Biografia: Herbert Spencer

O lendário empreendedor Andrew Carnegie ansiava por conhecer o segredo do progresso humano. Durante o início da década de 1880, ele o encontrou ao juntar-se a um grupo de discussão de Manhattan. Ali ouviu falar do filósofo Herbert Spencer, que tinha escrito largamente sobre o assunto. A liberdade, explicava Spencer, é a chave, pois o mercado livre, sem a intervenção do governo, gera fortes incentivos para que as pessoas continuamente melhorem suas vidas.

Parece que Carnegie ficou maravilhado ao perceber que seu trabalho diário servia a um propósito muito mais elevado, promovendo uma ordem social benéfica. Adotou para si o lema “Tudo está bem, já que tudo cresce melhor”.

Quanto mais Carnegie lia o trabalho de Spencer, mas queria conhecer o filósofo. “Poucos homens desejaram conhecer alguém com a intensidade com que eu queria conhecer Herbert Spencer”, lembraria Carnegie. Por meio de um amigo comum, o liberal clássico inglês John Morley, recebeu uma carta de apresentação e programou-se para fazer uma viagem com Spencer em um barco a vapor de Liverpool para Nova Iorque.

Carnegie descobriu que Spencer, que ele imaginara um “grande e calmo filósofo meditando, como um Buda, sobre todas as coisas”, era um ser humano. Spencer, então com seus sessenta anos, tinham uma altura moderada e era razoavelmente magro. Embora estivesse começando a ficar calvo, seu cabelo permanecia castanho, e era volumoso nas laterais. Ele reclamou da dificuldade para dormir. Sofria de mazelas nervosas. Facilmente criticava o trabalho alheio, e era sensível a críticas a si próprio, mas honesto o suficiente para reconhecer seus erros. Parecia infeliz por viver sozinho, lamentando que “alguém que, como eu, que se devota a livros sérios, precisa contentar-se com o celibato; a não ser, de fato, que consiga uma esposa com meios suficientes para os dois... E mesmo então os cuidados e problemas familiares provavelmente se mostrarão fatais para seus projetos”.

Em junho de 1891, Carnegie supreendeu Spencer ao lhe enviar um presente como sinal de seu apreço. Spencer escreveu para Carnegie: “Estava tão surpreso quanto perplexo ao entrar na minha sala, na tarde de ontem, e ver um piano magnífico encostado na parede... Por todo esse tempo eu simpatizara com sua opinião sobre o uso da riqueza, mas nunca me ocorrera que eu seria um dos beneficiados pela prática das suas convicções”.

Carnegie era um dos milhões que foram inspirados por Spencer, tanto na época como nos dias de hoje. Ele revitalizara o grito de guerra revolucionário pelos direitos naturais, que tinha sido desprezado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham e seus seguidores, os utilitaristas. Spencer mostrou porque a teoria da evolução, documentada pelo naturalista Charles Darwin, significava que o progresso humano acontecia espontaneamente desde que as pessoas fossem livres, e que o governo ficasse fora do caminho. Ele permaneceu um dos mais apaixonados defensores da liberdade, enquanto o socialismo e o militarismo ganhavam força por toda a Europa.

Spencer foi um autor prolífico, que escreveu livros e artigos sobre biologia, educação, ética, psicologia, sociologia, políticas públicas, entre outros temas. Tinha o talento de cunhar expressões marcantes, como por exemplo a expressão “sobrevivência do mais apto”. Da década de 1860 até sua morte no dia 8 de dezembro de 1903, as edições autorizadas dos livros de Spencer, segundo relatos, venderam 368.755 cópias apenas nos Estados Unidos – um número notável para um autor sério. Oliver Wendell Holmes, juiz da Suprema Corte, duvidava de que “com a exceção de Darwin, algum autor da língua inglesa tenha afetado mais todo nosso modo de pensar sobre o universo”.

Uma mente ferozmente independente

Spencer nasceu em Derby, na Inglaterra, no dia 27 de abril de 1820. Seu pai, George Spencer, esforçou-se por anos para ter uma carreira. Tentou repetidamente trabalhar com manufatura de tecidos, e depois com a venda de roupas , mas foi à falência. Ganhava pouco dinheiro dando aula em escolas. Amigos sugeriram-lhe trabalhar em um curtume ou tornar-se clérigo. A mãe de Spencer, Harriet Holmes, não teve uma vida mais fácil: apesar de ter tido cinco filhos e quatro filhas, apenas Herbert viveu além dos dois anos idade.

Ele desenvolveu uma mente ferozmente independente por meio dos seus pais que eram quakers. “A individualidade era pronunciada em todos os membros da família”, lembraria, “e um individualismo pronunciado é necessariamente mais ou menos divergente em relação à autoridade. Uma natureza independente e autônoma resiste a todo governo que não seja declarada e eqüitativamente limitado”.

Sua educação formal era limitada: três anos em uma escola primária e, depois, por um tempo desconhecido (provavelmente breve), ele freqüentou a escola de seu tio William, e teve como tutor, por períodos intermitentes, seu tio Thomas, que era clérigo. Relata-se que aos onze anos de idade parecia estar caminhando por conta própria, freqüentando palestras sobre ciências. Quando seu pai ensinava física e química, o rapaz o ajudava a preparar os experimentos. Educou a si próprio sobre plantas e animais. Ficou bom em desenhar esquemas de coisas. Aprendeu muito ao ouvir os amigos dos seus pais que visitavam, e conversavam sobre política, religião, ciência, e sobre o certo e o errado. Seu pai participava da Derby Philosophical Society, que tinha uma biblioteca modesta de livros e periódicos de ciência, e Spencer vasculhava esse material.

Tinha quinze anos quando seu primeiro artigo – sobre barcos – foi publicado em uma pequena revista. “Meu artigo me parecia muito bom”, ele observou na época. “Gritei e dei cambalhotas pelo quarto... E, agora que comecei, pretendo continuar a escrever coisas”.

Enquanto isso, Spencer precisava de um salário fixo. O setor de construção de trilhos ferroviários estava em expansão e, em novembro de 1837, ele conseguiu um emprego para desenhar as plantas de engenharia para a London and Birmingham Railway. Sempre habilidoso, também inventou vários mecanismos de medição relacionada aos trilhos de ferro, e escreveu sete artigos para a Civil Enginner’s and Architect’s Journal. Depois de quatro anos, tinha poupado algum dinheiro e decidiu parar por um tempo para tentar uma carreira como escritor. Participou de reuniões de grupos favoráveis ao livre-comércio e contrários à escravidão e a uma religião estatal. Escreveu uma dúzia de artigos sobre filosofia política para o The Nonconformist, um periódico radical, que depois seriam reimpressos em um panfleto chamado de On the Proper Sphere of Government [“A esfera própria do governo”].

Spencer ainda estava muito longe de conseguir sustentar-se escrevendo, então voltou para trabalhar com as empresas ferroviárias por mais três anos. Continuou lendo todo tipo de livros e manteve- se informado sobre as questões públicas. Em novembro de 1848, lhe ofereceriam um cargo de editor na Economist, um periódico defensor do livre comércio, onde trabalhou por cinco anos. Um dos editores era Thomas Hodgskin, um anarquista filosófico que pode ter-lhe influenciado.

Social Statics

Spencer usou seu tempo livre para escrever seu primeiro livro, Social Statics [“Estática Social”], que foi publicado em 1851. Apresentava uma entusiástica defesa moral e prática dos direitos individuais que chamava “liberdade comum”. Todos deveriam ser livres para fazer o que quiserem, insistia Spencer, desde que não interferissem na liberdade das outras pessoas. Conseqüentemente, ele defendia a abolição de todas as restrições comerciais, subsídios dos pagadores de impostos para igrejas, colônias no além mar, licenças médicas, estabelecimento de moedas oficiais, bancos centrais, escolas estatais, assistência social governamental, monopólio estatal dos correios e 46 obrigações governamentais.

Spencer mostrou como o interesse próprio leva as pessoas não apenas a prosperar – como Adam Smith explicara – mas a melhorar a vida de inúmeras formas. Por exemplo, Spencer disse isso sobre sistema sanitário: “Embora todos saibam que a taxa de mortalidade tem baixado gradualmente e que o valor da vida é maior na Ingalterra do que em qualquer outro lugar, e embora todos saibam que a higiene das nossas cidades é maior agora do que em qualquer outra época, e que nossos arranjos sanitários desenvolvidos espontaneamente sejam muito melhor do que os que existem no Continente, onde o mau cheiro de Colônia, os esgotos abertos de Paris, os encanamentos de Berlim e as calçadas miseráveis das cidades germânicas mostram os resultados da administração estatal, e, embora todos saibam dessas coisas, ainda se presume perversamente que apenas a administração estatal pode remover os últimos obstáculos à saúde pública.

O capítulo mais famoso era o XIX: “O direito de ignorar o Estado”. Mesmo durante o auge de liberalismo clássico, era preciso coragem para declarar que: “Se cada homem tiver a liberdade de fazer o que quiser, desde que ele não infrinja a liberdade comum de nenhum outro homem, então ele está livre para cortar seus laços com o Estado, abrindo mão de sua proteção e se recusando a pagar para sustentá-lo. É auto-evidente que, agindo desse modo, ele não faz nada que viole a liberdade dos outros, pois sua posição é passiva e, como tal, ele não pode ser um agressor”.

Social Statics estabeleceu Spencer como um sucesso emergente e, em julho de 1853, ele renunciou ao seu cargo na Economist, determinado a tornar-se um escritor independente. Vendia artigos para Westminster Review, Edinburgh Review, Fortnightly Review, British Quarterly, e outras publicações influentes. Aplicava suas idéias tanto à ciência como à ética e às políticas públicas.

Financeiramente, Spencer passou por apertos e, por algum tempo, buscou um trabalho confortável no governo que lhe desse tempo para escrever, mas felizmente nunca se tornou um burocrata. Orgulhoso, rejeitou a oferta generosa de John Stuart Mill para cobrir suas despesas. Estava determinado a ganhar a vida no mercado de trabalho. Em 1860, Spencer teve a idéia de integrar a ética, biologia e sociologia em uma extensa obra filosófica – e financiando o empreendimento pedindo a assinantes que pagassem um halfcrown por cada fascículo, enviado várias vezes ao ano. Pediu aos amigos famosos que escrevessem textos de recomendações, e conseguiu que 450 pessoas se tornassem assinantes. Entre os primeiros estavam intelectuais americanos respeitados como o editor Horace Greeley, o historiador George Bancroft, o clérigo Henry Ward Beecher, o botânico Asa Gray, o cientista político Francis Lieber, e o abolicionista Charles Sumner. Spencer começou a trabalhar em First Principles [“Primeiros princípios”], um livro sobre o desenvolvimento da vida.

Infelizmente, como em todo negócio editorial, Spencer passou a perder alguns assinantes. Quando não tinha mais renda para manter o projeto, anunciou que iria interrompê-lo. Mas, em 1865, o Dr. Edward Youmans, palestrante e fundador da revista Popular Science, que se tornara um grande fã de Spencer, ajudou-o a arrecadar 7.000 dólares de amigos americanos, o que foi suficiente para que ele continuasse com o empreendimento.

Repetidamente, Spencer enfatizava quão extraordinário era o progresso humano alcançado naturalmente quando as pessoas tinham liberdade. Vejam essa passagem do Principles of Sociology [“Princípios de sociologia”]:

“A transformação dessa terra em uma superfície capaz de produzir comida, tratada, cercada, drenada e coberta por aparelhos de agricultura, foi realizada por homens que trabalhavam por lucros privados, não pelo planejamento legislativo... Vilarejos, vilas e cidades cresceram significativamente por causa do desejo dos homens em satisfazer suas vontades... Pela cooperação espontânea, os homens criaram canais, estradas de ferro, telégrafos, e outros meios de comunicação e distribuição... O conhecimento se desenvolveu e transformou-se em ciência, que se tornou tão vasta em sua totalidade que ninguém mais é capaz de apreender nem uma décima parte dela, que agora é quem guia inúmeras atividades produtivas, e que foi fruto do trabalho de indivíduos movidos por suas próprias inclinações, e não por uma agência governamental... E suplementando essas realizações vêm as inúmeras empresas, associações, sindicatos, clubes, empresas subsidiárias, institutos filantrópicos, cultura, arte, diversão, assim como as inúmeras instituições que anualmente recebem milhões em doações e mensalidades, todas essas nascendo da cooperação livre dos cidadãos. E, ainda assim, quase todos os olhares estão tão hipnotizados que se fixam na contemplação dos afazeres dos ministros e parlamentares, de modo que não enxergam essa maravilhosa organização que se tem desenvolvido ao longo de milhares de anos sem a ajuda do governo – aliás, na verdade, apesar dos empecilhos governamentais”.

Spencer se antecipou ao trabalho de F. A. Hayek, ganhador do prêmio Nobel, que lembrou ao mundo porque a ação espontânea do mercado, e não o planejamento central, é responsável pelas mais impressionantes realizações da humanidade.

Spencer teve mais influência nos Estados Unidos, onde as pessoas estavam animadamente construindo uma nova civilização. Em 1864, a Atlantic Monthly dizia que: “Mr. Herbert Spencer já é uma força no mundo... [Ele] representa o espírito científico da época”. Seus princípios, concluía a reportagem, “tornaram-se os fundamentos visíveis de uma sociedade aprimorada”. William Graham Sumner, sociólogo de Yale, tornou-se o maior defensor americano das idéias de Spencer.

Apesar dos esforços heróicos de Spencer, a opinião pública passou cada vez mais a favorecer a intervenção do governo no final do século XIX. Talvez porque o governo tinha se tornado tão mais limitado que já não parecia mais ser uma ameaça pública. Mais pessoas passaram a imaginar que o governo poderia fazer o bem. Spencer respondeu escrevendo quatro fortes artigos que afirmavam os princípios fundamentais do laissez faire e atacavam a intervenção do governo publicados na Contemporary Review em 1884. Eles despertaram o que ele chamou de “um ninho de vespas na forma de críticas vindas dos periódicos esquerdistas”. Em julho de 1884, os artigos foram reunidos e publicados em um livro The Man Versus The State [“O homem contra o Estado”].

Foi uma performance magnífica, com Spencer martelando seus adversários – os socialistas em particular – com fatos dramáticos que mostravam porque novas leis sempre saem pela culatra. Ele contou como os tetos das taxas de juros impostos pelo governo, supostamente criados para ajudar as pessoas, sempre dificultam a obtenção de empréstimos. Documentou como as bem intencionadas autoridades de Londres demoliram casas para 21 mil pessoas, construíram novas casas para 12 mil e deixaram 9 mil desabrigadas – antecipando ataques idênticos aos que seriam usados contra o programa do governo americano de “renovação urbana” durante o século XX. O jornalista americano Henry Hazlitt considerou que esses foram “uma das mais fortes e influentes defesas de um governo limitado, laissez faire e individualismo jamais escritas”.

Spencer aparentemente ficou deprimido com as acusações de que ele era superficial e insensível e, em 1892, aprovou uma edição revisada de Social Statics sem o capítulo XIX original, “O direito de ignorar o Estado”. Essa concessão não acalmaria seus críticos. O juiz Oliver Wendell Holmes, defendendo as regulamentações trabalhistas de Nova York em 1905, dois anos depois da morte do filósofo, julgou necessário denunciá-lo explicitamente: “A décima-quarta emenda não implica na implementação de Social Statics do senhor Herbert Spencer”.

Ainda assim, o século XX, o mais sangrento da história, mostrou que Spencer foi um profeta fenomenal. Com mais força e clareza do qualquer pessoa durante sua vida, ele alertou que o socialismo levaria à escravidão. Condenou o militarismo muito antes que a corrida armamentista européia explodisse na Primeira Guerra Mundial. Ele antecipou os males das políticas de assistência social que destroem os incentivos para que as pessoas pobres se tornem independentes. Previu o fracasso colossal da educação estatal. Afirmou que os indivíduos privados eram responsáveis pelo progresso humano. Ele teria ficado entusiasmado com o ressurgimento mundial da economia de mercado em nossos dias, provando sua convicção de que, onde o governo menos interferir, você verá a decência e o aprimoramento nas vidas das pessoas comuns.