A utopia política é o ópio dos intelectuais (parte 4)

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Muitos intelectuais dos séculos XIX e XX se deixaram seduzir pelos encantos da utopia política e foram seus artífices e trombeteiros. Ao idealizarem, projetarem, defenderem e trabalharem para a realização de um mundo ideal, estavam assumindo a responsabilidade pelas transformações da sociedade advindas de suas ideias, próprias ou de terceiros. Mas essas ideias e a responsabilidade que assumiam muito raramente estavam fundadas na realidade vigente e nas pessoas existentes. A construção de um futuro de perfeição exigia transcender a natureza humana e o mundo que ela edificou voluntariamente, por tentativa e erro.

Na dimensão utópica não há espaço para incertezas, dúvidas, hesitações, consequências não-intencionais. O projeto utópico deve se abster completamente daquilo que efetivamente existe, com suas restrições e reações; deve, ainda, ser indiferente ao que é humano e imperfeito. Qualquer imperfeição deve ser corrigida ou redimida pela política.

Sob o compromisso de destruírem um sistema contingencial ou uma suposta ideologia ou classe no poder, os utópicos políticos tentavam abolir a ordem histórica, no sentido dado ao termo por Eric Voegelin, que estrutura uma determinada sociedade e é construída pelas gerações mediante arranjos espontâneos (a civil association de Michael Oakeshott ou a grown order de F. Hayek) e a concorrência de ações individuais, interesses compartilhados, vontades, necessidades, carências, desejos etc.

Essa tentativa de destruição provocava uma desordem estrutural, que desorientava a maior parte da sociedade. Essa desorientação estimulada era um elemento estratégico central para a utopia política porque servia como instrumento de fragilização de um grupo numeroso de indivíduos, incapazes de reagir diante de um novo e desconhecido sistema que se valia do terror para intimidar.

Por outro lado, a ausência de uma ordem conhecida e familiar quebrava a ligação entre a pessoa e o grupo e ambiente ao qual pertencia, ao mesmo tempo em que era capaz de despertar uma fascinação satânica dentre aquela parcela da população em busca de uma ocupação, geralmente confundida com a procura por uma causa ou ideologia que os acolhesse como uma família. Se o lar que o conforta e o orienta foi abolido, era preciso encontrar um outro abrigo que simulasse aquele ambiente familiar. Quando as macabras ideologias do século XX tentaram extinguir Deus por decreto, sabia-se que se nada fosse colocado em seu lugar seria impossível preencher o vazio existencial e religioso da multidão e, com isso, controlá-la.

Os intelectuais utópicos não dialogavam com a ordem, com a tradição e com a realidade porque o objetivo não era a reforma, mas a revolução, no sentido moderno do termo. Ou seja, destruir o que existe para inaugurar um novo mundo recomeçando do zero, como se fosse possível apagar de cada pessoa todos aqueles elementos de formação que moldaram a sua vida até ali. Um ambiente de desordem mantido sob um sistema violento exaure os homens de bem e potencializa a selvageria dos brutos.

Se a realização da utopia política no plano das ideias só se realiza desconsiderando a realidade, isto implica que qualquer tentativa de implementação culminará numa colisão estupenda entre o projeto de perfeição e a ordem do mundo concreto. E o recurso utilizado para quebrar a ordem existente e impor o novo sistema é o terror e a violência. O terror mantém em estado permanente a ameaça da brutalidade física e moral de forma a evitar reações; a violência elimina os impertinentes que se atrevem a desrespeitar os comandos do poder central.

A utopia política se manifestou de forma extraordinária no século XX e os intelectuais foram seus artífices. A Revolução Russa de 1917 começou a ser construída pelos intelectuais russos do século XIX que travaram a grande batalha entre Eslavófilos e Ocidentalistas. Alexander Herzen, ídolo de Lenin, foi o responsável por criar um pensamento revolucionário russo a partir das ideias produzidas e difundidas na Europa Ocidental. Herzen é um caso interessantíssimo. Ao se deparar com a carnificina produzida pela fracassada revolução de 1848 e o subsequente endurecimento do regime, sofreu um profundo impacto; não imaginara que seus ideais de revolução, que ele julgara belos, necessários e urgentes, resultassem em mortes de pessoas de verdade, mortes estas que ele era (e se sentia) coautor.

O choque diante da brutalidade da tentativa de realização da utopia política, da qual era um crente entusiasmado e intelectual ativo, fez dele um cético, pessimista e, sob certo aspecto, um reformista, que, se antes defendia a conquista das “liberdades” pela revolução sangrenta, depois passou a escrever cartas no jornal Kolokol, endereçadas ao czar Aleksander II, pedindo pela emancipação dos servos. Uma mudança inaceitável para Lenin, que as classificou de asquerosas.

Lenin não perdoaria o que considerou uma traição capital. No aniversário da morte de Herzen, escreveu um artigo em sua memória no qual enaltecia o antigo revolucionário e desancava o reformista tardio, guinada esta que atribuía à sua origem burguesa. Lenin tinha certeza na correção e viabilidade da utopia revolucionária, muito embora negasse o caráter utópico do seu socialismo ao invocar a dimensão científica da teoria defendida por Karl Marx.

O exemplo de Herzen não comoveu Lenin, que levou a cabo seu projeto de perfeição e entrou para a história como um dos maiores assassinos de todos os tempos e criador de uma máquina estatal democida aperfeiçoada por Joseph Stalin e copiada pelo regime nazista na Alemanha na forma dos infames campos de concentração.

Ao derrubar o véu de ignorância criado pela dicotomia entre esquerda e direita é possível verificar nitidamente que a parte substancial dos regimes socialista e nazista é estruturada pela utopia política revolucionária, ou seja, numa política de perfeição ancorada num projeto de poder centralizado, que promete a realização de um futuro ideal e, para isto, se autoriza a usar quaisquer recursos e a cometer qualquer tipo de ato para redimir ou aperfeiçoar a natureza humana e assim promover uma reengenharia social. O novo mundo exige um novo homem. Essa utopia política inebriou e continua entorpecendo intelectuais de várias partes do mundo, que veem nela o seu ópio vital.

* Publicado originalmente em 14/09/2011.

** Os artigos anteriores da série podem ser encontrados nos links abaixo:

A utopia política é o ópio dos intelectuais (parte 1)

A utopia política é o ópio dos intelectuais (parte 2)

A utopia política é o ópio dos intelectuais (parte 3)