A Visão Tolerante e Pluralista de F. A. Hayek

Escrevo esse artigo no dia do 113° aniversário de F. A. Hayek, talvez o mais importante economista e filósofo social do século XX. Tanto já foi escrito sobre Hayek e suas contribuições que às vezes é difícil encontrar algo novo e que tenha algum valor para escrever sobre ele. Mas esse desafio não intimidou nos últimos 25 anos e não me intimidará agora.

Embora muito tenha sido dito sobre a obra de Hayek sobre economia, teoria política e teoria do conhecimento, pouco foi dito sobre a sua visão mais ampla de uma sociedade liberal. Uma coisa é falarmos sobre constituições, ordens espontâneas e o uso do conhecimento na sociedade, mas qual é a visão por trás disso tudo? Que tipo de mundo seria a ordem liberal, que Hayek chamou de “Grande Sociedade”, em um nível mais pessoal?

Eu gostaria de argumentar que a visão hayekiana da ordem liberal é construída sobre os valores fundamentais de pluralismo e tolerância, que são promovidos por propriedades importantes das economias de mercado. Como Hayek escreve no segundo volume da sua trilogia Direito, Legislação e Liberdade, “uma sociedade livre é uma sociedade pluralista sem uma hierarquia comum de fins específicos”. Ele quer dizer que o mercado, como outras instituições sociais (como a língua), é um processo para coordenação social “independente de fins”: não importam quais sejam os nossos fins específicos. Todos nós podemos utilizar o processo mercadológico para atingi-los. Eu posso gostar de comida mexicana, você pode gostar de comida indiana, mas nós não precisamos chegar a uma única decisão sobre o que nós dois comeremos. Cada um de nós pode atingir diferentes fins através do mercado.

E essa é a parte importante: uma vez que entremos num acordo em relação às regras, nós não precisamos concordar sobre nossos fins para vivermos em paz uns com os outros. A sociedade liberal se conecta através dos meios e não dos fins. O mercado nos permite discordar pacificamente, enquanto cada um busca o seu próprio caminho.

Mas notem que para sustentar esse tipo de sociedade nós devemos estar dispostos a tolerar diferenças. Nós devemos reconhecer que o preço da liberdade para atingir nossos fins é permitir que os outros tenham a mesma liberdade, mesmo que discordemos de seus fins. Nas palavras do fundador da FEE, Leonard Read, nós devemos estar dispostos a aceitar “qualquer coisa que seja pacífica”. É isso que Hayek quer dizer quando escreve que uma sociedade livre é uma “sociedade pluralista”.

Compare essa ideia ao socialismo e ao fascismo. Esses sistemas requerem uma única hierarquia de fins: de acordo com a teoria, o coletivo decide quais fins serão perseguidos ou não. Quando recursos são alocados centralmente, é impossível a busca de objetivos individuais. Os nossos fins específicos devem ser subordinados às prioridades do estado ou do coletivo. O resultado não é a discordância pacífica e a tolerância da ordem liberal, mas a briga constante pelo poder, pela obtenção de um objetivo à custa do objetivo dos outros. Nós transformamos o jogo de soma positiva do mercado no jogo de soma zero do poder estatal.

Embora a tolerância e o pluralismo que o liberalismo requer sejam minimamente caracterizados como a recusa de se usar a coerção para evitar “qualquer coisa que seja pacífica”, o liberalismo nos encoraja, com vigor, a nos relacionarmos com aqueles que são diferentes de nós. Como Hayek aponta na página anterior à citação acima, a palavra grega para “trocar” também significa “admitir na comunidade” e “passar de inimigo para amigo”. Trocar, em uma sociedade baseada no mercado, nos põe em contato com novas pessoas, cujos fins são diferentes, e as traz para dentro do nosso grupo de relações sociais. Nós podemos escolher ignorar essas diferenças, mas essa exposição pode nos levar a fazer escolhas novas e diferentes no futuro, ou ao menos nos fazer mais simpáticos à diversidade de fins que as pessoas perseguem.

Trocar, em outras palavras, pode nos ajudar a apreciar o pluralismo da ordem liberal.

Para Hayek, a sociedade liberal é pluralista, e a busca por qualquer coisa que seja pacífica é limitada apenas pela nossa imaginação e pela nossa tolerância em relação a buscas similares feitas por outras pessoas. A sua visão não é estreitamente economista, mas amplamente humanista.