A ignorância de Naomi Klein

Uma das mais bem escritas críticas ao recente livro da Naomi Klein vem da própria esquerda. Entre os problemas encontrados em Doutrina de Choque, Jonathan Chait, editor sênior da New Republic, se espanta com a falta de conhecimento de Naomi Klein a respeito da direita americana:

É impressionante (mas, dadas suas premissas, não muito surpreendente) a pouquíssima atenção que ela [Naomi Klein] dá às idéias de direita. Ela reconhece que o neoconservadorismo tem um lugar especial no projeto da guerra do Iraque, mas não parece saber o que é o neoconservadorismo – e não se esforça muito para descobrir. Sua ignorância da direita americana é vivamente demonstrada numa frase de tirar o fôlego:
Somente a partir dos anos 90 o movimento intelectual liderado pelos think-tanks de direita com os quais Friedman se associou por muito tempo – a Heritage Foundation, o Cato Institute e o American Enterprise Institute - passou a chamar a si mesmo “neoconservador”, uma visão de mundo que coloca toda a força do aparato militar dos EUA a serviço dos interesses das grandes corporações.

Por onde começar? Em primeiro lugar, a ideologia neoconservadora não data dos anos 1990, mas dos anos 1960, e o rótulo passou a ser amplamente usado nos anos 1970. Em segundo lugar, se o neoconservadorismo é altamente simpático aos interesses das grandes corporações, ele é menos simpático do que outras formas de conservadorismo. Os primeiros neocons, ao contrário dos conservadores tradicionais, não rejeitavam o New Deal. Eles preferiam aquilo que hoje chamamos “grandeza nacional“ ao governo limitado. E sua política externa costuma bater de frente com os interesses das corporações: os neoconservadores são a favor de demonstrações de poder bélico em lugares como a China e o Oriente Médio, onde os riscos políticos desagradam às as corporações americanas, e favorecem relações abertas e a ampliação do comércio externo.

Além disso, a Heritage Foundation sempre teve uma relação desconfortável com o neoconservadorismo. (Russel Kirk deu uma palestra famosa na Heritage Foundation em que declarou que "freqüentemente parecia que alguns eminentes neoconservadores confundiam Tel Aviv com a capital dos Estados Unidos"). E o Cato Institute simplesmente não é neoconservador, tendo feito oposição feroz à guerra do Iraque em particular, e ao intervencionismo em política externa em geral.

Finalmente, há o papel central que Klein impôs a Friedman, seu vilão, tanto nessa fantástica passagem quanto em outras por todo o livro. Em sua narrativa, ele é o guru intelectual da “doutrina de choque”, cujo programa pró-corporações foi implementado por seus súditos de Santiago a Baghdad. Klein chama o movimento neocon de "Friedmanista até a medula", e afirma que a guerra no Iraque é uma "aplicação cuidadosa e fiel da ideologia ilimitada da Escola de Chicago" a qual Friedman presidiu. O que ela não menciona – nem uma vez, em qualquer lugar do seu livro – é que o Friedman se opôs à guerra do Iraque desde o início, chamando-a de um ato de "agressão".

Deve ser uma lastimosa vergonha para uma escritora descobrir que o personagem central da sua narrativa na verdade se opõe ao que ela identifica como a apoteose do seu próprio movimento. E o erro de Klein coloca à mostra o defeito mais profundo de sua tese. Friedman se opunha à guerra porque ele era um libertário, e o conservadorismo libertário não é a mesma coisa que o neoconservadorismo. Nem os interesses das corporações são sempre, ou até habitualmente, favorecidos pela guerra.

Johan Norberg já havia comentado sobre a ignorância de Klein a respeito de Milton Friedman neste vídeo:

A crítica de Norberg ao Doutrina de Choque pode ser lida aqui.