Biografia: Leonard Read

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por Edmund A. Opitz

Leonard começou a trabalhar em uma fazenda na pequena cidade de Hubbardston, em Michigan. Nela, sempre havia trabalho para fazer, e Leonard logo aprendeu que não se deve perder tempo. Seu pai morreu quando ele tinha dez anos. A partir de então, passou a ter responsabilidades de adulto. Além dos serviços na fazenda, passou a trabalhar como balconista em uma loja local. Ao relembrar essa época, Leonard disse que sua carga de trabalho era de 102 horas semanais.

Havia uma escola com uma sala em Hubbardston e, é claro, a igreja, aos domingos, e uma escola cristã. Estes eram parcos recursos, mas alimentaram a cobiça de Leonard por conhecimento e lhe proporcionaram as ferramentas básicas do aprendizado: leitura, escrita e aritmética. Passou seus anos de ensino médio próximo ao Ferris Institute, onde se sustentou mantendo o prédio em ordem, cuidando da fornalha e limpando o chão. Tinha um quarto e preparava sua própria refeição. Graduou-se no Ferris e alistou-se na aeronáutica.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o navio que levava a bordo sua tropa, o Tuscania, foi afundado próximo à costa da Escócia. Leonard estava entre os sobreviventes e foi para uma base aérea na Inglaterra. Após a guerra, Leonard foi enviado para a Alemanha para servir por mais um ano no exército da ocupação. Ele tinha em torno de 20 anos de idade quando retornou para seu estado natal e abriu um negócio de vendas no atacado em Ann Arbor. Antes de amanhecer, dirigia até o mercado de atacado de Detroit e voltava para Ann Arbor para vender seus bens a doçarias, barracas de frutas e similares. Era um trabalho exaustivo e doloroso, mas ele insistiu nisso até perceber que os mercados estavam tentando lhe dizer que vender gêneros alimentícios era um mau uso de seus talentos únicos.

Dessa forma, ele colocou sua esposa e seus dois filhos dentro de seu carro e foi para a Califórnia. Finalmente, conseguiu um emprego na pequena Câmara de Comércio de Burlingame, localizada fora de São Francisco, onde trabalhou tão bem que acabou sendo convidado para dirigir a Câmara de Palo Alto, que era muito mais ativa. Agora, ele se encontrava no primeiro degrau de sua notável carreira. Parecia que o destino cutucava em seu ombro direito.

Leonard, nesse momento, estava com, aproximadamente, 25 anos; era bonito, forte, articulado, suave, bem vestido, enérgico e com uma boa dicção. O pacote completo era atraente tanto para homens quanto para mulheres, especialmente devido ao fato de que se sentia que este homem tinha ordenado seu espírito corretamente e tinha harmonizado suas prioridades. Sua dedicação era evidente, o que o tornava ainda mais persuasivo.

O Sr. Herbert Hoover morava perto de Palo Alto e já era reconhecido como o provável candidato republicano para disputar as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 1928. Ele venceu, fato que deu a Leonard um sonho impossível: por que não contratar um trem para levar uma multidão de pessoas da Califórnia para Washington para participar da posse? Claro que essa ideia poderia ser um fracasso; mas quando Leonard acreditava fortemente em alguma coisa, uma misteriosa alquimia transformava, de qualquer maneira, sua visão em realidade. Pode-se presumir que Leonard entrou em contato com seus amigos e conhecidos, recebeu algumas respostas positivas e decidiu arriscar tudo; o pacote completo incluía um luxuoso Pullman com 16 carros, serviços e refeições de qualidade, acompanhamento médico e um boletim mimeografado diariamente, editado por ele próprio. Uma vez na capital da nação, haveria preços especiais em hotéis de primeira classe, bilhetes para a parada, reservas para o baile inaugural (...) e sabe-se lá o que mais. Isso chamou a atenção da imprensa nacional e o jovem homem de Palo Alto foi enaltecido pela sua mente inovadora e pela sagacidade que demonstrou na execução de seus planos.

O Sr. Hoover agradeceu Leonard pelo gesto e os dois se viram ocasionalmente até a morte do ex-presidente, em 1964. Há uma história de que o Sr. Hoover submeteu (ordenou?) um artigo para a publicação no The Freeman — que foi recusado por Leonard. Ele, então, aceitou graciosamente a rejeição!

A mudança seguinte de Leonard foi para Seattle, como sub-gerente da Divisão Oeste da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que estendia sua jurisdição sobre a enorme cunha de nosso território no noroeste. De lá, Leonard voltou para San Francisco como gerente da Divisão Oeste, o que talvez fosse um presságio de que coisas maiores ainda estavam por vir.

A Califórnia é um estado de espírito ou um estado maluco — faça sua escolha. Havia — especialmente no sul da Califórnia — um misto de entusiastas do “vamos compartilhar a riqueza”: marxistas, socialistas, credores sociais, Townsendistas, tecnocratas, seguidores de Upton Sinclair e similares. O New Deal, com sua miríade de agências, estava lançando seus tentáculos por todas as direções. A Câmara de Comércio não faria nada com comunistas ou socialistas, mas sua política tendia a favorecer programas de recuperação nacional, que pareciam estar dando uma mão a alguns setores dos negócios, assim como oferecendo ajuda aos fazendeiros. E elas eram, para o jovem Read, uma verdade religiosa. Se a Câmara favorecesse algumas políticas do New Deal, assim o faria Read!

Encontrando Bill Mullendore

Mas havia na região de Los Angeles um pequeno grupo de empresários que criticavam todas as políticas do New Deal. Seu homem mais articulado era W. C. Mullendore, executivo da Southern California Edison. Leonard viajou para Los Angeles para encontrá-lo e dar um jeito nele. Conforme Leonard conta essa história, ele passou dez minutos explicando as políticas da Câmara e os outros poucos minutos tentando justificá-las. E começou a cambalear! Seus instintos começaram a enviar sinais de alerta. Em um certo ponto, o Sr. Mullendore assumiu o controle, criticou a posição da Câmara e continuou a demonstrar que o New Deal estava repleto de falácias e fantasias. O dinheiro é injustamente retirado daqueles que o ganharam e injustamente entregue àqueles que fazem lobby por ele. E, efetuando estas transferências, o próprio governo se torna rico e poderoso, enquanto a maior parte do país sofre uma queda na produtividade, e há uma diminuição na liberdade das pessoas.

Quaisquer que sejam as palavras proferidas pelo Sr. Mullendore, elas exerceram um efeito devastador em Read; elas mudaram sua vida, alterando seu pensamento. Ele começou a estudar e, então, escreveu um livro para esclarecer sua filosofia. O resultado foi o The Romance of Reality [“Romance da realidade”], publicado em 1937 pela Dodd, Mead Company.

Sob as críticas do Sr. Mullendore e de outros de pensamentos semelhantes, a política da Câmara começou a se afastar das campanhas em favor do clima, das laranjas, do cinema etc., para promover sérios esforços para mudar o clima de opinião por meio de palavras escritas e faladas. O homem que conduziria a Câmara de Los Angeles em sua nova orientação só poderia ser, é claro, Leonard Read, que se tornou gerente geral da maior Câmara da nação em 1939, quando tinha quarenta e um anos. Ele era o homem certo, na hora certa, em um cargo estratégico. Era importante que o Los Angeles Times fosse o que nós poderíamos chamar de jornal conservador, que dava a Read críticas bem amigáveis. O Register de Orange County, era abertamente libertário; seu editor, R. C. Hoiles, era um dínamo. Ele e Read devem ter-se tornado aliados rapidamente.

E o pastor de Leonard, Reverendo James W. Fifield, ministro da Primeira Igreja Congregacional de Los Angeles (que tinha 4000 membros) e apresentador de um programa de rádio aos sábados à noite, escutado de San Francisco a San Diego, era inimigo do New Deal e crítico do “Evangelho Social”, que era uma tendência nas igrejas. Para criticar este, Fifield enviou um ministro negro, o Reverendo Irving Merchant, que era de sua equipe, para percorrer o país para se encontrar com associações ministeriais e explicar seus erros. O pastor Merchant conseguiu em torno de 17000 cartas de apoio assinadas por ministros que afirmavam sua fidelidade ao movimento de resistência (eu vi as cartas!), que vieram a ser chamadas “Mobilização por ideais espirituais”. Resumindo, o vinhedo no sul da Califórnia alcançou um estágio no qual um homem como Leonard poderia fazer um uso melhor de seus talentos com o apoio oferecido pelas comunidades empresariais e eclesiásticas. Leonard serviu no conselho da Primeira Igreja.

Entra Bastiat

E agora Bastiat entra em cena. Thomas Nixon Carver, notável professor de economia em Harvard, que defendeu a economia de livre mercado durante os anos 1920 e 1930, tinha se mudado para o sul da Califórnia. Carver compareceu a um almoço em que Leonard era o orador. Após a conversa, ele se aproximou de Leonard e disse: “Sr. Read, você soa como Frederic Bastiat”. “Quem é Bastiat?”, perguntou Leonard. Carver respondeu e prometeu enviar por correio um pequeno livro de Bastiat chamado “Communism versus Free Trade” [“Comunismo versus livre comércio”]. Leonard o amou e logo o publicou sob o selo Pamphleteers, Inc., um pequeno grupo de amigos da liberdade dentro da órbita da Câmara que, nos seus “nove andares abaixo da superfície”, ocasionalmente dividiam as despesas para publicar pequenas obras que, de outra maneira, poderiam ser negligenciadas, como Give Me Liberty [“Dê-me liberdade”], de Rose Wilder Lane, e Anthem [“Hino”], de Ayn Rand. Não muito após isso, o Sr. Hoiles republicou três livros de Bastiat em uma tradução para o inglês de 130 anos atrás. Vários anos após fundar a FEE, Leonard publicou a vigorosa tradução de Dean Russel para o livro The Law [“A lei”], de Bastiat. Foram feitas bem mais de 500.000 cópias.

As escolas públicas (ou do governo) da infância de Leonard ofereciam um currículo muito sólido; os alunos tinham contato com os documentos públicos básicos desta nação. A Declaração de Independência era o preferido de Leonard. Permitam-me citar a interpretação de Read de uma parte de uma frase: “(...) no fragmento de uma frase escrita na Declaração de Independência”, disse, “foi declarada a verdadeira revolução americana, a nova ideia, e foi a seguinte: ‘que todos os homens foram criados iguais; que eles eram dotados pelo seu Criador com certos direitos inalienáveis; entre estes estavam a vida, a liberdade e busca da felicidade’. Era isso. Essa é a essência do americanismo. Esse era o marco sobre o qual todo o ‘milagre americano’ foi fundado”.

“Este conceito revolucionário era de uma só vez espiritual, político e econômico. Era espiritual porque os autores da Declaração reconheciam e publicamente proclamavam que o Criador era quem concedia os direitos aos homens, sendo, portanto, o soberano. Era político ao implicitamente negar que o Estado era quem concedia os direitos dos homens, declarando, portanto, que ele não era o soberano. Era econômico no sentido de que se um indivíduo tem direito à sua vida, segue-se que ele tem direito a preservá-la — seu sustento era nada mais, nada menos, que os frutos do trabalho pessoal”.

Estas palavras foram retiradas de “A essência do americanismo”, palestra de abertura de Leonard em praticamente cada um de nossas centenas de seminários.

A liberdade não está à venda

Durante os cinco anos que Leonard passou como gerente geral da Câmara de Los Angeles, sua mente foi aguçada e aprofundada; ele cresceu e se superou. Novos conhecimentos se desenvolveram enquanto ele ponderava a questão sobre como a filosofia da liberdade poderia avançar de melhor. Em suas primeiras posições profissionais, ele tinha se tornado bem familiarizado com a publicidade e com técnicas promocionais. Mas havia a ideia de que a liberdade individual não poderia ser vendida como se fosse um sabonete; ela tinha que ser explicada — e explicada de forma que o leitor ou o ouvinte chegasse a uma compreensão íntima da evidente verdade da matéria. A ideia de “liberdade” é mais apanhada do que ensinada; é análoga a um contágio benigno que se espalha de pessoa para pessoa, até que uns poucos comecem a dizer: “Por George, acho que captei a mensagem!”

Alguns anos mais tarde, Leonard se deparou com a confirmação de seus próprios pensamentos em umas poucas palavras de Civilization and Ethics [“Civilização e ética”], o grande livro de Albert Schweitzer, publicado em 1923: “A civilização só pode reviver quando puder ter um número de indivíduos com ideias novas independentes daquela que prevalece entre o povo e em oposição a ela. Uma nova opinião pública deve ser criada de forma particular e discreta. Essa que prevalece é mantida pela imprensa, por propagandas, por organizações, pelo setor financeiro e por outras influências à sua disposição (...) Esta maneira não natural de se difundir ideias deve sofrer oposição daquela que é natural, que passa de pessoa em pessoa e depende apenas da verdade dos pensamentos e da vontade dos ouvintes de escutar a nova verdade”.

O famoso ensaio de Albert Jay Nock, “Isaiah’s Job” [“O trabalho de Isaías”], transmitia praticamente a mesma mensagem contida nas palavras de Schweitzer. Leonard disse que a posição única da FEE foi inspirada pela leitura desse ensaio de Nock. O primeiro contato entre os dois se deu entre 1935 e 1936. Leonard me disse que ele tinha lido um livro de Nock chamado Our Enemy, the State [“Nosso inimigo, o Estado”] pouco após seu lançamento, e que tinha escrito uma carta para o autor: “Acabei de ler seu Our Enemy, the State. É um livro esplêndido. Mas como um homem brilhante como você pode promover o imposto único?”. Nock respondeu: “Caro Sr. Read: eu não sou promovo o imposto único: apenas acredito nele. Sinceramente, Albert Jay Nock.” Leonard ficou, desde então, liberto do destempero do mero ativismo.

Uma vez quebrado o gelo, a relação entre os dois se fortaleceu. Sempre que Leonard vinha a Nova York, tentava marcar um jantar com AJN. Nock publicou seu magnífico Memoirs of a Superfluous Man [“Memórias de um homem supérfluo”], em 1943. Ele enviou uma cópia para Leonard contendo a seguinte inscrição: “Se esse livro é bom o suficiente para Leonard E. Read, é bom o suficiente para mim”. A FEE é agora a principal fonte para os livros de Nock; e há uma sociedade chamada Nockian Society em 42 Leathers Road, Fort Mitchell, Kentucky, 41017.

Leonard finalmente chegou à conclusão de que a instituição que ele concebeu como um veículo próprio para promover a filosofia da liberdade não poderia operar como um braço de outro tipo de instituição... Ela tinha de ser autônoma.

A discussão com Bill Mullendore começou tudo. Leonard continuou sua própria busca pela sabedoria, procurando novas ideias e maneiras melhores de apresentá-las. Ele agarrou firmemente a profunda verdade de que a defesa das liberdades humanas é um processo de aprendizagem e não um problema de vendas.

O que a liberdade da filosofia precisava era de “nome e lugar certo”. Cinquenta e dois anos atrás, em 1946, achou ambos em Irvington, New York. A FEE tem sido um manancial de ideias sobre a liberdade desde o início — e a tradição continua.

P.S.: Uma excelente biografia de Leonard Read, escrita por Mary Sennholz, sua secretária nos primeiros dias de FEE, pode ser encontrada na Fundação. Recomenda-se sua leitura.

 

* Publicado originalmente em 04/09/2009.