A expansão inflacionária e a recessão

Nos últimos anos, a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos tem recebido bastante atenção crítica dos economistas “não austríacos”, bem como a de pessoas que não são economistas, como jornalistas e blogueiros. Tanto nas revistas acadêmicas quanto na imprensa popular – principalmente online – nós, economistas austríacos, temos apontado como o ciclo de prosperidade e recessão da década passada encaixa-se bem à Teoria Austríaca. Os resultados estão divididos. Alguns críticos da teoria simplesmente se recusam a compreendê-la e acabam criticando algo que ela não diz. Outros oferecem críticas razoáveis. E eu quero me dirigir a uma delas.

Por a Teoria Austríaca argumentar que uma política monetária inflacionária gera taxas de juros ilusórias que levam empreendedores a investir demais nos estágios iniciais da produção, como pesquisa e desenvolvimento, ela parece sugerir que quanto maior for a inflação, mais erros serão cometidos. Já que a teoria também afirma que o bust, ou a recessão, é o período em que esses erros serão corrigidos, parece sugerir que quanto maiores forem os erros cometidos em um período de prosperidade, mais longa será a recessão necessária para corrigi-los. Em outras palavras, quanto maior for a expansão inflacionária, pior será a recessão.

Os críticos argumentam que essa explicação é empiricamente falsificada pela Grande Depressão, já que a inflação que a precedeu foi relativamente moderada. Alguns apontam o mesmo sobre a Grande Recessão: a inflação da metade da década passada foi razoável, mas não chegou perto da que vimos nos anos 1970, e ainda assim não restam dúvidas que enfrentamos a pior recessão desde a segunda guerra mundial.

Os críticos não percebem um detalhe importante no argumento. Inflações maiores durante a expansão nos levarão a recessões maiores/mais longas, se todos os fatores forem iguais. Entretanto, em episódios históricos, nem tudo é igual. Para compreendermos por que a Grande Depressão foi tão dura, nós devemos olhar para todas as respostas políticas a partir do momento que a prosperidade começava a se transformar numa recessão.

Como argumentei em outro artigo, o intervencionismo do governo Hoover (principalmente convencendo empresários a não reduzirem salários), os erros deflacionários do Sistema de Reserva Federal, e a combinação de outras intervenções e experimentos dos anos Roosevelt transformaram o que provavelmente seria uma recessão forte, porém curta, no pior cenário econômico da história dos Estados Unidos, nos custando uma década de crescimento econômico.

Na Grande Recessão, nós temos visto diversas intervenções que diminuíram a velocidade da recuperação, incluídos os muitos bailouts e subsídios. Além disso, as políticas não monetárias que alimentaram a expansão induzida pelo Fed fez a recessão ser maior do que deveria ser, ao direcionar, por exemplo, mais crédito do que deveria ao mercado imobiliário e construir instrumentos financeiros contestáveis. Quando tudo ruiu, distorções além daquelas criadas pela inflação tiveram que ser corrigidas. Isso levará tempo e esse tempo tem sido prolongado pelas políticas que apontei acima.

Três perguntas distintas estão em jogo em qualquer episódio histórico específico: quais fatores causaram a recessão? Quais fatores ajudam a explicar por que a recessão foi tão profunda? E quais fatores explicam por que a recessão durou tanto tempo e a recuperação foi tão devagar? A Teoria Austríaca foca-se principalmente na primeira pergunta, embora possa ajudar a responder a segunda e a terceira. Na maioria dos episódios históricos, as resposta para essas perguntas dependerão de uma série de outros fatores que não tem nada a ver com a Teoria Austríaca per se

A manutenção modesta das nossas revindicações sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos consistentes com o que ela pode ou deveria fazer é tanto uma boa prática da ciência econômica quanto uma boa defesa da teoria contra críticas injustificadas.