A desorganização dos mercados (parte 2)

Mkt

Em artigo anteiror, argumentei que as críticas contra o mercado são erradas quando apontam as imperfeições como motivo para a intervenção governamental e quando criticam os defensores dos mercados por serem incapazes de explicar exatamente como eles resolveriam um problema em particular. Os mercados são inerentemente desorganizados e imperfeitos, eu argumentei, porque eles são processos através dos quais descobrimos o que de outra maneira não descobriríamos. Pedir que os mercados sejam perfeitos ou aos seus defensores que saibam o que vão fazer no futuro é querer o impossível. O argumento em favor dos mercados tem de reconhecer as suas imperfeições, mas também observar que eles ainda são melhores que as alternativas.

Um comentário no Facebook apontou que não devemos estar surpresos que os críticos do mercado esperem dele perfeição quando tantos economistas usam modelos que insistem em como os mercados resolvem os problemas “perfeitamente”. Isso é verdade, e levanta alguns pontos que devemos explorar mais detalhadamente.

O modelo principal dos economistas do mainstream descreve a “competição perfeita”. Ele mostra como, sob certas hipóteses, os mercados produzirão os resultados ideias: os recursos serão alocados para o seu uso de maior valor, os preços dos bens refletirão os custos marginais de produção, e os produtores, sabendo exatamente quais bens os consumidores querem, produzirão a custos totais médios mínimos. Qualquer empresa que obtenha lucros acima do custo de oportunidade atrairá novos rivais para competirem e eliminarem os excessos de lucro. O mundo de competição perfeita é um mundo de alocação de recursos ótima.

Para atingir tal resultado, o modelo requer que os cinco pontos a seguir aconteçam:

  1. Todos possuem informação relevante perfeita;

  2. Há um grande número de compradores e vendedores para que ninguém tenha poder de monopólio;

  3. Cada mercado tem um produto perfeitamente idêntico;

  4. Todos tomam o preço do mercado como dado;

  5. Existe mobilidade de recursos sem custos.

Não neste mundo

Obviamente essas são suposições extremamente fortes, praticamente nenhuma delas sendo verdadeira no mundo real. Não é surpreendente que nenhuma parte da economia pareça tão perfeita como o modelo prevê. Como economistas austríacos argumentaram por décadas, o problema fundamental com esse modelo é que ele interpreta mal a natureza do problema econômico. Particularmente por presumir que todos sabem o que precisam saber e que as empresas vendem produtos idênticos, o modelo elimina o processo de descoberta como núcleo da competição. Como F.A. Hayek escreveu em O uso do conhecimento na sociedade, o problema fundamental diante de nós é o problema da dispersão do conhecimento. A competição é justificada pela nossa própria ignorância. Precisamos da competição para descobrir qual é a demanda, quais são os custos e quais tipos de produtos as pessoas querem.

O maior problema surge quando os economistas confundem “competição perfeita” e “livre mercado”. O modelo de competição perfeita pode muito bem ter alguns elementos úteis, mas ele é apenas um modelo e não uma descrição de como a competição no mundo real deve ou irá funcionar. À medida que os defensores do mercado dependem do modelo para argumentar em favor do livre mercado, eles estão se preparando precisamente para dar a resposta que discuti no artigo anterior: os mercados, na verdade, nunca são perfeitos. Se pressupomos a nossa defesa do mercado na sua suposta perfeição, essa defesa será impossível de ser feita.

A falácia antitruste

Felizmente, essa confusão de competição perfeita com laissez faire é menos comum do que costumava ser. No entanto, na lei antitruste ainda existe a suposição de que qualquer comportamento que se desvie do ideal de competição perfeita é altamente suspeito. A objeção do governo americano à fusão das companhias de telefonia AT&T e T-Mobile é um bom exemplo. A fusão realmente reduziria o número de competidores, mas de uma perspectiva mais austríaca, a fusão seria pró-competição, pois permitiria que a empresa resultante da fusão melhor competisse com outra companhia maior, a Verizon. Usar o modelo de competição perfeita como objetivo das políticas de competição confunde o modelo com processos competitivos reais e leva a enormes erros de políticas. Como Robert Bork uma vez disse, usar o antitruste para fazer a economia parecer uma competição perfeita causaria o mesmo efeito de diversas bombas nucleares bem localizadas.

Os defensores do mercado cometem um erro quando dependem do modelo de competição perfeita para defender o livre mercado. O modelo de competição perfeita descarta a função chave da competição real, que é descobrir os fatores que o modelo toma como dados. Os economistas que ignoram esse ponto e a desorganização dos mercados não podem culpar ninguém além de si mesmos quando as inevitáveis imperfeições do processo de descoberta do mercado se tornam a razão pela qual os críticos a rejeitam.

Originalmente publicado em The Freeman Online.