Biografia: Milton Friedman

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A ocorrência da Grande Depressão dos anos 30 foi creditada ao livre mercado e trouxe consigo uma vasta expansão da interferência governamental na economia. Qualquer um que porventura se mostrasse favorável à retração dos poderes governamentais teria, necessariamente, de enfrentar a questão: “E a Grande Depressão?”. Sem as leis daquela época, temia-se, teríamos novamente altos índices de desemprego, monopólios crônicos e imensa desigualdade.

O Prêmio Nobel Milton Friedman contribuiu mais do que qualquer outra pessoa para a mudança do pensamento a respeito destas questões. Ele agrupou sólida evidência documental demonstrando que a Grande Depressão ocorreu devido à contração da oferta monetária em um terço entre 1929 e 1933, embora um banco central (o Federal Reserve) tivesse o poder de impedir tal catástrofe. A Grande Depressão foi causada por uma falha de governo. Ademais, Friedman demonstrou que “a inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário”. Ele afirmou com veemência o fato de que a sintonia fina do governo está mais sujeita a sair pela culatra: quando os responsáveis pelo banco central se dão conta de que a economia está se encaminhando para uma recessão ou depressão e inflam a oferta monetária, é provável que os efeitos venham a ser sentidos depois de a economia já ter se recuperado, piorando a inflação subsequente. Por outro lado, quando os responsáveis pelo banco central perceberem que a inflação é um problema e contraírem a oferta monetária, é provável que os efeitos sejam sentidos justamente quando a economia estiver desacelerando-se, piorando assim a próxima recessão ou depressão. Friedman deixou claro que o governo é a maior fonte de instabilidade na economia.

Enquanto outros defensores da liberdade fizeram a sua parte ao influenciar uma área específica de políticas públicas, Friedman teve impacto em diversas áreas. Ele ajudou a conduzir à era do livre-comércio internacional; apoiou iniciativas eleitorais visando a limitar impostos e o gasto governamental; inspirou o movimento pela liberdade de escolha na educação, utilizando cupons-educação que permitiriam aos mais pobres escapar das escolas públicas; pronunciou-se corajosamente contra a proibição das drogas; e ajudou a lutar contra os esforços do Presidente Clinton em tomar um oitavo da economia americana através de seu plano de serviço de saúde gerido pelo governo. Friedman orgulhava-se ainda de ter ajudado a acabar com o alistamento militar obrigatório nos EUA.

Friedman ganhou influência por conta de seus feitos acadêmicos, por ter lecionado na Universidade de Chicago por trinta anos, por colunas que escreveu na Newsweek por dezoito anos, por livros populares que venderam mais de um milhão de cópias, por dúzias de artigos em The Wall Street JournalReader's DigestHarper'sThe New York Times Magazine, e outras publicações, bem como incontáveis discursos, debates e entrevistas para a TV. Milton e sua esposa Rose mostraram como contar a história da liberdade na televisão, alcançando milhões por todo o mundo com seu documentário de dez partes intitulado Free to Choose.

Embora Friedman tenha em diversas oportunidades incentivado políticos a buscarem soluções de livre mercado, ele nunca teve interesse em eleger-se a um cargo público. Controvérsias passaram a persegui-lo, entretanto, quando foi noticiado que economistas chilenos egressos da Universidade de Chicago estariam aconselhando o ditador chileno Augusto Pinochet. O seu regime militar veio como resposta à inflação galopante causada pelo marxista Salvador Allende, da mesma maneira como outros regimes militares vieram como resposta a inflações galopantes em outros lugares; os economistas chilenos defensores do livre mercado incentivaram uma política de liberdade econômica, incluindo cortes de gastos, diminuições nos impostos, livre-comércio e privatização. Estas políticas trouxeram prosperidade e geraram pressão por liberdade política, que pôs fim ao regime militar. Ironicamente, quando Friedman ofereceu conselhos de livre mercado à China comunista durante suas visitas em 1980 e 1988 ninguém reclamou.

Friedman demonstrou uma energia contagiante por toda sua vida. Recuperou-se de uma operação cardíaca em 1972 para fazer campanha por limites nos gastos do estado da Califórnia, escreveu dois livros e voltou a jogar tênis depois de um ataque cardíaco em 1984, além de andar de skate com mais de oitenta anos com seu neto Patri. Conforme escreveu a Playboy quando publicou uma entrevista com ele, “o fato de que idéias econômicas outrora consideradas impossíveis e ultrapassadas começam a ser levadas a sério novamente é prova de que os incansáveis esforços de Milton Friedman e o vigor de suas idéias tiveram resultados”. O New York Times afirmou efusivamente que “em economia, ele é certamente o pensador mais irrepreensível, audacioso, franco, provocativo e inventivo nos Estados Unidos – e, mesmo medindo 1m60cm, ele pode ser maior que todos os seus colegas de profissão”.

George Stigler, amigo e colega de Friedman, afirmou, “Ele tem uma mente extraordinariamente lúcida. Sua habilidade para pensar rápido e conduzir-se com total propriedade no calor de um debate fazem dele um debatedor formidável, tanto pessoalmente como escrevendo. Ele é um magnífico trabalhador empírico, pronto para isolar o que ele crê serem os elementos essenciais de um problema, e para efetuar análises engenhosamente apoiadas em dados empíricos. Finalmente, ele tem um talento especial para encolerizar seus oponentes intelectuais, que dedicaram muita energia e conhecimento fazendo propaganda de seu trabalho”.

Milton Friedman nasceu no dia 31 de julho de 1912, na Barbey Street, número 502, no bairro do Brooklyn, Nova York. Ele foi o quarto filho de Jeno Saul Friedman e Sarah Ethel Landan, ambos de Beregszasz, Carpato-Rutênia, região que fazia parte do Império Áustro-Húngaro e atualmente pertence à Ucrânia. Sarah trabalhou como costureira em duras condições. Quando Milton tinha pouco mais de um ano, a família se mudou para Rahway, New Jersey, cerca de 30 quilômetros de Nova York, onde seu pai havia iniciado uma fábrica de tecidos. “Só o que eu sei”, relembra Friedman, “é que ele nunca ganhou muito dinheiro”. Seu pai morreu aos quarenta e nove anos devido a problemas cardíacos.

Milton entrou para a Rutgers University em 1928. “Minha intenção originalmente era estudar matemática”, explicou ele em sua autobiografia Two Lucky People Duas pessoas de sorte ”. “O único trabalho remunerado que eu sabia que usava matemática era o de atuário, então me informei a respeito e planejava tornar-me atuário”. Ele mudou seu campo de estudos da matemática para a economia por causa de dois profesores: Arthur F. Burns, que estava completando sua dissertação de doutorado na Columbia University, e Homer Jones, que completava sua dissertação de doutorado na Universidade de Chicago. Burns, recorda Friedman, “injetou uma paixão pela integridade científica, precisão e cuidado que muito influenciou meu trabalho científico”.

Jones conduziu Friedman à Universidade de Chicago após sua graduação na Rutgers por ter lhe conseguido uma bolsa de 300 dólares. Na aula de teoria do preço, ministrada por Jacob Viner, os estudantes sentavam-se em ordem alfabética, e Friedman sentava perto da pequena e animada Rose Director. Ela havia nascido na última semana de dezembro de 1911, a mais jovem de cinco crianças, em Charterisk, um vilarejo russo hoje parte da Ucrânia. Ela cresceu em uma casa sem eletricidade nem água corrente. Seu pai, que era agricultor, tinha irmãs e primos que haviam imigrado para os EUA, e isso o motivou a fazer o mesmo. Ele começou como caixeiro-viajante, logo em seguida abrindo um armazém, ganhando assim dinheiro suficiente para trazer sua família para junto dele e do resto de seus parentes em Portland, Oregon. Felizmente eles chegaram logo antes do início da Primeira Guerra Mundial; imigrar viria a tornar-se quase impossível depois. Aaron, irmão mais velho de Rose, estudou na Universidade de Yale e foi para a Universidade de Chicago completar seu mestrado. Rose permaneceu perto de casa, estudando no Reed College, mas transferiu-se para a Chicago dois anos depois.

Ela decidiu fazer doutorado em economia, e trabalhou como assistente de Frank Knight, enquanto Milton trabalhava como assistente de outro professor de economia, Henry Schultz. O primeiro artigo publicado por Milton foi co-produzido por Schultz, uma crítica ao “método de medição das elasticidades da demanda de dados orçamentários do professor Pigou”. Uma vez que A.C. Pigou, um dos mais respeitados economistas de sua época, lecionava na Universidade de Cambridge, Milton enviou o artigo para ser publicado no Economic Journal daquela universidade, sendo rejeitado pelo seu editor, John Maynard Keynes. O artigo foi publicado posteriormente no Quarterly Journal of Economics da Universidade Harvard, em novembro de 1934. Friedman tinha vinte e dois anos.

Henry Simons, outro economista de Chicago, teve grande influência sobre Friedman. Em 1934, Simons escreveu A Positive Program for Laissez Faire [“Um programa positivo para o livre mercado”], um panfleto distribuído pela Universidade de Chicago no qual enfatizava que as pessoas geralmente compartilham de objetivos comuns, como a promoção da prosperidade, e que as grandes diferenças de opinião estão na maneira mais eficaz de alcançar tais objetivos. Friedman convenceu milhões partindo desta mesma abordagem ao fazer uma defesa prática da capacidade de indivíduos privados em mercados competitivos de resolverem seus problemas melhor do que burocratas. Simons advertia que a “liberdade política só pode sobreviver em um sistemas econômicos efetivamente competitivos”, e este se tornou uma questão fundamental para Friedman. Simons acreditava que uma contração monetária fora primordialmente a responsável por trazer a Grande Depressão, e Friedman documentou esta tese. Por outro lado, Simons apoiava a nacionalização de estradas de ferro, imposto de renda progressivo, e outras políticas às quais Friedman se opunha.

Quando a Universidade de Columbia ofereceu-lhe uma bolsa maior (estudos e moradia) que a recebida por ele em Chicago, Friedman foi para lá fazer seu doutorado.

Em setembro de 1937, o futuro Prêmio Nobel Simon Kuznets convidou Friedman para trabalhar no Departamento Nacional de Pesquisa Econômica, aonde ele passou a estudar profissionais autônomos: advogados, contadores, engenheiros, dentistas e médicos. Este trabalho foi a base da sua dissertação de doutorado e primeiro livro, Income from Independent Professional Practice [“Renda da prática profissional autônoma”], com co-autoria de Kuznets. Embora o manuscrito tenha sido finalizado em 1941, sua publicação foi adiada por 4 anos devido à controvérsia em torno da alegação contida no livro de que as barreiras de entrada à profissão médica mantidas pelo governo mantinham a renda dos médicos artificialmente alta.

Nesta mesma época, Milton e Rose casaram-se em Nova York, onde planejavam viver, em 25 de junho de 1938. Sua filha Janet nasceu em 1943, e seu filho David dois anos depois.

De 1941 a 1943, Friedman trabalhou no Divisão de Pesquisas sobre Impostos do Departamento do Tesouro, quando os gastos governamentais subiram rapidamente, devido à Segunda Guerra Mundial. Até então, as pessoas calculavam seus impostos devidos e pagavam-nos em prestações trimestrais no ano seguinte. Friedman analisou propostas de que os empregadores descontassem os impostos na fonte, e este sistema entrou em vigor em 1943. Ele veio a arrepender-se disso, pois o desconto na fonte foi uma daquelas medidas “temporárias” dos tempos da guerra que se tornaram permanentes.

Em setembro de 1946, Friedman começou a lecionar na Universidade de Chicago, onde permaneceu por três décadas. Seu ensaio mais citado, The Methodology of Positive Economics [“A metodologia da economia positiva”], publicado em 1953, sustentou que ao se fazer afirmações a respeito de determinado fenômeno, elas devem ser verificadas através de algum tipo de observação. O teste primordial da análise econômica é a correção das suas previsões.

Em A Theory of the Consumption Function “Uma teoria da função de consumo”, Friedman explicou que as pessoas decidem gastar e poupar de acordo com suas expectativas de ganhos futuros, e não de acordo com os gastos governamentais. Seu trabalho, junto com os dados desenvolvidos por Simon Kuznets e outros, desbancou a alegação keynesiana chave de que o gasto governamental era essencial à prosperidade. Seu trabalho econômico mais importante foi A Monetary History of the United States, 1867-1860 “Uma história monetária dos Estados Unidos”, com co-autoria de Anna Jacobson Schwartz. Neste trabalho foram agrupadas evidências esmagadoras demonstrando que mudanças na oferta monetária explicam melhor os ciclos de crescimento e retração. Em especial, a idéia predominante era de que a quebra da bolsa de Nova York em 1929 havia causado a Grande Depressão, mas Friedman e Schwartz demonstraram que sua ocorrência resultou de o FED não ter evitado a contração da oferta monetária em um terço entre 1929 e 1933.

O Prêmio Nobel Robert Lucas, escrevendo no The Journal of Monetary Economics, refletiu sobre o livro depois de trinta anos: “Ele contou uma história coerente de eventos importantes, e contou-a muito bem... Trata-se de uma maravilhosa pesquisa histórica sobre a oferta monetária e seus componentes, desde 1867, detalhadamente documentada e agradavelmente apresentada... Tamanho presente à profissão merece vida longa, talvez até a imortalidade”. Em relação à alegação de que flutuações monetárias explicariam os principais eventos econômicos, Lucas acrescenta: “Devo dizer que considero o argumento de A Monetary History completamente convincente... Seu diagnóstico do declínio econômico de 1929-33 é persuasivo e, de fato, incontestado pelos diagnósticos alternativos mais sérios, continuando a impressionar-me profundamente o seu sucesso em explicar os notáveis eventos ocorridos nestes 4 anos”.

F. A. Hayek, cujo livro “O caminho da servidão” foi lançado em 1944, fez muito para estimular o desejo de Friedman em influenciar a opinião pública para a liberdade. O primeiro trabalho popular em políticas públicas escrito por Friedman, Roofs or Ceilings? [“Telhados ou tetos? “], com co-autoria de George Stigler, foi um livreto atacando o controle dos preços de aluguéis, publicado pela Foundation for Economic Education (FEE) em 1946. Friedman foi um dos membros originais da Sociedade Mont Pelerin, iniciada por Hayek em abril de 1947. “Lá estava eu”, Friedman recorda-se, “um jovem e ingênuo americano do interior, conhecendo pessoas de todo o mundo, todas dedicadas aos mesmos princípios liberais a que nos dedicávamos; todos cercados de inimigos em seus países, ainda, dentre os acadêmicos, alguns já famosos internacionalmente, outros destinados a tornar-se; fazendo amizades que enriqueceram nossas vidas, e participando da fundação de uma sociedade que teve papel importante na preservação e no fortalecimento das idéias liberais”.

Em 1956, o William Volker Charities Fund organizou uma série de palestras com Milton Friedman sobre princípios gerais e questões importantes de políticas públicas, como desemprego, monopólios, discriminação racial, seguridade social e comércio internacional. Rose Friedman editou as palestras em um livro, Capitalismo e Liberdade, publicado pela Universidade de Chicago em 1962. Friedman recomendou a abolição de subsídios agrícolas, tarifas, cotas de importação, controle de aluguéis, salário mínimo, moradia subsidiada, licenciamento profissional, seguridade social, monopólio estatal dos correios, alistamento militar obrigatório e muitas agências regulatórias. O livro acabou vendendo cerca de 500 mil cópias. “Ficamos sabendo que o livro foi contrabandeado para a União Soviética e serviu de base para uma edição pirata”, relataram os Friedman. “Sabemos que uma versão pirata polonesa foi publicada no começo dos anos 80. Desde a queda do Muro de Berlim, o livro foi traduzido para o sérvio-croata, o chinês, o polonês e o estoniano, e existem outras ainda pendentes”.

Em 1962 e 1963, os Friedman viajaram pelo mundo, visitando um total de 21 países. Milton relatou na Harper’s: “Onde quer que encontrássemos qualquer considerável elemento de liberdade individual, alguma beleza na vida comum do homem comum, alguma medida de verdadeiro progresso material e de conforto ao seu dispor e uma esperança viva em um progresso ainda maior no futuro – lá também encontramos o mercado privado funcionando como o principal meio de organização da atividade econômica. Onde quer que os mercados fossem amplamente suprimidos e o Estado tomasse o controle das atividades econômicas dos seus cidadãos... Nestes lugares, o homem comum se encontrava politicamente algemado, tinha um baixo padrão de vida, e se encontrava desprovido de qualquer sentimento de controle sobre seu próprio destino”.

Os Friedman então decidiram que queriam passar os verões em Vermont e em 1965 compraram cerca de 50 hectares de terra com vista para o Lago Fairlee. Contruíram uma casa em formato hexagonal com uma lareira no centro, design inspirado pela Freedom School, estabelecida por Rober Lefevre em Colorado Springs, Colorado, onde Friedman havia dado aulas dois anos antes. A casa foi nomeada Capitaf, em referência ao título em inglês de seu livro Capitalismo e Liberdade (eles esperavam que os royalties pagassem pela casa). Foi lá que Friedman desenvolveu grande parte de seu trabalho até 1980, quando eles se mudaram de vez para a Califórnia.

Em 1966, os editores da Newsweek decidiram parar de publicar a coluna Business Tides [“Marés dos negócios”], que vinha sendo escrita pelo jornalista liberal Henry Hazlitt havia duas décadas, e decidiram tentar revezar sua titularidade entre três economistas: Friedman, o esquerdista Paul Samuelson e o centrista Henry Wallich. O espaço limitado da revista forçou Friedman a expressar sua visão de maneira simples e concisa como nunca antes. “Meu estilo de escrita melhorou não apenas nas colunas, mas em tudo o mais que eu escrevia, melhorando também a minha coerência em defender uma posição”, refletiu. Houve três coletâneas das suas colunas na Newsweek: An Economist’s Protest “O protesto de um economista”There’s No Such a Thing as a Free Lunch “Não existe almoço grátis”, e Bright Promises, Dismal Performances “Promessas brilhantes, péssimas performances”. Sua produção de artigos populares continuou depois da Newsweek: oitenta e dois editoriais e cartas ao editor em jornais como The Wall Street JournalThe New York TimesThe Washington PostSan Francisco Chronicle, dentre outras publicações.

Ter recebido o Prêmio Nobel em 1976 foi um grande destaque na carreira de Milton Friedman, mas o que Rose chamou de “o empreendimento mais empolgante de nossas vidas” partiu de uma sugestão de Robert J. Chitestester, presidente da WQLN, rede de TV pública de Erie, Pensilvânia. Mesmo sendo um Democrata “de esquerda”, Chitester ganhou uma cópia de Capitalismo e liberdade e achou o livro bastante persuasivo. Ele propôs que Friedman realizasse uma série de palestras sobre tópicos que pudessem ser transformados em um documentário para a TV, acompanhado de um livro. Em 26 de julho de 1977, Friedman concordou em embarcar no projeto.

Chitester levantou cerca de 2,8 milhões de dólares para a produção e promoção de um documentário de dez partes, um sucesso notável uma vez que executivos de empresas em geral não tinham interesse em patrocinar programas sobre questões políticas, nem mesmo liberdade econômica. Além do mais, ele tinha que garantir a potenciais apoiadores que, se o show viesse a ser produzido, seria de fato televisionado. Embora executivos e produtores da PBS fossem abertamente hostis às idéias de Friedman, eles haviam sido criticados por televisionar o documentário Age of Uncertainty [“Era da incerteza”], do socialista John Keneth Galbraith, e decidiram equilibrar as coisas televisionando o documentário de Friedman.

Documentários da mais alta qualidade técnica eram feitos na Grã-Bretanha, e Ralph Harris, diretor do Institute for Economic Affairs, de Londres, recomendou Anthony Jay, que havia deixado a burocracia da BBC para tornar-se parceiro de uma empresa de produção televisiva chamada Video Arts. Jay sugeriu que cada programa deveria consistir em trinta minutos de documentário e trinta minutos de discussão, já que este formato seria muito mais barato que filmar um documentário de uma hora com cenas pelo mundo afora. “Quem protege o consumidor?” seria o programa-piloto para resolver problemas de produção e fornecer um exemplo para conseguir fundos. Foi filmado em San Francisco, Sacramento e Washington, D.C. Friedman usou suas próprias palavras sem um roteiro. O título sugerido para o programa-piloto foi Free to Choose [“Livre para escolher”], e os Friedman consideraram-no um título adequado para a série.

Em uma das cenas mais memoráveis, Friedman fala enquanto caminha por entre as pilhas do Registro Federal (lista de novas regulamentações) organizadas em ordem cronológica. Há apenas um ou dois volumes por ano dos anos 30, de maneira que os telespectadores podem ver toda a sua figura. Então nos anos 40 o número de regulamentações foi aumentando cada vez mais, e a pilha de cada ano já lhe cobre as pernas. Os anos 60 trouxeram consigo uma explosão de regulamentações, fazendo com que as pilhas sejam tão altas que Friedman não pode mais ser visto.

A primeira parte de Free to Choose foi exibida em janeiro de 1980 em mais de 196 estações da PBS (72% de todas elas). Free to Choose teria atraído uma audiência maior do que a de Masterpiece Theater, um dos programas mais populares da PBS. A série foi televisionada em seguida para mais de uma dúzia de países com e sem legendas; teria sido também contrabandeada para a China comunista e para a União Soviética, dentre outros lugares. A Encyclopedia Britannica lançou edições em 16mm da série e vendeu-as por 3 mil dólares o conjunto. Em 1987, os Friedman compraram os direitos de reprodução por 25 mil dólares e conseguiram a sua distribuição do vídeo por 110 dólares.

“O livro Liberdade de escolher, que escrevemos para acompanhar o vídeo, é... o [nosso] único livro baseado quase que completamente no inglês falado, em lugar do escrito. Em parte por esta razão, ele vendeu mais cópias do que qualquer outro livro que tenhamos escrito”, relembra Friedman. Quando Liberdade de escolher chegou às livrarias, foi logo alçado ao posto de livro de não-ficção mais-vendido do ano de 1980. Mais de 400 mil cópias de capa-dura foram vendidas, e a edição em brochura alcançou mais de um milhão de vendas. O livro foi traduzido para dezessete línguas.

Ao longo dos anos, Friedman colaborou com diversas campanhas pela liberdade. Em1969, o Presidente Nixon, defensor de longa data do alistamento militar obrigatório, indicou Friedman como um dos quinze membros da Comissão Consultiva sobre a proposta de alistamento voluntário. Friedman ajudou a alcançar uma recomendação unânime para a voluntariedade do serviço militar, e a sua obrigatoriedade acabou em 27 de janeiro de 1973.

Em 1971, depois de o governo dos EUA ter abandonado seus esforços para controlar as taxas de câmbio, Friedman alertou a Leo Malamed, presidente da Bolsa de Valores de Chicago, sobre a chegada da era do câmbio flutuante. Em junho de 1972, a Bolsa de Valores de Chicago abriu o Mercado Monetário Internacional, que expandiu dramaticamente o fluxo de trocas de moedas.

Friedman foi o precursor do movimento pela escolha educacional. Em 1955 ele havia escrito The Role of Government in Education [“O papel do governo na educação”], artigo que se tornou a base do capítulo VI de Capitalismo e Liberdade. Apenas os pais que pagam mensalidades duas vezes – impostos que sustentam as escolas públicas mais as mensalidades de escolas privadas – costumavam ter alguma escolha real, disse ele, e propôs que “pais que optem por mandar seus filhos a escolas privadas receberiam uma soma igual aos custos estimados da educação em uma escola pública”. Eles estabeleceram a Milton and Rose D. Friedman Foundation para promover a privatização das escolas públicas.

Em seu discurso presidencial na Associação Econômica Americana (1967) e em outros lugares, Friedman desafiou a doutrina Keynesiana de que a inflação curaria desemprego. Seu ponto de vista foi confirmado durante os anos 70, quando muitos países sofreram estagflação – alta inflação e alto desemprego simultaneamente. Friedman colocou pressão em governos para que parassem de inflar a oferta monetária, e aqueles que seguiram seus conselhos abriram caminho para uma extraordinária prosperidade sem inflação.

Friedman promoveu iniciativas eleitorais para limitar gastos governamentais e impostos, começando em 1973 quando ele participou de uma tour de discursos com Ronald Reagan, então governador da Califórnia. Ele auxiliou Lewis K. Uhler, assistente de Reagan, a estabelecer o Comitê Nacional de Limitação de Impostos, que fez campanha por uma emenda constitucional limitando os gastos governamentais. Mais recentemente, iniciativas eleitorais demonstraram ser a estratégia mais eficaz para a limitação do poder governamental.

Friedman é considerado o maior defensor da liberdade no século XX. Ele levou à mídia mais do que ninguém o debate sobre várias questões, por mais de 50 anos. Sua influência se estendeu pelo mundo. Ele nunca pôde se esquecer que judeus e outras minorias perseguidas encontraram refúgio nos mercados livres. Era muito agradecido porque seus pais e os pais de sua esposa vieram para os Estados Unidos. Valorizava este fato por que houve propriedade privada razoavelmente segura, uma universidade independente que pôde contratar indivíduos como ele, com idéias heterodoxas – e ele pôde falar e escrever livremente. Ele inspirou milhões a ajudar a carregar a tocha da liberdade em sua próxima volta.