Arte como mercadoria

Mesmo quem aceita uma boa dose de mercado nas atividades humanas pode torcer o nariz quando se trata de cultura. Especialmente os artistas. Lembro de ver Vaclav Havel, em um debate com o Bill Clinton, fazer os elogios de costume ao mercado, para depois explicar que, em se tratando de arte, a mão invisível não bastava. Era necessário algum tipo de controle do governo.

A produção do artista já nasce com uma distinção moral. Parece suja quando feita por dinheiro, para ser comercializada, trocada por outra coisa. O grande artista faz a arte pela arte, não a arte por um carro ou uma passagem de avião.

Mas a comercialização da arte não necessariamente diminui sua autenticidade. Pelo contrário, as possibilidades comerciais de uma obra de arte costumam conferir mais valor ao trabalho genuíno. Não só isso, mas o comércio da arte permite que artistas sejam mais independentes, mais recompensados pelo seu trabalho e, no final, faz com que a cultura de uma sociedade seja mais diversa e de melhor qualidade.

Esse é o argumento de Tyler Cowen em In Praise of Commercial Culture [Em defesa da cultura comercial].

Conforme explica Cowen, grandes nomes que hoje são marcos da história da arte, música, literatura e cinema foram na verdade empreendedores artísticos. Michelangelo não deixava de lucrar com a venda do seu trabalho. Beethoven admitia a necessidade de comercializar sua música: “Eu amo uma vida independente, e isso eu não posso ter sem um pequeno salário”. Shakespeare levava uma boa vida com a renda que recebia do seu trabalho como ator e dramaturgo. Charles Chaplin confessou, ao receber um Oscar em 1972: “Eu entrei nessa ocupação por dinheiro, e a arte brotou daí. Se as pessoas ficam desiludidas com essa afirmação, não há nada que eu possa fazer. É a verdade”.

De fato, com o advento do capitalismo, os artistas se tornaram mais autônomos e menos submissos a caprichos particulares. É melhor ter uma multidão de clientes a ter um mecenas. No século XVIII, Samuel Johnson se referia a um mecena como alguém “que apóia com insolência, e é pago com vaidade”. A possibilidade de vender arte para o mercado possibilitou aos artistas serem mais experimentais e desenvolverem seus próprios nichos. A explosão artística da Amsterdam do início do século XVII ocorreu pela emergência de uma classe urbana consumidora de arte. E a diversificação de nichos sem equivalente na história que vemos hoje ocorre porque a capacidade de distribuição e penetração do mercado chegou a patamares impensáveis com a internet.

A cultura comercial também nos dá maior acesso a obras do presente e do passado. Não é preciso embarcar para a Inglaterra para ter acesso à melhor atuação do mundo atual. Basta ir até o cinema mais próximo, ou ver um filme na tela do seu computador. Se quisermos experimentar os clássicos, a música e a literatura do passado jamais foram tão acessíveis. Qualquer pessoa que queira ouvir Haydn ou ler Goethe pode comprar um CD e um livro de bolso pelo preço de uma refeição.

Os críticos da cultura comercial desprezam esse aumento de acesso e variedade alegando que o comércio destrói a qualidade. Normalmente esse raciocínio se baseia numa visão romantizada do passado, na qual o cidadão comum da metade do século XVIII apenas ouvia Bach e lia Milton. Em qualquer período da história, as mais geniais produções artísticas nasciam em meio a uma abundância de mediocridade. Apenas as pérolas resistem o teste do tempo e chegam até nós, passando uma visão distorcida do passado. Além do quê, não há razões para se acreditar que grandes produtos culturais deixam de ser produzidos hoje. O cinema, o principal meio de comercialização artística do século XX, tem produzido roteiros de fantástica originalidade e profundidade. Grandes sucessos comerciais de Hollywood como O Senhor dos Anéis e A Lista de Schindler oferecem uma experiência cultural dificilmente igualada em qualquer outro momento da história. A existência de bandas que apelam para o mínimo denominador comum não impede a existência das composições elaboradas do jazz ou até do rock eletrônico. Mesmo a televisão hoje oferece séries com enredos complexos. Os Sopranos, por exemplo, combina várias vezes diferentes tramas em uma mesma cena envolvendo uma dezena de personagens recorrentes.

Mesmo que o crítico da cultura comercial aceite a vitalidade dos produtos culturais contemporâneos, ele pode contestar o significado social de tratar a arte como mercadoria. Críticas nesse sentido vêm tanto da direita quanto da esquerda.

A esquerda progressista acredita que cabe ao governo determinar o sucesso de diferentes empreendimentos culturais porque é necessário priorizar o vanguardismo mesmo que este não tenha apelo comercial. Querem que a produção de arte não seja influenciada pelos consumidores, mas por um comitê central. É difícil imaginar algo mais conservador do que um comitê, um mecenas atualizado. Na verdade, grandes gênios costumam não ser reconhecidos como tais enquanto ativos. Alfred Hitchcock, por exemplo, não teria atingido o mesmo sucesso e volume de produção. Seria provavelmente desprezado por um comitê das artes por ser popular e comercial demais. Se Van Gogh houvesse vivido em um país socialista, lembrava Mises, o tirariam do ateliê para colocá-lo num hospício.

Já a direita conservadora equipara cultura popular com insalubridade cultural. Os mitos e símbolos clássicos são superiores às suas imitações contemporâneas e, portanto, a cultura popular moderna deve ser rejeitada em favor do bem de nossa civilização. Mas pense nos grandes inimigos da nossa civilização. Tanto o comunismo quanto o nazismo prezavam pela arte clássica. Era a cultura popular que eles detestavam. Como lembra Tyler Cowen, “Bach, Mozart e Beethoven eram permitidos na União Soviética. Jazz, swing e blues eram proibidos.” O rock and roll e o cinema hollywoodiano foram aliados civilizacionais na derrota dos totalitarismos do século XX. A peça de Tom Stoppard Rock’n’Roll ilustra essa insurreição artística.

A arte como mercadoria, portanto, enriquece nossa vida com mais acesso às culturas do passado e do presente, dá aos artistas mais independência, diversifica e amplia as criações culturais e, last but not least, é uma arma contra aqueles que querem destruir as instituições que permitem o florescimento do espírito humano.