Biografia: Alexis de Tocqueville

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Alexis de Tocqueville foi um cavalheiro, um acadêmico, e um dos grandes profetas do mundo. Mais de um século e meio atrás, quando a maioria das pessoas era governada por reis, ele afirmou que o futuro pertencia à democracia. Explicou o que seria necessário para que a democracia funcionasse e como ela poderia ajudar a proteger a liberdade humana. Ao mesmo tempo, ele compreendeu que um estado de bem-estar social poderia atrair as pessoas à servidão. Ele entendeu por que o socialismo necessariamente leva à escravidão.

Toqueville dedicou sua vida à liberdade. “Tenho um amor intenso pela liberdade, pela lei, e pelo respeito aos direitos”, escreveu, “não pertenço ao partido revolucionário nem ao conservador... A liberdade é minha principal paixão”.

Refletindo sobre a famosa obra de Tocqueville, A democracia na América, o historiador Daniel J. Boorstin observou: “A questão mais interessante para quem começa a ler Tocqueville é por que este livro, dentre os diversos relatos de viagens pelos Estados Unidos, se tornou um clássico – a fonte padrão das generalizações sobre a América. Dois best-sellers da época de Tocqueville sobre os Estados Unidos – Domestic Manners of the Americans [“Modos domésticos dos Americanos”], da sra. Trollope (1832) e American Notes [“Notas americanas”], de Charles Dickens (1842) – , cujos autores tinham melhor estilo e eram observadores mais argutos do que Tocqueville, sobrevivem apenas como notas de rodapé acadêmicas. Eles nos falam sobre aqueles pitorescos americanos antigos, mas Tocqueville nos fala sobre nós mesmos. Ele nos fala todos os dias”.

Tocqueville era um bom ouvinte e tinha ótima memória. Sua mente extraordinária era capaz de detectar tendências que quase nenhum de seus contemporâneos percebia, e de deduzir importantes lições da experiência. Ele anteviu as insidiosas consequencias que, a longo prazo, advêm da intervenção estatal.

Não há duvida de que, como membro da aristocracia proprietária de terras cuja renda vinha principalmente de fazendeiros arrendatários, Tocqueville partilhava dos preconceitos, comuns entre os aristocratas, contra as atividades empreendedoras. Ele mal disse uma palavra a respeito da revolução industrial, que permitiu que milhões escapassem da fome.

Ele trabalhou por longas horas em importantes livros, apesar de problemas de saúde que o atormentavam: enxaqueca, nevralgia, e cólicas estomacais que duravam semanas. Sem dúvida estas moléstias eram uma das causas de sua irritabilidade. Em seus livros, Tocqueville parece um realista. Suas cartas, no entanto, sugerem que ele era um romântico que sonhava com grandes aventuras e atravessava fases de depressão. Aos dezenove anos ele escreveu para um amigo que gostaria de “vagar pelo mundo até o fim dos tempos”. Quando já tinha quase trinta anos, após o sucesso de Democracia na América, lamentou: “Oh! Quisera eu que a Providência me desse a oportunidade de usar, para realizar coisas boas e grandes, esta chama interior que sinto em mim que não sabe onde encontrar o que a alimenta”. E aos quarenta e um: “Talvez chegue um momento em que nossas ações possam ser gloriosas”.

Segundo o historiador George Wilson Pierson, Tocqueville era “de estatura quase diminuta, um cavalheiro digno e reservado, de feições delicadas e gestos contidos. Olhos escuros, orgulhosos e agitados, atraíam o olhar e iluminavam seu rosto pálido e sério. Uma boca sensível e um queixo levemente dividido, sob um nariz forte e aquilino, denunciavam sua linhagem e transmitiam uma determinação acima do comum. A forma delicada da cabeça era emoldurada por seus longos cabelos negros, que ele usava em cachos que lhe caíam até os ombros, como ditava a altiva moda da época. Ao receber ou conversar, movia suas mãos estreitas com graça e distinção... Ao falar, uma voz ressonante e comovente, surpreendente em um corpo tão pequeno e frágil, fazia os ouvintes esquecerem tudo além da intensa convicção e da inata sinceridade daquele homem”.

Alexis-Charles-Henri Clerel de Tocqueville nasceu em 29 de julho de 1805 em Paris, o mais jovem de três meninos. Seu pai, Hervé-Louis-François-Jean-Bonaventure Clerel, era um aristocrata proprietário de terras descendente de nobres normandos. Sua mãe se chamava Louise-Madeleine Le Peletier Rosanbo. Ambos foram presos durante a Revolução Francesa e mantiveram suas ligações monarquistas ao longo de toda a era napoleônica. Após a restauração da dinastia Bourbon em 1815, Henri serviu como administrador de um governo regional. O tutor de Alexis foi o Abade Lesueur, um padre que ensinou-lhe devoção à Igreja Católica e à monarquia francesa.

Aos dezesseis anos, Alexis começou a explorar a biblioteca do pai, que continha autores provocadores do iluminismo francês, como Montesquieu e Voltaire. “Quando me tornei vítima de uma insaciável curiosidade cuja única satisfação possível era uma grande biblioteca”, relembrou ele, “acumulei em minha mente uma desordem de noções e ideias mais apropriadas a uma idade mais madura. Até aquela época, minha vida havia sido envolvida por uma fé que nem mesmo permitia que a dúvida penetrasse minha alma. Então a dúvida entrou, a toda velocidade e com incrível violência, não apenas sobre uma coisa ou outra em particular, mas uma dúvida que permeava tudo. De repente, experimentei a sensação de que falam as pessoas que passaram por um terremoto”.

Em vez de se tornar um oficial do exército francês como seus dois irmãos, Alexis escolheu a carreira intelectual dos aristocratas: o direito. Estudou direito entre 1823 e 1826, e então viajou para a Itália com seu irmão Edouard. Ao ver a devastação causada pela guerra e o despotismo, ele pensou sobre como civilizações outrora poderosas pereciam.

Em 1827, por obra de seu pai, Tocqueville foi nomeado juiz em Versalhes, servindo à monarquia Bourbon. Mas ele não se sentiu à vontade: “Eu havia vivido os melhores anos de minha juventude”, ele escreveu mais tarde, “numa sociedade que parecia reconquistar a prosperidade e a grandeza conforme reconquistava a liberdade; e havia concebido uma ideia de liberdade regulada e ordenada, controlada pela crença religiosa, pelos costumes e pelas leis. Fui tocado pelas alegrias de uma tal liberdade, e ela havia se tornado a paixão de toda a minha vida”.

Em 25 de julho de 1830, o povo se revoltou, e o rei Bourbon, Charles X, foi forçado a se exilar. Louis-Philippe, da casa de Orléans, assumiu o trono. Tocqueville considerou tal solução melhor do que o caos, e, junto com muitos outros juízes, fez um novo juramento de lealdade, o que indignou seus parentes e amigos. Mas o rei não confiava nos funcionários que haviam servido a seu antecessor, e rebaixou Tocqueville a um posto sem pagamento. Seu afável e tranquilo amigo Gustave de Beaumont, também juiz em Versalhes, estava em uma situação parecida. A Câmara dos Deputados estava discutindo uma reforma das leis criminais, e Tocqueville e Beaumont conseguiram permissão oficial para estudar o sistema prisional americano. As despesas seriam pagas por suas famílias. Os dois homens sondaram amigos e parentes sobre possíveis contatos nos Estados Unidos, e leram literatura americana e alguns dos livros de viagem que europeus haviam escrito sobre o país. Tocqueville gastou quarenta francos em um baú de couro para carregar dois pares de botas, um chapéu de seda, meias, e outros itens de vestuário em moda na época, além de papel para notas e uma cópia do Curso de economia política do economista francês adepto do laissez-faire Jean-Baptiste Say.

Em 2 de abril de 1831, Tocqueville e Beaumont embarcaram no navio americano Le Havre, que carregava 163 passageiros e um carregamento de seda de Lyon. Após quatro dias de enjôo, Tocqueville e Beaumont adotaram uma rotina que seguiram até o fim da viagem: acordar por volta das 5:30 da manhã, trabalhar até a hora do desjejum, às 9 horas, depois trabalhar das 11 às 15 horas, quando faziam outra refeição, e então trabalhar até a hora de dormir. Eles não se juntavam aos demais passageiros para a ceia. Em trinta e oito dias, chegaram a Nova York.

Durante os nove meses seguintes, eles conheceram muitas prisões e visitaram cidades: Nova York, Albany, Boston, Filadélfia, Washington, Montréal e Québec. Passaram por Buffalo, Cincinnati, Detroit, Knoxville, Louisville, Mobile, Montgomery, Nashville, Memphis, Nova Orleans e Pittsburgh. Se aventuraram pelo interior até o lago Michigan e viajaram de barco pelo rio Mississipi. Visitaram as cataratas do Niágara, viajaram ao longo do vale do rio Hudson, e viram o vale do rio Mohawk, cenário do conhecido romance de James Fenimore Cooper, O último dos Moicanos. Conheceram muitos americanos notáveis, incluindo o unitarista William Ellery Channing, o historiador Jared Sparks, o senador Daniel Webster, o ex-presidente John Quincy Adams, o aventureiro do Texas Sam Houston, o advogado Salmon Chase, que se tornaria presidente da Suprema Corte, e Charles Carroll, o último signatário da Declaração de Independência ainda vivo.

Pouco depois de deixarem os Estados Unidos, em 20 de fevereiro de 1832, os dois começaram a escrever o livro prometido sobre o sistema penal americano, com Beaumont escrevendo a maior parte. O livro, publicado em janeiro de 1833 como Du système pénitentiaire aux Etats-Unis et de son application en France [“Do sistema penitenciário nos Estados Unidos e de sua aplicação na França”], expressava a crença dos autores de que muitos prisioneiros poderiam ser reabilitados através do isolamento e do trabalho, mas insistindo que o propósito primário do aprisionamento deve ser a punição dos malfeitores. A obra teve grande êxito junto à crítica, e a Academia Francesa conferiu o prestigiado Prêmio Montyon a Tocqueville e Beaumont.

Embora tivessem falado em colaborar em um livro sobre a América, seus interesses divergiram. Beaumont, mais interessado pela escravidão, escreveu um romance, Marie, ou l'esclavage aux Etats-Unis [“Marie, ou a escravidão nos Estados Unidos”]. Tocqueville, por sua vez, ficou fascinado pela vida social e política americana por causa das dificuldades que seu próprio país encontrava para desenvolver instituições favoráveis à liberdade. Ele atribuía os problemas políticos franceses ao governo centralizado – “A maioria daqueles que falam contra a centralização na França não desejam realmente vê-la abolida; alguns porque têm poder, outros porque esperam vir a tê-lo” – e observou que a liberdade resulta em uma ordem social pacífica. “Imagine”, escreveu ele a um amigo, “uma sociedade composta por todas as nações do mundo – ingleses, franceses, alemães: pessoas diferentes umas das outras no idioma, nas crenças, nas opiniões. Em resumo, uma sociedade que não possui raízes, nem memórias, nem preconceitos, nem rotina, nem ideias comuns, nem caráter nacional, mas com uma felicidade cem vezes maior do que a nossa... O que os une em um único povo? A comunhão de interesses. Esse é o segredo!”

Tocqueville decidiu que não poderia escrever sobre liberdade e democracia sem antes visitar a Inglaterra. Após sua viagem em 1833, ele escreveu que a Inglaterra é “a terra da descentralização. Temos um governo central, mas não uma administração central. Cada condado, cada região, cada distrito cuida de seus próprios interesses. A indústria cuida de si mesma... Não é natural que um governo central seja capaz de supervisionar todas as necessidades de uma grande nação. A descentralização é a principal causa do progresso material da Inglaterra”.

Em um quarto do sótão da casa de seus pais, no número 49 da rue de Verneil, em Paris, ele passou quase um ano escrevendo os primeiros dois volumes de A democracia na América. Em meados de setembro de 1833, escreveu a Beaumont: “Chegando aqui, mergulhei na América de forma frenética. O frenesi ainda está acontecendo, mas de vez em quando parece morrer. Acho que meu trabalho se beneficiará mais do que minha saúde, que sofre um pouco com meu extremo esforço mental; pois eu praticamente não penso em mais nada enquanto escrevo... Da manhã até a hora do jantar minha vida é inteiramente mental, e à noite vou visitar Mary”. Ele se referia a Mary Mottley, uma plebéia inglesa que havia conhecido quando era juiz em Versalhes. Casaram-se em 26 de outubro de 1835. A influência de Mary o acalmava, mas ela não conseguia acompanhar seus interesses. “Em nossos corações, nós nos entendemos”, ele contou a um amigo, “mas, em nossas mentes, não conseguimos. Seu modo lento e gradual de absorver experiências me é completamente estranho”.

Segundo relatos, o editor Gosselin não havia lido o manuscrito, e concordou em imprimir apenas quinhentas cópias. Mas Tocqueville fez propaganda do livro, que saiu em 23 de janeiro de 1835, quando ele tinha vinte e nove anos, em jornais, e um adversário ideológico inadvertidamente atraiu atenção para a obra ao atacá-la em um artigo de jornal. Sucesso imediato, o livro ganhou outro Prêmio Montyon, que trouxe uma recompensa de 12.000 francos, e teve mais oito reimpressões antes da aparição do terceiro e do quarto volumes, em abril de 1840. Os novos volumes não foram tão bem-sucedidos comercialmente quanto os primeiros, mas os críticos os consideraram mais importantes, o que ajudou a consolidar a reputação de Tocqueville.

Henry Reeve, um editor de vinte e dois anos da influente Edinburgh Review, começou a traduzir o livro para o inglês, e uma edição revisada é ainda hoje a tradução mais popular. Na London and Westminster Review de outubro de 1835, o pensador inglês John Stuart Mill descreveu A democracia na América como “uma das produções mais notáveis do nosso tempo”. Mill fez elogios ainda maiores ao terceiro e quarto volumes na Edinburgh Review de outubro de 1840: “A primeira obra filosófica escrita a respeito da democracia tal como ela se manifesta na sociedade moderna; um livro cujas doutrinas essenciais provavelmente não serão subvertidas por especulações futuras, por mais que elas possam modificá-las”. Mill pediu a Tocqueville que escrevesse um artigo para a London and Westminster Review, tornando-o mais conhecido no mundo anglófono. O livro também foi traduzido para o dinamarquês, o alemão, o italiano, o russo, o sérvio e o espanhol.

A democracia na América teve um impacto duradouro porque Tocqueville ofereceu uma visão ampla, e não apenas uma crônica jornalística, que ficaria datada. Ele se interessava pelo funcionamento da democracia, e ilustrava princípios gerais com suas observações sobre a América, o maior país a experimentar a democracia. Ele se preocupava com o significado da experiência americana para a liberdade na França e em outros locais.

Tocqueville foi o homem que descobriu o individualismo americano. Embora ele o tenha descrito de forma algo negativa em uma ocasião, ele falou em tom de aprovação sobre a auto-ajuda, uma característica típica do individualismo americano. Por exemplo: “O cidadão dos Estados Unidos aprende desde a infância a depender de seus próprios esforços para resistir aos males e às vicissitudes da vida; ele vê a autoridade social com desconfiança e ansiedade, e recorre à sua ajuda apenas quando é incapaz de prescindir dela”.

Tocqueville explicou o sonho americano: “Não há um único homem que não possa razoavelmente esperar obter uma situação confortável na vida, pois cada um sabe que, havendo amor ao trabalho, seu futuro é certo... Ninguém está inteiramente satisfeito com sua situação atual, todos estão em perpétua luta, por diversos meios, para melhorá-la. Considere qualquer um deles, em qualquer período de sua vida, e ele se encontrará ocupado com algum novo projeto cujo propósito é aumentar o que ele tem”.

A influência pacífica da liberdade para empreender também recebeu sua aprovação: “Não sei de nada mais oposto às atitudes revolucionárias do que as atitudes comerciais. O comércio é naturalmente adverso a todas as paixões violentas; ama a tolerância, se delicia com o meio-termo, e escrupulosamente evita a irritação. É paciente, moderado, flexível, e nunca recorre a medidas extremas até ser obrigado pela necessidade mais absoluta. O comércio torna os homens independentes uns dos outros, dá a eles um amplo entendimento de sua própria importância, leva-os a tentar conduzir seus próprios negócios, e ensina como conduzi-los bem; o comércio portanto prepara os homens para a liberdade, mas os preserva das revoluções”.

Tocqueville observou que a liberdade e a necessidade de cooperação social incentivam as pessoas a serem virtuosas. “Com frequência vi americanos fazerem sacrifícios grandes e reais pelo bem-estar público; e notei uma centena de ocasiões em que eles quase nunca deixaram de apoiar fielmente uns aos outros. As instituições livres que os habitantes dos Estados Unidos possuem, e os direitos políticos dos quais fazem tanto uso, lembram cada cidadão, de mil formas, de que ele vive em sociedade. A cada instante elas imprimem em sua mente a noção de que ser útil para seus semelhantes é o dever assim como o interesse dos homens; e, uma vez que ele não vê razões para hostilidade contra eles, já que não é jamais seu mestre nem seu escravo, seu coração prontamente tende à generosidade”.

Tocqueville denunciou a escravidão americana, dizendo que “as leis da humanidade foram totalmente pervertidas”. Ele previu a guerra civil e as dificuldades que negros e brancos teriam em viver juntos por muito tempo após a abolição da escravidão, mas expressou confiança de que os negros prosperariam se fossem realmente livres: “Enquanto o Negro permanecer um escravo, ele poderá ser mantido em uma condição não muito distante da de um selvagem; mas com sua liberdade ele inevitavelmente conquistará um grau de instrução que permitirá que ele compreenda seus infortúnios e encontre a solução para eles”.

Tocqueville fez alertas contra a guerra e a revolução violenta: “É principalmente na guerra que as nações desejam, e frequentemente precisam, aumentar os poderes do governo central. Todos os homens de gênio militar prezam a centralização, que aumenta sua força; e todos os homens de gênio centralizador prezam a guerra... Um povo nunca está tão disposto a alargar as funções do governo central quanto ao final de uma longa e sangrenta revolução... O amor à tranquilidade pública se torna às vezes uma paixão indiscriminada, e os membros da comunidade podem conceber uma devoção descomunal à ordem”.

Com antevisão fenomenal, Tocqueville previu que o estado de bem-estar social se tornaria uma maldição: “Acima desta raça de homens paira um imenso poder tutelar, que toma para si a responsabilidade de assegurar suas satisfações e olhar por seus destinos. Tal poder é absoluto, minucioso, regular, providente e brando. Seria como a autoridade de um pai, se, como essa autoridade, tivesse o objetivo de prepará-los para a vida adulta; mas, pelo contrário, busca mantê-los em perpétua infância; consente que o povo tenha alegrias, contanto que não pense em nada além delas. Tal governo trabalha de bom grado pela sua felicidade, mas escolhe ser o único agente e árbitro desta felicidade; ele provê sua segurança, prevê e providencia a satisfação de suas necessidades, facilita seus prazeres, administra seus principais problemas, dirige sua indústria, regula a transmissão de propriedade, e subdivide suas heranças. O que resta, além de poupá-los todos da necessidade de pensar e da dificuldade de viver?”

“Nossos contemporâneos”, continuou, “combinam o princípio da centralização de poder com o da soberania popular; e isso lhes traz alívio: eles se conformam em ser tutelados com a ideia de que escolheram seus próprios guardiães”.

Como outros cavalheiros-acadêmicos do século dezenove, como Thomas Macaulay, Tocqueville desejava influenciar as políticas públicas e passou uma dúzia de anos frustrantes como representante eleito na Câmara dos Deputados e na Assembléia Constituinte, onde se concentrou em pontos polêmicos como a abolição da escravidão nas colônias francesas. Por cinco meses, foi ministro das finanças. Mas ele tinha pouca influência sobre François Guizot (pró-empresas) e Louis Adolph Thiers (oposição moderada), que dominavam inteiramente a política francesa durante esta época.

Durante a revolução de 1848, que derrubou o rei Louis-Philippe, quando o socialismo ameaçou emergir, Tocqueville estava muito à frente de seu tempo ao ver porque socialismo necessariamente significa escravidão. Ele disse aos demais representantes: “A democracia aumenta a esfera de liberdade individual, o socialismo a restringe. A democracia atribui todo o valor possível a cada homem, o socialismo faz de cada homem um mero agente, um mero número. A democracia e o socialismo não têm nada em comum; com exceção de uma palavra: igualdade. Mas notem a diferença: enquanto a democracia busca igualdade em liberdade, o socialismo busca igualdade em restrição e servidão”.

Por acreditar que indivíduos devem ser julgados por seus próprios méritos, Tocqueville rejeitou as teorias racistas de Arthur de Gobineau, que escreveu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1855). Tocqueville contou a Beaumont que Gobineau “acaba de me enviar um livro grosso, cheio de pesquisa e talento, em que tenta provar que tudo que acontece no mundo pode ser explicado por diferenças raciais. Não acredito em uma palavra”. Para Gobineau, ele escreveu, “De que adianta persuadir povos inferiores que vivem em condições abjetas de barbarismo ou escravidão de que, sendo tal sua natureza racial, eles nada podem fazer para se aprimorarem, para mudar seus hábitos, ou para melhorar sua situação?”

A última grande obra de Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução (1856), trouxe sua interpretação da Revolução Francesa, que espalhou a guerra por toda a Europa. Mais uma vez, ele enfrentou o demônio do governo centralizado: “O objetivo da Revolução Francesa não foi apenas mudar uma forma antiga de governo, mas também abolir uma forma antiga de sociedade... afastando-se as ruínas, vê-se um imenso poder central, que atraiu e absorveu em uma unidade todas as frações de autoridade e influência que antes estavam dispersas entre diversos poderes secundários, ordens, classes, profissões, famílias e indivíduos, disseminados por todo o tecido social”.

A saúde de Tocqueville, que sempre havia sido delicada, piorou em março de 1850, quando ele contraiu tuberculose. A doença entrou em remissão por diversos anos, e depois se agravou. Ele só conseguia falar em voz baixa. Aconselhados a passar algum tempo em um clima ensolarado, ele e Mary foram a Cannes em janeiro de 1859. Lord Broughham, um amigo inglês que vivia lá, disponibilizou sua luxuosa biblioteca para aliviar Tocqueville do tédio da doença. Mas ele sofria dores intensas no estômago e bexiga, e em 4 de março de 1859 escreveu a Beaumont: “Sei que nada jamais me entristeceu tanto quanto o que te direi agora... VENHA. VENHA o mais rápido possível... Te abraço do fundo de minha alma”. Beaumont apressou-se para estar com Tocqueville, que perdeu a consciência e morreu em 16 de abril. Foi enterrado em Tocqueville, na Normandia, a terra natal de sua família. No ano seguinte, Beaumont, leal por mais de trinta anos, publicou a obra e a correspondência do amigo.

Tocqueville saiu de moda no fim do século dezenove, talvez porque a Alemanha, e não os Estados Unidos, parecia mostrar o caminho do futuro. O chanceler alemão Otto von Bismarck aproximou-se do socialismo e estabeleceu o primeiro estado moderno de bem-estar social, e povos do mundo todo se inspiraram na Alemanha. Mas a centralização socialista levou ao comunismo, ao fascismo, ao nacional-socialismo, e outras tiranias brutais. O estado de bem-estar social acorrentou outras centenas milhões de pessoas com impostos e regulamentos. Após a segunda guerra mundial, a América emergiu como a principal esperança do mundo. Tocqueville havia previsto tudo. Hoje é considerado um profeta. As últimas décadas trouxeram sua biografia mais abrangente (1988) e novas edições de suas obras completas, a mais recente começando em 1991. Hoje todos podem ver por si mesmos a maravilha deste homem atormentado, que viu através da neblina do tempo, nos preveniu dos horrores do coletivismo, e corajosamente proclamou a redenção através da liberdade.