A Revolta de Atlas da Silva (Parte 2)

Começou devagar. Primeiro, os professores universitários. Depois, os servidores da saúde. A seguir, os bombeiros acompanhados pelos policiais. Ao longo de 4 meses, todos os servidores públicos municipais, estaduais e federais dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário de braços cruzados. Greve. Greve geral. Cartazes. Manifestações. Protestos. Avenidas fechadas. Funcionários públicos contra a sociedade. Representantes do governo dizem que os abusos serão punidos. Pontos (e vencimentos) cortados. Mais gritaria. Ameaças pela imprensa, dos sindicatos e do governo. Presidente e ministros prometem punição contra os abusos. Grevistas prometem manter a greve.

A população fica desassistida. Analistas preveem o caos. A possibilidade do caos é o instrumento de poder dos grevistas. O governo não cede, mas não resolve o problema. Todos os serviços públicos são interrompidos. Nas portas dos hospitais, mães com seus filhos e velhos doentes à espera de tratamento. Na entrada dos órgãos públicos, profissionais e cidadãos sem saber como resolver problemas burocráticos criados pelo governo para o bem de todos nós. Os portos estão paralisados. Não entra nem sai mercadoria. A economia do país começa a sofrer os primeiros impactos. Faltam produtos, remédios, alimentos. A sociedade reage como sempre: pede ao governo que resolva a questão. O governo, como sempre, adia uma resolução que vai apenas atender reivindicações sem solucionar o problema. Aparentemente, a briga é do governo com os servidores. Na essência, é uma ação do governo e dos servidores contra a sociedade, o estado versus o indivíduo, como mostrou Herbet Spencer.

No meio do turbilhão, surge uma personagem cujo nome não inspirava grande confiança, diria até que despertava um frouxo de riso. Sua história, porém, era admirável. Nascida e criada naqueles lugares onde comumente se dizia que o estado não entrava, Maria Taioba aprendeu a não esperar que o governo fizesse algo para ela ou para sua família. Contava com sua disposição, com o apoio de amigos e familiares e, como costumava dizer, com a ajuda de Deus. A fome na infância deixara marcas na pele e na aparência. A magreza e as manchas no rosto eram lembranças de um passado nada glorioso, mas também um alerta de que precisava continuar.

Frequentou, na infância, o colégio público perto de casa. Foi violentada de várias formas: primeiro pelos professores que sequer sabiam se expressar na língua nativa e não eram propriamente conhecedores das disciplinas que deveriam ensinar; depois, por alguns colegas que Rousseau não teria dúvidas de apontar como a prova empírica de que o homem nasce bom e é corrompido pelo meio (apanhou, bateu, apanhou de novo, bateu novamente); por último, pela violência externa que atravessava os portões do colégio personificada em traficantes de drogas e policiais militares corruptos.

Não suportou o cotidiano vulgar da escola pública. Pediu à mãe para que a tirasse de lá. Para sua sorte, a mãe conhecia a filha que tinha. Combinaram que ela não iria à escola, mas estudaria em casa. E assim foi. A diretora da escola foi compreensiva. Permitiu que a garota apenas fizesse os testes exigidos. Ensino fundamental e médio finalizados. Mãe e filha continuaram agradecendo à diretora por ter permanecido na escola por tanto tempo.

Aquela menina, já uma mulher, dedicou alguns de seus anos trabalhando em diversos lugares e atividades para garantir as contas em dia e uma pequena poupança. Naquele exato momento da vida em que se deve decidir se é a hora de dar o grande salto ou manter o pouco e seguro, ela pegou as economias e passou a fabricar picolé em casa. Vendia, inicialmente, na porta. O dia inteiro ouvia o mesmo chamado pelo picolé. O negócio foi gradualmente prosperando. Contratou os meninos para que o picolé chegasse ao cliente. Comprou refrigeradores, mais matéria-prima, alugou um espaço maior para depois comprar o imóvel. Depois outro. E outros. Picolé e sorvete com sabores tropicais que ganharam o país e, depois, o mercado internacional.

Antes de se tornar a empreendedora bem-sucedida, Maria Taioba sabia exatamente o que era viver num mundo em que os serviços públicos ou inexistiam ou eram indesejáveis - como a escola. Com o crescimento da sua empresa, e a legalização compulsória do seu negócio, passou a ver a economia com outros olhos e a despender esforços, paciência e dinheiro não na prosperidade da sua empresa, mas na tentativa de vencer todas as dificuldades criadas pela administração pública, que além de servir como agente de desestímulo, ainda espoliava, com o peculiar cavalheirismo estatal, parte de sua receita em forma de tributos. A opção era entre ser mais ou menos espoliada ou, se se recusasse a cumprir as regras, sê-la completamente e perder o negócio.

Mas a greve que antes, na época das vacas magérrimas, não fazia muita diferença, agora atrapalhava a sua atividade porque o estado se especializou de forma muito competente para não funcionar e para impedir que a sociedade trabalhe sem depender dele. Se o serviço público para, o país é obrigado a parar. Nem o Rei Sol teve tanto poder nas mãos, pensou ela.

E se antes qualquer pedido seu seria mais um dentre tantos insatisfeitos anônimos, que os políticos costumam chamar de povo, agora era diferente; empresária de sucesso, tinha amigos em várias frentes, sendo a política uma delas. Ao pensar de que forma poderia ajudar a resolver o problema sem macular seus princípios e moralidade, lembrou-se de um simpático senador que conhecera anos atrás e com quem conversou longamente após tê-lo ouvido dirigir a um casal que desconhecia a intrigante pergunta: “Quem é Zé das Couves?”

A empresária ligou. Combinaram de se encontrar. Almoçaram. Contrariando sua postura de não se envolver com política e politicos, expôs seus temores com o avançar da greve geral e irrestrita que se prolongava. Perguntou-lhe como poderia ajudar, o que deveria fazer, com quem poderia conversar. Ele ouviu com atenção o que ela desejava sugerir, a solução que encontrara para resolver o problema do funcionalismo público e da greve. Seus olhos brilharam. E ele sorriu o sorriso mais estranho que ela jamais viu, um misto de contentamento interior e secreto.

No dia seguinte, o senador levou a empresária a um grupo de senadores que ouviu atenciosamente a solução proposta. Pareceram animados. Em seguida, conversou com um grupo de deputados que reagiu de forma parecida. Alguns dias depois, conversou com ministros, que pareceram concordar com a sugestão. No dia seguinte, finalmente, encontrou-se com a presidente, que fora, para sua surpresa, a mais efusiva interlocutora. Vou pensar, elaborar um plano, obrigado, manterei contato, até breve, disse a presidente à empresária, que se permitiu por alguns momentos desfrutar de uma certa dose de otimismo. Nem tudo está perdido, pensou. Voou de Brasília de volta para casa, jantou, adormeceu.

Manchete do dia: “PRESIDENTA E CONGRESSO DECIDEM ACABAR COM O FUNCIONALISMO PÚBLICO”.

Segurando o espanto, leu a reportagem para verificar se o conteúdo era mais brando do que o título, que ela julgara sensacionalista. Não era. O texto informava que:

“Todos os órgãos e instituições estatais serão fechados e todos os servidores serão dispensados, segundo comunicado conjunto feito pela presidente da República e pelo presidente do Congresso. A medida, de acordo com o porta-voz da presidência, seguiu um parecer técnico que indicava que o fechamento dos departamentos do estado permitiria dispensar todos os funcionários públicos sem o risco de uma batalha judicial para serem reconduzidos aos cargos. O presidente do Congresso garantiu que amanhã os parlamentares se reunirão em caráter extraordinário para votar em regime de urgência a lei que acaba com o serviço público e permite à iniciativa privada prestar todos os serviços antes realizados pelo estado, sem necessidade de licença prévia ou qualquer tipo de autorização governamental.”

A empresária não acreditava no que lia. Releu a reportagem, ligou a TV, pesquisou na internet. Todos confirmavam a informação. Aquilo era muito melhor do que jamais imaginou. O fim do serviço público significaria não ter mais que trabalhar para burocratas e suas regras estúpidas. Ela e sua empresa não teriam mais que provar diariamente para os chacais do estado que não eram bandidos nem estavam desenvolvendo qualquer atividade ilícita ou nociva. Poderia, finalmente, concentrar seu talento e trabalho para atender seus clientes, a prosperar, a aumentar a produção, a gerar mais emprego, a ajudar a desenvolver toda a cadeia de fornecedores que a atendia, e, quem sabe, contratar parte daqueles futuros ex-funcionários públicos, fazendo por eles o que eles nunca fizeram por ela.

Os analistas do mainstream e os intelectuais do partido começaram a prever um novo caos, dessa vez pelo fim dos serviços públicos que, em última instância, resultaria no fim do estado. Argumentavam que os brasileiros não estavam preparados para viver sem governo. E que assim que se instalasse no país o inferno hobbesiano, a sociedade pediria a volta do governo.

O que se viu foram dois tratamentos da realidade que não se encaixavam: o dos intelectuais do regime, órfãos do poder, e o da sociedade, que não é mesmo de se deixar guiar pelos sábios da República e passou a ocupar os espaços antes monopolizados pelo estado. Desse momento em diante não era mais necessário um atestado de óbito para ter certeza de que o corpo era a prova da morte; nem era preciso mais provar que não éramos bandidos, salvo prova em contrário. Em vez da anunciada e terrível anomia, a ordem espontânea funcionou como se deve, com ajustes constantes e voluntários para corrigir os inevitáveis e necessários erros.

O celular tocou. Parecia com o volume mais alto do que de costume. A empresária abriu os olhos. Espreguiçou-se com um sorriso inexplicável no canto da boca. Atendeu a ligação. Era o seu braço-direito na empresa. Já leu o jornal?, perguntou. Ela disse que não e que ligaria dali a uns minutos. Pegou o diário e escandalizou-se com a manchete: GOVERNO E SINDICATOS NEGOCIAM AUMENTO E ACABA A GREVE.

A empresária, atônita com o peso da realidade contra o sonho que acabara de ter, ligou para o senador e soube por ele que a sugestão que dera foi usada pelo governo para forçar os sindicatos a aceitarem o reajuste anteriormente proposto, muito mais baixo do que estava sendo exigido pelas diversas categorias. Ao ouvirem a ameaça do governo de extinguir todos os órgãos públicos, os sindicalistas tremeram diante do cenário que se abria e que significaria o fim de todos os sindicatos dos servidores públicos. Bravata ou não, era preferível manter o que havia do que perder o que tinham. Farinha pouca, parceiro, meu pirão primeiro.

Após narrar pelo celular a história dos bastidores do ocorrido, o senador escutou pacientemente a empresária vociferar um discurso indignado. Sentiu-se ultrajadamente usada. Acusava o governo de ter transformado sua ideia em instrumento de preservação e ampliação de seu próprio poder. Pior, pensou, o Brasil continuaria onde sempre esteve. Quando Maria Taioba parecia ter se acalmado, o parlamentar perguntou com voz serena e misteriosa: “Quem é Zé das Couves”?