"Argentinos e Argentinas"

Não tenho tantas lembranças assim dos anos 1980. Lembro que o programa da Xuxa era diário. Lembro que às vezes eu ficava horas acordado para ver o Mike Tyson acabar com uma luta em 15 segundos. Lembro que um amigo meu jogou a sua camisa do Flamengo no lixo, depois que Sorato fez o gol que deu o bi-campeonato brasileiro ao Vasco. Lembro que 89 minha mãe foi Lula e meu avô, Collor.  Lembro também que estávamos sempre cortando zeros, carimbando cédulas e renomeando a moeda.

Mas a sensação que ficou em mim como típica daqueles anos é que o presidente Sarney parecia estar diariamente em cadeia nacional de televisão. Havia sempre algo a anunciar. Um pacote, uma ação urgente do governo, um novo plano econômico, uma tabela, um congelamento. "Brasileiros e brasileiras", eu repetia para as visitas na sala, imitando o bordão do presidente.

Infelizmente o revival daqueles anos não ficou restrito aos shows de Silvinho Blau-Blau e ao poder político do ex-presidente Sarney - que emprestou seu apoio a todos os seus sucessores eleitos, exceto Collor. As políticas equivocadas adotadas naquela época parecem estar sempre nos rondando, como Escorts conversíveis vermelhos que se recusam a descansar.

No ano passado, a Inflraero tentou controlar os preços cobrados nas lanchonetes dos aeroportos, e determinou um valor "justo" a ser cobrado por uma porção de pão de queijo (R$ 3.00) ou por um café (R$ 1.60). Também tivemos frentistas sendo presos em São Paulo, depois que seus postos, depois de uma paralização de caminhoneiros, aumentaram os preços "abusivamente".

Para não ficar para trás no cenário sul-americano, a presidente da Argentina vem se esforçando para trazer ao seu país um pouco das políticas dos anos 1980 que você ainda não encontra no Brasil. Depois de entrar sucessivamente em polêmicas sobre as Ilhas Malvinas Falkland, Cristina Kirchner determinou o congelamento dos preços nos supermercados por 60 dias.

Os supermercados argentinos, que incluem grandes redes internacionais como a francesa Carrefour e a americana Walmart, se comprometeram a congelar os preços dos produtos a pedido da Secretaria de Comércio Interior. O ministro Guillermo Moreno ameaçou quem não cumprisse a ordem com punições. O acordo entre o governo e a associação dos supermercados do país vai até 1° de abril. Juan Vasco Martinez, presidente da Associação de Supermercados Unidos, confirmou que "todos os produtos dos supermercados" continuarão com os mesmos preços de 1º de fevereiro.

A política de criação de mercados negros parece ir bem nos nossos vizinhos. Depois da criação de um próspero mercado negro de dólares, a presidente Kirchner agora se dedica em diversificar os produtos em oferta nas transações extra-oficiais.

Em um país cuja inflação anual varia entre 10 e 30%, dependendo de quem a mede, a impossibilidade de cobrar pelos produtos algo parecido com os seus custos reais, fará com que os comerciantes comecem a trabalhar com prateleiras vazias. O governo sabe disso e precisa ameaçar os comerciantes com punições.

"Estou fechando em nome de José Sarney. O nosso presidente e o presidente da Nova República. Está fechado em nome do povo!"

Fiscais de Kirchner, ao supermercado! Uni-vos! E preparem-se para o ágio.