Biografia: Rabelais

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O francês François Rabelais foi um dos maiores inspiradores do individualismo no mundo moderno. Nascido durante a Renascença, ele cresceu em meio à tumultuada Reforma e desafiou a intolerância tanto de católicos quanto de protestantes. Ele se expressou livremente, seguindo a ocupação de sua livre escolha, e fez amizades com radicais. Seu herói era Desiderius Erasmus, o grande defensor da tolerância nascido na Holanda.

Poucos outros escritores tiveram um espírito tão livre e bem-humorado como o que Rabelais demonstrou em seus contos satíricos sobre os gigantes Gargântua e Pantagruel. H. L. Mencken era um admirador de sua “estupenda erudição... furiosa impaciência com a desonestidade... e heróica inclinação pela loucura”. O acadêmico francês Jean Marie Goulemot observou que a obra de Rabelais “contém críticas às autoridades religiosas e políticas e admiração por formas sociais anti-autoritárias... Representa uma escolha, uma afirmação da liberdade do indivíduo para estabelecer seus próprios padrões, rejeitar idéias e crenças convencionais e constituir seu próprio conhecimento”. O historiador Will Durant descreveu Rabelais como “um autor único, inexaurível, cético, hilário, erudito e obsceno”, e o historiador Daniel J. Boorstin disse que “Rabelais fez de todas as instituições e questões de fé alvos de sua extravagante imaginação”.

Desafiar as instituições estabelecidas, especialmente as religiões, exigia coragem. Um dos amigos de Rabelais, o humanista francês Etienne Dolet, foi enforcado e queimado por publicar uma tradução de Platão, e o médico Miguel Serveto foi queimado vivo por heresia. Quando Rabelais começou a escrever, considerou prudente adotar um pseudônimo. De fato, sua obra foi denunciada por figuras poderosas do clero, e em mais de uma ocasião ele mudou-se secretamente para evitar as autoridades. Embora ele afirmasse que só queria fazer rir, o acadêmico J. M. Cohen observou que “era claro para todos que ele fazia críticas sérias às leis, aos costumes, e às instituições, e de nada adiantava ele descrever a si mesmo como um mero cômico que buscava apenas entreter. O entretenimento provavelmente veio sempre em primeiro lugar. No entanto, a crítica não apenas estava presente, como se tornava duas vezes mais devastadora devido à sua maestria verbal”.

Rabelais desafiou as instituições mais poderosas da Europa, incluindo a Igreja Católica; por exemplo, ridicularizando monges e reis e suas guerras intermináveis. E então ele começou a vislumbrar uma sociedade livre: “Homens livres, bem-nascidos, bem-criados e expostos a companhias honestas, têm naturalmente um instinto e um impulso que os impelem a ações virtuosas e os repelem dos vícios, chamados honra. Esses mesmos homens, quando reduzidos à vil submissão e repressão e assim mantidos, afastam-se da nobre disposição que anteriormente os inclinava à virtude”. Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo, adaptou a frase de Rabelais sobre a liberdade para sua coleção de ensaios Do What You Will [“Faça o que quiser”] (1929), e o individualista americano Albert Jay Nock chamou a visão de Rabelais de “um fascinante retrato do sonho humanista da sociedade humana existindo em um estado de liberdade absoluta; em que a liberdade econômica forma a base sobre a qual a liberdade política e social ergue-se inevitavelmente”.

Apesar da polêmica que causava, Rabelais facilmente fez amizades com católicos influentes, e conviveu com o Papa. Nozick relata que “os relacionamentos de Rabelais parecem sempre ter sido marcadamente pessoais; ele tinha um dom para a amizade, um grande talento para fazer-se querido”. Alguns de seus amigos tornaram-se seus patronos e protetores. “De seu tamanho e forma nada se sabe”, escreveu o biógrafo D. B. Wyndham Lewis. “Imagino-o como tendo estatura acima da média, corado, robusto, vigoroso, e, em resumo, como ele se descreve no “Prólogo” do Quarto livro [de Gargântua e Pantagruel], ‘sadio, alegre, perfeitamente são e disposto a beber se você quiser.’ [“hale, and cheery, and sound as a Bell, and ready to drink if you will”]. Seu rosto é conhecido. Suas características marcantes são olhos escuros, astutos, vigilantes, curiosos e sardônicos; sobrancelhas finas que parecem sempre estar prestes a arquear-se em divertimento, zombaria, ou ira; nariz agressivo e boca firme, imperiosa e impaciente”. Lewis, um católico inglês, declarou: “Para cada litro de sabedoria ele destila dois de tolice, mas o que importa? Com a pena na mão, ele é incomparável. É único. É mágico. É magnífico. É um gigante... Uma vez que seu feitiço nos captura, é impossível escapar dele”.

O professor de literatura francesa Donald M. Frame escreveu que “não sabemos quando ele nasceu, e, consequentemente, desconhecemos sua idade em qualquer dado momento; também não sabemos nada a respeito de sua infância; da mulher ou das mulheres que deram à luz seus três filhos ilegítimos dos quais sabemos; de seu relacionamento com sua parceira ou parceiras sexuais; ou dos motivos que o levaram a adotar e depois abandonar a vida conventual”. Sabemos que ele era mais novo do que um de seus irmãos, e possivelmente mais novo do que seus dois irmãos, Antoine Jr. e Jamet, e sua irmã Françoise. François provavelmente nasceu em La Devinière, uma casa de campo feita de pedra a várias milhas de Chinon, ao sul do rio Loire. Seu pai era Antoine Rabelais, um influente advogado e proprietário de terras. É possível que Rabelais tenha frequentado uma escola em Seuilly, perto de seu local de nascimento, administrada por monges beneditinos famosos como educadores.

Ele cresceu em uma época de crescente interesse pelas línguas e literaturas grega e latina, e aprendeu a escrever em latim, assim como em grego. Graças à invenção da impressão com tipos móveis por Johannes Gutenberg por volta de 1450, obras que antes existiam apenas como raros manuscritos tornaram-se disponíveis como livros, e Rabelais parece ter sido um devorador de livros de todos os tipos. Por volta de 1520 ele decidiu tornar-se frade, talvez porque, como filho mais jovem, ele não tinha o direito de herdar a propriedade do pai e tornar-se um proprietário de terras, e não queria tornar-se aprendiz de um comerciante local. A Igreja Católica oferecia as carreiras mais promissoras e alguma estabilidade econômica, possuía vastas bibliotecas e proporcionava oportunidades de viajar. Rabelais ingressou na ordem fundada por São Francisco de Assis. Frades franciscanos vagavam pregando e mendigando, e não ensinavam. Conforme Albert Jay Nock e C. R. Wilson observaram, “por observar votos de pobreza, eles se tornavam muito sujos e maltrapilhos; eram notórios por isso até mesmo em uma época em que os padrões comuns de higiene já eram bastante baixos, e por isso tiveram um papel importante no refoço da tradicional associação entre santida de e miséria... A maioria deles era muito ignorante; com efeito, sua ignorância tornou-se proverbial... O trabalho da ordem não dava valor algum à educação”.

Mesmo assim, Rabelais foi viver no convento de Puy-Saint-Martin, em Fontenay-Le-Comte, Poitou, que pertencia a frades franciscanos, onde permaneceu por volta de quatro anos. Logo tornou-se amigo de Pierre Amy, o único outro frade que compartilhava seu amor pelo latim e pelo grego. Durante esse período, a insatisfação com a Igreja Católica se espalhava por todo o norte da Europa, entre pessoas que estavam cansadas de pagar altos impostos à Igreja, especialmente levando-se em conta a corrupção que havia entre o clero. Muitos príncipes encorajaram o que viria a ser a Reforma porque queriam ganhar independência política da Igreja, e tinham planos de ficar com todas as receitas para si mesmos. Reis católicos também ganharam poder às custas da Igreja; na França, Francisco I negociou a prerrogativa de nomear bispos sem interferência de Roma. Mas a Igreja contra-atacou: na França, a Contra-Reforma foi liderada pela faculdade de teologia da Universidade de Paris, conhecida como Sorbonne. O estudo da literatura grega foi banido por ser considerado subversivo. É indicativo da capacidade de Rabelais de fazer amigos que em 1524 ele tenha conseguido uma transferência da ordem franciscana para a beneditina. Assim, ele foi incorporado à abadia beneditina em Maillezais, presidida pelo influente bispo Geoffroy d'Estissac; o Papa Clemente VII teve de aprovar tal mudança pessoalmente. Aparentemente, d'Estissac estimava o conhecimento, a conversa e a companhia de Rabelais, que o acompanhou em viagens por toda a diocese.

Rabelais deixou esta posição em 1527, e parece ter passado algum tempo em Paris estudando medicina. Na época, isso não significava fazer exames clínicos, mas sim ler autores da antiguidade. Em setembro de 1530 ele se matriculou na faculdade de medicina da Universidade de Montpellier, e três meses depois recebeu o título de médico. Fez palestras sobre os médicos da Grécia antiga, de cujas obras seus contemporâneos retiravam toda a sua informação médica. As palestras foram publicadas em latim em 1532, com o título Hipócrates e Galeno. Subsequentemente foi nomeado médico do hospital Hôtel-Dieu, em Lyons, onde lecionou anatomia humana, um assunto então considerado bastante ousado. Em agosto de 1532, um editor de Lyons publicou uma coletânea de contos populares chamada Les grandes et inestimables cronicques du grand et énorm géant Gargantua ["As grandes e inestimáveis crônicas do grande e enorme gigante Gargântua"], um herói de apetite ilimitado e que oferecia uma mãozinha aos camponeses quando eles precisavam.

O livro teve grande sucesso comercial, e Rabelais decidiu escrever uma continuação. Em dezembro, havia produzido Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel, roy des Dipsodes ["Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, rei dos Dípsodos"], que se tornou conhecido como Segundo livro, sobre Pantagruel, filho de Gargântua. Uma das passagens mais notáveis do Segundo livro é a carta que Gargântua escreve a seu filho, exaltando as virtudes de uma educação liberal: o estudo de idiomas, história, matemática, biologia, filosofia, um pouco de direito, e medicina. A obra não foi escrita em latim, a língua de autoridades religiosas, advogados e acadêmicos, mas sim no “vulgar” idioma francês falado pelo povo.

Aparentemente temendo que a história e a língua em que ela havia sido escrita provocassem a ira dos censores, pondo em risco sua carreira na medicina, Rabelais escreveu sob um pseudônimo, Alcofribas Nasier. A seguir, ele decidiu escrever La vie inestimable du grand Gargantua ["A inestimável vida do grande Gargântua"], que ficou conhecido como Primeiro livro, sobre o próprio Gargântua. Parece ter sido publicado em 1534. No prólogo, Rabelais indicava a intenção de divertir a todos: “Nobilíssimos e ilustríssimos beberrões, e vós, três vezes preciosos jovens perebentos... fazei vosso melhor para manter-me sempre alegre. Brincai agora, meus caros, e alegrai vossos corações”. Gargântua, explica Rabelais, nasceu da orelha esquerda de sua mãe. Seus primeiros gritos, segundo testemunhas, foram: "Bebida! Bebida! Bebida!". Ele era tão grande que foram necessárias 17.913 vacas para abastecê-lo de leite. Suas roupas exigiram uma quantidade colossal de tecido: "Para fazer suas camisas foram usados novecentas varas de linho de Chateleraud... Para os culotes, foram usados mil cento e cinco varas e um terço de tecido branco largo... Para usar em volta do pescoço ele tinha uma corrente de ouro que pesava vinte e cinco mil e sessenta e três marcos de ouro" Qualquer que seja o valor dessas medidas arcaicas, Gargântua era obviamente grande, e foi criado para beber, comer e dormir. Em certa ocasião, Gargântua comeu seis peregrinos que estavam escondidos em um canteiro de repolhos e alface.

Primeiro livro era em grande parte um tratado anti-guerra. Por exemplo, Rabelais descreve uma briga entre padeiros e pastores. Os padeiros estavam carregando bolos para o mercado, e os pastores queriam alguns. Os padeiros recusaram, de forma bastante rude, chamando os pastores de "apostadores tagarelas, comilões alcoolizados, gulosos sardentos, canalhas desprezíveis, cagões vigaristas, baderneiros bêbados”, e mais. Padeiros e pastores se atacaram, e os pastores acabaram comprando diversos bolos em troca de dinheiro, mais de cem ovos e três cestas de amoras. Os padeiros foram reclamar com o rei Picrochole, que mandou soldados para devastar o campo. O bom monge Frère Jean fez muito para defender os pastores, e Gargântua o ajudou estabelecendo um monastério, Theleme, que era um paraíso libertário. Seu lema era: "Faze o que quiseres" (“Do what thou wilt”). Rabelais descreveu o lugar assim: "Suas vidas eram regidas não por leis, estatutos ou regras, mas segundo seu próprio livre-arbítrio e vontade. Levantavam-se de suas camas quando achavam por bem; comiam, bebiam, trabalhavam, dormiam conforme seu estado de espírito e disposição... Com tal liberdade, assumiram um hábito muito louvável de fazerem, todos eles, aquilo que constatavam que os agradava”.

Albert Jay Nock observou: "Na abadia não havia disciplina alguma que não fosse auto-imposta; todos os arranjos se baseavam na responsabilidade individual... Não há, acreditamos, concepção mais elevada, convincente e sã das potencialidades da natureza humana dotada de não mais do que a mera liberdade – apenas isso – do que a exposta no capitulo cinquenta e sete, que descreve a disciplina dos Thelemitas”. O Primeiro livro e o Segundo livro foram reimpressos juntos, e, segundo relatos, ultrapassaram todos os outros livros em vendas, com exceção da Bíblia e da Imitação de Cristo (1426) de Thomas A. Kempis. No início de 1543, a Sorbonne incluiu tanto Gargântua quanto Pantagruel em sua lista de livros que bons católicos não deveriam le r. O protestante João Calvino acusou Rabelais de ateísmo, uma acusação séria naqueles tempos. Rabelais produziu o Terceiro livro em 1546, desta vez usando seu verdadeiro nome. O livro é principalmente sobre o pródigo companheiro de Pantagruel, Panurgo, tentando decidir se deve se casar. Uma vez que não tem confiança em seu próprio julgamento, ele busca conselhos de um clérigo, um médico, um advogado e um filósofo, mas eles não ajudam muito, então ele parte em uma jornada para consultar o Oráculo da Divina.

Terceiro livro também expressa mais sentimentos anti-guerra. Rabelais parece ter-se fixado em Paris, onde escreveu onze capítulos do Quart livre des faits et dits heroïques du noble Pantagruel ["Quarto livro dos feitos e ditos heróicos do nobre Pantagruel"]; foram publicados em 1547. Acredita-se que os capítulos eram cerca de um terço do que Rabelais havia imaginado. O livro acaba abruptamente, deixando um episódio incompleto. Jean Plattard especulou que Rabelais teria apressado a publicação para levantar dinheiro para uma viagem à Itália e para responder a críticos que o acossavam. Cinco anos mais tarde, ele reviu e expandiu o Quarto Livro, em que continua a busca de Pantagruel pela Divina Garrafa. Refletindo os sonhos dos europeus de encontrar uma Passagem Noroeste entre a América e a China, Rabelais criou um épico na tradição de Homero e outros cronistas, abundante em tempestades, pessoas estranhas e lugares como as Ilhas Canibais e as Ilhas Burocracia (habitadas por funcionários que passam o tempo emitindo ordens judiciais e intimações). Rabelais satirizava o fanatismo político, como nesta passagem de Homenas: “O fim de todas as guerras, saques, sofrimento, roubos, assassinatos, a menos que seja para destruir estes malditos hereges rebeldes. Oh, então, júbilo, alegria, festividades, alívio, jogos e deliciosos prazeres sobre a face da Terra”. Sabemos pouco sobre como Rabelais passou os últimos anos de sua vida. Em 1552, circularam rumores de que ele havia sido preso, porque seus amigos não conseguiam localizá-lo. Dois anos depois, surgiram homenagens aparentemente ocasionadas por sua morte. Uma cópia do século dezoito de registros paroquais da igreja de São Paulo, em Paris, data sua morte de 9 de abril de 1553. Ele teria por volta de cinquenta e nove anos.

Provavelmente foi enterrado no cemitério de São Paulo, em Paris. Um livro com o título de Cinquième et dernier livre [“Quinto e último livro”], atribuído a Rabelais, surgiu em 1562, mas pesquisadores têm dúvidas a respeito da autenticidade da obra. Conforme explicou Jean Plattard, “uma simples análise do conteúdo desta obra póstuma e das circunstâncias de sua publicação nos levam a duvidar de que seja genuína. É possível que ela consista de rascunhos ou fragmentos abandonados por Rabelais, e guardados por diversas razões, sem dúvida para serem usados posteriormente, unidos por outro autor, provavelmente um Huguenote [Protestante] que selecionou entre os fragmentos as partes mais facilmente adaptáveis às paixões de seus correligionários”. É certo que o livro frequentemente evoca o espírito de Rabelais, como no apelo para que se “remova todas as formas de tirania do mundo”.

A obra de Rabelais tornou-se amplamente lida. “Poucos livros franceses foram reimpressos com mais frequencia”, segundo Plattard. “Houve noventa e oito edições no século XVI, vinte no XVII, vinte e seis no XVIII, e por volta de sessenta no XIX... Suas obras não apenas inspiraram contadores de histórias em prosa e verso, panfleteiros e poetas cômicos e satíricos, como também forneceram enredos para balés, motivos decorativos para leques ou tecidos estampados... Uma lista de grandes nomes da literatura, da ciência e da política que se deleitavam com a leitura de Rabelais seria muito longa”. Os escritos de Rabelais continuaram a ser alvo de intensas polêmicas. Autores protestantes e católicos o denunciaram como “a praga e a gangrena da devoção”, autor “do livro mais depravado de todos os tempos”, e responsável por “um manual de libertinagem”. Voltaire, em sua juventude, considerava Rabelais grosseiro, mas mais tarde passou a admirar sua obra, como muitos outros, por sua erudição, sabedoria e humor.

O biógrafo Donald M. Frame escreveu que “as traduções de Rabelais para outras línguas eram raras no início, mas se tornaram amplamente disponíveis”. Rabelais ainda surpreende leitores com sua energia titânica, falando contra as bárbaras crueldades de nossos dias assim como as de seu tempo. Rabelais permanece atual por conta de sua grande alegria de viver.

 

* Publicado originalmente em 10/04/2009.