A Revolta de Atlas da Silva

Quem é Zé das Couves?

João dos Santos fazia marmitas junto com a mulher dona Alzira. Vendia na porta de casa. Tinha clientela fixa. Começou com vizinhos e amigos da rua. O boca-a-boca ampliou a dimensão do negócio: marmitas gostosas e a bom preço. Logo o bairro, depois mais bairros, em seguida vários pontos da cidade queriam comprar a sua comida. Tinha orgulho de seu negócio. Dizia para todos que gostava da sensação de atender seus clientes e prosperar por causa deles. Ampliou a produção, montou local próprio, comprou carro, depois casa. Era o que por aí se chama de empreendedor bem sucedido, o sujeito que começou do nada e enriquecera.

Maria Antônia tinha história parecida. Começou a transportar pequenos objetos para familiares e amigos, e logo viu que, pela presteza e eficiência, poderia cobrar por isso. E ficou surpresa e feliz porque as pessoas começaram a pagar e a contratar mais o seu serviço. Comprou uma moto de baixa cilindrada, que aumentou exponencialmente sua capacidade de entrega e agilidade. Logo contratou um, dois, sete, 20 pessoas para dar conta das entregas. Prosperou, comprou carros e motos, contratou mais gente para entregar um diversificado catálogo de bens, objetos, documentos. Tinha orgulho de seu negócio. Atendia as pessoas e recebia por isso. Pensava que todos podiam fazer o mesmo, desde que quisessem e trabalhassem por isso.

Numa festa de aniversário de um de seus filhos, Maria Antônia foi apresentada a João dos Santos, pai do amigo da escola. Conversaram, descobriram os pontos em comum das trajetórias empresariais e decidiram fechar negócio. João queria terceirizar o serviço de entrega das marmitas, realizado por conta própria, mas sem a eficiência que ele obtivera preparando a comida. Maria disse-lhe que melhor entregadora do que ela não havia. Apertaram as mãos, negócio fechado, assinaram contrato no dia seguinte.

Foi dessas uniões felizes. A qualidade da marmita do João aumentava mensalmente o volume de entregas sob responsabilidade da Maria, cuja eficiência fez as encomendas de comida dispararem. Mais investimentos, aumento dos negócios, ampliação da produção, mais funcionários, mais veículos, mais prosperidade, que irradiava espontaneamente.

Mas nem todos ficaram contentes com o sucesso de ambos, que era, no fundo, o mercado funcionando sem a bobajada de ponto de equilíbrio, incentivos estatais, privilégios, monopólios etc. Alguns empresários daqueles segmentos, conhecidos por fechar negócios via influência e conexão política e uso de instrumentos heterodoxos desconfiavam da origem da prosperidade de João e Maria, lançando acusações como se estivessem defronte ao espelho. Começaram a usar seus contatos políticos para pressionar os dois empresários e descobrir se não havia algo de errado, nem que fosse uma (heróica) sonegação de impostos. Os servidores públicos e os políticos contactados, que viam-se prejudicados por não ter João e Maria entre seus clientes preferenciais, perceberam naquela convocação uma oportunidade de espoliação, legal e ilegal.

Não demorou para fiscais aparecerem na indústria de marmita. Com uma conversa repleta de sugestões dúbias de como a empresa deveria se portar dali em diante, e, principalmente, em quem deveria confiar e passar a fazer negócios, os representantes do estado logo mostraram a que veio, sem dizê-lo claramente. João, que não era bobo, despachou os fiscais rapidamente. Estes, sentindo-se insultados com a negativa do empresário, disseram que, apesar dele ser o dono da empresa, não era nada contra quem mandava no mercado. “E não me refiro a essa conversa fiada de consumidores”. João disse que a empresa era sua e nela mandava, enxotando os bedéis do governo. Um deles, antes de sair, perguntou: “Quem é Zé das Couves?”. João, sem entender o que aquilo queria dizer, procurou Maria, que prometeu aliança incondicional para proteger seus negócios e patrimônio. Os demais empresários e os políticos logo souberam da promessa.

Alguns meses se passaram, os negócios continuavam a prosperar, mas a sensação de tranquilidade não tardou a encerrar. Logo foi formada uma comissão da vigilância sanitária cujo relatório pedia o fim das indústrias de marmita por questões de higiene. Argumentava a impossibilidade de o estado fiscalizar todas as empresas e diariamente. Coincidentemente ¾ e paralelamente ¾, a secretaria de transportes divulgou um parecer no qual pedia o fim do serviço de entrega de alimentos pela precariedade dos veículos e condições de armazenamento da maioria das empresas de entrega. Setores da imprensa logo se posicionaram favoravelmente, assim como os intelectuais orgânicos nas universidades, os sindicatos, os movimentos sociais.

Um grupo de deputados e senadores, investido do melhor espírito republicano e respeito pelo bem comum, elaborou e aprovou um projeto de lei proibindo a produção, comercialização e entrega das marmitas. Aprovada por unamidade, a lei feriu de morte os negócios de João e Maria, que acompanharam pessoalmente a votação no Congresso.

Consternados com o resultado, e com a certeza inabalável de que não eram proprietários de seus próprios negócios, caminhavam em direção à saída quando se depararam com um senador que sorriu o sorriso mais estranho que eles jamais viram, um misto de contentamento interior e secreto, e que depois disse: “Quem é Zé das Couves?”.