos, Japão e os países da Europa. Este cenário pode se tornar ainda mais problemático quando a contração de crédito está acompanhada de aumento da inflação. Este tipo de ambiente não permitirá um grande avanço de ativos financeiros. A seletividade será cada vez mais importante. O mercado está no processo de se tornar altamente heterogêneo produzindo uma convivência quase irracional de ativos extremamente sobrevalorizados ao lado de ativos extremamente subvalorizados. A crise da atualidade manifesta-se como uma crise da dívida pública, mas a causa mais profunda reside no sistema monetário da atualidade. O sistema monetário de moeda fiduciária permite um endividamento da economia além da sua capacidade de longo prazo. Um sistema monetário sem âncora, como hoje em dia é a regra, contém a inerente tendência de produzir uma bolha após a outra bolha. Por décadas, os mercados financeiros exibiram a característica de que quando uma bolha está explodindo, a outra bolha já está no processo de inflar. Por enquanto, parece que estamos perto do fim desta montanha russa.  Enquanto no passado até recentemente seguir as massas se mostrou como boa estratégia nos mercados financeiros, o mesmo hoje é uma receita para o desastre. Quando no passado era uma boa aposta esperar como regra subsídios e bailouts governamentais quando um setor ou uma empresa se encontrava em risco quebra, no futuro frequentemente se esperará em vão. Quando no passado títulos do governo eram a forma mais segura, hoje podem se mostrar a mais problemática. Conclusão Quase todos os governos estão já tecnicamente na bancarrota. Esta é a grande diferença que marca o novo período. A atuação do setor público está além do seu limite e de agora em diante o “novo normal” será a sua diminuição. Isto significa uma mudança radical da política, da sociedade e consequentemente dos mercados financeiros. A próxima grande batalha nesta revolução já está começando. Esta batalha acontece no campo do dinheiro onde as novas forças lutam para estabelecer um sistema monetário que funcione sem intervencionismo estatal.