As Viagens de Gulliver: A sátira como atuação política

“O comunismo é uma espécie de alfaiate que quando a roupa não fica boa faz alterações no cliente.” – Millôr Fernandes

Desde a poesia clássica, um gênero sempre foi considerado subversivo e perigoso aos poderosos e governantes: a sátira.

Achatando-se bastante a história e a teoria, podemos encontrar sua contraparte dramática na comédia grega – o rito sagrado da pólis em que, em festivais que duravam vários dias, eram apresentadas três tragédias terminadas por uma comédia. As peças eram encenadas apenas uma vez – algo como Rei Lear, O Avarento ou Fausto terem sido escritas para serem vistas tão somente uma vez. Por outro lado, se as grandes tragédias que chegaram a nós apresentam os mythos, as histórias de há muito tempo, envolvendo os deuses ou grandes homens caindo no infortúnio (com a exceção da tragédia histórica Os Persas, de Ésquilo, bem pouco airosa com os próprios gregos), a comédia geralmente tratava da própria cidade, dos habitantes que estavam no teatro naquele momento.

Era assim que Sócrates, cujo pensamento foi eternizado nos Diálogos Socráticos de Platão, era formalmente indigitado no palco (pois com a maior probabilidade possível estava na plateia) em uma sátira como As Nuvens, de Aristófanes. É com trechos como este que sua profundidade de pensamento é exposta por um seu discípulo ao jovem Estrepsíades, que vai à sua academia aprender a filosofar:

DISCÍPULO

Vou dizê-lo. Mas deve-se considerá-lo um mistério... Há pouco, Sócrates interrogava Querefonte sobre uma pulga. Indagava quantas vezes ela pode saltar o tamanho dos seus próprios pés, porque ela mordeu a sobrancelha de Querefonte e pulou para a cabeça de Sócrates...

ESTREPSÍADES

Então, como foi que ele mediu?

DISCÍPULO

Com a maior habilidade. Dissolveu cera; depois, tomou a pulga e mergulhou os seus pés na cera. A seguir, quando a pulga esfriou, ficou com umas botinhas à moda pérsica; ele descalçou-as e mediu a distância.

ESTREPSÍADES

Ó Zeus soberano, que sutileza de pensamento!

DISCÍPULO

De fato, que diria você se soubesse de um outro raciocínio de Sócrates?

ESTREPSÍADES

Qual? Conte-me, eu suplico...

DISCÍPULO

Querefonte de Esfétio perguntou-lhe qual a sua opinião, se os mosquitos cantam pela boca ou pela rabadilha.

ESTREPSÍADES

E que foi que ele disse a respeito do mosquito?

DISCÍPULO

Ele dizia que o intestino do mosquito é estreito; como é apertado, o ar passa por ele com violência e se encaminha diretamente para a rabadilha. Ora, como é oco e ligado a esse lugar estreito, o buraco ressoa por causa da violência do sopro.

ESTREPSÍADES

Ah, então o rabisteco do mosquito é uma trombeta! Seja ele três vezes bem-aventurado, só por essa "intestigação"... De fato, numa defesa, facilmente seria absolvido quem conhece a fundo o intestino dos mosquitos...

...

É um grau de paródia que ensejaria anos de processo em nossa “liberdade de expressão”. Entretanto, não apenas era “permitido” na democracia ateniense: era um rito comunitário e sagrado.

Estranhamente, a sátira está fora de moda. Se no tempo de César (e na comédia romana até os deuses são satirizados, criando situações hilárias como na comédia Anfitrião), o imposto cobrado para se viver no maior império que o mundo já conheceu, dentro da segurança de muralhas e soa auspícios da cultura mais duradoura da Humanidade era de um dia de trabalho por ano – a César o que é de César – e ainda assim os governantes eram satirizados ritualmente, em público, ao ponto da humilhação (o que nem um ótimo Bill Maher ou o histriônico Glenn Beck parecem ter coragem de fazer hoje), é estranho que a poesia satírica não esteja mais em voga.

A explicação mais plausível ainda é a de Nietzsche, desde sua obra Origem da Tragédia: vivemos ainda o tempo de busca de grandiosidade – é o que toda figura pública aspira a ser – e não aprendemos ainda que, sob um céu de deuses ou sob um desregramento do Cosmo, rir ainda é uma das mais complexas e poderosas atitudes do espírito. Não é à toa, portanto, que os tempos artísticos modernos e contemporâneos são favoráveis a qualquer governante (sempre há “artistas” a serem seus capachos), financiados por governantes, úteis a governantes. A sátira aparece, tímida e desconectada de sua tradição, geralmente em tempos sombrios em que o governo cresce o tanto que os artistas de anos anteriores o forçaram a crescer.

Entre os grandes satiristas, podemos encontrar esses gêmeos complementares da literatura inglesa: Samuel Johnson com seu Dicionário capaz de partir em dois a alma de qualquer desavisado, e Jonathan Swift, que entre muitos panfletos satíricos (em que chegou a sugerir uma curiosa forma de acabar com a fome na sua Irlanda natal: usar os bebês como alimento), escreveu talvez o primeiro livro libertário de todos os tempos: As Viagens de Gulliver.

Alma profundamente pessimista, como todo espírito que desacredita no poder como solucionador de nossos problemas, Swift não cansa de usar sua facúndia contra as guerras, o poder desmedido, a corrupção, as ilusões das boas intenções políticas com o dinheiro alheio – e até mesmo um plano inglês para vender moedas de cobre para a Irlanda (o “meio pêni de Wood”), o que deve alegrar muito o espírito dos liberais que buscam o padrão-ouro e não aceitam as manobras ridículas do Banco Central para criar dinheiro sem uma pedra filosofal – mostrando-se um dos mais atuais escritores dos últimos séculos – ou, na verdade, um escritor muito adiante de seu tempo.

Algo curioso nesse magnum opus é que a cena mais famosa do livro (Gulliver chegando a Lilipute e sendo amarrado pelos pequenos habitantes locais de 15 cm de tamanho) funciona mais como uma apresentação do que como um paradigma do livro. De fato, nesse primeiro momento já podemos ver muitas críticas veladas e pouco veladas à Inglaterra de seu tempo, usando o recurso da pouca vergonha típica da sátira, como uma obsessão desmedida com dejetos do corpo humano – o método dos liliputianos para carregar “a Substância” que Gulliver alivia é descrito em detalhes, contrariando os típicos livros de viagem que escondem tais minudências, e durante um incêndio no palácio, Gulliver apaga o fogo aliviando a bexiga sobre o paço real, sendo por isso punido – porém, ainda é um verdadeiro ensaio de distâncias, em que o ridículo e o grandioso aparecem contrapostos quase fisicamente, assim funcionando como a metáfora mais visceral da justiça e da civilidade contrapostas a seus inversos – o que nos mostra que o que consideramos justo e civilizado nem sempre... funciona.

Gulliver viaja depois para Brobdingnag, onde inverte a perspectiva: é um anão numa terra de gigantes. O jogo fácil acaba perdendo a graça, em uma brincadeira com espelhos retorcidos que serve apenas para o distante rei, a conhecer as leis da Inglaterra e da Europa, afirmar que percebe ser aquele lugar habitado pelas piores víboras a terem rastejado sobre a terra, mas é na sua terceira viagem, à ilha voadora de Laputa, que o livro mostra seu valor eterno.

Nesta ilha, todos são “projetistas”, e preocupados com abstrações extremamente racionais para melhorar a vida na terra. São tão absortos em seus pensamentos que andam com Batedores que usam uma bexiga para acertar-lhes os ouvidos quando precisam ter a atenção chamada para conversar ou não cair num buraco. A grande preocupação, e único assunto das conversas, é a matemática – e o risco de um cometa atingir a Terra. Não se pergunta “como vai?”, e sim “como está o sol?”, que pelos cálculos matemáticos poderá se apagar. As comidas são cortadas em formas geométricas. Parece o paraíso racionalista do Iluminismo, em que a razão domina tudo.

Mas Swift, descrente de tudo, sabe que a razão não funciona como planejadores centrais pensam. Sobretudo, não muda a própria natureza das coisas. As comidas têm péssimo gosto, raramente matam a fome, a música (a única arte que prezam) é uma cacofonia impossível de ser suportada (embora matematicamente perfeita), as pessoas andam molambentas, as casas são planejadas para complicar a vida dos ocupantes. Mas há uma explicação: a Academia de Projetistas está constantemente usando a razão para melhorar o “Bem Comum”, e se ainda não se atingiu o resultado desejado, que se espere – ou quem ousaria ser um traidor do bem de todos?

É o que percebe Gulliver ao ver os planos usados para que os Monarcas escolham seus favoritos com base em sua “Sabedoria, Capacidade e Virtude”, os Ministros pelo zelo ao “Bem público” e buscando a recompensa do mérito, entre “outras Quimeras loucas ou impossíveis, que jamais foram concebidas pelo Coração humano, e que em mim confirmaram a antiga Observação, segundo a qual não há nada tão extravagante e irracional que algum Filósofo não o tenha defendido como sendo a Verdade”. Alguém que já viu um político de perto, e não esqueceu de tal visão ao conhecer um sistema político lindamente descrito em livros abstratos, ousa discordar?

Claro que a ironia, a arte de falar uma coisa querendo dizer outra (que vai desde a porradaria explícita de Aristófanes até a sutil lírica machadiana), também apresenta certas verdades no meio de uma crítica aos métodos ultra-racionais de direção política da ilha: “Aconselhava-se também que todo Senador do grão-Conselho de uma Nação, tendo exprimido sua Opinião e argumentado em Defesa dela, deveria ser obrigado a votar de modo diretamente contrário a ela; porque se tal fosse feito, o Resultado haveria de ser infalivelmente o Bem Público”.

Se isso já se assemelhou em demasia à realidade de um país latino-americano três séculos depois, ouvimos ainda uma bela discussão sobre financiamento público: deve-se instituir um Imposto sobre Vícios e Desvarios. Olhando-se bem para os bens que mais pagam impostos no Brasil, só falta mesmo lembrar que qualquer forma de lazer, até mesmo um smartphone, é considerada “Vício”. Notavelmente, outro discursante de opinião contrária prefere taxar certas qualidades, pois afinal são “produtivas” e deve-se taxar quem produz. Com uma exceção: “Porém a Constância, a Castidade, o Bom-senso e a boa Índole não haveriam de ser taxados, pois não valeriam o Custo de Arrecadação”.

Entre métodos para identificar conspirações através da análise das fezes do acusado (“pois os Homens nunca são tão sérios, pensativos e determinados quanto o são no ato de defecar”), ensinar geometria escrevendo equações numa bala e fazendo as crianças engolirem, escrever livros girando letras do alfabeto com manivelas (o que produzirá todos os livros possíveis no mundo, mais ou menos como a poesia dadaísta o fazia com menor pretensão), ou ainda aliviar problemas intestinais com um aspirador de vento introduzido no etc etc, Gulliver conhece um lugar próspero, onde as casas são bonitas, as pessoas se vestem bem, as árvores dão frutos e tudo, afinal, parece funcionar. Indagado sobre a diferença entre o vilarejo e as grandes cidades do reino e da ilha voadora, seu guia lhe informa um cenário tão arrepiante quanto a história da fábrica n’A Revolta de Atlas de Ayn Rand:

“O Teor de seu Discurso foi o que se segue. Que certas Pessoas subiram a Laputa [a ilha voadora] a Negócios, e voltaram com muitas poucas Tinturas de Matemática, porém cheias dos Espíritos Voláteis que se adquirem naquela Região aérea. Que essas Pessoas, ao voltarem, passaram a desgostar da Administração de tudo cá embaixo, e elaboraram Projetos com o fim de dar novas Bases a todas as Artes, Ciências, Lìnguas e Mecânicas. Com este fim, tal Estado de Espírito tornou-se de tal forma difundido entre o povo que não há nenhuma Cidade de maior porte no Reino que não tenha uma tal Academia de Projetistas. Nesses Colégios, os Professores inventam novas Regras e Métodos de Agricultura e Construção,  e novos Instrumentos e Ferramentas para todas as Artes e Manufaturas, graças aos quais, segundo eles, um Homem fará o Trabalho de dez; um Paço será construído em uma semana, com materiais tão resistentes que hão de perdurar para sempre sem Reparo. Todos os Frutos da Terra amadurecerão em qualquer Estação que se desejar, produzindo cem vezes mais do que no presente, com inúmeras outras Propostas felizes. O único Inconveniente é que nenhum desses projetos ainda foi aperfeiçoado, e nesse ínterim toda a Terra está desgraçadamente inculta, as Casas em Ruínas e o Povo sem Roupas nem Comida. Tudo isso não apenas os desalentou como também os tornou cinquenta vezes mais violentamente determinados a levar adiante seus Projetos, impelidos ao mesmo tempo pela Esperança e pelo Desespero; que, quando a ele, não tendo Espírito empreendedor, contentava-se em perseverar nas velhas Formas, viver nas Casas que seus antepassados haviam construído, e agir tal como eles agiam em todos os Aspectos da Vida sem Inovação. Que uma das poucas outras Pessoas de Qualidade e Fidalgos haviam feito o mesmo, porém eram considerados com Desprezo e Má Vontade, como Inimigos da Arte, ignorantes e homens sem Espírito público, que preferiam viver no Conforto e na Preguiça em vez de participar do Melhoramento geral do seu País.”

Qualquer semelhança com o socialismo, a falência da “social democracia” e qualquer outra forma “inovadora” de gestão econômica não é mera coincidência: Jonathan Swift parece ter conhecido o discurso dos defensores de Cuba (“é culpa do embargo!”), das faculdades de Humanidades e do triste fim da União Soviética, porém acompanhado de uma “esperança no passado” (tão animadora quanto um anjo num caixão) dos socialistas contra os “ignorantes”, os “inimigos” que não sabem que, afinal, um dia o progresso chegará e os homens trabalharão menos com sua arte – quando curiosamente trabalham cada vez menos exatamente quanto mais se afastam dela...

George Orwell, autor ipse dixit na luta contra o totalitarismo, considerava este um dos seis melhores livros já escritos. E dedicou um imprescindível ensaio sobre Gulliver, dizendo sobre essa viagem a Laputa e seu curioso método de abolir a individualidade extraindo parte do cérebro de um homem e enxertando-a na cabeça de outro: “Há algo curiosamente familiar na atmosfera desses capítulos, porque, mesclada com tanta tolice, existe a percepção de que um dos objetivos do totalitarismo não é apenas se certificar de que as pessoas pensarão pensamentos corretos, mas na verdade torná-las menos conscientes”.

Também na última viagem de Gulliver, ao país dos Houyhnhnms (seres semelhantes aos cavalos), se vê que seu único assunto é como lidar com os Yahoos, seus inimigos. Orwell sabe do perigo que a “opinião pública” tem nos estados policialescos em que espiões estão sempre prontos a nos denunciar como inimigos do povo: “É claro que nenhuma pessoa honesta afirmaria que a felicidade é home uma condição normal entre os seres humanos adultos; mas talvez pudesse ser normalizada, e é em torno dessa questão que giram todas as controvérsias política sérias”. Porém, alerta para o motivo por trás dessa busca: “O motivo supremo, provavelmente, é uma espécie de inveja, a inveja do espírito da vida, do homem que sabe que não pode ser feliz por causa dos outros que – este é seu receio – podem ser um pouquinho mais felizes do que ele”.

Com efeito, já expliquei por aqui qual é o maior empecilho para chegarmos a ter algumas maiores doses de liberalismo no Brasil: apesar de termos a teoria mais correta, falta-nos ganhar uma guerra apenas cultural, simbólica, lidando com o imaginário coletivo e as artes para apresentar aos coletivistas o fracasso de seu pensamento. A sátira, seja a mais antiga de Aristófanes, ou grandes momentos em Luciano, Rabelais, More, Gregório de Matos ou mesmo nos ensaios de Mencken, Chesterton, Muggeridge, Lebowitz, Francis e Kraus, é uma excelente forma de, expondo a roupa do rei, mostrar que nenhum governante nunca estará vestido.