Biografia: Mary Wollstonecraft

Direitos iguais para as mulheres

Na Europa Ocidental do século XVIII, as mulheres solteiras tinham pouca proteção da lei e as casadas perdiam sua identidade legal. Mulheres não podiam contratar advogados, assinar contratos, herdar propriedades, votar ou ter direitos sobre seus filhos.

William Blackstone, professor de direito de Oxford, escreveu o seguinte em sua influente obra Commentaries on the Laws of England (1758) [“Comentários sobre as leis da Inglaterra”]: “Para a lei, o marido e a esposa são uma única pessoa; isto é, a própria existência legal da mulher é suspendida durante o casamento ou, ao menos, ela é incorporada e agregada à pessoa legal do marido, sob cuja proteção, cuidado e influência ela fará todas as coisas da sua vida”.

Então veio Mary Wollstonecraft, cheia de coragem e ardor, provocando polêmicas com seu livro A Vindication of the Rights of Woman (1792) [“Uma defesa dos direitos da mulher”], em que afirmava que tanto os homens quanto as mulheres são seres humanos dotados de direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade. Falava que as mulheres deviam receber educação, ter o direito de abrir negócios, seguir carreiras profissionais e, se quisessem, de votar. “Falo da emancipação e do aprimoramento de todo o gênero”, ela declarava. “Deixem as mulheres partilharem dos direitos que elas passarão a repetir as virtudes dos homens; pois elas se aperfeiçoarão ao se libertarem”.

Wollstonecraft inspirava as pessoas porque falava com o coração. Embora fosse razoavelmente bem educada, fazia uso primordialmente da sua própria experiência de vida tumultuada. Ela dizia que “há um defeito original na minha mente, pois as mais cruéis das experiência não foram suficientes para erradicar essa minha tendência boba em valorizar – e esperar encontrar – ternura romântica”.

Ela ousou fazer o que nenhuma mulher fizera: seguir uma carreira como escritora profissional em tempo integral, tratando de assuntos sérios, sem o patrocínio de nenhum aristocrata. “Serei a primeira de um novo tipo”, ela afirmou. Foi uma luta dura, pois as mulheres tradicionalmente eram louvadas por suas habilidades domésticas, e não por sua inteligência. Wollstonecraft desenvoleveu seus talentos enquanto vivia com uma renda minguada. Vestia-se com simplicidade, raramente comia carne e, quando tomava vinho, era em uma um xícara de chá, pois não podia pagar por um copo inteiro.

Seus contemporâneos observavam sua presença provocante – magra, de altura média, olhos encantadores, cabelos castanhos, e voz suave. “Mary não chegava a ser de uma beleza estonteante, mas era encantadoramente graciosa”, disse um admirador germânico. “Seu rosto, tão expressivo, tinha um tipo de beleza que ia além das características mais comuns. Havia algo de encantador em seu olhar, em sua voz, em seus gestos”.

Mary Wollstonecraft nasceu no dia 27 de abril de 1759. Foi o segundo filho – e a primeira menina – de Elizabeth Dixon, que viera de Ballyshannon, na Irlanda. Seu pai, Edward John Wollstonecraft, era um fabricante de tecidos. Ele decidira se tornar um fazendeiro aristocrata quando recebeu uma herança de seu pai, que fora um grande produtor de tecidos e empreendedor imobiliário, mas a agricultura entraria em crise. A família teve que se mudar sete vezes ao longo de dez anos, enquanto suas finanças se deterioravam. Edward bebia muito e Mary freqüentemente precisava proteger sua mãe dos seus arroubos violentos. Seu relacionamento com seus irmãos era turbulento.

A educação formal de Mary foi bastante limitada, mas um de seus amigos de Hoxton, uma cidade nos arreadores de Londres, tinha uma biblioteca respeitável, e Mary dedicou um tempo considerável a explorá-la. Por meio desses amigos, ela conheceu Fanny Blood, que era dois anos mais velha que ela e sabia costurar, desenhar, pintar aquarelas e tocar piano. Ela inspirou Mary a assumir a responsabilidade de cultivar sua mente.

Estimulada pelos problemas financeiros da família, Mary decidiu que encontraria um meio de seguir o próprio caminho. Ela aproveitou as oportunidades comumente abertas às moças pobres e inteligentes. Aos dezenove anos, conseguiu um emprego como empregada na casa de uma viúva rica que terminou por se mostrar uma chefe difícil.

Juventude

Três anos depois, em 1781, Mary tentou fundar uma escola em Islington, ao norte de Londres, mas não conseguiu. Em seguida, com Fanny e suas irmãs, Eliza e Everina, Mary abriu outra escola perto de Newington Green que, depois de um sucesso inicial, também faliu. Ela passou então a trabalhar como governanta de uma família irlandesa, e viu com os próprios olhos o ócio dos aristocratas donos de terras. A essas experiências desanimadoras se somou a morte de Fanny Blood por tuberculose. Depois da morte de sua mãe em 1782, foi ela – e não seu irmão mais velho – que assumiu prioritariamente a responsabilidade de cuidar do seu instável pai.

Enquanto isso, por causa da sua experiência com a escola de Newington, Wollstonecraft conhece vários dos Dissidentes Ingleses da região, cujas crenças religiosas os excluíam da Igreja Anglicana, que era financiada pelo Estado. Entre os Dissidentes estava Richard Price, pastor e estudioso da filosofia moral, que matinha contato com Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, o marquês de Condorcet e outros pensadores radicais da época. Wollstonecraft também conheceu o cientista Joseph Priestley, o professor John Wewlett e Sarah Burgh, a viúva do autor radical James Burgh. Embora Wollstonecraft mativesse sua fé na Igreja Anglicana, ela adotou uma postura independente, tornando-se uma boa amiga dessas pessoas.

Os Dissidentes Ingleses faziam campanha por reformas no confortável sistema político britânico. A Câmara dos Lordes era composta por aristocratas que herdavam seus cargos. A Câmara dos Comuns era escolhida pelos pouquíssimos homens de posse – cerca de quinze mil, cerca de 0,5% dos homens adultos ingleses – que determinavam o resultado das eleições. O Ato de Prova excluía a participação dos não-anglicanos na política. Além disso, desde 1678 nenhuma cidade ganhara direito de ser representada politicamente, o que significa que cidades como Birmingham e Manchester, os dínamos da revolução industrial, estavam excluídas do sistema político.

A influência de Joseph Johnson

Hewlett encorajou Wollstonecraft a escrever um panfleto sobre educação e enviá-lo a Joseph Johnson, o editor radical que era dono de uma livraria que ficava no pátio da St. Paul’s Cathedral. Ele era reconhecido como um empreendedor de visão, que lançara inúmeros autores desconhecidos, como o poeta e pintor William Blake. Johnson publicara obras de Joseph Priestley e de poetas como William Cowper e William Wordsworth, assim como também textos dos Unitários.

A sugestão de Hewlett se mostrou providencial, pois, como explicou Claire Tomalin, biógrafa de Wollstonecraft, “Mary estava mais uma vez sem lar, emprego ou referência; ela não tinha nada pelo que viver, e estava endividada com várias pessoas. Ela não tinha perspectivas de casamento; estava com 28 anos e tinha um rosto que parecia estar permanentemente marcado por linhas de tristeza e seriedade ao redor dos seus olhos ferozes... Sua característica mais notável era sua recusa em se voltar para as técnicas usadas pelas mulheres que se viam em tal situação para tornar a vida mais tolerável: bajulação, docilidade, resignação frente a vontade dos homens, dos seus superiores, de Deus, ou de todos os três”.

Johnson disse a Wollstonecraft que ela tinha talento e que poderia ter sucesso caso trabalhasse duro. Ela publicou seu panfleto em 1786 com o título Thoughts on the Education of Daughters [“Reflexões sobre a educação das filhas”]. As vendas foram mínimas, mas o trabalho lançou a carreira literária de Wollstonecraft. Ela mandou seu pagamento para a família Blood, que então estava empobrecida, e redobrou seus esforços. Escreveu: “Preciso forçar minha inteligência para alcançar independência e tornar-me útil. Para facilitar essa tarefa, preciso encher minha mente de conhecimento – o tempo de semear está passando”.

A partir de 1788, Johnson passou a arranjar-lhe trabalho com freqüência. Ele traduzia livros do francês e do alemão para o inglês, trabalhava como editora assistante e escritora do seu novo periódico, The Analytical Review, com o qual contribuiu até sua morte, escrevendo cerca de duzentos artigos sobre ficção, educação, sermões, diários de viagem e livros infantis.

Johnson era um bom homem. Ajudou Wollstonecraft a encontrar um lugar para morar, adiantou-lhe dinheiro quando ela precisou, negociou com seus credores, ajudou-lhe a lidar com o estado caótico de seu pai, e cuidou dela durante seus períodos de depressão. “Você é meu único amigo”, ela lhe confidenciou, “a única pessoa com quem tenho intimidade; eu nunca tive um pai ou irmão, e você foi os dois para mim...”

Wollstonecraft conheçou outros radicais que freqüentavam a companhia de Johnson, como William Blake, Henry Fuseli, um pintor suíço, e Thomas Christie, sócio de Johnson na editora. Em certa ocasião, ele conheceu o filósofo William Godwin e Thomas Paine, o inglês que ajudara a inspirar a revolução americana ao escrever Common Sense [“Bom senso”]. Wollstonecraft dominou a conversa. Godwin lembrou que “eu a ouvia com muita freqüência, enquanto queria ouvir Paine”.

A Revolução Francesa

O estouro da Revolucão Francesa, em julho de 1789, detonou controvérsias explosivas. Em novembro, Richard Price deu uma palestra na Society for Commemorating the Glorious Revolution of 1688 [“Sociedade pela comemoração da Revolução Gloriosa de 1688”], defendendo o direito do povo francês de se rebelar e sugerindo que o povo inglês deveria ter o direito de escolher seus dirigentes – um óbvio ataque à monarquia hereditária. Edmund Burke, um parlamentar conhecido por ter defendido a Revolução Americana, ficou alarmado. Burke escreveu “Reflections on the Revolution in France (November 1790),” [Reflexões sobre a revolução na França”], um livro retoricamente brilhante que atacava os direitos naturais e defendia a monarquia e a aristocracia.

As idéias de Burke e suas críticas a Price deixaram Wollstonecraft indignada. Utilizando as idéias de John Locke e Richard Price, ela rapidamente publicou A Vindication of the Rights of Men [“Uma defesa dos direitos do homem”], uma das primeiras das quase trinta réplicas a Burke. Embora seu panfleto fosse repetitivo e desorganizado, e Wollstonecraft tivesse exagerado em seus ataques à Burke ao chamá-lo de vaidoso, insensível e desprovido de princípios – ela causou algum impacto. Ela censurou Burke por não ter olhos para a pobreza: “Percebo que, para a miséria chamar sua atenção, ela precisaria se vestir de palhaço...” Ela denunciou as injustiças da constituição britânica, que evoluíra “dos dias negros da ignorância, quando as mentes dos homens estavam amarradas pelos mais grotescos dos preconceitos e pelas mais imorais das superstições”. Ela frisou a prática aristocrática de transmitir as riquezas ao filho mais velho: “a única segurança de propriedade autorizada pela natureza e sancionada pela razão é o direito do homem de usufruir das aquisões que adquiriu com seus talentos e esforços, e de cedê-los a quem quer que escolha...”.

Ela atacou o poder arbitrário do governo: “Assegurar a propriedade! Eis, em poucas palavras, a definição inglesa da liberdade... Mas, calma! – é apenas a propriedade do rico que é protegida; o homem que vive do seu suor não possui um refúgio da opressão; os fortes podem invadir seus domínios – desde quando o castelo do pobre foi sagrado? – e os malfeitores podem arrancá-lo da família que depende do seu trabalho para a subsistência... Não posso deixar de expressar minha surpresa por vocês terem esquecido de avisar aos franceses, ao recomendar a nossa forma de governo como modelo, do costume de forçar arbitrariamente os homens a se alistarem na marinha”.

O artigo de Wollstonecrat – como, aliás, todas as outras respostas a Burke – ficaram em segundo plano depois da publicação da poderosa réplica de Thomas Paine, The Rights of Man [“Os direitos do homem”], mas ela estabeleceu sua reputação como uma autora que valia a pena ler.

Uma defesa dos direitos das mulheres

Ela presumira que, quando os revolucionários falavam em “homem”, eles estavam usando uma abreviação para toda a humanidade. Mas então, no dia dez de setembro de 1791, o antigo bispo de Autin defendeu que as escolas estatais deveriam terminar na oitava série para as garotas, mas fossem adiante para os rapazes. Isso deixou claro para Wollstoencraft que, apesar de toda a conversa sobre direitos iguais, os revolucionários franceses não tinham a intenção de ajudar as mulheres de nenhum modo significativo. Ela começou então a planejar seu livro mais famoso A Vindication of the Rights of Woman [“Uma defesa dos direitos das mulheres”]. Ele passou mais de três meses escrevendo, terminando-o no dia 3 de janeiro de 1792. Johnson o publicou em três volumes.

Ela desprezava a classe dos governantes. Escreveu que “os impostos que recaem mesmo sobre as necessidades da vida possibilitam que um tribo infinita de príncipes e princesas preguiçosas desfilem com um pompa estúpida em frente às multidões, que chegam quase a adorar o mesmo desfile que lhes custa tão caro”.

Ele citava especificamente as leis que “fazem de um homem e sua esposa uma unidade absurda; e então, pela simples transição de considerar apenas ele como responsável, ela é reduzida a um nada.... como um ser pode ser generoso se não tem nada que é seu? Ou virtuoso se não é livre?”

Wollstonecraft lançou uma das primeiras reivindicações pelo sufrágio feminino: “Eu realmente acredito que as mulheres devem ter representantes, ao invés de serem governadas arbitrariamente, sem que possam participar diretamente de parte alguma das deliberações do governo.”

Wollstonecraft atacou aqueles que, como o coletivista Jean-Jacques Rousseau, queriam manter as mulheres submissas. Ele escrevera que “a educação das mulheres deve ser pensada em relação aos homens; em como nos agradar, nos ser úteis, nos fazer amá-las e prezá-las; em como educar-nos quando jovens e cuidar de nós quando crescermos; em como nos aconselhar, nos consolar, e como tornar nossas vidas fáceis e agradáveis; estes são os deveres constantes das mulheres, e é isso que elas devem aprender na infância.”

Wollstonecraft acreditava que a educação poderia ser a salvação das mulheres: “o exercício do entendimento é necessário; não há outro fundamento para a independência de caráter. Eu afirmo explicitamente que elas devem se sujeitar somente à autoridade da razão, ao invés de serem humildes escravas da opinião”. Ela insistia que as mulheres deveriam estudar assuntos sérios, como leitura, escrita, aritmética, botânica, história natural e filosofia moral; ela recomendava também exercícios físicos vigorosos para auxiliar o estímulo da mente.

É verdade que ela tinha uma fé ingênua em que se poderia confiar nos mesmos governos que limitavam a liberdade das mulheres para administrar as escolas que iriam erguê-las. As escolas estatais do século vinte se mostrariam catastróficas tanto para as mulheres como para os homens, formando inúmeras pessoas a um custo altíssimo sem lhes dar as habilidades mais fundamentais.

Wollstonecraft defendeu a eliminação dos obstáculos ao sucesso das mulheres. Ela afirmava que “a liberdade é a mãe da virtude; se as mulheres forem naturalmente escravas, e não puderem respirar o revigorante ar da liberdade, então elas deverão ser eternamente desprezadas como seres exóticos, como belas falhas da natureza”.

Ela antevia um futuro em que as mulheres seriam livres para seguir virtualmente qualquer oportunidade profissional. “Embora eu considere que as mulheres comuns são chamadas a desempenhar os papéis de esposas e mães, por motivos intelectuais e religiosos, não posso deixar de lamentar que as mulheres de um tipo superior não tenham à sua disposição um caminho que as leve a ambicionar um grau maior de utilidade e independência. (...) Quantas mulheres desperdiçaram desse modo a vida, vítimas da infelicidade, quando poderiam ter atuado como médicas, dirigido fazendas, administrado comércios, erguendo-se por meio do próprio esforço, ao invés de baixarem o rosto, encharcadas com o orvalho da sensibilidade”.

Com “Uma defesa dos direitos das mulheres’’ Wollstonecraft entrou em uma categoria própria. Ela foi além de Catherine Macaulay, sua contemporânea que escrevera apaixonadamente sobre a educação das mulheres. As literatas, mulheres como Hannah More, Elizabeth Montagu, and Hester Chapone, que alcançaram bastante sucesso explorando ao máximo as posições subordinadas aberta às mulheres, se opuseram a Wollstonecraft. Uma sucessão de escritoras – Fanny Burney, Clara Reeve, Charlotte Smith, e Elizabeth Inchbald, por exemplo – haviam retratado mulheres que alcançavam uma estatura moral heróica, mas nem sempre louvavam as mulheres por suas inteligências.

A primeira edição de A Vindication of the Rights of Woman [“Uma defesa dos direitos das mulheres”] se esgotou no primeiro ano, e Johnson lançou uma segunda. Uma edição americana e traduções para o francês e o alemão vieram em seguida.

Wollstronecraft atravessou o Canal da Mancha para ver a revolução francesa com os próprios olhos. Ela foi recebida por expatriados como Joel Barlow, patriota americano, Helen Maria Williams, poeta inglesa, e Thomas Paine. Ela se alinhou com os liberais girondinos que, assim como o marquês de Condorcet, defendiam os direitos das mulheres e uma limitação constitucional ao governo. No entanto, ela ficou horrorizado com a rapidez com que os totalitários jacobinos tomaram o poder e lançaram o reinado do Terror.

Wollstonecraft sonhava com o dia em que os homens e as mulheres tratariam um ao outro como iguais. “O homem que se contenta em viver com uma companheira bela e útil, mas sem cérebro, perdeu o gosto por satisfações mais refinadas em favor das gratificações voluptuosas. Ele nunca sentiu a tranqüila satisfação, que refresca o coração como um orvalho divino, de ser amado por alguém que pode lhe entender”.

Infelizmente, aplicar essas idéias à sua própria vida foi dificílimo. Ela ficou atraída por Henry Fuseli, um gênio excêntrico, mas ele era um homem casado e a deixou de lado depois de um demorado flerte. Quando ainda estava na França, ela se apaixonou por Gilbert Imlay, um aventureiro americano, que estava sempre em busca do esquema que lhe deixasse rico. Eles tiveram uma filha, Fanny, mas ele perdeu o interesse pelas duas e as abandonou. Wollstonecraft tentou se suicidar duas vezes. Depois da segunda tentativa, ao ser retirada do Tâmisa, ela recobrou sua força de vontade: “Parece que me é impossível deixar de existir, ou que este espírito ativo e incansável – igualmente aberto às alegrias e tristezas – seja apenas poeira organizada. Certamente algo reside nesse coração que não é perecível – e a vida é mais que um sonho”.

Enquanto se recuperava do desespero de ter sido abandonada por Imlay, ela tirou três meses de férias com Fanny na Escandinávia, quando escreveu uma das suas obras mais tocantes, Letters Written During a Short Residence in Sweden, Norway and Denmark [“Cartas escritas durante uma curta estadia na Suécia, Noruega e Dinamarca”]. As cartas estavam endereçadas ao anônimo pai americano da sua filha. Elas consistiam em um diário de viagens entrelaçados de comentários sobre política, filosofia e sua vida pessoal. Depois de ter testemunhado o Terror francês, ela maneirou suas esperanças por transformações sociais. “Um afeto ardente pela raça humana produz personalidades entusiasticamente dispostas a provocar alterações prematuras nas leis e governos. Para torná-las úteis e duradouras, essas transformações precisam crescer de cada solo particular, e serem frutos do gradual amadurecimento do espírito de uma nação, e não o resultado forçado de uma fermentação artificial. Ao longo do livro, Wollstonecraft se esforça para lidar com a tristeza de ter perdido Imlay, transmitindo uma ternura e uma franqueza que tocam o coração. William Godwin viria a observar que “se já foi feito um livro calculado para fazer um homem se apaixonar por sua autora, parece-me que foi este”.

Relacionamento com William Godwin

Wollstonecraft decidiu se aproximar de Godwin, entrando em contato com ele no dia 14 de abril de 1796. Ele tinha um testa larga, olhos fundos e uma voz fina. “Ele aparentava ter um charme que seus inimigos não conseguiam perceber e que seus amigos não conseguiam definir, mas que tinha uma influência real sobre aqueles que se tornavam seus amigos íntimos”, relatou George Woodcock, seu biógrafo.

Como Wollstonecraft, ele também fundara uma escola, mas suas idéias eram radicais demais, e o empreendimento falhou. Sua carreira literária começara com uma insossa biografia política, um livro de sermões e algumas romances comerciais. Então, George Robinson, um editor londrino, ofereceu a Godwin um pagamento adiantado para que ele pudesse elaborar sua filosofia. O resultado foi Enquiry Concerning Political Justice (1793) [“Investigação sobre a justiça política”], em que ele descreveu sua visão de uma sociedade harmoniosa sem leis ou guerras. O livro estabeleceu-o como o pensador radical mais proeminente da Inglaterra.

Godwin se opôs corajosamente à campanha do governo inglês de supressão das Corresponding Societies, que eram os clubes de debate interessados em idéias revolucionárias. Godwin escreveu cartas abertas apoiando seus participantes; ele argumentava que a campanha do governo era ilegal, já que nenhum dos acusados cometera nenhuma ato revolucionário violento. Esses escritos conquistaram a simpatia geral do público para os acusados e as acusações terminaram por ser abandonadas.

Na época que Wollstonecraft e Godwin reestabeleceram contato, ele era um solteirão de 42 anos de idade, interessado em Amelia Alderson, filha de um médico. Mas ele ficou intrigado com Wollstonecraf, apesar da sua impressão inicial de que falava demais. Ele a convidou para um jantar na semana seguinte, do qual participariam James Mackintosh e Dr. Samuel Parr, ambos autores de respostas às “Reflexões sobre a revolução na França” de Burke.

Depois de ter sido rejeitado por Alderson, Godwin se tornou mais receptivo à Wollstonecraft, e sua paixão terminou por envolvê-lo. “Foi uma amizade que se derreteu em amor”, ele comentaria. Mas Wollstonecraft estava assombrada pelo medo de outra traição. Godwin a assegurou que ele ansiava por uma relação entre iguais, e sua paixão reacendeu-se. Ela escreveu-lhe dizendo que “sentia uma tranqüilidade sublime em seus braços”. Em dezembro, ela já estava grávida. Tanto Wollstonecraft e Godwin criticavam o casamento como um veículo de exploração, mas, ainda assim, ataram os laços no dia 29 de maio de 1797. Ela estava exultante por ter finalmente encontrado seu verdadeiro amor.

Ela entrou em trabalho de parto no começo da manhã do dia trinta de agosto de 1797. Depois das onze horas daquela noite, sua filha nascera: Mary, que viria a ser Mary Shelley, autora de Frankenstein. Por um instante, as coisas pareceram estar bem, mas três horas depois, a senhora Blenkinsop avisou Godwin de que a placenta ainda não saíra do útero. Quanto mais tempo a placenta demorasse a sair, maior o risco de infecção. Godwin chamou o Dr. Poignand, que conseguir retirar a placenta. Wollstonecraft relatou que o procedimento foi a experiência mais dolorosa da sua vida.

No domingo seguinte, ela começou a sentir calafrios, um sinal perigoso de infecção. Médicos trouxeram vinho para aliviar a dor e tentaram outras medidas para estimular seu corpo a expelir os restos de placenta. Wollstonecraft continuou a piorar, morrendo na manhã do domingo do dia 10 de setembro de 1797. Godwin ficou tão abalado que não participou do funeral, que ocorreu na St. Pancras Church, onde eles tinham se casado há apenas cinco meses atrás. Ela foi enterrada no cemitério da igreja.

Influência póstuma

Pouco depois do seu falecimento, seu leal editor, Joseph Johnson, publicou a edição que Godwin preparou chamada de Posthumous Works of the Author of a Vindication of the Rights of Woman [“As obras póstumas da autora de ‘Uma defesa dos direitos das mulheres’”], em conjunto com um sincero livro de memórias de Godwin sobre ela. Embora Godwin acreditasse que revelar tudo sobre ela aumentaria sua reputação, na verdade o livro detonou uma tempestade de controvérsias, e sua inquieta vida se tornou uma desculpa fácil para menosprezar suas idéias.

Mas, como Virginia Woolf viria a observar décadas depois, “ainda ouvimos suas voz e podemos rastrear sua influência mesmo agora, entre os vivos”. As americanas que entraram em uma cruzada por direitos iguais – Margaret Fuller, Lucretia Mott e Elizabeth Cady Stanton – foram todas inspiradas por “Uma defesa dos direitos das mulheres”.

Nos últimos anos, o movimento feminista ficou associado ao tratamento preferencial das mulheres e ao ódio pelos homens. Hoje, felizmente, as pessoas estão redescobrindo Mary Wollstonecraft, que estabeleceu a raiz individualista da igualdade de direitos para as mulheres. Ela assumiu responsabilidade pela própria vida, educou-se, mostrou como uma mulher pode alcançar sucesso com sua inteligência; ela chamou todos – homens e mulheres – a realizar o próprio potencial; ela falou em defesa de liberdades econômicas essenciais; ela exigiu justiça; ela defendeu relações baseadas em respeito mútuo e amor.