A arrogância dos Ungidos

"A única coisa mais perigosa do que a ignorância é a arrogância" (Albert Einstein). 

Gabby Douglas, ginasta medalhista de ouro olímpica, dezesseis aninhos de idade, um modelo de humildade e docilidade, teve sua merecida noite de fama, há duas semanas, como centro das atenções no programa de entrevistas de Jay Leno, contando inclusive com a presença coadjuvante da ilustre primeira dama do país, Michelle Obama.

A certa altura, questionada pelo apresentador sobre como fora a comemoração de seu magnífico desempenho em Londres, Gabby, ingenuamente, revelou que havia devorado um McMuffin Egg, para em seguida ouvir de madame Obama o seguinte comentário, emitido de forma jocosa: “you set me back, Gabby”, que poderia ser traduzido como: "Você está atrasando o meu lado, Gabby!"

Para quem não sabe, Michelle é chamada por muitos nos EUA de “czarina da nutrição saudável”, em razão das constantes perorações na mídia contra os maus hábitos alimentares dos americanos, especialmente das crianças. Alguns interpretaram a fala como uma brincadeira sem segundas intenções, embora aquele, definitivamente, não fosse o lugar apropriado para ela desfilar seu habitual proselitismo nutricional, pois era a vez de Gabby brilhar.

Além do fato de ter sido uma tremenda gafe corrigir a fala da menina em público, Michelle pecou também pela falta de discernimento. Qualquer pessoa racional que queira modelar os padrões de saúde para crianças tentaria mostrar que a atleta Gabby é o exemplo mais perfeito desses padrões.  Em resumo, é difícil justificar aquela intervenção da czarina, censurando (ainda que em tom de brincadeira) uma atleta de ponta que diariamente queima mais de 3.000 calorias em seus treinos, além de manter corpo e mente absolutamente saudáveis.

Aliás, como bem lembrou Mary Theroux, dada a conhecida predileção de seu marido, o presidente Obama, por cheeseburgers, cigarros e outros vícios que não são da nossa conta, talvez Madame Michelle devesse procurar cuidar melhor do seu quintal, antes de sair por aí falando dos outros.

Malgrado extremamente deselegante, o comportamento de Michelle era bastante previsível, de acordo com os padrões progressistas, sempre dispostos a ditar o comportamento apropriado para o resto do mundo: o que devemos comer, em que gastar nosso dinheiro, o que dizer, para onde ir, e até como devemos fazer sexo – o leitor pode pensar que exagero, mas certa vez recebi um folheto de uma dessas ONGs verdes cuja proposta era exatamente mostrar como praticar o “sexo ecológico”.

Esse proselitismo progressista é muito comum naqueles que Thomas Sowell chamou de “ungidos”. Eles podem ser encontrados em qualquer lugar, mas são mais comumente vistos entre líderes empresariais, artistas, na academia, na mídia e, por último mas não menos importante, nos gabinetes do governo.

Os ungidos são tipicamente defensores de causas nobres. Como tais, tendem a ver a si mesmos como indivíduos que, benevolamente, trabalham para o bem da humanidade.

A “nobreza” de suas causas dá aos ungidos uma certeza presunçosa em suas convicções. Tanto é assim que eles acreditam que suas opiniões e ideias carregam significado maior do que as opiniões e ideias alheias, ou mesmo dos fatos e das provas.

Uma vez que o formidável intelecto dos ungidos concordou com uma opinião ou uma interpretação, ela só pode estar correta. A partir daí, a tendência é que permaneçam inflexíveis a novas informações, fatos, ou provas. Na verdade, não é recomendável que eles mudem de opinião, pois isso colocaria seu status de infalíveis em risco.

O narcisismo e a autoconfiança são as marcas dos ungidos.  O sentimento de profunda estima por si mesmos, combinado com o desprezo pelos seres intelectualmente inferiores, os leva a situar-se acima do bem e do mal. Em outras palavras, eles se acham acima de suas próprias proclamações. Assim, quando os ungidos dizem que pagar mais impostos é patriótico, não raro excluem-se dessa obrigação (vide Warren Buffet). Quando os ambientalistas dizem para você alterar seu estilo de vida, não se obrigam a fazê-lo (vide Al Gore).

Algumas (raríssimas) vezes as massas se tornam pouco susceptíveis às suas opiniões ou ditames. Nesses casos, os ungidos utilizam algumas estratégias de convencimento, a fim de fazer prevalecer suas convicções.  O primeiro passo é engendrar um programa de propaganda maciça, a fim de explicar à ralé aquilo que ela deve entender.

A segunda linha de ataque é apelar para a existência de um suposto consenso científico acerca do que pretendem nos impor. O pano de fundo desse estratagema é demonstrar que se um grupo de pessoas realmente inteligentes e especialistas no assunto concorda com determinada proposta, você, que não é inteligente ou versado o suficiente para entender o problema, deve confiar neles. Acima de tudo porque eles estão pensando apenas no seu bem.

A terceira linha, caso você insista em contradizê-los, é partir para os ataques ad hominem. Não raro, aqueles poucos que ousam desafiar os ungidos são estúpidos, racistas, egoístas, gananciosos ou simplesmente negadores. Esses ataques refletem de forma cabal o desdém dos ungidos pelas opiniões alheias. Uma vez que você não aceita o seu ponto de vista, mesmo depois que ele tentou explicá-lo e ressaltou que há consenso entre as pessoas que realmente interessam, então o seu raciocínio só pode ser falho. É inconcebível para o ungido que você possa ter uma opinião válida e informada.

Arrogância pouca é bobagem.