A desorganização dos mercados (parte 1)

Mkt

É comum que nós, defensores do livre mercado, respondamos a dois tipos de críticas. Uma delas aponta as imperfeições dos mercados no mundo real e as utiliza para argumentar que o mercado não funciona e que, dessa forma, a intervenção governamental seria desejável. A outra frustração por não podermos explicar exatamente como os mercados resolveriam um problema. Efetivamente, essa crítica diz: “se você não consegue explicar como os mercados farão algo, por que eu deveria acreditar que são capazes de fazê-lo?”

Eu acredito que essas duas críticas estão conectadas e servem para nos lembrar de como os defensores do livre mercado devem responder a elas. A ligação é que ambas ignoram a natureza dos mercados como um processo de descoberta – mesmo que seja desorganizado. Esperar perfeição dos mercados ou que saibamos antecipadamente como as pessoas resolverão problemas através do mercado é não compreender o que o mercado faz, como opera e por que ele é o nosso processo favorito para a resolução de problemas.

Para compreendermos por que os mercados são processos de descobrimento, nós devemos reconhecer, em primeiro lugar, que o problema fundamental que enfrenta qualquer tentativa de cooperação social é o fato de que o conhecimento humano é disperso, tácito, contextual e imperfeito: cada um de nós sabe coisas diferentes, talvez não sejamos capazes de articular o que sabemos, nosso conhecimento pode ser relevante apenas em um contexto em particular, e o que nós sabemos pode estar errado.

O desafio, como colocado por F. A. Hayek em seu famoso ensaio “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, é saber como tornar as outras pessoas capazes de utilizarem o conhecimento que possuímos, para que possamos então colaborar buscando melhorar os padrões de vida da população de forma mais eficiente. O problema da cooperação social e do crescimento econômico é encontrar a melhor maneira de utilizarmos o conhecimento.

Assim, o papel da competição em um mercado livre é nos ajudar a descobrir o que os consumidores desejam e como satisfazer essa demanda, fazendo com que o conhecimento disperso se torne disponível para a sociedade. A chave dessa questão é o papel que os preços desempenham como substitutos do conhecimento. Eles sinalizam aos produtores e consumidores o que as pessoas sabem e o que desejam, possibilitando a coordenação de nosso comportamento. Mais tarde, os lucros e perdas dirão se fizemos ou não as escolhas apropriadas. O processo do mercado competitivo é mais bem compreendido como uma forma de sabermos coisas que não saberíamos de outra forma. Da mesma forma que um jogo de baseball é meio mais apropriado para descobrirmos qual time é o melhor nesse esporte, a competição é o melhor meio para descobrirmos a melhor maneira para a produção de um produto.

Mas, de fato, a competição é desorganizada e, por ser um processo de descoberta, os empreendedores sempre cometerão erros. Eles experimentarão produtos novos que os consumidores podem não gostar (como o Ford Edsel e a nova Coca-Cola). Tentarão fabricar os produtos de novas maneiras que poderão não ser lucrativas: talvez serão caras demais ou porque os consumidores não gostarão das mudanças. Os empreendedores poderão ignorar algo que, mais tarde, se revelará uma oportunidade óbvia.

Para o funcionamento do mercado, o fracasso é tão importante quanto o sucesso. O resultado disso é que o mercado sempre parecerá desorganizado, já que os empreendedores estarão cometendo erros e tentando descobrir como corrigi-los. Os mercados do mundo real, diferentemente dos modelos de equilíbrio nos quais se baseiam os economistas, jamais poderão ser perfeitos porque sempre serão parte desse processo de descobrimento.

A desorganização também explica porque não podemos saber antecipadamente como as pessoas solucionarão problemas utilizando o mercado. E esperar uma resposta detalhada a essa crítica é o mesmo que esperar que uma cientista lhe revele as descobertas de sua pesquisa antes mesmo que ela se inicie!

A justificativa da liberdade científica é que não podemos saber antecipadamente o que será descoberto porque, caso soubéssemos, nós não precisaríamos da ciência. O mesmo é verdade para o mercado: se soubéssemos como os mercados solucionariam um problema, nós não precisaríamos mais dos mercados.

A resposta a essas críticas pode ser resumida à explicação da razão pela qual acreditamos que os mercados, mesmo desorganizados, são mais indicados para a resolução de problemas do que a intervenção governamental. Eu já discuti em várias colunas anteriores a razão pela qual o papel dos lucros e perdas não pode ser reproduzido pelo governo e por que o governo não consegue obter o conhecimento gerado pelo processo de mercados competitivos.

O meu ponto aqui, no entanto, é que a desorganização do mercado não é um problema, mas sim um sinal de vitalidade. É o processo de descoberta acontecendo, ajudando seres humanos imperfeitos a descobrir o que produzir e de que maneira, duas coisas que não poderíamos saber por outros meios.

Publicado originalmente em The Freeman Online. Publicado no OrdemLivre em 29/11/2011.