A política de metas de inflação no beco sem saída

Embora a crise do mercado financeiro ainda não esteja resolvida, as autoridades da política monetária continuam a praticar o mesmo tipo de política que levou à crise. De acordo com a política de metas de inflação, a política monetária pode ignorar a massa monetária e os bancos centrais podem minimizar as taxas de juros se a taxa de inflação for mantida no alvo. Há pouca discussão sobre os defeitos desta política de metas de inflação. A grande maioria dos dirigentes da política monetária ignora que a política de metas de inflação representou um fator significativo para a ocorrência da crise financeira.
 
O que significa “política de metas de inflação”?
 
Os modernos bancos centrais foram criados com a tarefa de fornecer fundos para os seus governos, particularmente em tempos de guerra. Ao tornar uma determinada moeda estatal o meio de pagamento legal, os governos são capazes de forçar os seus cidadãos a pagar tributos adicionais através de um imposto inflacionário. Ao manter a taxa de inflação em um determinado intervalo, espera-se que o efeito negativo da inflação sobre a economia possa ser limitado enquanto a cobrança de senhoriagem possa ser otimizada, além de gerar receita adicional por causa do efeito inflacionário da progressão das tarifas de impostos. Em muitas partes do mundo a política monetária tem sistematicamente ignorado a expansão dos agregados monetários. Assim foram provocados vários episódios de taxas de juros baixas durante as últimas décadas. Na década antes do começo da atual crise financeira, a política monetária dos Estados Unidos instalou taxas de juros extremamente estimulantes e justificou essa política com a existência da inflação moderada apesar da expansão monetária. Segundo o modelo de metas de inflação o que importa é a taxa de inflação e não a massa monetária ou a taxa de juros.
 
Consequentemente, se conduz a política monetária no esquema de se apertar a massa monetária e aumentar a taxa de juros quando a taxa de inflação se eleva acima da meta e afrouxar a massa monetária e reduzir a taxa de juros quando a taxa de inflação cai abaixo da meta. No caso da economia ter uma taxa de inflação menor que a meta, a política monetária está liberada para reduzir a taxa de juros até zero e deixar que a massa monetária se expanda quase sem limite. O erro deste modelo consiste na crença que o índice de preços ao consumidor representaria um indicador válido para servir como critério do gerenciamento da política monetária.
 
Um episódio antigo de metas de inflação
 
As metas de inflação não são novas A sua ideia básica foi concebida pelo economista americano Irving Fisher (1867-1947). O banco central dos Estados Unidos implantou de uma maneira rudimentar uma política monetária de metas de inflação pouco tempo após o início das suas operações. Depois de se mostrar extremamente útil em financiar o governo durante a primeira guerra mundial, o banco central americano praticava sistematicamente uma política de "estabilização do nível de preços” durante a década de 20. Como Ludwig von Mises diagnosticou, este tipo de política monetária sofre de uma multidão de problemas não apenas em relação à prática, mas já no nível concepcional.
 
O período antes do início da Grande Depressão foi marcado por uma forte valorização de ações. Durante esse período, as autoridades da política monetária estavam pouco preocupadas com a expansão do crédito e com a bolha especulativa porque o foco principal do banco central americano era o "nível de preços" - uma construção estatística que Irving Fisher havia originalmente inventado. Percebendo que o nível de preços era "estável", as autoridades monetárias não sentiam a necessidade de mudar de rumo. A época dos “loucos anos vinte” era um período de exuberância extrema quando, ainda mais que a indústria, o setor financeiro se expandiu fortemente em concordância com a expansão da liquidez financeira. O fim desta época chegou de repente.
 
Em Outubro de 1929 a bolsa de valores de Nova York experimentou um forte crash e a economia começou a enfraquecer. Depois uma curta recuperação em 1930, a economia americana junto com uma grande parte do resto do mundo entrou na longa Grande Depressão.
 
A atual crise
 
Em vários aspectos importantes, os acontecimentos o período desde os anos 90 era semelhante aos da década de 20 do século passado. Em ambas as décadas houve impressionante progresso tecnológico junto com uma bolha especulativa no mercado de ações e um forte aumento de endividamento. O banco central dos Estados Unidos já não se preocupava mais com a oferta de moeda apontando às taxas de inflação cada vez mais moderadas. A tese plenamente aceita no nível da microeconomia que ganhos em produtividade implicam uma diminuição dos preços foi sistematicamente ignorada no nível da macroeconomia.  O aumento da liquidez não alarmou os bancos centrais. Ao contrário, a taxa de inflação aparentemente sob controle foi tomado como indicador de que a política monetária era apropriada.
 
Em vez de praticar uma política baseada em manter a massa monetária fixa e deixar declinar o nível de preços conforme os ganhos da produtividade (e outros fatores dominantes durante este período, como a entrada em massa de trabalho barato depois o colapso do comunismo no Leste da Europa e a reforma na China), a política monetária seguiu o mantra de que quando o nível de preços está relativamente estável e as taxas de inflação moderadas, a taxa de juros poderia cair até quase zero e a oferta de moeda poderia crescer sem restrição. Em vez de controlar a massa monetária, foi criado um tsunami de liquidez que inundou o mundo e provocou um estímulo artificial da atividade econômica durante as décadas antes do começo da atual crise financeira. Já antes do advento da crise atual havia uma série de extremas turbulências nos mercados financeiros internacionais. No entanto estas calamidades anteriores foram superadas por uma expansão monetária cada vez maior.
 
Foi finalmente em 2007 quando os mercados financeiros de repente começaram a congelar e o fluxo de dinheiro no mercado interbancário chegou a uma paralisação súbita. Era como se um infarto houvesse atingido o coração dos mercados financeiros. Desta vez, a velha receita da expansão monetária não funcionava mais. Depois de esgotar a política de juros com taxas próximas de zero, os bancos centrais das principais economias do mundo praticam agora uma política monetária concentrada em administrar gigantescas injeções de liquidez. Houve um aumento da base monetária em proporções sem precedentes.
 
Conclusão
 
O experimento da política monetária com metas de inflação levou a consequências catastróficas quando foi instalado pela primeira vez na década de 1920 e se mostra também desastroso em nossos dias atuais. O mundo está numa encruzilhada. A chance de sair da armadilha sem grande sofrimento é muito menor do que as alternativas de hiperinflação ou de depressão deflacionária. Entre estes dois monstros, a preocupação maior das autoridades monetárias é a deflação. Assim, os bancos centrais conscientemente apostam que uma hiperinflação pode ser evitada ao mesmo tempo que implantam as condições próprias para que ela aconteça.