A guerra desconhecida

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Em 23 de agosto de 1989, oficiais do recém-reformado, e prestes a ser renomeado, Partido Comunista da Hungria pararam de policiar a fronteira militarizada entre o país e a Áustria. Cerca de 13.000 alemães orientais, muitos dos quais estavam passando as férias no Lago Balaton, próximo dali, fugiram pela fronteira para o mundo livre. Foi a maior fresta da Cortina de Ferro em uma geração inteira, e desencadeou uma notável sequência de eventos que terminou 11 semanas depois, com pacatos cidadãos desmantelando o Muro de Berlim.

Vinte anos depois, o aniversário da histórica travessia da fronteira foi comentado em exatamente quatro jornais americanos, segundo o banco de dados Nexis, e todas as quatro menções eram reimpressões de uma única coluna sindicada. Os aniversários naquele agosto que receberam mais atenção da mídia nos Estados Unidos incluíam o 400º aniversário da construção do telescópio de Galileu, o 150º aniversário do primeiro poço de petróleo, e o 25º aniversário das Tartarugas Ninjas. Uma busca no Google News por "anniversary" [aniversário] e "freedom" [liberdade] em 23 de agosto de 2009 trouxe um monte de referências a Woodstock antes da primeira menção à Hungria.

Acostume-se a isso, se já não se acostumou. Novembro de 1989 foi o mês mais libertador do que foi possivelmente o ano mais libertador da história da humanidade, e no entanto duas décadas depois o país que liderou a coalizão da Guerra Fria contra o comunismo parece menos interessado do que nunca em comemorar, quanto mais em digerir, as lições do colapso de seu antigo inimigo. Em uma época que justamente clama por perspectiva sobre as extravagâncias do planejamento central, os americanos estão ignorando o conflito fundamental do mundo pós-guerra, e em vez disso recuando para o que Steve Forbes descreve nesta edição como o "estatismo jurássico" dos anos 1930. Houve mais hagiografias em Hollywood nos últimos cinco anos do revolucionário comunista Che Guevara do que filmes de estúdio nas últimas duas décadas sobre os revolucionários anticomunistas que dramaticamente derrubaram totalitários de Talim a Praga. E o pouco interesse que há dos gêneros de não ficção na luta entre superpoderes continua empacado no modelo Reagan vs. Gorbachev, que fez dos anos 1980 tão intelectualmente superficiais.

O ano de 1968, com seus assassinatos políticos, seus protestos parisienses, e uma rebelião da cultural jovem que nossos pais jamais se cansarão de relatar, foi considerado consensualmente o Ano da Revolução pela maior parte de nossas vidas. Mas, como escreveu o preeminente historiador moderno Timothy Garton Ash, da Europa Central, em um ensaio de 2008, 1989 "deu fim ao comunismo na Europa, ao império soviético, à divisão da Alemanha, e a uma luta ideológica e geopolítica (...) que dava forma à política mundial havia meio século. Foi, em seus resultados geopolíticos, tão importante quanto 1945 ou 1914. Em comparação, 1968 foi uma brisa."

Recentemente perguntei a Simon Panek, um dos líderes estudantis da Revolução de Veludo na Tchecoslováquia, por que, na opinião dele, 1968 ainda ocupava todas as manchetes. Ele respondeu com um dar de ombros caracteristicamente tcheco: "Provavelmente 1968 envolveu mais ocidentais." Mas até mesmo essa resposta gracejadora subestima o impacto revolucionário de 1989.

Sem o conflito entre superpoderes para animar e armar fileiras de guerras civis por procuração e governos brutais, os autoritaristas deram lugar a democratas em Joanesburgo e Santiago, a guerra interminável foi substituída por paz duradoura na América Central, e nações que nunca haviam gozado de autodeterminação se viram independentes, prósperas e integradas no Ocidente.

Em 1988, segundo a Freedom House, guardiã da liberdade, somente 36% dos 167 países independentes do mundo eram "livres", 23% eram "parcialmente livres", e 41% eram "não livres". Em 2008, não apenas havia 26 países adicionais (incluindo novas entidades "livres" como Croácia, Estônia, Letônia, Lituânia, Sérvia, Eslováquia, e Eslovênia), mas as razões havia se revertido: 46% eram "livres", 32%, "parcialmente livres", e apenas 22% "não livres". Havia somente 69 democracias eleitorais em 1989; em 2008, esse grupo crescera para 119.

E mesmo esses números apenas começam a expressar a magnitude da mudança. O abjeto fracasso do planejamento central, imposto de cima para baixo, como modelo organizacional econômico teve um profundo impacto mesmo sobre os poucos governos comunistas que sobreviveram aos anos 1990. O Vietnã, apesar de preservar um único partido com as garras no poder, lançou radicais reformas de mercado nos anos 1990, resultando em um crescimento econômico que esteve entre os maiores do mundo nas últimas duas décadas. Cuba, economicamente desesperada depois que a torneira soviética fechou, legalizou o investimento estrangeiro e o comércio privado. E na notícia geopolítica possivelmente mais dramática dos anos recentes, o país que melhor simbolizou a repressão estatal em 1989 usou o capitalismo para viabilizar a campanha antipobreza mais bem-sucedida da história recente. Embora as reformas de mercado chinesas tenham começado no final dos anos 1970, e tenham sido temporariamente paralisadas pelo massacre da Praça Tiananmen (o qual, contraintuitivamente, animou os anticomunistas na Europa), o reconhecimento pela China pós-soviética de que a iniciativa privada devia desbancar o setor estatal ajudou a tirar centenas de milhares de pessoas da pobreza.

Talvez os benefícios menos apreciados do fim da Guerra Fria tenham sido aqueles desfrutados (embora nem sempre conscientemente) pelo lado que venceu. Até 1989, as principais correntes de pensamento político na Europa Ocidental incluíam um grande e ínsalubre apetite por governos proprietários dos meios de produção. O Plano Marshall original era uma tentativa quase desesperada de impedir o tipo de invasão comunista domesticamente popular (embora externamente manipulada) que submergiria a Tchecoslováquia em 1948. O presidente francês socialista François Mitterrand nacionalizou largas faixas da economia da França ao assumir o cargo em 1981. Quando o Muro de Berlim caiu, era a regra, e não a exceção, que os governos da Europa Ocidental fossem donos de todas as grandes companhias aéreas, companhias telefônicas, emissoras de televisão, companhias de gás, e muitas outras, de seus países.

Não mais. No longo embate entre Karl Marx e Milton Friedman, mesmo os socialistas democratas da Europa tiveram que admitir que Friedman venceu por maioria de votos. Embora a atenção da mídia estivesse, com razão, focalizando as dramáticas mudanças econômicas transformando a Ásia e o antigo Bloco do Leste, metade das privatizações do mundo nos primeiros doze anos depois da Guerra Fria, medidas em receita, aconteceram na Europa Ocidental. A integração política e monetária da Europa, amplamente zombada como estatista pela direita angloamericana, mostrou-se un dos maiores artifícios de liberdade econômica da história moderna. Não foi por acidente que, no meio do ilegal e malfadado pacote de emergência que o governo americano concedeu à indústria automobilística, a ministra da Indústria sueca, Maud Olofsson, perguntada sobre o destino da Saab, em dificuldades, anunciou concisamente: "O estado sueco não está preparado para ser dono de fábricas de carros."

Quando europeus ocidentais dão palestras para os americanos sobre os perigos da intervenção econômica, como têm feito repetidamente desde que Barack Obama assumiu, é um bom momento para fazer um balanço do quão drasticamente os argumentos geopolíticos mudaram nas duas últimas décadas. Os Estados Unidos, pelo menos como representados por seus líderes eleitos e políticas econômicas, não lidera mais a luta global pelo capitalismo democrático como o caminho mais seguro para a libertação humana. É mais provável que você veja uma reforma de benefícios em Roma do que em Washington (onde, contra o sentimento global, o governo federal está tentando estender seu papel). Mesmo os muito sensacionalizados e merecidos dividendos da paz americanos foram tão temporários quanto as alegações de Bill Clinton de que "a era do intervencionismo acabou".

Ironicamente, a única lição consistente que os governantes americanos afirmam ter aprendido sobre a Guerra Fria é a que tem menos aplicabilidade fora do Bloco do Leste: que confrontações agressiva ou mesmo violentas com regimes malévolos levarão a várias primaveras da democracia. É revelador que os vitoriosos de um épico conflito econômico e espiritual tirem dele conclusões primariamente bélicas. Revelador e trágico.

* Publicado originalmente em 13/11/2009.