A “exuberância irracional” seria uma característica dos mercados ou do governo?

Gerou muita repercussão ao redor do mundo a publicação em 2009 do livro Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy, and Why It Matters for Global Capitalism [Espíritos Animais: Como a Psicologia Humana dirige a Economia, e Porque Ela Importa para o Capitalismo Global]. Certamente, um dos motivos para o sucesso deste livro foi o fato de que tenha sido escrito por George Akerlof, ganhador de Prêmio Nobel de Economia em 2001, e Robert Shiller, um dos mais respeitados especialistas em finanças comportamentais.

Neste livro, Akerlof e Shiller criticam o pressuposto de racionalidade dos agentes econômicos na macroeconomia moderna, e alegam que é exatamente por causa desse pressuposto que a macroeconomia seria incapaz de explicar crises como a que ocorreu recentemente. Eles defendem a ideia de que a macroeconomia deveria concentrar-se em vez disso em pressupostos que abrangeriam motivos não econômicos e comportamentos irracionais, os chamados “espíritos animais” ("<em>animal spirits</em>”) de Keynes, ou o que eles chamam também de “exuberância irracional”. Concluem então que os tais dos espíritos animais deveriam ser domados pelos governos centrais, se necessário, pela via da força, como quando os genitores impõem regras de comportamento à prole: nem de maneira muito autoritária, nem muito permissiva, porém firme.

O livro de Akerlof e Shiller é ironicamente um excelente exemplo da verdadeira tragédia da teoria econômica dominante: a adoção quase universal do pressuposto de que a intervenção governamental é sempre uma solução possível e desejável para falhas de mercado. O fato de que tal pressuposto já tenha sido demonstrado falso e incapaz de gerar previsões corretas pela economia da escolha pública (bem como por Ostrom e Williamson, ganhadores do último Prêmio Nobel de Economia), nunca impediu e continua não impedindo que esse pressuposto errado seja um dos pilares da economia positiva e normativa moderna.

Economistas como Akerlof e Shiller certamente não desconhecem os avanços recentes na ciência econômica. Entretanto, agem como se não os conhecessem, provavelmente por razões pessoais e ideológicas. Nesse sentido, estariam prestando um desserviço à ciência econômica. Ao ignorarem a existência de falhas de governo, ou a noção de que a intervenção governamental pode de fato ser indesejável, agem de forma equivalente a economistas que negam a existência de falhas de mercado. Na verdade, a despeito de eu nunca ter conhecido nenhum economista que negue a existência de falhas de mercado, conheço um grande número de economistas que pensam como Akerlof e Shiller, que ignoram ou fazem vista grossa à existência de falhas de governo.

A noção de que a intervenção governamental é possível e desejável está sujeita a diversas críticas. Uma delas é a de que a correção de falhas de mercado pela via da intervenção governamental pode resultar em falhas de governo e consequências inesperadas que tornam a emenda pior que o soneto. Há casos em que correções de falhas de mercado não são possíveis, ou produzem outras falhas de mercado ainda mais graves. E há situações nas quais falhas de mercado podem ser corrigidas por meio da eliminação de intervenções governamentais, ou nas quais o próprio mercado pode encontrar soluções para suas próprias falhas quando permitido. E finalmente, como indicado por Ostrom e Williamson, intervenções de governos centrais não são necessariamente a forma mais efetiva de coordenação de ações coletivas com vistas à eliminação de falhas de mercado. Ação coletiva muito mais eficaz pode ser obtida, por exemplo, pela coordenação de esforços feita por pequenos grupos de interesse local ou especializado agindo de forma descentralizada, ou pela criação de firmas.

Em suma, os mercados, mesmo quando falham, estão longe de serem os melhores exemplos de instituições afetadas pela irracionalidade humana. É de fato nas ações dos governos, particularmente nas esferas que concentram grande poder, que vemos os maiores exemplos de “exuberância irracional”. Os episódios mais vergonhosos da história da humanidade foram marcados por histeria coletiva muitas vezes promovida e organizada por governos centrais. É uma pena, portanto, que economistas influentes como Akerlof e Shiller prefiram adotar uma visão ingênua de governo a uma visão mais realista dos limites da ação governamental em suas análises.