A grande fuga da grande depressão

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Por Robert Higgs.

As indagações a respeito da Grande Depressão podem ser proveitosamente enquadradas como relativas a três temas distintos: a Grande Contração, o extraordinariamente rigoroso declínio econômico de 1929 a 1933; a Grande Duração, a persistência de desempenho econômico deflacionário por mais de uma década; e a Grande Fuga, a recuperação final desta depressão singularmente longa e profunda. Embora os economistas continuem a discutir as causas da Grande Contração e da Grande Duração, formou-se certo consenso de que erros crassos de política de vários tipos merecem a maior parte da culpa por essas calamidades. Quanto à Grande Fuga, os economistas também chegaram a um acordo substancial, mas, infelizmente, a respeito de uma interpretação que é quase completamente errada.

É errada em termos factuais porque fixa a Grande Fuga no início dos anos de 1940, por volta do período em que os Estados Unidos realmente entraram na Segunda Guerra Mundial, ainda que a economia só tenha retornado ao que podemos propriamente descrever como prosperidade depois da guerra. Os economistas erradamente interpretaram a enganadora “prosperidade dos tempos de guerra” como a verdadeira fuga, mas desviar quase 40% da força de trabalho total para empregos ligados à guerra e produzir montanhas de armas e munições não geram uma prosperidade genuína, sustentável, como todos descobririam se tentassem operar uma economia dessa maneira por mais do que um breve período. A verdadeira Grande Fuga não ocorreu antes de 1946.

Os economistas geralmente reconhecem, é claro, que uma prosperidade normal, voltada para a população civil, recomeçou depois da guerra, mas suas explicações para esta retomada geralmente se apóiam em erros factuais e teóricos, e eles são incapazes de levar em consideração certos fatores que foram críticos para uma transição bem-sucedida da economia de controle central dos tempos de guerra para a economia orientada ao mercado dos tempos de paz.

Talvez a principal razão pela qual os economistas compreenderam mal essa transição notavelmente suave seja que compreenderam mal, em primeiro lugar, a própria economia de guerra. Eles viram o crescimento de guerra em simples termos keynesianos: os gastos do governo, financiados por imensos déficits orçamentários e acomodados por rápidos aumentos do estoque de moeda, elevaram a economia da prolongada depressão a alturas sem precedentes – de fato, durante os anos de pico da produção de guerra a economia parecia estar operando muito além de sua “capacidade de produção”, embora, em 1945, mais de 16 milhões de homens adultos já houvessem sido expulsos da força de trabalho em algum momento e substituídos por adolescentes, mulheres com pouca ou nenhuma experiência no mercado de trabalho e homens idosos.

Na verdade, contudo, este aparente “milagre de produção” keynesiano, durante o qual o desemprego havia sido levado ao nível de menos de 2%, o mais baixo da história, não se apoiava em perspicazes políticas fiscal e monetária, mas, sim, em um enorme alistamento militar, que havia diretamente retirado mais de 10 milhões de homens da força de trabalho e indiretamente induzido milhões de outros a alistar-se, na esperança de escapar de servir na temida infantaria.

Após a guerra, a maioria dos controles econômicos dos tempos de guerra foi suspensa, mais de 10 milhões de homens receberam baixa das forças armadas e os soldados liberados e os trabalhadores civis da guerra rapidamente encontraram empregos privados ou deixaram a força de trabalho, indo para casa ou para escolas. A taxa de desemprego em 1947, quando a transição estava quase concluída, era de menos de 4%.

A interpretação padrão da transição após 1945 enfatiza que, durante a guerra, as pessoas haviam acumulado quantidades enormes de ações e depósitos bancários, e posteriormente esses ativos financeiros foram “liberados” para financiar gastos dos consumidores, especialmente bens duráveis cuja produção havia sido proibida ou bastante diminuída durante a guerra. Esta interpretação, no entanto, não faz nenhum sentido: as ações que alguém vendeu outra pessoa comprou, deixando os ativos totais da economia inalterados. Similarmente, o dinheiro que alguém gastou sacando-o de sua conta bancária reapareceu nas contas bancárias dos vendedores, deixando os depósitos bancários totais da economia inalterados. Com efeito, posses de ativos líquidos não declinaram em nada depois da guerra. As pessoas financiaram seus gastos com bens de consumo, diminuindo seus níveis de poupança.

Tampouco as pessoas tentaram reduzir suas posses de ativos líquidos diminuindo sua demanda por saldos em dinheiro – equivalentemente, aumentando a “velocidade de circulação” média do dólar. A velocidade, na verdade, caiu ligeiramente durante os anos imediatamente depois da guerra (porque, supuseram alguns economistas, as pessoas ainda esperavam por deflação no pós-guerra).

Tampouco os consumidores reduziram suas posses de títulos do governo. Embora o montante da dívida pública tenha declinado entre 1945 e 1948, isto ocorreu inteiramente por causa de reduções de ativos de bancos comerciais e corporações, e não de bancos e companhias de seguro.

Expansão de negócios no pós-guerra

Enquanto os consumidores estavam financiando sua farra de gastos no pós-guerra por meio da redução de seus níveis de poupança, que se haviam elevados a alturas extraordinárias durante a guerra, as empresas financiavam sua onda de investimentos no pós-guerra vendendo títulos da dívida pública adquiridos durante a guerra; retendo mais de seus ganhos atuais, em parte porque os impostos sobre empresas foram reduzidos substancialmente depois de 1945; e ingressando no mercado de capitais, no qual ações e títulos podiam ser vendidos em condições muito atraentes. Uma expansão ainda maior dos negócios foi obstada principalmente pela falta de implementos, e não pela falta de vontade de investir ou pela falta de recursos financeiros – para a grande surpresa da elite de economistas keynesianos, que tinham previsto que uma rigorosa depressão ocorreria no pós-guerra, quando o governo reduzisse suas compras de bens e de serviços relacionados à guerra.

Os keynesianos foram completamente incapazes de compreender que a depressão de antes da guerra tinha persistido, em grande parte, porque durante o segundo New Deal (1935-1938) o governo Roosevelt havia provocado extrema apreensão nas mentes dos investidores e homens de negócios a respeito da segurança dos direitos de propriedade privada, e, por conseguinte, havia desencorajado tais grupos a fazer o grande volume de investimentos de longo prazo necessários para a completa recuperação da economia e seu crescimento sustentado de longo prazo. Durante a guerra, homens de negócios favoráveis aos investidores, em trabalho temporário ao governo, haviam administrado a economia de comando central em sua maior parte, mas a concentração na vitória na guerra havia mantido a economia civil faminta por recursos.

Ao fim da guerra, contudo, Franklin D. Roosevelt estava morto, os mais dedicados conselheiros e administradores do Segundo New Deal haviam deixado o governo ou sido empurrados para posições menos influentes, e, portanto, a futura proteção aos direitos de propriedade privada parecia consideravelmente mais promissora do que parecera antes da guerra – uma mudança de perspectiva suficiente para induzir um grande volume de investimento privado pela primeira vez desde 1929. Como “incertezas de regime”, que haviam dominado o fim dos anos de 1930, não mais lançavam escuras sombras sobre empresas e investimentos, a economia finalmente recuperou-se da Grande Depressão e das agruras econômicas dos anos de guerra, mesmo simultaneamente realocando em torno de 40% da força de trabalho de usos relacionados à guerra para usos civis.

O ano de 1946, no qual a produção civil aumentou cerca de 30%, foi o ano mais glorioso de toda a história da economia americana. Em 1948, a produção real estava de volta a sua tendência de crescimento de longo prazo, e, durante as décadas que se seguiram, a economia foi poupada do tipo de ruína longa e profunda que uma série de perversas políticas governamentais havia causado durante os anos de 1930.

 

*Tradução por Ricardo Bernhard.

** Publicado originalmente em 21/10/2008.