A Escola de Chicago através de seus expoentes

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por Rubem de Freitas Novaes*

 

Registro minha homenagem póstuma ao mestre liberal e amigo Og Francisco Leme, que me iluminou os caminhos para Hyde Park, Chicago.

 

I – INTRODUÇÃO

Sem favor algum, pode-se dizer que a Escola de Chicago não foi superada em produção acadêmica e prestígio por nenhuma outra Escola de Economia no século que passou. É verdade que Cambridge sobressaiu-se até a segunda guerra mundial, por conta da influência exercida por Lord Keynes, principalmente. Mas, a partir da segunda metade do século XX, foi Chicago que dominou a profissão, o que pode ser constatado pelo impressionante número de professores laureados com o Prêmio Nobel e pelo expressivo volume de citações de seus maiores mestres na literatura técnica e política nas últimas décadas.

Cabe notar que o prêmio Nobel em economia começou a ser concedido em 1969. Nestes 45 anos que se passaram, nada menos que 30 economistas de alguma forma associados a Chicago (professores, ex professores e ex alunos) foram contemplados com a homenagem. Harvard, a segunda colocada no ranking de laureados, está bem distante de Chicago, quando tratamos de professores exercendo a cátedra no momento da premiação. Nas citações na literatura, por outro lado, Milton Friedman e Von Hayek, ex professores de Chicago, só ficam atrás de Karl Marx, Adam Smith e John Maynard Keynes, o que os coloca entre os cinco economistas mais influentes da História.

A Universidade de Chicago foi criada, sob os auspícios de John D. Rockefeller, em 1892. Antes houve uma outra Universidade de Chicago, administrada pela Igreja Batista, que faliu. Os batistas da cidade procuraram então o mais rico dos batistas para financiar um novo projeto, agora em bases mais profissionais. Rockefeller, desejoso de criar algo positivo para sua imagem, acatou a sugestão e convenceu-se de que o ambiente mais calmo da cidade de Chicago fazia dela local mais apropriado que Nova Iorque para um grande projeto educacional (Al Capone ainda não havia nascido, ressalte-se). Doou assim 600 mil dólares sob as condições de que a presidência ficasse com William Harper, reputado professor e administrador, e de que os batistas locais investissem 400 mil dólares suplementares bem como conseguissem terreno apropriado para o campus. Marshall Field, comerciante riquíssimo, doou o terreno, Harper aceitou o desafio e os batistas locais arrecadaram o dinheiro. Assim, estava criada The University of Chicago (com o artigo), em Hyde Park, onde se encontra até hoje.

Até a década de 30 não havia lá um pensamento relativamente homogêneo, traços de união que pudessem caracterizar uma Escola de Economia. Não era nítida uma metodologia dominante, nem uma visão comum de abordagem do fato econômico. E, no terreno ideológico, coexistiam, no Departamento Econômico, liberais, intervencionistas empedernidos e até socialistas convictos, lembrando que Oskar Lange, professor da Escola, veio a ser ministro no governo comunista polonês do pós guerra. A partir dos anos 40, no entanto, a influência de Frank Knight, Theodore Schultz e Jacob Viner foi dominante e algumas características comuns a quase todos os professores passaram a marcar a Escola. Destas características, eu destacaria:

- Defesa da economia de mercado e desconfiança em relação a intervenções do governo.

- Uso da Teoria Neoclássica fundada na lei da escassez, na racionalidade da ação humana e na análise marginalista.

- Utilização do instrumental econômico para a análise de diversos aspectos da vida.

- Ênfase no teste empírico de hipóteses.

- Importância da moeda na macroeconomia.

Em termos do desenvolvimento da Teoria Econômica, a Escola de Chicago teve particular destaque nas áreas de: capital humano, econometria, contrarrevolução monetarista, economia internacional, sociologia e economia, direito e economia, expectativas racionais, hipótese do mercado financeiro eficiente, mechanism design, entre outras.

Muitos se indagam sobre as razões de tanto sucesso. É certo que Chicago sempre primou pela competitividade, pelo trabalho duro e pela meritocracia, mas há outros elementos, apontados por quem conhece diversos ambientes universitários, que fazem a diferença. Um é o sistema de workshops, onde estudantes mais avançados rumo ao doutorado e professores submetem suas ideias e pesquisas à dura crítica dos seus companheiros. O outro ponto destacado é o estilo de vida praticado. A Universidade fica distante do centro da cidade, onde existem as distrações. De um lado do bairro onde se situa, fica o Lago Michigan, com seu vento quase sempre gelado. Do outro lado, não muito distante, fica um bairro pobre e perigoso. Espremidos numa faixa estreita, alunos e professores comem, bebem e dormem Economia 24 horas por dia. Ou seja, é imersão total, mesmo para os professores, não encontrável, por exemplo, na vida charmosa da Costa Leste ou da Califórnia.

Nesta palestra tentarei dar uma amostra do que foi e é a Escola de Chicago, pinçando alguns nomes que, na minha opinião, mais contribuíram para a teoria e prática da Ciência Econômica bem como para o prestígio da Escola. Ao falar destes expoentes e de sua obra, muita coisa será deixada de lado. Sinto especialmente deixar de fora os nomes de Theodore Schultz, Ronald Coase, Robert Fogel, Robert Mundell e James Heckman, todos premiados com o Nobel. Mas, ao falar de Frank Knight, Friedrich Von Hayek, George Stigler, Milton Friedman, Gary Becker e Robert Lucas penso estar na companhia dos melhores entre os melhores, la crème de la crème.

 

II - FRANK KNIGHT  (1885 - 1972)

Knight certamente foi um dos founding fathers da Escola de Chicago. Deixou sua marca principalmente na influência que exerceu sobre outros grandes expoentes da profissão. Ainda em seus tempos de faculdade, estudou filosofia, teologia, ciências sociais, história, literatura e química. Somente quando de seus estudos para o doutorado em Cornell passou a interessar-se por Economia, que viria a ser sua disciplina principal por toda a vida. Sua formação multidisciplinar, entretanto, certamente teve influência em sua convicção de que economistas, principalmente economistas matemáticos e econometristas, estavam indo longe demais em sua tentativa de descrever o fenômeno social.

Knight era um cético por excelência e um crítico feroz de todos aqueles que, segundo sua análise, pretendiam ter um conhecimento muito acima de suas reais possibilidades. Neste particular, implicava fortemente com clérigos e com a classe médica. Mas foi contra os economistas intervencionistas e políticos que dirigiu suas maiores críticas. Sendo um pensador liberal, que colocava a liberdade no mais alto pedestal das aspirações humanas, Knight dedicou seus esforços ao combate de socialistas, keynesianos e conservadores cristãos, todos advogando diversas formas de controle social em nome da ciência e/ou da moral.

Como mencionado anteriormente, Knight exerceu especial influência sobre um grupo de estudantes brilhantes. Friedman e Stigler não seriam os grandes liberais que foram não fosse por seus ensinamentos. A “Teoria da Escolha Pública”, de James Buchanan, surgiu dos ensinamentos de Knight a respeito do caráter perverso das decisões políticas. Sua análise do tempo como fator de produção viria inspirar Gary Becker nos seus definitivos estudos sobre o assunto. Finalmente, a clássica análise de Ronald Coase, sobre a importância da correta definição e garantia dos direitos de propriedade, foi certamente inspirada pelos escritos de Knight críticos à obra de Arthur Pigou que tratava das externalidades. Note-se que todos os citados economistas influenciados por Knight foram posteriormente agraciados com o prêmio Nobel.

A maior contribuição de Knight para a Teoria Econômica deu-se no entendimento do papel do empreendedor na sociedade. Entre outros pontos, separou bem os conceitos de risco (que estaria sujeito a seguro) e incerteza e destacou a importância do enfrentamento da incerteza na origem dos lucros empresariais, complementando a visão dinâmica de Schumpeter, que trata o lucro como recompensa pela inovação. É de se notar também a controvérsia com os austríacos sobre a teoria do capital, austríacos defendendo que se conferisse importância à heterogeneidade do capital físico e Knight tratando o capital como um fundo financeiro, resultante da acumulação no tempo de investimentos.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a visão de Knight, em contraste com a de Friedman, era a de que nenhuma ciência social poderia ser tratada como as ciências físicas ou naturais. Já em 1956, no entanto, reconhecendo o sucesso da revolução empiricista, permitida pelo avanço da Econometria, pelo desenvolvimento dos computadores e pela grande disponibilidade de dados, admitiu existir estabilidade no entrelaçamento das variáveis econômicas e que “há uma ciência econômica que produz leis tão universais quanto às da matemática ou da mecânica”.

Knight não viveu a tempo de receber o Prêmio Nobel, instituído pouco antes de sua morte. Mas, em vida, foi agraciado pela American Economic Association com o Francis Walker Award, concedido, não mais que uma vez de 5 em 5 anos, para o economista que mais contribuiu para a Ciência Econômica durante a sua inteira carreira.

 

III - FRIEDRICH VON HAYEK  (1899 – 1982)

Hayek sem sombra de dúvida está entre os grandes gênios das ciências sociais. Doutorou-se na Universidade de Viena em Direito (1921) e em Ciências Políticas (1923), mas logo interessou-se por Economia, influenciado pelas idéias de Carl Menger, Bohm Bawerk e, principalmente, Von Mises, grandes mestres da Escola austríaca. Multidisciplinar, talvez tenha sido o último dos economistas filósofos, ou filósofos economistas, como queiram, na tradição de Adam Smith, David Hume e muitos outros. Recomendado por Mises, Hayek passou um período como diretor do Austrian Institute for Business Cycle Research, onde desenvolveu suas idéias sobre o que chamamos hoje de Macroeconomia. Em 1931 mudou-se para a Inglaterra onde assumiu cátedra na London School of Economics (LSE), trincheira de onde combateu as idéias intervencionistas de Keynes, vindas de Cambridge. Em Chicago, lecionou de 1950 a 1962.

Na visão de Keynes, exposta em sua “Teoria Geral”, o ciclo de baixa na Economia teria origem na deterioração das expectativas, ou seja, na quebra da confiança de empresários e consumidores. Com isso, haveria uma queda da demanda agregada (consumo mais investimento) que geraria recessão e desemprego. Como, em sua visão, a política monetária enfrentaria uma “armadilha da liquidez”, popularizada pela idéia de que se pode levar um cavalo ao bebedouro, mas não obrigá-lo a beber, Keynes preconizava então a expansão dos gastos públicos como remédio anti depressivo. Notem que Keynes não deixou clara a causa das crises de confiança.

Enquanto que para Keynes o Estado representava a solução, para Hayek o Estado era o problema. Segundo Hayek, na raiz das recessões ou depressões estava sempre uma política monetária frouxa. Juros artificialmente mantidos abaixo das taxas naturais de equilíbrio favoreceriam malinvestments em setores com ciclos longos de produção. Somente mais e mais artificialismo monetário poderia dar sustentação a estes malinvestments. A liberalidade monetária só poderia levar à inflação e, quando cessasse, resultaria em recessão, pois não haveria demanda para sustentar os investimentos mal feitos. Diante da recessão, os remédios keynesianos só poderiam mascarar problemas e jogá-los para a frente, prenunciando crises ainda maiores. O melhor seria deixar o Estado de fora da crise que ele mesmo causara!

Muitos podem estranhar que estejamos relacionando aqui Hayek entre os expoentes de Chicago se ele era essencialmente um “austríaco”. É verdade que a ida de Hayek para Chicago não ocorreu sem alguns percalços. Desde 1945, quando Hayek fazia seu road show nos EUA (com base em Chicago) para divulgar “O Caminho da Servidão”, surgiu um namoro conturbado com a Escola. Este namoro só iria terminar em 1950 com um convite, aceito, para lecionar na Divisão de Ciências Sociais. A admiração de todo o Departamento de Economia era enorme para com o pensador liberal, mas o mesmo não ocorria com a figura de Hayek como teórico da Ciência Econômica.

Os economistas de Chicago não concordavam com a descrição do fenômeno econômico contida na Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos nem com a teoria monetária de Hayek. Havia discordâncias também de natureza metodológica, área onde o empirismo de Friedman passava a ser dominante, não só na Escola como por toda a profissão. Hayek tinha sobre a metodologia uma posição particular. Era contra o cientificismo, que comparava a Economia às ciências físicas e que tentava encontrar constantes no relacionamento entre as variáveis econômicas. Mas aceitava bem o uso da matemática para sistematizar o conhecimento e para estabelecer a natureza geral de padrões de comportamento. Entendiam também os economistas de Chicago que Hayek não concentrava seus esforços intelectuais no desenvolvimento da Teoria Econômica. Diferentemente de seu mestre de Viena, Von Mises, e de mestres do calibre de Friedman e Gary Becker, Hayek nunca tratou a Ciência Econômica como sendo indiscutivelmente a “Rainha das Ciências Sociais”.

A solução encontrada, então, foi contratar Hayek para a Divisão de Ciências Sociais (Committee on Social Thought), à qual o Departamento de Economia estava e está subordinado. Hayek estaria liberto para produzir em outras áreas do conhecimento e ganhariam também com suas luzes os departamentos de Ciências Políticas, Direito, Sociologia, Psicologia e História.

Não se pode deixar de citar entre os feitos de Hayek a criação, em 1947, da Mont Pellerin Society. A Instituição congregava e congrega até os dias de hoje as maiores expressões do pensamento liberal em todo o mundo e não existiria não fosse pelo peso intelectual e esforços de Hayek. Da criação da sociedade participaram: Milton Friedman, Frank Knight, George Stigler e Aaron Director, de Chicago, cabendo destacar também as presenças, entre seus fundadores, de Ludwig von Mises, Lionel Robbins, Karl Popper, Fritz Machlup, Bertran de Jouvenel e Maurice Allais. Mais tarde, adeririam à Sociedade expoentes do peso de Lord Acton, Eugênio Gudin, Gary Becker e nosso caríssimo Embaixador Meira Penna.

O combate ao Socialismo foi assim uma constante nos afazeres e na produção intelectual de Hayek. Seus trabalhos sobre a transmissão do conhecimento através do sistema de preços livres e sobre a ordem espontânea do Capitalismo complementaram o mais eloqüente e panfletário “O Caminho da Servidão”, para mostrar que, em havendo um regime econômico centralmente planificado, seria inevitável o percurso para o totalitarismo e garantido o insucesso material do país. Na linha de combate ao intervencionismo estatal, cabe notar também a proposta feita por Hayek de completa privatização da moeda, passando esta a ser resultante da livre competição entre bancos privados emissores.

Em 1962, Hayek deixou Chicago. Estava aborrecido por não ser reconhecido por seu pares como um grande economista e deprimido porque o que julgava ser sua obra maior, “The Constitution of Liberty” (Os Fundamentos da Liberdade), não obtivera o sucesso editorial esperado. Convidado então pela Universidade de Freiburg para assumir uma cátedra, aceitou de bom grado o retorno à Europa onde dedicou o final de sua carreira principalmente à produção acadêmica na área do Direito (“Law, Legislation and Liberty”). Viveu o suficiente, no entanto, para ver que na década de 70, em Chicago, foi reabilitado como grande economista por Robert Lucas, em virtude de seu enfoque de equilíbrio geral no trato da macroeconomia e por ter reconhecido teoricamente a incapacidade do governo em lidar com o ciclo econômico. O prêmio Nobel de Economia, recebido em 1974, também viria fazer justiça ao grande intelectual cuja obra influenciou os rumos do século XX.

 

IV - GEORGE STIGLER  (1911 – 1991)

Stigler, reconhecido por todos na profissão como grande teórico da microeconomia, empirista notável, escritor de estilo refinado e o mais bem humorado dos economistas de escol, iniciou seus estudos acadêmicos na Universidade de Washington, onde recebeu o B.A. (Bachelor of Arts). Pretendendo seguir carreira empresarial, seguindo os passos do seu pai, estabelecido no ramo imobiliário em Seattle, Stigler transferiu-se para a Northwestern University em busca de seu M.B.A. (Master in Business Administration), que obteve em 1932.

A realidade da Grande Depressão, entretanto, iria cortar seus sonhos empresariais e definir novos rumos para sua carreira. Aluno brilhante recebeu bolsa atrativa para doutorar-se em Economia na Universidade de Chicago, onde estudou sob a batuta de Frank Knight, Henry Simons e Jacob Viner, grandes nomes da Escola e influências marcantes na formação de seu perfil profissional. Cabe notar que Stigler foi contemporâneo de Friedman como estudante. O relacionamento dos dois era muito próximo e a profunda amizade construída nas salas de aula perdurou até a morte de Stigler, em 1991. Com uma tese doutoral supervisionada por Knight, Stigler recebeu o seu grau de Ph.D. (Philosophy Doctor) por Chicago, em 1938.

George Stigler, antes de Chicago, teve experiências como professor no Iowa State College, na Universidade de Minnesota, na Brow University e na Columbia University, onde ficou de 1947 a 1958. No final de 1957, finalmente aceitou proposta para voltar a sua antiga casa, diferentemente do que fizera em 1950, magoado com um veto dado a sua contratação pelo presidente da Universidade, em 1946. O episódio de seu veto para a cátedra, em 1946, teve especial importância histórica porque a oferta da Universidade foi então dirigida a ninguém menos que Milton Friedman, que a aceitou. Isto permitiu a Stigler, um grande gozador, creditar-se pela fundação de uma nova e exitosa Chicago School  of Economics.

Reconhece-se hoje duas grandes fases na produção acadêmica de Stigler. Do início dos anos 50 ao final dos anos 60, a maior parte de seus estudos foi sobre Organização Industrial. De Cambridge, principalmente, vinham muitos artigos e livros ressaltando a importância de monopólios, oligopólios, trusts, competição monopolística e markup pricing na configuração da economia. Contestavam, em síntese, a relevância da hipótese de mercados competitivos e flexibilidade de preços embutida na microeconomia neoclássica, tão cara aos mestres de Chicago. Stigler, de início, embarcou na idéia dos fortes males causados por monopólios e chegou a propor duras medidas legislativas anti-trust. Com o tempo, seus próprios estudos empíricos e as influências de Joseph Schumpeter e Aaron Director convenceram-no de que não seriam necessários muitos concorrentes para aproximar os resultados da competição perfeita. Em suas palavras: “cada vez mais economistas chegam à conclusão de que a concorrência é uma erva resistente, e não uma flor delicada”.

Crescia também no mestre o ceticismo em relação às várias intervenções estatais no domínio econômico. Da década de 60 em diante, Stigler concentrou-se então em examinar os efeitos e motivações das diversas regulações governamentais e percebeu que raramente estas atingiam os objetivos colimados quando de sua criação, não sendo raros os casos em que atingiam resultados contrários aos pretendidos. Ora, se a regulação é tão ruim assim, o que explicaria a sua existência? A resposta de Stigler foi dada com a sua já clássica “Teoria da Captura” das agências governamentais. O processo regulatório seria controlado por grupos de interesse que através de restrições à concorrência, subsídios e fixação de preços obteriam benefícios para si em detrimento de consumidores e/ou contribuintes.

Estes trabalhos fizeram com que Stigler fosse contemplado pela Academia Sueca com o prêmio Nobel em 1982 "por seus estudos seminais sobre a estrutura industrial, funcionamento dos mercados e causas e efeitos da regulação pública”. Mas as contribuições de Stigler à teoria e prática da economia não se limitaram a estes campos, cabendo notar, também, por exemplo, a sua obra como historiador do pensamento econômico. No início de carreira esta era a sua principal área de interesse por ser um desdobramento natural de sua dissertação para o doutorado sobre a história da teoria neoclássica de produção e distribuição.

 Ressalte-se que, embora sem merecer o destaque da Academia Sueca, Stigler considerava ser sua Teoria da Informação o maior legado que deixara para a profissão. Segundo ele, pessoas buscam informação de forma racional, prosseguindo a busca até o ponto em que o custo associado à aquisição de uma informação adicional se iguala ao benefício proporcionado por este último acréscimo de informação. O principal componente de custo na obtenção de informação é o tempo que alguém tem de investir no processo de busca da informação. Adaptando a Teoria da Informação para o mercado de trabalho, Stigler chegou a “Search Theory of Unemployment”, mostrando que parcela importante do desemprego refletia apenas um processo voluntário de otimização do uso do uso do tempo para a obtenção de informação pertinente por parte de empregados e empregadores. Além do mercado de trabalho, a teoria da informação de Stigler permitiu significativos avanços no estudo da propaganda, localização da empresa, especialização e oligopólios.

Ao falecer de um ataque cardíaco em 1991, aos oitenta anos de idade, Stigler deixou uma importante lacuna em Hyde Park. Sobre a morte de Mr. Micro (apelido de Stigler, apesar de ter mais de 1,90 m de altura), Friedman, o Mr. Macro (parecia um anão perto de Stigler), declarou: “Apesar da profunda tristeza que sinto pela morte de George, não consigo me lembrar dele sem sorrir. Seu bom-humor era tão rápido quanto sua inteligência. Ele trazia alegria e entusiasmo para onde quer que estivesse. São raros os dias em que não nos lembramos de algo que disse, tanto engraçado como pertinente”.

Aqui no Brasil, o INSPER, em São Paulo, excelência no ensino de Economia, resolveu homenagear o mestre de Chicago instituindo o Prêmio George Stigler de Excelência em Pesquisa para premiar os melhores trabalhos de pesquisa publicados pelos professores da Escola. Nada mais merecido!

 

V - MILTON FRIEDMAN  (1912 – 2006)

Friedman está certamente na categoria dos gênios da humanidade cujos pensamentos e influências perduram através dos séculos. Se as idéias de Lord Keynes dominaram a profissão dos anos 30 aos 50, foi Friedman quem a partir da década de 60 e até sua morte se impôs como o mais influente economista e pensador liberal, assim reconhecido por amostra de 299 professores de Economia bem como pela competente revista The Economist. Por curiosidade, ressalte-se que Gregory Mankiw, professor catedrático de Harvard, autor do livro texto de Economia mais vendido no mundo e neo-keynesiano de escol, considera ser Milton Friedman, e não Keynes, o maior economista do século XX.

Friedman teve sua primeira formação em Matemática. Na pós graduação, resolveu dedicar-se à Economia, influenciado que foi pelos rigores da Grande Depressão. Fez seus estudos até o mestrado na Universidade de Chicago, mas, atraído por melhor bolsa de estudos, transferiu-se para Columbia onde concluiu seu doutorado em 1946. Neste mesmo ano, já despontando na profissão, recebeu cátedra para lecionar em Chicago, onde permaneceu por 31 anos.

Friedman foi sempre um grande rival intelectual de Keynes. Embora utilizasse o linguajar keynesiano e aceitasse trabalhar com as variáveis macroeconômicas definidas na “Teoria Geral”, ele, desde suas primeiras pesquisas sobre a “hipótese da renda permanente”, contestou as conclusões de Keynes que relacionavam o consumo da população à renda corrente.

Seus mais conhecidos trabalhos na área monetária também entraram em choque com as “verdades” keynesianas de então. Keynes colocava a culpa da depressão dos anos 30 nos mercados e apontava para a ineficácia dos remédios monetários. A “História Monetária dos EUA”, escrita por Friedman com Anna Schwartz, mostrava que a real causadora da depressão americana foi uma grande barbeiragem do FED, que permitiu a queda substancial da oferta monetária, impressionado que estava por juros em baixa.

Por outro lado, ao reformular a Teoria Quantitativa da Moeda, transformando-a numa função de demanda por moeda, Friedman orientou estudos que mostravam ser o instrumento monetário mais poderoso e confiável para a determinação da renda nominal que os instrumentos fiscais de Keynes. Money matters, expressão friedmaniana, passou a ter aceitação generalizada.

 Mas, se a moeda é poderosa, seguia Friedman, isto não significa que se deva dar muitas asas às autoridades monetárias. Segundo ele, no longo prazo, moeda não tem poderes para influenciar a economia real; só os preços. E, no curto prazo, pouco se sabe a respeito da distribuição dos seus efeitos sobre a renda real e sobre a inflação. Melhor então seria que autoridades, que tanto erram no timing e na intensidade de suas ações, ficassem limitadas a obedecer a uma regra fixa de expansão monetária. Friedman tinha assim um lado bem definido no velho debate “regras definidas versus poder discricionário”: ele acreditava, nos dizeres de Og Leme, na “autoridade das regras e não na regra das autoridades”.

Em outro ponto importante Friedman contestou os keynesianos. Acreditavam estes numa relação estável entre inflação e emprego da mão de obra, ou entre inflação e produto, relação esta que indicaria poderes positivos para a inflação. Ou seja, acreditavam que a inflação estaria inversamente relacionada com o desemprego. É a famosa curva de Phillips, assim denominada em homenagem ao primeiro economista que trouxe evidências estatísticas a seu favor. Friedman contestou o resultado, já que a admissão de ilusão monetária contrariaria a mais simples lógica econômica de trabalhadores e/ou empregadores. Estudos subseqüentes mostraram que, após algum efeito de curto-prazo, rapidamente a tal curva caminhava para a verticalidade, eliminando assim os alegados benefícios da inflação. Preços e salários calculados em termos reais é que contavam. Mais uma vez Friedman mostrava estar com a razão.

Friedman, respaldado por sua crença nos mercados livres e no ideário liberal, envolveu-se ao longo de sua vida em diversas campanhas de cunho político. Destacaríamos sem qualquer ordem de importância ou cronológica as campanhas: contra o controle de aluguéis, contra a imposição de salários mínimos, a favor de taxas flexíveis de câmbio, contra o recrutamento compulsório de militares, pelo casamento entre pessoas de mesmo sexo e a favor da descriminação das drogas. Reconhecendo, no entanto, que algum papel poderia caber ao Estado na área social, dentro do conceito de igualdade na partida, defendeu o imposto de renda negativo e o sistema de vouchers para a Educação.

Registre-se que Friedman teve algum envolvimento com o Partido Republicano, ao assessorar o candidato Barry Goldwater e os presidentes Richard Nixon e Ronald Reagan. Foi muito criticado pela esquerda americana por visitar o Chile pós Allende, onde fez uma série de palestras na Universidade Católica e encontrou-se com o Gal. Pinochet, a quem dirigiu carta com recomendações de reforma econômica. Mas, curiosamente, ninguém o criticou por ter feito posteriormente visitas a China comunista (a primeira em 1980), onde, da mesma forma, fez palestras e encontrou-se com as principais autoridades locais, inclusive Deng Xiaoping, sugerindo-lhes medidas para a abertura econômica do país.

Em matéria de Epistemologia, o seu trabalho sobre “A Metodologia da Economia Positiva” é clássico e influenciou os rumos da teoria econômica aplicada. Para Friedman a teoria tem de se sujeitar ao teste empírico (teste do pudim) para ganhar respeitabilidade e aperfeiçoar-se. Não que predicados lógicos possam ser dispensados e que se esteja a correr regressões aleatoriamente até a obtenção de padrões definidos. O apriorismo do método dedutivo também está presente na medida em os princípios básicos da teoria econômica são sempre obedecidos. Mas não pode haver teoria boa sem o respaldo da realidade, não bastando a construção lógica de suas premissas. Por que não testar, afinal de contas, se temos à mão os elementos necessários para fazê-lo?

Para terminar, lembro que Friedman foi um expositor de mão cheia. Suas aulas, assim como as de Becker e Stigler, eram ministradas em auditórios, tamanha a audiência que afluía das mais diversas áreas da Universidade. Sua pregação não se limitava ao campus universitário. Teve por muitos anos coluna na Newsweek e suas aulas e palestras se espalhavam pelo mundo. Dois livros seus: “Capitalismo e Liberdade” e “Livre para escolher”, este último extraído de uma série de programas para a televisão, foram best sellers mundiais. Friedman foi também um frasista incomparável que cunhava suas frases com o intuito de fixar os conceitos que queria divulgar. Ficam aqui, como homenagem, algumas citações tiradas de seus escritos e palestras:

- “Não existe almoço grátis”.

- “Nada é mais permanente que um programa temporário de governo”.

- “Se você coloca o governo federal para administrar o Saara, em 5 anos haverá escassez de areia”.

- “Só o governo é capaz de usar folhas de papel de boa qualidade, cobri-las com tinta de boa qualidade e produzir uma combinação absolutamente inútil”.

- “Cristovão Colombo não procurou uma nova rota para as Índias em resposta a uma determinação da maioria”.

- “Um dos maiores erros é julgar os programas e políticas públicas por suas intenções e não por seus resultados”.

- “A solução governamental para um problema qualquer é usualmente tão ruim quanto o problema que pretende corrigir”.

- “Uma sociedade que coloca a igualdade acima da liberdade acabará sem as duas”.

- “Não há liberdade política sem liberdade econômica. Mas pode haver liberdade econômica sem liberdade política”.

- “Só nas transações privadas, onde o olho do dono está presente, se atenta para os custos e para os benefícios dos recursos movimentados. Quando os recursos vêm de terceiros e são destinados a terceiros, como é o caso de recursos gerenciados pelo governo, não se cuida adequadamente nem dos custos nem dos benefícios envolvidos”.

 

VI - GARY BECKER ( 1930 – maio de 2014)

Gary Becker, falecido recentemente, foi o mais criativo dos economistas. Sua educação universitária começou em Princeton entre dúvidas se seria sociólogo ou economista. Ao perceber que a Economia poderia se prestar ao estudo de questões tradicionalmente cobertas pela Sociologia, optou por doutorar-se em Economia, o que fez na Universidade de Chicago, em 1955. Exceto pelo período que vai de 1957 a 1969, quando lecionou em Colúmbia, Becker dedicou sua carreira inteira à vida acadêmica em Chicago.

Para Becker a Teoria Econômica é na verdade uma Teoria Geral da Escolha, aplicável a qualquer área onde está presente o comportamento humano. Na Economia, queremos saber por que as pessoas fazem o que fazem. Nesta busca, devemos ir além do fato puramente econômico, interagindo com as mais diversas disciplinas sociais.  Temos, nós economistas, um modelo de análise do fato social que envolve algumas leis gerais e a hipótese de racionalidade humana. Em qualquer tomada de decisão está implícito um cálculo de custos e benefícios que norteia nossas ações, ou, pelo menos, as influencia fortemente. Becker, com os instrumentos do economista, penetrou nos domínios da sociologia, da demografia e da criminologia, entre outras áreas do conhecimento. Seu sonho parecia ser o de chegar a uma ciência social unificada, única, com lastro no instrumental econômico.

A extensa obra de Becker pode ser segmentada em dois grupos: sua contribuição para a teoria econômica pura e sua contribuição para a expansão das fronteiras da Economia no campo dito “social”. Na teoria pura, destaca-se a sua obra sobre o capital humano, que, inspirada em Theodore Schultz, revolucionou a teoria do desenvolvimento econômico, tratando a educação como investimento tão ou mais importante que o capital físico ou inovações tecnológicas. Destaque-se também as contribuições que fez no sentido de incorporar o tempo como fator de produção, principalmente quando estudado no âmbito das decisões familiares. A família, segundo Becker, passava a ser encarada como uma pequena fábrica que combinava o tempo de seus membros com bens adquiridos no mercado para a produção de comida, abrigo e lazer.

A sua tese doutoral sobre discriminação no mercado de trabalho já iria prenunciar um rumo novo para o estudo da economia, ampliando o seu escopo. Seguiram-se estudos sobre crime, casamento, divórcio, drogas, tamanho da família etc. Expandia-se, assim, a sua influência sobre as ciências humanas em geral, que já não podiam deixar de incorporar o método da escolha racional ao seu instrumental de trabalho.

Reconhecendo a importância do trabalho de Becker, a Academia de Ciências da Suécia conferiu-lhe, em 1992, o prêmio Nobel “por ter estendido os domínios da análise microeconômica a um amplo espaço onde a interação social e o comportamento humano, mesmo fora do mercado, estão presentes”. Destaque-se também a importância de Becker no desenvolvimento das disciplinas de “Sociologia e Economia” e “Direito e Economia”, fruto respectivamente de sua associação com o sociólogo de Chicago James Coleman, já falecido, e com o Juiz de Direito e Professor da Escola de Direito, Richard Posner.

Finalizando e para dar uma idéia de como funciona a análise de Becker sobre o fato social, tomemos como exemplo o que nos ensina o seu já clássico “Crime and Punishment”. Neste artigo ele mostra que a opção pelo crime dependeria fundamentalmente de uma análise racional de custos e benefícios associados às atividades delituosas. Indivíduos se dedicariam tanto mais ao crime quanto menores fossem suas perspectivas de sucesso em atividades lícitas e quanto maiores os benefícios líquidos esperados da atividade ilícita. Estes benefícios líquidos, por sua vez, dependeriam dos ganhos a serem extraídos do crime, do tamanho das penas e da probabilidade de condenação. Desconfortos de ordem moral e a possibilidade de danos à imagem seriam fatores a ser considerados do lado dos custos, porém insuficientes para, sozinhos, determinar o comportamento de grande parte da população. Becker, em suma, contrariava as teorias psicanalíticas que tratavam os criminosos como vítimas da sociedade. O crime ocorre, segundo ele, porque e quando se torna um bom negócio!

 

VII - ROBERT LUCAS JR. (1937 -     )

Robert Lucas Jr. é considerado, mesmo por seus pares das salt water universities (universidades de água salgada), o maior dos macroeconomistas vivo. Bacharel em História por Chicago em 1959, decidiu seguir estudos em Economia, disciplina que lhe daria o Ph.D., em 1964. Após a graduação em Chicago, foi lecionar em Carnegie-Mellon de onde retornou a antiga casa em 1975 como professor catedrático. Permanece lecionando até os dias de hoje, agora como a estrela maior do Departamento de Economia, após as mortes de Friedman e Becker.

Em 1995, a Academia de Ciências Sueca conferiu a Lucas o prêmio Nobel “por ter desenvolvido e aplicado a hipótese das expectativas racionais, assim transformando a análise macroeconômica e melhorando nossa compreensão sobre a política econômica”. Sua importância é tanta que mais três economistas: Edward Prescott, Finn Kydland e Thomas Sargent viriam a ganhar o prêmio em seguida, por conta de parcerias e trabalhos associados à obra de Lucas que dava fundamentação microeconômica à macroeconomia.

Economistas críticos aos modelos keynesianos tradicionais, desde Friedman e Phelps, pareciam inspirar-se em Abraham Lincoln quando este afirmava: “Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo”. Pois Lucas é ainda mais radical ao supor que as pessoas só são enganadas quando surpreendidas. Tão logo percebem as reais intenções dos governantes, agem dentro da mais absoluta racionalidade, atentas apenas às variáveis reais e às novas expectativas que são formadas a partir da sinalização dada. Com isso, agentes racionais neutralizariam qualquer medida discricionária do governo que precisasse de algum tipo de ilusão monetária para funcionar.

Ao tratar da construção de um modelo dinâmico de equilíbrio geral incorporando expectativas que se ajustam racionalmente, Lucas critica os modelos econométricos tradicionais, que não incorporam em sua estrutura os fundamentos da Microeconomia, notadamente o propósito de maximização de utilidade no horizonte temporal. Segundo ele, estes modelos de inspiração keynesiana, construídos com o objetivo de orientar os governantes em políticas anti-cíclicas, conteriam falhas fundamentais, de vez que suas várias equações são estimadas para períodos quando vigoram certas expectativas a respeito da política governamental. Uma vez alteradas estas expectativas, o que ocorre quando o governo age, então os parâmetros que relacionam instrumentos a objetivos se alteram, tornando os modelos inúteis para prever os resultados das diferentes medidas tópicas de política fiscal e monetária.

Uma importante decorrência do trabalho de Lucas sobre as expectativas racionais é que um governo que goze de credibilidade pode rapidamente combater uma inflação elevada sem que surjam altas taxas de desemprego, simplesmente por alterar favoravelmente as expectativas dos agentes econômicos ao anunciar austeridade fiscal e monetária.

Notem que, mais que Friedman, Lucas repudiava a política macroeconômica discricionária e a preocupação keynesiana com a demanda agregada, o que o fez aproximar-se dos economistas clássicos e de austríacos como Mises e Hayek. Defendia, assim, que economistas se concentrassem na supply side economics, tratando apenas da eficiência de suas prescrições.

Para ser coerente, dedicou-se, nas décadas de 80 e 90, a aperfeiçoar os modelos neoclássicos de crescimento, na linha de Solow, incorporando a eles a teoria de capital humano desenvolvida em Chicago por Schultz e Becker. Em palestra para a Econometric Society, em 1991, assim sintetizou seus achados nesta área: “O principal motor do crescimento é a acumulação de capital humano e a fonte principal de diferenças em padrões de vida entre nações é a diferença no estoque de capital humano. A acumulação de capital físico representa papel essencial, mas, definitivamente, é apenas subsidiária à acumulação de capital humano”.

Em termos de metodologia, Lucas confirma a tese de que Chicago nunca foi totalmente monolítica. Sendo um matemático de mão cheia, sempre apreciou a construção de modelos sofisticados de equilíbrio geral, recusando-se à espinhosa e menos nobre tarefa do teste empírico, que deixava para seus associados. Ao recuperar a crença nos simples ensinamentos da teoria quantitativa da moeda, acabou inaugurando uma nova corrente do pensamento: a dos novo-clássicos. Além de Chicago, destacam-se nesta corrente a Universidade de Minnesota e o FED de Minneapolis. A reação aos novo-clássicos viria das salt-water universities, principalmente nas figuras de Gregory Mankiw, David Romer e Olivier Blanchard. Surgia o novo-keynesianismo, que, embora incorporando aos modelos de equilíbrio geral os fundamentos microeconômicos e as expectativas racionais de Lucas, abria espaço para intervenções anti-cíclicas de governantes ao admitir certa rigidez de preços e salários. Registre-se apenas a estranheza por se chamar de novo-keynesianismo algo que tem muito mais influência de Friedman e Lucas que de Keynes.  

     

VIII – CONCLUSÃO

O ensino da Economia em Chicago tem sofrido ao longo do tempo algumas modificações. A ênfase na teoria de preços e em suas aplicações a várias áreas do comportamento humano permanece a mesma. Mas a macroeconomia caminhou para a extrema sofisticação matemática de modelos de equilíbrio geral, sem que a mesma dedicação fosse dada aos correspondentes testes empíricos. E as perdas de Friedman, Stigler e Becker serão sentidas, naturalmente. Mas há uma forte tradição que permanece apoiada em alguns alicerces seguros: a ênfase na excelência acadêmica, a ética do trabalho incessante, o espírito crítico, a ampla liberdade para a discordância, a necessidade de sustentar teorias com evidência empírica e a integração com outros departamentos, notadamente com a Escola de Business e a Escola de Direito. Tratando-se das novas gerações, Chicago tem recrutado para seus quadros o que há de melhor e mais promissor na profissão. Se acreditamos que um processo competitivo lastreado em rigor intelectual, meritocracia e disciplina funciona, certamente teremos de esperar que a Escola tenha, no futuro, o mesmo sucesso alcançado no século XX.

 

IX – BIBLIOGRAFIA

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*O autor nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1945. É economista formado na UFRJ com mestrado e doutorado na Universidade de Chicago. Foi professor da EPGE/FGV-Rio, Chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional da Indústria, Assessor Especial da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, Presidente do SEBRAE e Diretor do BNDES. No setor privado, exerceu atividades de consultoria e ocupou diversos cargos executivos em instituições financeiras.

** Palestra proferida perante o Conselho Técnico da CNC, em 16/09/2014