A falibilidade humana

“Tolerância é a consequência necessária da percepção de que somos pessoas falíveis: errar é humano, e estamos o tempo todo cometendo erros.” (Voltaire)

O filósofo Karl Popper considerava encobrir erros o maior pecado intelectual. Somos humanos e, portanto, falíveis. O poeta Xenófanes, que escreveu cerca de 500 anos antes de Cristo, já havia capturado essa ideia quando disse: “Verdade segura jamais homem algum conheceu ou conhecerá sobre os deuses e todas as coisas de que falo”. Porém, isso não significa relativismo total, pois podemos obter conhecimento objetivo, como o poeta mesmo deixa claro depois: “Os deuses não revelaram tudo aos mortais desde o início; mas no decorrer do tempo encontramos, procurando, o melhor”.

Mas é a possibilidade de estarmos errados que nos faz mais tolerantes com os outros e que nos coloca sempre na busca por mais conhecimento, já que podemos defender algo que se prova errado amanhã. Tal postura é oposta àquela que Epíteto condena quando diz: “É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”. Quando uma pessoa jura ter chegado à Verdade, absoluta e irrefutavelmente, ele se transforma em um potencial tirano, intransigente com qualquer divergência de opinião, com qualquer discordância. Os adeptos de sistemas fechados e “perfeitos”, os seguidores de utopias são todos extremistas contra seus “inimigos”, aqueles que não abraçam na totalidade o mesmo sistema.

O conhecimento objetivo é possível. Conhecimento é a busca pela verdade, a busca de teorias explanatórias, objetivamente verdadeiras. Mas não é a busca por certeza. Entender que errar é humano é reconhecer que devemos lutar incessantemente contra o erro, mas que não podemos eliminá-lo totalmente. Como diz Popper, “mesmo com o maior cuidado, nunca podemos estar totalmente certos de que não estejamos cometendo um erro”. Essa distinção entre verdade e certeza é fundamental, segundo Popper, pois vale a pena sempre buscarmos a verdade, mas devemos fazê-lo principalmente buscando erros, para corrigi-los.

Por isso o método científico é o método crítico, o método da “busca por erros e da eliminação de erros a serviço da busca da verdade, a serviço da verdade”. Alguns acusaram Popper de relativista por conta dessa postura, mas ele explica isso com base nessa confusão entre verdade e certeza, e é enfático ao recusar tal rótulo: “O relativismo é um dos muitos crimes dos intelectuais; é uma traição à razão, e à humanidade”. O risco é cair no extremo oposto, qual seja, a postura de detentor de certezas absolutas, o que, quando se trata de relações humanas e organizações sociais, chega a ser absurdamente perigoso. Aquele que “descobriu” um sistema ético perfeito, que “sabe” exatamente qual o conceito de Justiça em cada interação complexa entre homens, representa um ditador em potencial.

Popper encara o conhecimento no sentido das ciências naturais como um conhecimento conjectural, ou seja, um ousado trabalho de adivinhar. Mas se trata de um adivinhar disciplinado pela crítica racional. Isso, para ele, “torna a luta contra o pensamento dogmático um dever”. A modéstia intelectual também vira um dever de pensadores sérios. E, sobretudo o cultivo de uma linguagem simples e despretensiosa passa a ser um dever de todo intelectual. Na mesma linha, Isaiah Berlin, em seu livro A Força das Ideias, ataca basicamente o mesmo ponto, quando diz: "Uma retórica pretensiosa, uma obscuridade ou imprecisão deliberada ou compulsiva, uma arenga metafísica recheada de alusões irrelevantes ou desorientadoras a teorias científicas ou filosóficas (na melhor das hipóteses) mal compreendidas ou a nomes famosos, é um expediente antigo, mas no presente particularmente predominante, para ocultar a pobreza de pensamento ou a confusão, e às vezes perigosamente próximo da vigarice”.

Em resumo, nenhum ser humano é infalível, e é o reconhecimento desse fato que nos permite maior tolerância e eterna busca pelo aprendizado. Os liberais prezam o diálogo civilizado, o respeito às divergências de opinião. Os homens possuem a faculdade do raciocínio e devem questionar qualquer crença, buscando evidências que sustentem sua veracidade. “Só pelo conhecimento podemos nos libertar espiritualmente – da escravidão por falsas ideias, preconceitos e ídolos”, diz Popper. O apelo à autoridade não é um bom argumento, tampouco diz algo sobre o embasamento do que está sendo afirmado. Um argumento sólido deve se sustentar pela sua própria solidez, independente de quem o profere.

O conhecimento objetivo é possível e desejável. Mas a noção de que podemos estar errados é importante. O homem racional deve reconhecer os limites da própria razão. Como bem colocou Karl Kraus, “refreia as tuas paixões, mas toma cuidado para não dar rédeas soltas à tua razão”. Ironia à parte, é preciso lembrar que o que falta a um psicopata não é a razão - algo que ele tem às vezes de sobra. Todo defensor de um sistema ético fechado, que não deixa espaço para a possibilidade de falha, acredita que está do lado da razão, que seu sistema é “científico”. Nenhuma dessas “seitas” utópicas respeita de fato um dos valores mais nobres aos liberais: a tolerância, fruto da humildade que advém da noção de falibilidade humana.