Biografia: Anne Robert Jacques Turgot

Turgot-ministre

Em meados do século XVIII, vários autores já tinham dado expressão a uma idéia de liberdade que passou a ser conhecida como laissez-faire. Anne Robert Jacques Turgot às colocou em prática.

Como administrador regional e, mais tarde, controlador geral da França, uma nação que tinha sucumbido à monarquia absolutista, ele deu passos largos em direção à liberdade. Declarou-se a favor da tolerância religiosa. Garantiu a liberdade de expressão. Concedeu às pessoas a liberdade de aspirar aos trabalhos de sua escolha. Cortou os gastos governamentais. Opôs-se à inflação e defendeu o ouro. Aboliu impostos onerosos e restrições comerciais. Aboliu os privilégios do monopólio e o trabalho forçado.

Turgot era respeitado pelos principais pensadores defensores da liberdade, como o Barão de Montesquieu, o Marquês de Condorcet e Benjamin Franklin. Referindo-se a Turgot, Adam Smith escreveu que tinha a felicidade de conhecê-lo e de, para seu júbilo, gozar de sua estima e amizade. Depois de encontrar-se com Turgot em 1760, Voltaire disse a um amigo: “talvez eu nunca tenha conhecido um homem mais amável ou mais bem informado”. Jean Baptiste Say, que inspirou vários libertários franceses durante o século XIX, afirmou que existem poucos trabalhos que podem render para um jornalista ou para um estadista mais frutos em fatos ou instrução do que os escritos de Turgot. Pierre-Samuel Du Pont de Nemours, um francês defensor do laissez-faire e fundador de família industrial americana, fez um grande elogio a seu amigo Thomas Jefferson ao chamá-lo de “o Turgot americano”.

Turgot possuía uma visão extraordinária. Por exemplo, previu a Revolução Americana em 1750, mais de duas décadas antes de George Washington e Benjamin Franklin verem-na acontecer. Em 1778, Turgot alertou aos americanos que a escravidão era incompatível com uma boa constituição política. Advertiu que os americanos deveriam temer mais uma guerra civil do que uma guerra contra inimigos estrangeiros. Previu que os americanos estavam destinados ao crescimento, mas através da cultura e não da guerra. Turgot alertou o rei francês Luís XVI de que a menos que os impostos e os gastos governamentais fossem reduzidos, aconteceria uma revolução que poderia custar-lhe a cabeça. Turgot alertou sobre os riscos do dinheiro expedido em papel pelo governo e, quando se recorreu a ele durante a revolução francesa, o resultado foi uma inflação desenfreada e um golpe militar. Turgot mostrou como as pessoas poderiam fazer a transição entre o absolutismo e o autogoverno.

Embora poucos escritos de Turgot tenham sido publicados durante a sua vida, ele fervia com suas idéias pela liberdade. Turgot era um homem talentoso demais para escrever qualquer coisa insignificante, observou o historiador Joseph A. Schumpeter. Comentando o seu trabalho mais importante, um volume fino, Schumpeter apontou que ali se via uma teoria de comércio, preço e dinheiro que “é quase perfeita até onde vai... uma visão completa de todos os fatos essenciais e suas interrelações mais a excelência da formulação.”

Primeiros anos

Anne Robert Jacques Turgot nasceu em Paris, em 10 de maio de 1727. Era o terceiro e mais jovem filho de Michel Tienne Turgot e Madeleine Francoise Martineau. Seu pai era um funcionário público que ajudou a construir o sistema de esgoto de Paris. Criança deselegante, Turgot não parecia se dar bem com sua mãe, que reconhecidamente estimava as boas maneiras acima de tudo. A família, que possuía raízes normandas, vivia confortavelmente.

Desde cedo, Turgot cultivou um amor pelo estudo. Freqüentou o College Du Plessis, onde descobriu as teorias do físico inglês Isaac Newton. Era tradição que o filho mais jovem se tornasse padre e, de acordo com o costume, Turgot foi matriculado no seminário de Saint-Sulpice, onde se graduou em teologia e se tornou conhecido como Abbé de Brucourt. Depois entrou para a Sorbonne.

Um colega seu chamado Morellet observou que todos que o conheceram pessoalmente consideravam-no doce. Nesse tempo, sua mente já demonstrava todas as qualidades que se desenvolveriam mais tarde, como a sagacidade, a penetração e a profundidade. Ele possuía a simplicidade de uma criança e, ainda assim, ela era compatível com um tanto de dignidade. Apesar de sua notável aparência física, Turgot era tímido com as mulheres. Nunca se casou.

Turgot aprendeu inglês, alemão, grego, hebreu, italiano e latim. Rraduziu para o francês obras de César, Homero, Horácio, Ovídio, Sêneca, Virgílio e outros autores clássicos, bem como os escritos de autores do século XVIII como Joseph Addison, Samuel Johnson e Alexander Pope. Também traduziu o ensaio de David Hume “On the Jealousy of Trade” [“Sobre o ciúme no comércio”].

A primeira vez que Turgot escreveu sobre economia foi em 7 de abril de 1749, em uma carta a seu amigo Abbé de Cice. Atacou as doutrinas do financista escocês John Law, que se mudou para a França em 1716, que começavam a promover o que se tornou uma terrível inflação. Defendendo o padrão ouro, Turgot escreveu: É ridículo dizermos que o dinheiro metálico é apenas um sinal de valor, cujo crédito é instituído pelo selo do rei. Esse selo serve apenas para certificar o peso e o título. Mesmo em sua relação com os bens, o metal natural possui o mesmo preço que o transformado em moeda, cujo valor nela impresso é simplesmente uma denominação. Aparentemente, é isso que Law parece não ter compreendido quando estabeleceu seu banco.

Assim, é como mercadoria (não como denominação) que a moeda é a medida comum de outras mercadorias, e não por uma convenção arbitrária, baseada no glamour do metal, mas porque, podendo ser usada sob diversas formas como mercadoria, e tendo por conta disso um valor vendável, levemente aumentado por seu uso enquanto dinheiro, e sendo ainda adequada à redução a um padrão definido e à divisão igual em partes, que sempre sabemos seu valor. O ouro deriva seu preço de sua raridade.

Enquanto esteve na Sorbonne, em dezembro de 1750, Turgot escreveu uma dissertação em latim (“Sobre os avanços sucessivos da mente humana”) que fornecia uma avançada visão sobre o progresso humano.

Turgot saudou o otimismo americano. “Vamos apontar nossos olhos para longe daquelas visões tristes, vamos colocá-los sobre as imensas planícies do interior da América... O solo, até então incultivável, passa a ser fértil pelo trabalho de mãos dedicadas. A observação fiel das leis mantém, a partir de agora, a tranqüilidade dessas regiões especiais. A destruição das guerras é desconhecida ali. A igualdade exterminou neles a pobreza e a luxo e preserva ali, com liberdade, a virtude e a simplicidade; nossas artes se espalharão por lá, mas sem nossos vícios. Que povo feliz!”

Nessa época, Turgot tinha dúvidas sobre se escolheria o sacerdócio. Confidenciou a seu amigo Du Pont de Nemours (1739-1817) que seria impossível desistir de si e passar toda sua vida usando uma máscara. Turgot obteve a permissão de seu pai para seguir carreira no direito e deixou a Sorbonne.

Com seu evidente conhecimento e inteligência, conheceu muitos dos principais pensadores da época, inclusive o filósofo político Charles Louis de Secondat (o Barão de Montesquieu), o filósofo Claude Adrien Helvetius e o matemático Jean Le Rond D’Alembert. Em janeiro de 1752, Turgot conseguiu uma indicação para uma posição governamental secundária, vice-conselheiro do procurador-geral. No ano seguinte, foi apontado – supostamente depois de pagar uma recompensa – para o parlamento real, que funcionava como uma corte. Não havia nenhuma assembléia legislativa.

Primeiras obras

Le Conciliateur, primeira obra de Turgot a ser publicada, foi lançada em 1754. Era um panfleto que se opunha aos planos de se retomar a perseguição religiosa. Como católico, dirigindo-se aos católicos, escreveu: “eu sei quantas guerras tiveram heresias em suas origens, mas será que isso não aconteceu apenas porque nós insistimos nelas? O homem que crê sinceramente crê com mais firmeza se pudermos forçá-lo a mudar sua crença sem convencê-lo; ele então se torna um obstinado, a sua obstinação acende seu fervor, seu fervor o inflama; nós desejamos convertê-lo, nós fizemos dele um fanático, um louco. Os homens demandam apenas liberdade para suas opiniões; se você os priva disso, coloca armas em suas mãos. Dê-lhes liberdade e eles permanecerão quietos, como os luteranos em Estrasburgo. Então, é exatamente a unidade religiosa que promovemos, e não as opiniões diferentes que toleramos, que causaria os problemas e a guerra civil.”

“Se as prisões da inquisição eram terríveis”, continuou, “a própria França tem tido muitas onde ecoam os gritos das consciências oprimidas. Se as primeiras eram injustas, porque deveríamos autorizar o funcionamento das novas? Nós, que condenamos com horror o ministério da Igreja que, através da tortura, coagia as mentes, devemos conceder a nosso rei o direito de subjugá-las? Encaramos com indignação as imposições que, na Espanha e na Itália, obstruem os direitos de livre consciência; a menor reflexão deveria nos impedir de sermos tão solidários com a consciência de nossos próprios cidadãos.”

Enquanto isso, Turgot tinha se tornado amigo de Jacques Claude Marie Vincent, o Marquês de Gournay (1712-1759), o qual o historiador Joseph A. Schumpeter chamou de “um dos maiores professores de economia de todos os tempos”. O Marquês de Gournay viajou por toda Europa e era especialmente familiar com as práticas comerciais inglesas e holandesas, e era discípulo de Richard Cantillon, o autor de Essai sur la nature du commerce en général [“Ensaio sobre a natureza do comércio em geral”], que ofereceu talvez a primeira visão ampla das operações do livre mercado.

Em 1748, Gournay recebeu uma herança, largou os negócios e comprou para si um cargo governamental de inspetor de fábricas. Entre 1753 e 1756, convidou Turgot para acompanhá-lo em suas visitas à companhias em Anjou, Bourgogne, Bretanha, Delfinado, Languedoc, Lyonnais, Maine e Provença. Turgot pôde ver que o comércio era crucial. Além disso, os princípios de Gournay, favoráveis ao livre comércio, tiveram um impacto sobre Turgot.

No ano em que Gournay morreu, Turgot escreveu seu Éloge de Gournay [Elogio de Gournay], em que explicava porque os funcionários do governo não poderiam comandar a economia. Por exemplo: se o governo limita o número de vendedores por meio de privilégios exclusivos ou de qualquer outra forma, é certo que o consumidor será prejudicado e que o vendedor, tendo certeza de que irá vender, irá forçá-lo a comprar produtos ruins e caros. Por outro lado, se o número de compradores é diminuído pela exclusão de estrangeiros ou de certas pessoas, então o vendedor é prejudicado, e se o dano continuar até o ponto em que o preço não consiga mais cobrir seus custos e riscos, ele deixará de produzir a mercadoria, o fornecimento regular dela será ameaçado e a conseqüência disso poderá ser a fome. Assim, a liberdade geral de compra e venda é o único meio para assegurarmos que, do lado do vendedor, o preço é suficiente para encorajar a produção; e que, por outro lado, o comprador terá os melhores produtos pelos melhores preços.

Desejar que o governo tenha a obrigação de evitar que ocorram fraudes seria o mesmo que desejar que ele forneça capacetes para todas as crianças que possam escorregar. Supor que através das regulamentações se pode evitar toda corrupção possível é sacrificar, em favor de uma perfeição quimérica, todo o progresso da indústria.

Os fisiocratas

Turgot defendeu a liberdade econômica em Fondations [“Fundamentos”] e Foires et Marchés [“Feiras e Mercados”], artigos para o famoso e influente volume 17 da Encyclopédie, de Denis Diderot (1751-1772). Turgot já tinha se familiarizado com as visões dos fisiocratas. Du Pont de Nemours (1739-1817), economista, editor e funcionário público, criou o termo a partir dos termos gregos physis [natureza] e kratein [governo]. Seu livro Physiocratie foi publicado em 1768. O ousado e destemido Du Pont tornou-se amigo íntimo de Turgot, que foi padrinho de seu terceiro filho e sugeriu o nome de seu filho – Eleuthere Irénée (“Liberdade Paz”) – destinado a lançar o colosso familiar, E.I. Du Pont de Nemours & Cia.

O termo “fisiocrata” se referia às idéias popularizadas por François Quesnay (1694-1774), filho de um nobre que se tornou um cirurgião e comprou sua posição como médico do rei Luís XV e sua influente cortesã Madame de Pompadour. Os historiadores Will e Ariel Durant escreveram que embora Quesnay fosse um dogmatista presunçoso em suas obras, pessoalmente ele era muito afável, célebre por sua integridade em um ambiente imoral.

Quesnay atacava os impostos e as restrições ao comércio em seus artigos para a Encyclopédie (1756), em seu pequeno livro Tableau économique (1758), e em outras obras. “Existirá prosperidade”, insistia, “se cada pessoa for livre para cultivar em seus campos tantos produtos quanto quiser, o quanto puder cultivar e o quanto sua terra lhe permitir.”

De acordo com os historiadores Will e Ariel Durant, Luís XV perguntou a Quesnay o que ele faria se fosse rei. “Nada”, respondeu Quesnay. “Quem, então, governaria?” “As leis”, respondeu. Com isso, o fisiocrata quis dizer “as leis” inerentes à natureza do homem e a administração da oferta e da demanda. Em 17 de dezembro de 1754, o rei baixou um decreto abolindo todas as restrições sobre o comércio do trigo, centeio e milho, mas o insucesso da safra seguinte elevou os preços e houve um clamor para que se restabelecessem os controles. Os decretos foram revogados em 23 de dezembro de 1770.

Talvez a filosofia política dos fisiocratas tenha sido melhor expressa no livro L’ordre natural et essentiel des sociétés politiques [A ordem natural e essencial das sociedades políticas], de Pierre-Paul Mercier de la Riviere (1720-1793), publicado em 1767. Você quer que a sociedade obtenha os mais altos níveis de poder, populacional e de saúde? Então confie seus interesses à liberdade e deixe que ela seja universal. Por meio dessa liberdade (que é o elemento essencial da indústria) e do desejo de se divertir – estimulado pela competição e esclarecido pela experiência e pelo exemplo – você tem a garantia de que todo mundo irá sempre atuar em favor de sua maior vantagem possível e, conseqüentemente, contribuirá com todo poder de seu interesse particular para o bem comum, tanto para o governante quanto para qualquer membro da sociedade.

Em 8 de agosto de 1761, Turgot foi nomeado intendente (administrador chefe) das províncias de Angomois, Basse-Marche e Limousin, localizada na região central da França, que passou a ser conhecida mais tarde como Limoges. Conforme explicou Alexis de Tocqueville, historiador e pensador do século XIX, o intendente tinha sob sua posse a realidade completa do governo. Todos os poderes que o próprio Conselho de Estado possuía estavam acumulados em suas mãos. Como o Conselho, ele era ao mesmo tempo administrador e juiz. Ele mantinha correspondência com todos os ministros e era o único agente de todas as medidas do governo na província.

Limoges era uma das regiões mais pobres da França. Quase todos os seus 500 mil habitantes eram camponeses que viviam de castanhas, centeio e trigo sarraceno. De acordo com o fisiocrata Marquês de Mirabeau (1715-1789), os camponeses vestiam trapos e moravam em cabanas feitas de barro, com um telhado de palha, e os agricultores mais ricos de Limoges conseguiam matar apenas um porco por ano. O historiador Hyppolyte Taine, que reuniu uma quantidade impressionante de material sobre as condições de vida dos habitantes, relatou que muitos agricultores utilizavam arados que não eram melhores que os usados na Roma antiga. Turgot declarou: “Vejo com dor que em algumas paróquias apenas os padres assinam, porque ninguém mais sabe escrever”.

Os agricultores em Limoges, como em todo lugar, eram esmagados pelos impostos. O historiador econômico Florin Aftalion registrou que havia aproximadamente 1.600 postos alfandegários em toda França para recolher os impostos à medida que as mercadorias passassem pelos vários pontos ao longo das estradas e rios. Por exemplo, como explicou o pesquisador Andrew Dickson White, da Cornell University, no rio Loire, entre Orleans e Nantes, uma distância de aproximadamente trezentos quilômetros, havia 28 postos alfandegários; e entre Gray e Arles, nos rios Saône e Rhone, em uma distância de aproximadamente quatrocentos e cinqüenta quilômetros, havia mais de 30 postos, causando grandes atrasos e retendo de 25 a 30% do valor dos produtos transportados.

Havia vários outros impostos, inclusive sobre o sal. O taille totalizava aproximadamente um sexto da renda dos agricultores e precedia os impostos feudais e o dízimo. Os agricultores conservavam apenas um quinto de seus ganhos. O taille, do qual 130 mil clérigos e 140 mil aristocratas estavam isentos, era baseado em uma estimativa feita pelo coletor de impostos, em relação à capacidade do agricultor de pagar, ou seja, de acordo com sua aparência. Du Pont de Nemours observou: eles [os agricultores] não se atrevem a adquirir o número de animais necessários para se ter uma boa lavoura; eles se acostumaram a cultivar seus campos de uma maneira pobre, para que aparentem ser pobres, o que acabam sendo, no fim das contas; eles fingem ter dificuldade para pagar, tentando pagar menos; os pagamentos, que eram inevitavelmente lentos, ficaram ainda mais; eles não tinham prazer algum com sua comida, habitação ou vestuário; passavam seus dias sofrendo com a privação e a tristeza.

Turgot se concentrou nos impostos mais impopulares, começando pelo taille. A abolição do taille não estava sob seu poder, mas ele fez o que pôde. Tradicionalmente, os funcionários do setor financeiro do governo teriam estimado quanto dinheiro gastariam nas guerras, na manutenção de Versailles, com os burocratas, entre outras coisas, e isso determinava a quantidade de arrecadação fiscal necessária. Eles demandavam a mesma parcela de impostos de cada distrito, todos os anos, mesmo que tivesse ocorrido um declínio econômico em alguns distritos, o que na prática significava um aumento de impostos.

Turgot atribuía o declínio econômico de Limoges aos altos impostos. Pediu que a cota de impostos de seu distrito fosse cortada em 400 mil livres. Doi cortada em 190 mil. Ano após ano, nos 13 anos em que foi intendente em Limoges, defendeu o corte de impostos.

Turgot tinha o poder de abolir a corvéia – o trabalho forçado – , que era o imposto mais odiado entre os agricultores. Remanescente da servidão, estabelecia a obrigação feudal de os agricultores exercerem uma certa quantidade de trabalho sem receber por ele. A corvéia acabou se tornando uma exigência de que os trabalhadores trabalhassem até 14 dias por ano nas estradas do rei, quebrando, carregando e removendo pedras. Freqüentemente acontecia nos piores momentos, quando os agricultores estavam ocupados com suas lavouras. Os proprietários das terras, aqueles que mais lucrariam com as estradas, não contribuíam com nada. Como era de se esperar, o trabalho forçado resultava em um trabalho medíocre e as estradas eram péssimas.

Turgot contratou empreiteiros competentes para construir e melhorar as estradas, e aproximadamente 650 quilômetros foram construídos em Limoges. Cobriu os custos com impostos moderados. Os clérigos e aristocratas permaneceram isentos, mas pelo menos os agricultores estavam livres para trabalhar em suas terras. Limoges passou a ser conhecido como o distrito com as melhores estradas – o sonho de todos os viajantes, como relata W. Walker Stephens, biógrafo de Turgot.

Turgot fez muito para ajudar a melhorar a agricultura. Quando toneladas de grãos foram perdidos em razão da traça e do gorgulho, ele ajudou a Sociedade da Agricultura de Lomoges a buscar melhores métodos de armazenamento. Para ajudar a diversificar as fontes de alimentos, pediu que os agricultores plantassem batatas. Como observou o Marquês de Condorcet na biografia de Turgot, “primeiro, as pessoas viram as batatas com desdém, com se estivessem abaixo da dignidade da espécie humana, e não se convenceram do contrário até que o intendente [Turgot] fez com que servissem batatas em sua própria mesa, e aos cidadãos de primeira classe, o que as tornou populares entre os ricos e elegantes.

Turgot mantinha contato com outros que abraçavam as idéias da liberdade. Jantou com o filósofo moral escocês Adam Smith, quando este visitou Paris em 1765. Depois Turgot ajudou a fornecer livros a Smith, enquanto ele trabalhava em seu A riqueza das nações. Porém, como mostrou o historiador Peter Groenewegen, Turgot teve pouco impacto sobre os escritos se Smith, já que o escocês já tinha formado suas principais visões. Como os fisiocratas, os dois acreditavam na liberdade econômica, e diferentemente dos fisiocratas, reconheciam a importância do comércio.

Em 1766, Turgot escreveu um resumo de suas visões, contendo 80 páginas, para dois estudantes chineses em Paris, Réflexions sur la formation et la distribution des richesses [Reflexões sobre a formação e a distribuição das riquezas]. O texto explicava bem como os livres mercados funcionavam e defendia a política do laissez-faire. Embora Turgot não fosse um fisiocrata, ele dividia o seu comprometimento com a liberdade econômica. Du Pont de Nemours publicou Réflexions nos volumes de novembro e dezembro de 1769 de Ephémérides du Citoyen, o jornal fisiocrata. Porém, sem consultar Turgot, Du Pont de Nemours fez várias mudanças, o que desagradou o autor.

Turgot era publicamente contrário à escravidão: “esse costume abominável da escravidão já foi universal e ainda está espalhado pela maior parte do mundo.”

Ele reafirmava a importância de uma moeda forte: “Então, desse modo, chegamos à constituição do ouro e da prata como moeda universal, o que ocorreu sem nenhuma convenção arbitrária realizada por homens, sem a intervenção de qualquer lei, mas pela natureza das coisas. Eles não são, como muitas pessoas imaginam, símbolos de valores; eles são valores em si. Se eles são capazes de ser a medida e a garantia de outros valores, possuem essa propriedade em comum com todos os outros artigos que possuem valor no comércio. Diferem apenas porque, sendo ao mesmo tempo mais divisíveis, mais inalteráveis e mais fáceis de serem transportados do que outros bens, é mais conveniente empregá-los como medida e representação de valores.”

Turgot acabou com um antigo dogma, segundo o qual os juros eram imorais. O preço do dinheiro emprestado é regulado, escreveu, como qualquer outra mercadoria, pelo equilíbrio entre oferta e demanda: dessa forma, quando há muitos mutuários que precisam de dinheiro, as taxas de juros se tornam maiores; quando existem muitas pessoas dispostas a emprestar dinheiro, os juros caem. Assim, é outro erro supor que os juros do comércio de dinheiro deverão ser fixados por leis de príncipes.

Durante a fome de 1769-1772, hipotecou a sua propriedade para obter dinheiro para o auxílio às vítimas. Organizou ações de socorro financiadas quase que completamente por contribuições voluntárias. Os funcionários do tesouro francês afirmavam que os impostos se deviam à campanha de auxílio de Turgot, já que seus registros não eram escritos em papel selado. Expediu uma ordem revogando as leis do imposto do selo em Limoges. A associação dos padeiros de Limoges se movimentou, aumentando o preço dos pães e Turgot respondeu suspendendo o seu monopólio. Incentivou as pessoas a trazer pão de outras cidades, e foi isso que fizeram. Ele insistia que o melhor remédio contra a fome era o livre comércio.

Turgot reforçou sua defesa do laissez-faire ao escrever Lettres sur le commerce des grais, sete cartas ao Controlador-Geral Abbé Terray. Turgot advertia que o governo é incapaz de garantir a segurança econômica. Ele declarou: “O governo não é o senhor das estações e deveriam dizer-lhe que não tem o direito de violar a propriedade dos trabalhadores agrícolas ou dos comerciantes de milho.”

Terray não ouviu os apelos de Turgot. Em dezembro de 1770, o Controlador-Geral determinou que os grãos seriam vendidos apenas em mercados controlados pelo governo. A especulação passou a ser crime. A medida seguinte tornou ilegal o comércio de cereais feito por qualquer comerciante que não possuísse licença. Os monopolistas dos cereais retomavam seu poder.

Abbé Terray pediu a Turgot ajuda para proteger os fundidores de ferro e Turgot respondeu com uma carta conhecida como Sur la marque des fers [Sobre o selo do ferro]. O título se referia ao selo que marcava o ferro, indicando que tinha sido fundido na França, parte dos esforços de evitar o uso de ferro de outros países. “Não conheço qualquer outro meio de se acelerar qualquer comércio, a não ser concedendo-lhe a maior liberdade possível”, escreveu Turgot, “e deixá-lo livre de todos os impostos, os quais foram multiplicados sobre todos os tipos de mercadoria pelo interesse equivocado do tesouro público, e em particular sobre as fabricações de ferro.” Então, falando sobre como as retaliações do comércio sempre acabavam mal, afirmou que “a verdade é que ao tentarmos prejudicar os outros ferimos apenas a nós mesmos.”

Serviço militar

Turgot tinha que lidar com as conseqüências dos serviço militar obrigatório. A repugnância ao serviço na milícia, ele escreveu ao Ministro da Guerra em janeiro de 1773, era tão difundido entre o povo que cada sorteio causava grandes desordens em todo o país, e praticamente uma guerra civil entre os camponeses; uma parte deles, tentando escapar da seleção, se refugiando nas florestas, a outra, com armas na mão, perseguia os fugitivos, tentando capturá-los e sujeitá-los a um destino igual ao seu. A perda de vidas e os maus tratos eram comuns. Era comum a ocorrência do despovoamento em várias paróquias, com abandono do cultivo. Quando chegava a hora de reunir os batalhões, era necessário que os responsáveis das paróquias levassem os homens de sua milícia escoltados pela polícia montada e, às vezes, cercados por cordas. Turgot permitiu que as pessoas contribuíssem voluntariamente com dinheiro para criar um fundo para aqueles que fossem selecionados – e vários passaram a se alistar por dinheiro.

Havia muito ressentimento contra a prática de se forçar os habitantes locais a fornecer casa e comida aos soldados, e Turgot agiu contra isso. Alugou alguns prédios para usar como alojamento e dividiu o custo entre todos os contribuintes. Consta que a disciplina militar melhorou.

No dia 10 de maio de 1774, o rei Luís XV morreu de varíola. Foi sucedido por seu tímido neto, que se tornaria Luis XVI. Sua rainha era Maria Antonieta, de 19 anos, a fútil e bela filha de Maria Theresa, a arrogante imperatriz austríaca.

Na época, a França possuía o maior governo na Europa, com a exceção da Rússia. O governo francês estava em situação desesperadora, tendo afundado em dívidas enormes desde a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) contra a Grã-Bretanha. O palácio real de Versailles era um escoadouro de dinheiro público. Em sua folha de pagamento estavam oito arquitetos, 47 músicos, 56 caçadores, 295 cozinheiros, 886 nobres com suas esposas e filhos, mais secretários, emissários, médicos, capelães e cerca de 10 mil soldados, que cuidavam da segurança. Quase toda semana, aconteciam dois banquetes e dois bailes, e três peças eram encenadas no palácio.

Maria Antonieta irritou a população com sua extravagância com o dinheiro do contribuinte. Casada com um rei impotente, gastou fortunas em jogos de cartas e deu presentes caros para seus favoritos na corte. Gastou centenas de milhares de livres em vestidos. O embaixador austríaco Mercy d’Argentau advertiu sua mãe, Maria Theresa: “Embora o rei tenha dado à rainha, em várias ocasiões, diamantes que valem mais de 100 mil écus, e embora sua majestade já tenha uma coleção enorme, ela decidiu adquirir... brincos de Bohmer. Não escondi de sua majestade que, sob as atuais condições econômicas, teria sido mais inteligente evitar gastos dessa magnitude, mas ela não conseguiu resistir.”

O parlamento de Paris se opôs aos impostos. Esse corpo, cujos lugares eram comprados, era o mais influente dos 13 parlamentos franceses. Tinha adquirido a prerrogativa de aprovar os decretos reais sobre os impostos antes que entrassem em vigor. Se o parlamento se opusesse a um novo imposto, ocorreria um lit de justice: seus membros se reuniriam com o rei na sala de seu trono e tomariam uma decisão que todos deveriam acatar. Mas esse procedimento era bem desagradável.

Luis nomeou o Conde de Maurepas, de 73 anos, como seu conselheiro chefe. Ele tinha ocupado alguns cargos oficiais até 1749, quando fora demitido sob suspeita de ter escrito algumas linhas criticando a cortesã Madame de Pompadour. Porém, Madrepas sabia como usar de sua influência. Jean Francois Marmontel, historiador e dramaturgo real, registrou que “ele possuía olho de lince para apoderar-se das fraquezas dos homens, e uma arte imperceptível de arrastá-los para seus objetivos... Zombava de tudo, inclusive de si mesmo.” Maurepas sabia que, com sua reputação escandalosa, precisaria de figuras respeitadas no governo, e a sua esposa recomendou Turgot. Em 20 de julho de 1774, Turgot foi nomeado para um cargo secundário, Ministro da Marinha.

Em Limoges, como escreveu o biógrafo Leon Say, os aristocratas não conseguiam perdoar Turgot por ter rompido com as tradições que tinham, até aquele momento, lhes favorecido... O que já não se dava os camponeses. Sua partida foi anunciada publicamente do púlpito, por todos os padres da província, que celebraram missas em vários locais em sua homenagem. Os trabalhadores do campo suspenderam seus trabalhos para estar presentes, e todos diziam: “o rei foi sábio ao convocar M. Turgot, mas é muito triste para nós ter que perdê-lo.”

Durante as poucas semanas que Turgot foi Ministro da Marinha, defendeu os contribuintes contra a indústria da construção naval francesa, que tinha grande poder político. Recomendou que o governo comprasse navios na Suécia, ao invés da França, o que reduziria os custos em 40%. Turgot respondeu às objeções dos protecionistas observando que os suecos bebiam vinho e vestiam roupas francesas.

Em 24 de agosto de 1774, Luís se encontrou com Turgot para discutir a situação econômica do país. Encorajado por Maurepas, o rei nomeou Turgot Controlador-Geral. Turgot reconheceu que o tipo de gastos e corte de impostos que imaginava encontraria uma oposição feroz, e que ele precisaria do apoio do rei. Então, marcou uma audiência.

O rei prometeu seu apoio e, mais tarde, Turgot enviou-lhe o seguinte memorando: “Limito-me a recordá-lo de três palavras:

“Não haverá falência.

“Não haverá aumento de impostos.

“Não tomaremos empréstimos.

“Não haverá falências, sejam elas declaradas ou camufladas por reduções ilegais.

“Não haverá aumento de impostos; e a razão para isso é a condição de seu povo, e ainda mais, do próprio coração generoso de Vossa Majestade.

“Não tomaremos empréstimos; porque cada empréstimo sempre diminui as receitas e exige, depois de certo tempo, a falência ou o aumento dos impostos. Em tempos de paz é admissível tomar empréstimos apenas para liquidar nossos débitos ou para pagar outros empréstimos contraídos em termos menos vantajosos.

“Para satisfazer esses três pontos, só há uma maneira. Reduzir os gastos a um nível inferior aos das receitas, suficientemente inferior para garantir a cada ano uma poupança de 20 milhões, a ser aplicada no saneamento de débitos antigos. Sem isso, o primeiro tiro disparado levará o Estado à falência.

“Uma pergunta será feita, com ceticismo, ‘onde poderemos economizar?’, e cada um, falando de seu próprio departamento, afirmará que quase todos os seus gastos são indispensáveis. Serão capazes de alegar boas razões, mas todas as razões devem produzir uma absoluta necessidade de economia.

“Então, é de absoluta necessidade que Vossa Majestade exija que todos os chefes de todos os departamentos se harmonizem com o Ministro das Finanças. É indispensável que ele discuta com eles, na presença de Vossa Majestade, o nível de necessidade de todos os gastos propostos. É acima de tudo necessário que tão logo o senhor se decida em relação à escala de manutenção estritamente necessária a cada departamento, que o senhor proíba o funcionário responsável de adquirir qualquer nova despesa sem ter resolvido com o tesouro os meios de pagar por ela...”

A primeira prioridade de Turgot era estabelecer a liberdade do comércio de cereais, como tinha feito em Limoges. Em 13 de setembro de 1774, Turgot baixou um decreto e escreveu: “deve ser livre a todas as pessoas prosseguirem, da forma que lhes parecer melhor, com o comércio de milho e farinha, vendendo e comprando em quaisquer localidades que escolherem em todo o reino.”

Voltaire não conseguia acreditar: “Soube que um Ministro de Estado que não era advogado, nem padre, acabou de baixar um decreto que, apesar dos preconceitos mais sagrados, permitia às pessoas de Périgourdin comprar e vender trigo em Auvergne... Vi em meu cantão uma dúzia de trabalhadores, meus irmãos, que leram o decreto. “O quê?”, disse um velho; “Há sessenta anos leio esses decretos que, em uma linguagem inteligível, sempre nos tiram nossas liberdades naturais; mas agora temos um aqui que restabelece as nossas liberdades e eu consigo compreender cada palavra sem dificuldade. Essa é a primeira vez que um rei leva em consideração o seu povo.”

A França tinha por um longo tempo penalizado estrangeiros e, em novembro de 1774, Turgot derrubou algumas de suas piores leis. Por exemplo, a lei que determinava que a propriedade de um estrangeiro morto seria transferida ao governo. Essas leis, observou Du Pont de Nemours, impediam que um grande número de pessoas inteligentes e artistas criativos, de capitalistas e de comerciantes, que não desejam nada mais que tornar a França um grande centro, se estabelecesse no país e que afastava até mesmo estrangeiros aposentados, atraídos pelos prazeres da sociedade e pela suavidade do clima. Du Pont enfatizou que Turgot continuou sem demandar reciprocidade, já que a parte boa de suas mudanças certamente iria para a França e a parte ruim ficaria com quem não a seguisse.

Em janeiro de 1775, Turgot sofreu um ataque de gota, que envolvia uma inflamação e uma forte dor em suas pernas. Durante os quatro meses seguintes, foi carregado em uma cadeira até o local de trabalho do rei. De lá, dirigia a quarentena das regiões devastadas pela peste do gado. O rei concordou em pagar por um terço do valor dos animais mortos que foram sacrificados e enterrados e isso frustrou os esforços para o controle dos gastos governamentais.

Turgot estabeleceu novos padrões de integridade. Por exemplo, por muito tempo era costume a Ferme générale, uma firma privada que coletava uma quantidade substancial de arrecadação fiscal, dar ao Controlador Geral um suborno de 100 mil livres para assinar um novo contrato. Turgot rejeitou o suborno e aboliu a prática.

Turgot trabalhou para diminuir a voracidade dos burocratas. “As pessoas também reclamam”, escreveu, “dos constrangimentos que experimentam pela severidade extrema das punições, quase sempre por faltas leves. É indispensável corrigirmos isso, bem como as inconveniências que as fábricas enfrentam em razão das contradições nas regulamentações, e para protegê-las do abuso de autoridade pelos órgãos encarregados da inspeção”. Então deu as ordens: “Não se autoriza a tomar qualquer coisa que pertença a eles [aos trabalhadores e pequenos industriais], qualquer coisa ou produto, sob pretexto de defeitos. Vocês se limitarão a estimular esses pequenos artesãos a fazer as coisas melhorarem e indicarão a eles os caminhos para que isso ocorra.”

Em 20 de abril de 1775, manifestações pelo milho irromperam em Dijon, refletindo os medos de que os grãos produzidos naquela região fossem vendidos em outros locais – e não estivessem disponíveis para aliviar a fome em Dijon. As manifestações rapidamente se alastraram por outras cidades. Multidões se mobilizavam pelo campo, gritando “monopólio!” e “fome!” Invadiram mercados, exigindo milho e farinha por um preço menor do que os do comércio. No dia 2 de maio, as manifestações chegaram a Paris, e aproximadamente 8 mil pessoas atacaram lojas de farinha em torno de Versailles. O parlamento de Paris baixou um decreto e publicou avisos, conclamando as pessoas a pedir ao rei preços mais baixos para o pão, e ele cedeu. Turgot disse ao rei que a violência deveria ser sufocada imediatamente e a ele foi dado o comando de uma força de 25 mil homens para proteger um fluxo ordenado de grãos para os mercados. Ele removeu os avisos do parlamento. Seus rivais na corte não ficaram satisfeitos.

Entre junho e agosto de 1775, Turgot baixou decretos abolindo impostos instituídos por cidades como Beune, Bordeaux, Dijon e Pontoise.

A liberdade de expressão

Turgot respeitava a liberdade de expressão. Por exemplo, o político e financista Jacques Necker escreveu o panfleto Sur la législation et le commerce des grains [“Sobre a legislação e o comércio de grãos”], que criticava as visões do laissez-faire e defendia as restrições governamentais sobre o comércio de grãos. Turgot deixou que fosse publicado.

Embora Turgot nunca tenha contestado a legitimidade da monarquia, convenceu-se de que as pessoas deveriam se preparar para o autogoverno. Com Du Pont de Nemours, esboçou um plano para as assembléias paroquiais, assembléias das vilas, assembléias distritais, assembléias provinciais e uma assembléia geral. A participação seria aberta para aqueles que possuíssem terras (em qualquer quantidade) e recebessem pelo menos 600 livres por ano. Os indivíduos que ganhassem menos de 600 livres por ano teriam votos fracionais. Infelizmente, com tudo que estava acontecendo, o plano nunca foi apresentado ao rei.

A coroação do Rei colocou Turgot em conflito com o establishment. Os tradicionalistas queriam que a cerimônia fosse realizada na catedral de Rheims, e o clero queria que o Rei fizesse um juramento de intolerância, “Eu juro... exterminar completamente dos meus Estados, todos os hereges... condenados pela Igreja.” Os clérigos insistiam: “é seu papel cuidar do último ataque ao Calvinismo no seu reino. Ordene a dispersão das assembléias heterodoxas dos protestantes; exclua o sectarismo, sem distinção, de todas as repartições da administração pública. Assim, Vossa Majestade irá assegurar a unidade da adoração católica.”

Como o Governo estava muito endividado, Turgot queria uma coroação muito mais barata em Paris, e ele se opôs ao juramento. Ele próprio escreveu uma nota ao Rei, "Sur la tolerance", dizendo que o juramento era má idéia, mesmo se ninguém levasse a sério uma Inquisição assassina. “O príncipe que ordena seu súdito a professar uma religião na qual que não acredite”, escreveu Turgot, “ordena um crime; o súdito que obedece vive uma mentira, trai sua consciência, faz algo que, acredita ele, é proibido por Deus. O Protestante que através do seu próprio interesse ou medo torna-se católico, e o católico que pelos mesmos motivos torna-se protestante, são ambos culpados do mesmo pecado”. O rei decidiu jogar para o alto questões orçamentárias e ser coroado em Rheims. Concordou em fazer o temível juramento, mas apenas o murmurou, e ninguém conseguiu entender suas palavras.

Aparentemente, o rei estava dando ouvidos a Turgot quando nomeou Chrétien Lamoignon de Malesherbes ao cargo de Ministro do Rei, Maison du Roi, uma posição na qual ele poderia influenciar o rei a reduzir a extravagância de Versailles.

O orçamento era um campo de batalha. No início de 1775, o governo tinha uma receita de 337 milhões de libras, mas apenas 213 milhões sobravam depois dos juros da dívida. Os custos do governo somariam 235 milhões – portanto, um déficit de 22 milhões de libras. Turgot cortou muitos gastos, incluindo as sinecuras dos aristocratas.

Enquanto isso, Turgot havia se convencido de que a severidade dos problemas do país exigia uma ação decisiva, e concebeu aqueles que ficariam conhecidos como os seis éditos.

Dois eram de suma importância. Turgot iria abolir as guildas, que monopolizavam diversas profissões. Como os sindicatos modernos, essas guildas criavam barreiras de entrada que privilegiavam o enriquecimento dos seus membros. Como conseqüência, havia poucos trabalhadores capacitados, e eles se concentravam na produção de bens de luxo. Turgot iria permitir que qualquer um, inclusive estrangeiros, entrasse em qualquer carreira, com a exceção da barbearia e da produção de perucas. A razão para essas exceções era que Turgot oferecia compensar as pessoas pela perda de seus privilégios, e dada a situação financeira, não era possível para o governo compensar os membros dessas duas profissões.

O segundo importante edital de Turgot iria abolir a corvéia, a prática de forçar os camponeses a trabalhar nas estradas sem compensação. Propôs que todos os proprietários e beneficiários diretos das melhorias nas estradas pagassem um imposto que iria para os trabalhadores das obras.

Turgot pensava em fazer essas propostas controversas mais politicamente viáveis ao apresentá-las com outras quarto propostas, que teriam maior suporte. Outras propostas incluíam abolir as restrições domésticas sobre o comércio de grãos; dispensar os oficiais que impunham restrições sobre os mercados portos e docas parisienses, abolir a Caisse de Poissy, um imposto sobre o gado e a indústria pecuária; e, finalmente, cortar o imposto sobre a banha animal.

Durante os últimos meses do ano de 1775, Luís XVI ponderou os benefícios dos editais com a oposição que eles iriam certamente incendiar. Turgot sofreu outro ataque reumático e esteve ausente enquanto a oposição se intensificava. Malesherbes aconselhou Turgot a ir devagar, mas Turgot, então com 48 anos, respondeu: “as necessidades da população são enormes e, na minha família, todos morremos de reumatismo aos 50 anos.

Apesar das objeções de seus irmãos e conselheiros, com exceção de Turgot e Malesherbes, Luís XVI aprovou os seis éditos. Em cinco de fevereiro de 1776, os apresentou ao Parlamento de Paris. Houve resistência, mas o rei declarou: “meu parlamento deve respeitar a minha vontade”.

Parlement apoiava as guildas porque muito de seus membros eram advogados, e as guildas rendiam processos lucrativos. Um caso notório entre a guilda dos alfaiates e a guilda dos vendedores de roupas usadas arrastou-se por mais de 250 anos. Tendo à frente o Príncipe de Conti, que acreditava que perderia 50.000 livres por ano se as guildas fossem abolidas, as autoridades locais partiram para o ataque, a fim de proteger seus privilégios.

Como se esses seis éditos não bastassem para desafiar o establishment, Turgot apresentou outro, abolindo as leis que restringiam o comércio de vinho. Em Bordeaux, por exemplo, era ilegal comprar e vender vinho de outro distrito. Os vinhos da região do Languedoc não poderiam ser enviados pelo rio Garonne antes do dia de São Martim. Os vinhos de Périgorg, não antes do Natal. Turgou afirmou: “É o interesse de todo o reino que devemos considerar, os interesses e direitos de todos os nossos súditos, os quais, enquanto compradores e vendedores, têm o mesmo direito de encontrar um mercado para suas mercadorias e obter o objeto de suas necessidades em condições que lhes sejam as mais vantajosas.”

Advogados, nobres, monopolistas, membros do clero – todos estavam contra Turgot. Maurepas, que tinha nomeado Turgot, criticou-o em público e fez manobras por suas costas. Como explicou Douglas Dakin, seu biógrafo, “Bastava não defender Turgot e confirmar as suspeitas do rei com uma palavra aqui e ali para que, a longo prazo, atingisse seu objetivo. Tudo o que chegava aos ouvidos do rei – fatos infinitamente distorcidos, acontecimentos fortuitos que em épocas normais teriam tido pouca importância, as mentiras gratuitas inventadas pelos detratores de Turgot – começou a ganhar unidade e a transformar-se em prova incontroversa... Maria Antonieta, revoltada com os esforços de Turgot para despedir os incompententes e cortar os gastos do palácio, fazia intrigas contra ela. Ela não tinha o menor interesse em idéias. “Devo admitir que sou preguiçosa e distraída para as coisas sérias”, disse à mãe.

“Não posso esconder de Vossa Majestade”, escreveu Turgot em 30 de abril, “a profunda dor que senti por causa do silêncio que dispensastes a mim no último domingo, depois de eu ter explicado, em minhas cartas anteriores, a minha posição, a posição de Vossa Majestade, o perigo por que passam a vossa autoridade e a glória de vosso reino, e minha impossibilidade de continuar a servi-lo a menos que tenha vosso firme e resoluto apoio. Vossa Majestade não se dignou a responder-me... Vossa Majestade não me oferece ajuda nem consolo. Como posso crer que ainda me estimais? Senhor, não mereço isto...” O rei não respondeu.

Em 12 de maio de 1776, Turgot foi demitido. Ele alertou a Luís XVI: “lembre-se, Sr., que foi a fraqueza que trouxe abaixo a cabeça de Charles I”, disse do rei da Inglaterra.

Voltaire expressou o sentimento dos muitos que aguardavam uma reforma: “Ah, mon Dieu, que tristes notícias escuto!” ele escreveu três dias após a queda de Turgot. “A França teria sido muito afortunada... Estou inundado de desespero”. O Marquês de Condorcet escreveu: “Adieu! Tivemos um lindo sonho.”

O gasto governamental disparou. As guildas tinham novamente poder de monopólio. As restrições internacionais sufocavam o comércio. O regime trouxe o trabalho forçado de volta.

Sem organizar grupos de apoio popular, o sucesso de Turgot em combater interesses especiais foi raramente igualado. Sua experiência lhe informava da fragilidade das reformas que dependiam da boa vontade do governante. No final das contas, medidas do governo não podem substituir a educação do povo.

Turgot se mudou para uma casa na rue de Bourbon, em Paris, onde ele podia sossegadamente estudar ciência, literatura e música. Para Benjamin Franklin, representante dos interesses americanos em Paris, ele escreveu Mémoire sur l’impôt [“Memórias dos impostos”] a fim de explicar a economia política de laissez-faire.

Em um de seus últimos escritos, uma controversa carta datada de 22 de março de 1778 para o ministro Richar Price, um radical inglês, Turgot expressou seu apoio à independência americana, apesar de não acreditar que o governo francês poderia arcar com a ajuda financeira. Turgot criticou as constituições dos estados americanos por estabelecerem um executivo forte – uma imitação nada razoável dos modos britânicos – em vez de deslocar o poder para a legislatura. Turgot denunciou tarifas e impostos estaduais absurdos. Pediu aos americanos que reduzissem ao mínimo a quantidade de matérias reservadas ao governo de cada estado. Ele declarou que “o asilo que a América concede aos oprimidos de todas as nações irá consolar o mundo”. A carta fez com que John Adams defendesse a separação de poderes nos três volumes do seu Defense of the American Constitution [“Defesa da constituição americana”], publicado apenas em 1787, após a morte de Turgot. Adams, apesar do seu temperamento difícil, gostava de Turgot e o descreveu como uma pessoa sóbria, sensível e amável.

Turgot sofreu mais ataques reumáticos e, após 1778, podia apenas andar de muletas. Sua situação se tornou crítica em 1781. Ele morreu cerca das 23 horas, no dia 18 de março de 1781. Seus amigos Mme. Blondel, a Duquesa d’Enville, e Du Pont de Nemours estavam ao seu lado.

Após rejeitar as reformas pacíficas de Turgot, o governo francês tropeçou em uma crise após a outra. Em 1788, as despesas militares tomavam um quarto do orçamento nacional, e metade do orçamento ia para o pagamento da dívida nacional, que atingia 4 bilhões de livres. Houve rebeliões contra os impostos. O governo estava quebrado e o rei e a rainha tiveram de entregar seus talheres para a casa da moeda real. Desesperado por dinheiro, o rei concordou em convocar a Assembléia dos Estados Gerais, composta pela nobreza, o clero, e os pagadores de impostos: um grupo que não se reunia há um século e meio. Essa se tornou a Assembléia Nacional, para a qual Du Pont de Nemours havia sido eleito. Quando ela se revoltou contra os nobres, o rei tomou a decisão fatal de apoiar a nobreza. A Assembléia Nacional aboliu as guildas e alguns dos piores impostos, e confiscou as propriedades da igreja. O ódio transbordou em opressão, como Turgot havia previsto. Em 21 de janeiro de 1793, Luis XVI foi decapitado na guilhotina de Paris. Maria Antonieta – ridicularizada como Madame Déficit – seguiu o mesmo destino do marido em 16 de outubro do mesmo ano. O povo francês sofreu com uma inflação desenfreada, o Terror, e o golpe militar de Napoleão Bonaparte, que afundou o país em mais de uma década de guerras.

Du Pont de Nemours, amigo incondicional de Turgot, havia sido condenado a morrer na guilhotina no dia em que o Terror terminou, e foi resgatado por Madame Germaine de Staël. Du Pont não permitiu que Turgot fosse esquecido. Depois de emigrar para os Estados Unidos, lançou uma edição de nove volumes das obras de Turgot (1808-1811). Outra edição francesa das obras de Turgot apareceu em 1844. Mais tarde, Oeuvres de Turgot et documents le concernant “Obras de Turgot e documentos a seu respeito” foi publicado por G. Schelle, com diversos documentos da família Turgot. Mais de uma dúzia de livros sobre Turgot foram publicados durante o século XIX.

Inspirado por Turgot, o economista Jean Baptiste Say por sua vez ajudou a inspirar o avivamento dos escritos liberais na Europa. Leon Say, neto de Jean-Baptiste, escreveu em sua biografia de Turgot, de 1887: “se fracassou no século XVIII, ele na verdade dominou o século seguinte“ Turgot foi o fundador da economia política do século XIX, e seu legado de liberdade econômica imprimiu na história a marca mais característica desse século. Mais recentemente, Murray N. Rothbard, historiador intelectual e um dos mais ardentes admiradores de Turgot, afirmou que se houvesse um prêmio para “genialidade” na história do pensamento econômico, ele certamente iria para Anne Robert Jacques Turgot.

Turgot possuía uma visão libertadora. Dizia a verdade. Buscava a justiça. Era destemido ao contestar os grupos interessados em privilégios que capturavam o poder do governo por toda parte. Ele demonstrou por que a liberdade é absolutamente essencial para a melhoria da vida dos mais pobres. E mostrou coragem para libertá-los.

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