A fantástica história do discurso racialista e igualitário contra as indefesas bonecas de pano

Vivemos tempos curiosos. Não é raro eu sentir que há dois mundos paralelos que muitas vezes se sobrepõem estabelecendo uma mixórdia monumental. Nunca imaginei que fosse ver um discurso racial e político tendo como objeto da discussão bonecas de pano.

Na terça feira, dia 3 de abril, o colunista do jornal O Globo Ancelmo Gois publicou a seguinte nota:

UMA BARRACA da Feira Hippie de Ipanema vende estas lindas bonecas de pano. Elas são praticamente iguais, mas não no preço. As brancas custam R$ 85, e as negras, R$ 65. A simpática senhora que estava à frente da barraca domingo não conseguiu produzir um argumento convincente para explicar a diferença de preços. Uma pista, talvez, esteja em outra nota da coluna, publicada no Natal de 2006. O gerente da loja Amigão, de Madureira, não escondeu que vendia bonecas brancas, do mesmo modelo e fabricante, pelo dobro do preço porque a procura de bonecas negras era pequena.

Instigado pela informação, os sábios do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine), uma entidade do governo do estado do Rio, decidiram enviar no domingo dia 8 de abril três de seus representantes para “checar a diferença de preço entre bonecas de pano negras e brancas”. A reportagem expõe a ameaça em curso:

Presidente da entidade, Paulo Roberto dos Santos disse que os conselheiros tentarão conseguir com a dona da barraca uma explicação para a diferença de preços. Se os argumentos não forem convincentes, e se a proprietária se recusar a rever os valores, o conselho poderá encaminhar ao Ministério Público uma denúncia de discriminação: — Nós resolvemos que, antes de qualquer atitude, vamos lá no domingo ver de perto essa situação, se tem a ver com algum preconceito. E vamos, primeiramente, convencer a pessoa a tratar com isonomia, com igualdade (brancas e negras). Se ela se recusar, vamos fazer uma denúncia formal ao Ministério Público e procurar a Defensoria Pública — disse Paulo.

Vejam o que nasce do cruzamento da ignorância com a intolerância. Ignorância econômica; intolerância colorimétrica. A “simpática senhora” da barraca, segundo a nota, “não conseguiu produzir um argumento convincente para explicar a diferença de preços”. O texto parece assumir que o colunista não foi convencido, mas ficamos sem saber algo primordial: qual foi o argumento utilizado pela senhora?

Há o argumento econômico e irrefutável descrito na própria nota num outro caso: o preço do produto vai oscilar para cima ou para baixo de acordo com a procura. Se a boneca de cor branca vende mais, o preço sobe; se a boneca de cor preta vende menos, o preço desce. O que os sábios do conselho querem é que a boneca de cor preta seja vendida pelo mesmo preço da de cor branca de forma a não haver discriminação; discriminação esta que não havia até a nota do jornalista e a manifestação do conselho. A origem do problema nos ajuda compreender a sua invalidez argumentativa.

E se esse poderoso e irrefutável argumento econômico não convencer os sábios conselheiros do Cedine? A ameaça já foi proposta: o conselho poderá encaminhar ao Ministério Público uma denúncia de discriminação e os promotores se verão na excêntrica tarefa de verificar se há ato discriminatório contra bonecas de pano de cor preta, vítimas dessa nova categoria econômica - o preço racial.

Se a dona da barraca for coagida a aumentar artificialmente o preço de um produto que tem baixa procura, venderá ainda menos, e aqueles que quiserem comprá-lo pagarão mais porque os sábios decidiram que o produto deve ter um preço maior do que aquele estabelecido pelo interesse do consumidor.

Um terceiro resultado possível seria a retirada da boneca de cor preta da barraca. Se isso acontecer, os sábios conselheiros certamente voltarão a denunciar o suposto racismo e ameaçar a proprietária para que volte a vender a boneca de pano de cor preta, assim exercendo, mais uma vez, aquilo que o escritor austríaco Robert Musil definiu como estupidez elevada ou pretensiosa. Segundo Musil, esse tipo de estupidez era a verdadeira doença da cultura que se infiltrava nas mais altas esferas intelectuais e tinha grave influência dentro da sociedade.

Tal como expliquei neste texto para o OrdemLivre, estupidez elevada ou pretensiosa se manifestava mediante a participação ativa de seus aegntes “na agitação da vida intelectual, especialmente na sua inconstância e ausência de resultados” (Robert Musil, Precision and Soul: Essays and Addresses, Chicago: The University of Chicago Press, 1990, p. 284). Esse tipo de estupidez não produzia qualquer ideia significativa nem tinha conhecimento para aplicá-la, e ainda poderia se apresentar como verdade. É o que os conselheiros tentam fazer.

Ao afirmar que o objetivo é, primeiro, “convencer a pessoa a tratar com isonomia, com igualdade (brancas e negras)”, o presidente do Cedine inaugura uma nova categoria de pensamento político ao criar um tipo de igualdade que faria corar os mais radicais próceres do igualitarismo desde a Revolução Francesa: a obrigatoriedade da isonomia e do igualitarismo com relação a bonecas de pano feitas com tecidos de cores diferentes.

É cada dia mais comum esse racialismo artificial: não se exige que haja racismo, basta que alguém ou um grupo decida que um determinado comportamento é racista para que se estabeleça o racialismo artificial. Mas a consequência para o acusado não é nada artificial; uma vez lançada a acusação e estabelecida a suspeita de racismo, crime inafiançável e imprescritível, o acusado a suportará como o sinal da besta na fronte.

Há, entretanto, um valor muito mais poderoso e substantivo do que o argumento econômico: a liberdade do comerciante de escolher o que quer vender e de estabelecer o preço que achar adequado de acordo com o mercado. Investidas como a do Conselho Estadual dos Direitos do Negro só reforçam a necessidade de defender e proteger esse valor. Nem que para isso seja necessário pedir ajuda aos Muppets.