A utopia política é o ópio dos intelectuais (parte 2)

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Encerrei o artigo anterior com uma provocação: a utopia politica é o ópio dos intelectuais. A frase evocava duas outras: a primeira, de autoria de Raymond Aron, de que o ópio dos intelectuais era o marxismo[1]; a segunda, escrita por Karl Marx, dizia que a religião era o ópio dos intelectuais.[2]

Antes, porém, é necessário fazer um enquadramento teórico. Os estudiosos do fenômeno não chegaram a um consenso para estabelecer um conceito definitivo para a utopia. As definições utilizadas dependiam dos objetivos específicos de cada estudo. Eles concordavam, porém, que qualquer conceito deveria conter pelo menos um destes três elementos: forma, conteúdo e função. A posição que considero mais adequada à interpretação da utopia política, que classifico como revolucionária, é a de Ruth Levitas, para quem a melhor definição deveria ser capaz de incorporar forma, conteúdo e função.[3]

Para que a minha afirmação provocativa possa ser compreendida devo explicar o que entendo por utopia política revolucionária. Porque o termo pode ser confundido com a utopia literária e a diferença primordial entre aquela e esta é justamente o fato de que a versão revolucionária da utopia política não apenas descreve e prescreve uma sociedade ideal e perfeita, mas tem um projeto de poder para realizá-la e empreende todos os esforços nesse sentido.

Uma utopia literária não pretende nada além de ser uma descrição detalhada de uma sociedade ou de um mundo idealizado, e a sua forma e função praticamente definem um fim em si mesmos. Romances utópicos podem ser usados por utópicos revolucionários como base para suas ambições, mas não foram realizados, muito embora possam ter sido idealizados, com tal finalidade.

Uma utopia política revolucionária, por outro lado, elabora essa prescrição descritiva, que pode ser explicitamente detalhada ou estrategicamente pulverizada ou diluída de forma a esconder seus reais objetivos, como um plano de instituição de um tipo de regime controlado por uma determinada elite que se apresenta como a única habilitada a empreender aquele projeto de perfeição e a conduzir a sociedade rumo a um futuro ideal.

O filósofo húngaro Aurel Kolnai afirmou que a utopia era não apenas o perfeccionismo, mas, concomitantemente, a impostura do ideal de perfeição. Segundo Kolnai, o mundo utópico constituía, na verdade, um campo simplificado de perfeição no qual a sociedade era um organismo harmônico e os indivíduos eram classificados segundo uma hierarquia cientificamente organizada.[4] Karl Marx, por exemplo, tentava esconder o caráter utópico de seu pensamento político sob um verniz científico (o cientificismo versus o utopismo de Marx é discussão para outro artigo).

Intelectuais à esquerda e à direita manifestaram suas utopias políticas ao longo da história de forma mais ou menos articulada e esquemática. Os bem-sucedidos foram justamente aqueles que, unidos a algum movimento ou grupo, conseguiram que suas ideias fossem usadas como programas de um projeto de poder.

Muitos desses intelectuais utópicos sabiam exatamente quais seriam as consequências intencionais de suas ideias e assumiam plenamente a responsabilidade pelas consequências não-intencionais. Alguns poucos, mesmo que professassem algum tipo de boa-fé, preferiam ignorar os resultados daquilo que projetavam para toda uma sociedade em nome de um suposto bem comum, que desconsiderava os modos de vida e os indivíduos que a compunham. Ambos combinavam um sentido de superioridade moral com o monopólio da virtude. Estavam tão inebriados com a própria bondade e excitados com o sentimento de missão a ser cumprida que fariam qualquer coisa para realizar o projeto de perfeição.


Notas
[1]Raymond Aron. O Ópio dos Intelectuais. Brasília: Editora da UnB, 1980.
[2]Karl Marx. Introduction in “A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right”. Publicado no jornal Deutsch-Französische Jahrbücher em 7 de fevereiro de 1844.
[3]Ruth Levitas. The Concept of Utopia, 179.
[4]Aurel Kolnai. Privilege and Liberty and Other Essays in Political Philosophy, 124.

 

* Publicado originalmente em 13/09/2011.