Biografia: Robert Heinlein

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Robert Heinlein, um mestre pioneiro da ficção especulativa, capturou a imaginação de milhões de pessoas pela liberdade. Cinco de seus romances narram histórias de rebeliões contra as tiranias, outros tratam de diferentes lutas pela liberdade, e as declarações em defesa desta são abundantes em seus escritos.

Heinlein é o autor de ficção científica mais celebrado do mundo. Em junho de 1969, enquanto o astronauta Neil A. Armstrong, tripulante da nave Apollo 11, pisava na lua, Heinlein falava para milhões de pessoas, em todo o mundo, como comentarista convidado, ao lado de Walter Cronkite, âncora da CBS-TV. “Quando a Science Fiction Writers of America começou a entregar seus Grand Master Awards, em 1975, Heinlein recebeu o primeiro numa aclamação geral”, disse Isaac Asimov, respeitado autor de mais de trezentos livros, sendo vários de ficção científica. Heinlein é o único autor que ganhou quatro prêmios Hugo de melhor romance de ficção científica — por Estrela oculta (1956), Tropas estelares (1959), Um estranho numa terra estranha (1961) e Revolta na Lua (1966). Ele foi o primeiro autor de ficção científica a figurar na lista de best-sellers do New York Times (com Um estranho numa terra estranha). Isso se repetiu com seus últimos cinco livros.

A obra de Heinlein — cinquenta e seis contos e trinta romances — foi traduzida para o búlgaro, o croata, o tcheco, o holandês, o pársi, o finlandês, o francês, o alemão, o grego, o hebraico, o húngaro, o italiano, o japonês, o lituano, o português, o romeno, o russo, o espanhol e o sueco. Seus livros venderam mais de 30 milhões de cópias nos Estados Unidos e mais de 100 milhões através do mundo.

Isaac Asimov, cuja surpreendente carreira começou ao mesmo tempo em que a de Heinlein começou a tomar um rumo, discordava de muitas opiniões deste, mas declarou: “A partir do momento em que sua primeira história foi lançada, o mundo da ficção científica, admirado, reconheceu que ele era o melhor escritor do gênero, posição que ele manteve pelo resto de sua vida”. Stephen King, famoso autor de suspenses, escreveu que “após a Segunda Guerra Mundial, Robert A. Heinlein firmou-se não apenas como o principal escritor de ficção especulativa dos Estados Unidos, mas como o maior escritor desse gênero no mundo. Hoje, ele permanece como uma espécie de marca registrada em tudo o que há de mais belo na ficção imaginativa americana”.

New York Times Book Review saudou Heinlein como “um dos escritores mais influentes da literatura americana”. Gene Rodenberry, criador, roteirista e produtor da popular série de TV Star Trek, reconhecia que Heinlein estava entre os poucos autores “de que tive o prazer de sentar ao lado”. Robert Silverberg, autor de mais de cem livros de ficção científica, explicou que a “crença de Heinlein de que a história tinha que fazer sentido, e o irresistível vigor de sua narrativa, deleitava os leitores de Astounding [“Impressionante”], fazendo com que estes passassem a exigir que ele escrevesse mais. John Campbell, editor, tinha encontrado o escritor que melhor incorporava seus próprios ideais de ficção científica. Em dois anos, em uma surpreendente torrente de escritos para uma revista, Heinlein tinha reconstruído completamente a natureza da ficção científica, da mesma forma que Ernest Hemingway, nos anos 1920, no domínio da ficção moderna geral, tinha redefinido o romance moderno. Desde 1927, ninguém que tenha escrito ficção científica pode deixar de levar em conta a teoria e a prática de Hemingway sem parecer arcaico ou muito ingênuo; ninguém, desde 1941, escreveu ficção científica de primeira qualidade sem uma compreensão do conjunto de exemplos teóricos e práticos de Heinlein”. Tom Clancy, famoso escritor de suspenses, acrescentou: “O que torna o sr. Heinlein parte da tradição literária americana é a predominância de seu caráter. Sua obra reflete o otimismo americano fundamental que ainda surpreende nossos amigos ao redor do mundo. Conforme o senhor Heinlein nos ensinava, o indivíduo pode e será bem sucedido. O primeiro passo para o sucesso individual é a percepção de que este é possível. A tarefa do escritor é, frequentemente, permitir às pessoas saber o que é possível e o que não é, pois assim como a escrita é um produto da imaginação, da mesma forma o é todo o progresso humano”.

Heinlein ocupa um lugar especial no coração de milhares de pessoas que o descobriram na juventude. Antes de ele aparecer como autor de best-sellers para adultos, já tinha estabelecido sua reputação com mais de uma dúzia de livros clássicos para os jovens: Nave Galileu (1947), Space Cadet [“Cadete do espaço”] (1948), O planeta vermelho (1949), Farmer in the Sky [“Um fazendeiro no céu”](1950), Entre planetas (1951), Um negócio de família (1952), Starman Jones [“Jones, o homem do espaço”](1953), A besta do espaço (1954), Um túnel no céu (1955), O tempo das estrelas (1956), Cidadão da galáxia (1957), Viajantes do espaço (1958) e Tropas estelares (1959). O escritor J. Neil Schulman falou por muitos quando confidenciou que “se Robert Heinlein não tivesse escrito os livros que escreveu, e eu não os tivesse lido, duvido muito que eu tivesse tido a base intelectual necessária para sair do buraco em que me encontrava entre os quinze e os dezoito anos de idade. Ele escreveu sobre futuros que eram dignos de ser vividos. Escreveu sobre pessoas talentosas que sentiram que a vida valia a pena e a tornaram digna de ser vivida, não importando os problemas que pudessem surgir em seu caminho. Seus personagens sempre encontravam dificuldades, mas perseveravam”.

A obra de Heinlein inspirou leitores por todo o mundo. Por exemplo, disse o estudioso Tetsu Yano: “Eu tinha perdido todos os meus livros durante a guerra e tinha pouco dinheiro para comprar novos. Eu queria e tinha que ler algo. Apesar de não ser fluente em inglês, encontrei revistas de ficção científica fáceis de ler. Fiquei, particularmente, inspirado pelas histórias escritas por Robert Heinlein e Anson Mcdonald (um dos pseudônimos de Heinlein). Seus alegres contos me deram a vontade, a esperança e a coragem de continuar vivendo entre as ruínas do Japão pós-guerra. Robert Heinlein era meu professor e benfeitor. Aprendi inglês lendo suas histórias e me tornei tradutor. Tem sido uma honra traduzir os livros de Heinlein para o japonês”.

Alexei Panshin, crítico de ficção científica, descreveu Heinlein com “em torno de 1,55m de altura, com cabelos e olhos castanhos. Ele é forte, de postura ereta e um comportamento quase militar. Usou, durante anos, um bigode aparado e, pelo que se dizia, estava sempre arrumado, mesmo que estivesse em uma selva (...) Sua voz era a de um barítono anasalado e soava forte, com um pouco do agradável sotaque do Missouri”. Conforme Isaac Asimov lembrou: “De certa forma, minha amizade mais importante era com Robert Anson Heinlein (...) um homem muito bonito (...) com um sorriso gentil e um comportamento tão nobre que sempre me fazia me sentir um mal-educado quando estava ao seu lado. Eu era o camponês, enquanto ele era o aristocrata”.

Robert Silverberg relembrou Heinlein como “um ser humano encantador, polido, honrado, com um inesperado e dissimulado senso de humor. Eu o encontrei pela primeira vez (...) na World Science Fiction Convention de 1961, em Seattle, onde ele era convidado de honra. Ele impressionou a todos ao organizar uma festa na suíte em que estava hospedado e convidar toda a convenção para comparecer. Isso seria impensável hoje em dia, uma vez que cinco ou seis mil pessoas participam dessas convenções. O comparecimento, em 1961, era de, aproximadamente, duzentas pessoas, mas, mesmo assim, esse continuou sendo um gesto notável: Heinlei n, vestindo seu roupão de banho, recebendo graciosamente todos os fãs, que estavam de olhos arregalados (e uns poucos escritores que também estavam de olhos arregalados) e que entravam no quarto (...) Eu me lembro de ter dito a ele que eu já tinha publicado sete milhões de palavras de ficção (...) e ele respondeu, ‘Não há essa quantidade de palavras no idioma. Você deve ter vendido várias delas mais de uma vez’”.

Robert Anson Heinlein nasceu em 07 de julho de 1907, em uma casa de dois andares na 805 North Fulton Street, em Butler, no Missouri, cerca de 100 quilômetros ao sul de Kansas City. Seu pai, Rex Ivar, filho de um vendedor de arados, era escriturário. Sua mãe, Bam Lyle, era filha de um médico.

Em 1910, seu irmão Lawrence, de dez anos, o levou para ver o cometa de Halley, que passava pelo céu, e essa foi uma visão que ele nunca mais esqueceria. Ele ficou fascinado pela astronomia e construiu sozinho um pequeno telescópio. Tornou-se ávido leitor de histórias de aventura, em particular, de ficções científicas, e apreciava as obras de Mark Twain, Rudyard Kipling, Júlio Verne, H. G. Wells, Edgar Rice Burroughs e H. Rider Haggard.

Passou um ano na Universidade do Missouri e, depois, transferiu-se para a Academia Naval dos Estados Unidos, onde se tornou excelente esgrimista. Graduou-se, em junho de 1929, em engenharia mecânica. Logo após, casou-se com Leslyn Mcdonald. Pouco se sabe sobre ela. Ela trabalhava na área de transporte de destroieres e aeronaves até contrair tuberculose e ser licenciada pela Marinha, em 1934, como tenente. Heinlein matriculou-se na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, para estudar física e matemática, mas sua saúde frágil o fez desistir do curso.

“No começo de 1939, eu me encontrava totalmente sem dinheiro”, lembrou Heinlein. “Nessa época, a revista Thrilling Wonder Stories publicou um anúncio onde se lia (mais ou menos): GRANDE COMPETIÇÃO — Escritores amadores!!!!! O vencedor ganha $50 (cinquenta dólares). Em 1939, com cinquenta dólares era possível encher três caminhonetes com comida (...) Assim sendo, escrevi Life-Line. Levei quatro dias — sou um digitador lento. Mas eu não mandei essa história para a Thrilling Wonder. Mandei-a para a revista Astounding, imaginando que eles não receberiam tantos contos amadores”. Sua história era sobre o inventor de uma máquina que dizia às pessoas quanto tempo elas viveriam. John W. Campbell Jr., editor, a comprou por setenta dólares e a publicou na edição de agosto de 1939. “Nunca mais houve uma oportunidade em que eu preferiria não procurar um emprego honesto”, satirizou Heinlein.

No final dos anos 1930, a ficção científica irrompia na era moderna. No mês anterior à estreia de Heinlein, a Astounding Science Fiction tinha publicado sua primeira história de E. A. Vogt, um talento que começava a despontar, e, no mês seguinte, publicou a primeira história de Theodore Sturgeon, outro talento que surgia. No início daquele ano, a Thrilling Wonder Stories publicou a primeira história de Alfred Bester, e a Amazing Stories lançou ao mundo Isaac Asimov.

A segunda história publicada de Heinlein foi “Misfit” [“Desajeitado”], na edição de novembro de 1939 da Astounding Science Fiction. Seu primeiro trabalho, que visava o público jovem, era sobre um rapaz encrenqueiro que, transferido pelo governo para um asteroide, salva uma nave espacial.

Cada nova história afirmava a crença de Heinlein na liberdade. Em janeiro de 1940, a Astounding Science Fiction publicou “Requiem”. O protagonista, um empresário chamado Delos D. Harriman, desenvolveu comunidades na lua. Ele combatia as “malditas regulamentações detalhistas” e realizava seu sonho. If This Goes On [“Se isto continuar”] — (edição de março de 1940 da Astounding Science Fiction) conta a história da Segunda Revolução Americana, que se opunha à tirania do século XXI. Coventry (edição de julho de 1940 da Astounding Science Fiction) mostra como uma sociedade razoavelmente livre poderia ser baseada em um contrato social voluntário chamado “Declaração”. Em Sixth Column [“A sexta coluna”] (edição de janeiro a março de 1941 da Astounding Science Fiction), cientistas engenhosos desenvolvem uma arma secreta que ajuda a expulsar os conquistadores. Jefferson Thomas é o protagonista. Logic of Empire [“A lógica do império”] (edição de março de 1941 da Astounding Science Fiction) conta como Sam Houston Jones combateu a escravidão em Vênus. Os filhos de Matusalém (edição de julho a setembro de 1941 da Astounding Science Fiction) narra as aventuras de americanos que cruzavam diferentes raças para alcançar uma longevidade três vezes maior que a normal, e que, perseguidos por pessoas invejosas, encontraram um lugar onde eles poderiam ser livres. “Beyond This Horizon” [“Além deste horizonte”] (edição de abril e maio de 1942 da Astounding Science Fiction) oferece uma visão de uma sociedade libertária onde particulares realizam quase tudo que é preciso ser feito.

Licenciado pela marinha por causa de sua miopia e por ter começado a sofrer de tuberculose, Heinlein passou os anos da guerra atuando como engenheiro no Naval Air Experimental Station’s Materials Laboratory, na Filadélfia. Entretanto, ele pensava em como poderia expandir seus horizontes como escritor. Ele começou a trabalhar com Lurton Blassingame, agente literário, que o ajudou a vender “Green Hills of Earth” [“As colinas verdes da Terra”] para o semanário Saturday Evening Post, que pagava altos preços por ficções. Famoso por ter em suas capas os desenhos de Norman Rockwell, era o mercado mais importante para pequenas histórias e romances publicados em partes.

Em 1946, Heinlein decidiu escrever um livro para o público jovem. O resultado foi Nave Galileu, que era sobre três garotos que consertaram um foguete, voaram para a Lua e encontraram um ninho de nazistas determinados a tomar o poder na Terra. Este foi publicado para Scribner’s, que tinha publicado obras dos romancistas da moda, na época, como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e Thomas Wolfe.

Heinlein se separou em 1947, e, no ano seguinte, em 21 de outubro, se casou com Virginia Doris Gerstenfeld, que ele tinha conhecido na Filadélfia. “Minha esposa, Ticky, é uma individualista-anarquista”, exultava. Ela era, explicou Poul Anderson, autor de ficção científica, “sua companheira de todas as horas, sob muitos aspectos tão forte e inteligente quanto ele próprio. Ele observou uma vez, com um riso forçado, que, durante a Segunda Guerra Mundial, quando ambos serviam à marinha, ela era sua oficial superior”. Os Heinlein passaram sua lua de mel nas montanhas do Colorado e decidiram viver lá. Compraram uma propriedade entre os números 1700 e 1800 da Mesa Drive, em Colorado Springs, e escolheram o endereço que eles queriam: 1776. Na frente, tinham uma placa de bronze que evocava a famosa pintura de Archibald Willard, Spirit of ’76: com três pessoas marchando — um homem tocando pífaro e outro homem, junto com um garoto, tocando tambor. Os Heinlein viveriam em Colorado Springs pelos próximos setenta anos. Entre seus amigos estava Robert M. LeFevre, fundador da Freedom School.

Heinlein passou a trabalhar voltado para o cinema. Em 1948, adaptou a história de Nave Galileu para o cinema, no filme Destination Moon [“Destino Lua”]. Este mostrava como empresários particulares poderiam organizar a primeira viagem para a lua e lidar com todas as situações que poderiam dar errado. Destination Moon foi o primeiro filme de ficção científica, e obteve um sucesso razoável.

Heinlein continuou a publicar livros para o público jovem. Por exemplo, Space Cadet (1948) conta a história de garotos que treinavam para a mais import ante missão no sistema solar, “manter a paz (...) e proteger a liberdade das pessoas”. O planeta Vermelho (1949) trata de um povo, em Marte, que se ressentia da exploração que sofria de distantes governadores do planeta Terra. Há uma revolução, iniciada com uma Proclamação de Autonomia, redigida nos moldes da Declaração de Independência. Em Entre planetas (1951), o jovem Donald Harvey se envolve na luta pela independência. Ele aterrissa em Vênus, uma colônia controlada pela ditadura da federação, baseada no planeta Terra, e reúne guerreiros para lutar pela defesa da liberdade em uma rebelião contra esta. Cidadão da galáxia (1957), talvez seu melhor livro voltado para os jovens, é sobre um áspero garoto chamado Thorby, que é trazido acorrentado para Sargon e vendido como escravo. Ele é libertado e passa a lutar pelo fim do comércio de escravos. Em Tropas estelares (1959), Juan Rico entra como voluntário para a infantaria móvel da federação, que defende a liberdade contra os coletivistas. Rico se lembra dos ensinamentos do tenente-coronel Jean Dubois, seu respeitado professor de segundo grau, que denunciava o “túrgido, atormentado, confuso, neurótico, não-científico, ilógico e impostor, Karl Marx”.

Seu amigo, Jack Williamson, autor de ficção científica, afirmou, maravilhado, que “a ficção científica para os jovens, enquanto categoria identificável, começa com Heinlein (...) As séries de Heinlein foram um esforço pioneiro, logo imitado por outros (...) Heinlein nunca fazia anotações. Seus principais personagens eram jovens, o enredo se desenvolvia rapidamente e seu estilo era muito claro”. Heinlein refletiu: “Tenho ficado orgulhoso com esses jovens. Escrever histórias de qualidade, que são capazes de competir com a fantástica excitação provocada pelos gibis, parece-me ser uma realização que vale a pena”.

Além dos livros para os jovens, Heinlein escreveu Os manipuladores (1951), que contava como a Terra foi invadida por discos voadores carregados com lesmas coletivistas. Elas sobem nas costas das pessoas e assumem o controle de seus corpos e mentes, exterminando suas individualidades. Em nome da luta contra essas lesmas, o governo assume um enorme poder para monitorar a população. Felizmente, o povo encontra uma forma de recuperar sua liberdade. Em Estrela oculta (1956), Lorenzo Smythe descobre os princípios dos direitos naturais e ajuda as populações de Vênus e Marte a gozar das mesmas liberdades que os terráqueos. “Se houvesse noções básicas de ética que transcendessem o espaço e o tempo”, refletiu, “elas seriam verdadeiras em qualquer planeta”.

Um estranho numa terra estranha afirmava a capacidade de Heinlein em expandir as fronteiras da ficção científica. Trata da história de Valentine Michael Smith, um terráqueo que foi criado por marcianos e retorna à Terra. Ele estabeleceu uma religião que envolve “grokking” (demonstrar empatia com os outros) e amor livre. Um estranho numa terra estranha (1961) figurou nas listas de best-sellers nacionais e vendeu dois milhões de cópias. Com esse livro, Heinlein ganhou seu terceiro prêmio Hugo.

Estrada da Glória (1963) é uma aventura de “espadas e feitiçarias”. O protagonista, “Oscar” Gordon, nega que o governo tenha uma justificativa moral para cobrar impostos das pessoas. “O que Uncle Sugar fez por mim? Ele destruiu a vida de meu pai com duas guerras (...). O privilégio de estar vivo é o motivo para a cobrança do imposto — e os inadimplentes são mortos pelas mãos do Departamento das Receitas Eternas”.

Em 1965, Virginia Heinlein tinha começado a sofrer com a altitude de Colorado Springs, o que fez com que eles se mudassem para Bonny Doon, uma adorável área rural, situada, aproximadamente, 25 quilômetros ao norte de Santa Cruz, na Califórnia. Eles descreveram sua casa para o entrevistador J. Neil Schulman: “Ela é circular, porque assim o queria a Sra. Heinlein (...). Tinha um grande átrio no meio — com três metros de diâmetro, à céu aberto — com uma árvore e flores. E tem todos os tipos de coisas que servem para tornar mais fáceis a limpeza e a arrumação da casa”.

Nessa nova casa, ele escreveu Revolta na Lua (1966) que ofereceu sua visão libertária mais bem desenvolvida. A Lua, referida como Luna, é uma colônia da Terra, usada para manter condenados e dissidentes políticos que estimavam a iniciativa individual e o empreendimento. Eles toleravam as escolhas dos outros povos e cuidavam da própria vida. Resolveram assumir o controle de seu próprio destino e declarar independência no dia 4 de julho de 2076. Os conspiradores recrutaram Mycroft Knott, ou, simplesmente, Mike, o computador que controla Luna, para ajudar na revolução. Wyoming Knott, uma feminista individualista, diz: “Aqui em Luna, nós somos ricos. Temos três milhões de trabalhadores espertos, pessoas talentosas, água suficiente, plenitude de tudo, poder infinito. Mas (...) o que nós não temos é um livre mercado. Temos que nos livrar da Autoridade”. E o professor Bernardo de la Paz (“Prof”), o filósofo revolucionário, responde: “Você tem razão quando diz que a Autoridade deve acabar. É ridículo — pestilento, não dá para aguentar — que nós devemos ser governados por um ditador irresponsável em toda nossa economia básica! Isso fere um dos direitos humanos mais básicos, o direito de barganhar em um mercado livre”. Prof acrescenta: “Em termos de moral, não existe essa coisa de ‘Estado’. Apenas homens. Indivíduos. Sendo cada um responsável pelos seus próprios atos”.

Revolta na Lua ressoa um dos temas filosóficos favoritos de Heinlein: “‘tanstaafl’ [“There Ain’t No Such Thing As A Free Lunch”], que significa: ‘Não existe almoço grátis’ (...) Qualquer coisa gratuita custa o dobro, no longo prazo, e acaba se tornando inútil (...). De uma maneira ou de outra, você paga por qualquer coisa que pegar”. Revolta na Lua descreve uma sociedade onde os particulares, e não o governo, fornecem educação, garantias, segurança e resolvem os conflitos. O livro vendeu quase um milhão de cópias.

Não temerei nenhum mal (1970) conta a história de Johann Sebastian Bach Smith, um doente terminal, multibilionário, de 94 anos de idade, que está determinado a sobreviver a uma ditadura violenta. Ele organizou uma operação para transplantar seu cérebro para o primeiro corpo saudável disponível, que acaba por ser o de sua secretária negra. Ele mantém seu livre arbítrio e explora o significado da sexualidade.

Naquele ano, Heinlein quase morreu de peritonite. Sua vida foi salva por uma transfusão de sangue. Ele tinha consciência de que seu tipo sanguíneo era raro (A2 negativo) e, por isso, fez um apelo para que as pessoas doassem sangue. Ele promovia a doação nas convenções de ficção científica.

Em Amor sem limites (1974), Lazarus Long se torna seu próprio ancestral. O livro inclui vários de seus sábios ditados — por exemplo: “A raça humana se divide politicamente entre aqueles que querem que as pessoas sejam controladas e aqueles que não têm esse desejo (...). A maior força produtiva é o egoísmo humano (...). De todas as condutas que os seres humanos têm tipificado como ‘crime’, a ‘blasfêmia’ é a mais absurda (...). Através da história, a pobreza é a condição normal do homem. Avanços que permitem que esta norma seja superada — em todos os lugares e em qualquer tempo — constituem o trabalho de uma pequena minoria, frequentemente desprezada e condenada, e quase sempre contrária a todos os que pensam o direito”.

Heinlein, com quase setenta anos, continuava a viajar com sua esposa. “Demos a volta ao mundo quatro vezes”, lembrou Virginia. No final de 1978, enquanto viajavam pelo Taiti, Heinlein começou a sofrer de visão dupla e passou a ter problemas para caminhar — um alerta de que ele poderia sofrer um derrame. De volta aos Estados Unidos, ele se submeteu a uma operação para liberar um bloqueio da artéria carótida para o cérebro.

Em O número da besta (1980), Zeb e Deety, Jake e Hilda lutam contra o alienígena Black Hats, que quer vaporizá-los. O livro retrata Grandpa Zach, um individualista que “odiava o governo, os advogados, os funcionários públicos (...) as escolas públicas (...) apoiava o sufrágio feminino (...) e dividia seu tempo entre a Europa e os Estados Unidos, imune à inflação e às leis confiscatórias”.

Friday (1982) conta a história de Friday, uma heroica emissária, que cumpre missões perigosas na América do Norte, um amontoado de estados opressivos. Ela diz: “Cada pessoa livre tem uma obrigação moral de lutar em todos os lugares possíveis — manter abertas as cortinas e as estações de trem ocultas e passar informações incorretas para os computadores”.

Em Job: A Comedy of Justice [“Trabalho: uma comédia da justiça”](1984), Heinlein explora os choques de se mover subitamente de uma era para outra. Entre outras coisas, ele fala sobre dinheiro. “Eu tinha descoberto”, diz o narrador da história, “que, enquanto o papel moeda nunca foi bom após uma mudança no mundo, o dinheiro em espécie, ouro e prata, seria, de alguma forma, negociável”.

Em O gato que atravessa paredes (1985), o Coronel Colin Campbell, um filósofo patife, embarca em uma série de aventuras e, entre outras coisas, explora as zonas de livre empreendimento da lua. Um melancólico personagem é descrito da seguinte forma: “Bill sofre do pior grau da doença socialista; ele pensa que o mundo lhe deve uma vida”.

A obra de despedida de Heinlein foi To Sail Beyond the Sunset [“Navegar além do pôr do sol”](1987), que conta como o pai da narradora Maureen Johnson amava a obra de Mark Twain e se correspondia com ele. Ela afirmava os princípios da responsabilidade pessoal e do individualismo.

Durante o outono de 1987, a saúde frágil de Heinlein o forçou, junto com Virginia, a se mudar de Bonny Doon para um lugar mais próximo ao hospital; nesse ano, por duas vezes, ele sofreu hemorragias e foi levado às pressas para San Francisco. Eles compraram uma casa na 3555 Edgefield Place, nas colinas acima de Carmel, com uma vista espetacular do oceano Pacífico. Heinlein radiava otimismo mesmo quando sua saúde deteriorava. “Eu acredito na raça humana”. Declarou. “Amarelo, branco, preto, vermelho, marrom. Na honestidade, coragem, inteligência, durabilidade e bondade da maioria esmagadora de meus irmãos e irmãs ao redor do mundo (...). Acredito que (...) sempre fazemos isso por uma estreita margem, mas que sempre faremos isso”.

Dominado pelas doenças do coração e pelo enfisema, Heinlein morreu, enquanto dormia, de insuficiência cardíaca, em sua casa, no dia 08 de maio de 1988. Aproximadamente dez dias mais tarde, Virginia Heinlein subiu a bordo de um navio da marinha americana, em Monterey, e, no oceano pacífico, jogou suas cinzas para a eternidade.

Vieram homenagens de todas as partes. Isaac Asimov disse: “Ele manteve sua posição de maior escritor de ficção científica inabalável até o fim”; Tom Clancy disse: “Nós prosseguimos, abatidos, por um caminho marcado por suas ideias”; Arthur C. Clarke, autor de ficção científica, disse: “Adeus, Bob, e obrigado pela influência que você teve na minha vida e na minha carreira. E obrigado a você também, Ginny, por cuidar dele tão bem e por tanto tempo”; Catherine Crook de Camp, sua amiga de longa data, disse: “A última vez que falei ao telefone com Heinlein foi, aproximadamente, um mês antes de ele morrer, enquanto ele estava em casa, entre duas internações no hospital. Naquela noite, sua voz parecia ressonante e quase jovial ao recordamos os vários momentos felizes que passamos juntos. Ele descrevia as vistas esplêndidas que tinha da janela de sua nova casa, enquanto olhava em direção ao seu querido mar. Finalmente, Bob e eu dissemos o quanto amávamos um ao outro e que assim seria para sempre. Foi uma recapitulação íntima de uma grande e afetuosa amizade de quarenta e seis anos. E, quando já não tínhamos mais nada para dizer, eu sentei ao lado do telefone silencioso e chorei”.

Hoje, Robert Heinlein inspira os jovens mais do que inspirou seus pais e avós. Seus livros continuam a vender mais de 100.000 cópias por ano. Um túnel no céu é um jogo de computador popular. Em 1994, a Disney lançou o filme “Os manipuladores”. Depois veio o filme Tropas estelares. Atualmente, os grandes estúdios tem, também, opções de fazer filmes baseados nos livros Estrada da glóriaRevolta na LuaÓrfãos do céu e Um estranho numa terra estranha. Robert Heinlein, agora e para sempre — um grande espírito de liberdade.

* Publicado originalmente em 21/08/2009.