A que vim, para onde vamos

Feira1

Não dá pra discutir política e sociedade sem economia. Mas economia não é tudo. De que adiantam os gráficos de otimização dos recursos, todas as deduções da praxeologia, as regressões econométricas, se o assunto principal, o que constitui uma boa vida e uma boa sociedade, é deixado de lado? Quem serve a quem?

Economia é uma ciência positiva, que se abstém de fazer juízos de valor. Neste blog, os juízos de valor são bem-vindos. Quero que este seja um espaço de discussão sobre que tipo de sociedade queremos, sobre o que não queremos – e mais, sobre qual o ambiente no qual o homem pode viver melhor.

Será que o livre mercado faz com que as pessoas fiquem piores, mais egoístas, mais materialistas? Ou será o meio adequado para a fraternidade universal? Será que tudo deve estar à mercê do mercado, da compra e venda, ou há coisas que devem estar acima dele? Um livre mercado precisa de valores morais, ou seria ele causa desses valores? Por trás de diferentes propostas estão diferentes ideais para seres humanos e sociedades. 

Vivemos um momento interessante no mundo das discussões políticas. Um momento em que, graças à internet e ao desgaste das formas tradicionais, surgem novas alternativas. No plano da análise macro, indicadores que levam em conta mais do que o desempenho do PIB. FIB, alguém? No Brasil temos novos partidos, novas propostas e um crescimento de bandeiras ligadas a resolução de problemas sociais, como miséria, desigualdade, mobilidade, etc. No mundo todo, o empreendedorismo social se apresenta como um novo jeito de se “fazer capitalismo”. O liberalismo é mais um player nesse mundo felizmente anárquico do debate de ideias, e tem chegado com tudo. Outro dia mesmo Gregório Duvivier citou Mises; não é preciso dizer mais nada.

O discurso libertário padrão já faz diversas incursões pelo mundo da filosofia e, mais particularmente, da ética. A que mais vejo é a adesão absoluta ao princípio de não-iniciação de agressão (PNA), à moda tipicamente americana do “don’t tread on me”. Essa e outras teorias e defesas merecem nossa atenção. Já adianto que não sou fiel seguidor do PNA, ainda que reconheça valor na intuição original que o anima.

À direita ou à esquerda, a discussão de valores está na pauta. Com novas tendências, mesmo positivas, surgem também novas armadilhas retóricas, novos becos sem saída do conhecimento, e novas ilusões. O Feira das Virtudes será mais uma voz nessa discussão, aliando análise econômica a considerações éticas e filosóficas, bem como uma leitura crítica das tendências e modas do discurso político atual.

Não parto do zero ideológico. Defendo o livre mercado como o ambiente no qual o ser humano tem mais condições e oportunidades de desenvolver suas potencialidades, seja na direção que forem, e de realizar em sua vida seus maiores valores, sempre em contato com os reais custos de suas ações (para si e para os outros) e com os incentivos corretos para harmonizar seus desejos aos desejos dos demais.

Ao mesmo tempo, o meu “livre mercado” não é o mesmo de outras teorias e visões de mundo liberais que existem por aí. Acho que a própria defesa dele parte muitas vezes de pressupostos equivocados, e faz uso de balões de ar retóricos que merecem, como quaisquer outros, ser estourados.Apontar a nudez da pretensão de conhecimento humana é uma arma poderosa contra a pretensão de poder, e serve também como uma disciplina ética individual. Enfim, tudo que sirva para abrir nossos olhos e rasgar um pouquinho o véu de ilusões e mitos que confundimos com a realidade é bem-vindo.

Rótulos são imperfeitos, mas se fosse para rotular minha posição política, diria “libertário”. Rejeito igualmente as prisões chamadas “esquerda” e “direita”. No campo da ética, pendo para a abordagem chamada de “ética das virtudes”, que olha para o ser humano como dotado de capacidades que podem ser cultivadas para que ele atinja seu potencial; o foco desse tipo de análise é menos no ato individual (embora isso também seja importante) e mais no desenvolvimento do caráter e da personalidade. Sou recém-egresso da filosofia acadêmica, mas juro que vou lutar com todas as minhas forças contra a chatice em que ela consegue mergulhar mesmo as coisas mais interessantes; e vocês vão me ajudar.

Dito isso, espero fazer análises que sejam interessantes para – e dialoguem com – indivíduos das mais variadas posições. Minhas fontes também virão de lugares inesperados. Desejo, por fim, provocar seus pressupostos mais queridos. Você, leitor, venha de onde vier, não perde por esperar.