Biografia: Thomas Paine

Thomas-paine-by-john-wesl-007

Thomas Paine estimulou pessoas comuns a defender suas liberdades como ninguém fizera antes. Escreveu as três obras literárias mais vendidas do século XVIII, que inspiraram a Revolução Americana, produziram uma batalha histórica pelos direitos individuais e desafiaram o poder corrupto das igrejas governamentais. Sua perspectiva radical e seu estilo dramático e direto tocavam igualmente artesãos, servos, soldados, comerciantes, agricultores e trabalhadores em geral. Até hoje, a obra de Paine cospe fogo.

Seus ataques devastadores à tirania podem ser comparados aos ataques épicos de Voltaire e Jonathan Swift; mas, ao contrário desses autores, não havia sequer uma gota de cinismo em Paine. Ele sempre foi sério em sua busca pela liberdade. Estava seguro de que as pessoas livres cumpririam o seu destino.

Provocou controvérsias explosivas. A monarquia inglesa o empurrou para o exílio e o condenou à morte se retornasse algum dia. O s líderes igualitaristas da Revolução Francesa o colocaram em uma prisão em Paris –escapou por pouco de ser morto na guilhotina. Em razão de suas críticas à religião, ele foi evitado e ridicularizado em seus últimos anos nos Estados Unidos.

Porém, seus colegas fundadores dos Estados Unidos reconheceram o raro talento de Paine. Benjamin Franklin o ajudou no início de sua carreira na Filadélfia e o considerou um “filho adotivo da política”. Paine foi assistente de George Washington e colega de Samuel Adams. James Madison foi seu fã. James Monroe ajudou a livrá-lo da prisão da França. Thomas Jefferson foi seu melhor amigo.

Paine era espinhoso como um cacto – vaidoso, indelicado, desorganizado – mas continuava a encantar as pessoas. Mary Wollstonecraft, pioneira no individualismo feminista, escreveu: “ele nos deixava a todos admirados com sua memória, suas observações inteligentes a respeito dos homens e de seus costumes, suas incontáveis anedotas sobre os índios americanos, sobre a guerra americana, sobre Franklin, sobre Washington e até sobre sua Majestade, de quem contava vários fatos curiosos com humor e generosidade.”

Apesar de sua grande inteligência, Paine tinha algumas idéias insensatas. Para remediar as injustiças da monarquia inglesa, ele propôs um governo representativo que decretaria uma taxação “progressiva”, educação “universal”, assistência “temporária” aos pobres e pensões para os idosos. Ele supunha ingenuamente que essas políticas atingiriam exatamente o objetivo proposto, e não passava pela sua cabeça que o poder político corrompe o governo representativo da mesma forma que corrompe a qualquer outro governo.

Ainda assim, na mesma obra que contém essas propostas – Rights of Man [Os Direitos do Homem], Parte II – Paine reafirmou repetidamente seus princípios libertários. Por exemplo: “Grande parte da ordem reinante na humanidade não é efeito de nenhum governo. Ela tem origem nos princípios da sociedade e na constituição natural dos homens. Ela existia antes do governo e existiria se a formalidade do governo fosse abolida.”

A “musa de fogo”

Paine tinha um metro e setenta e oito centímetros e uma estrutura corporal atlética. Vestia-se de forma simples. Tinha um nariz longo e intensos olhos azuis. Seu amigo Thomas Clio Rickman observou que “seu olhar, cuja intensidade não poderia ser transmitida por um pintor, era pleno, brilhante e singularmente penetrante. A ‘musa de fogo’ estava presente ali.”

Thomas Paine nasceu em 29 de janeiro de 1737, em Thetford, na Inglaterra. Sua mãe, Francis Cocke, veio de uma família anglicana local de certa reputação. Seu pai, Joseph Pain, era agricultor e sapateiro quaker. Embora Thomas Paine não fosse um quaker praticante, sofreu com a intolerância direcionada aos quakers.

Paine demorou algum tempo para encontrar seu caminho. Deixou a escola aos 12 anos e tornou-se aprendiz de um fabricante de espartilhos em Thetford, mas não gostou do trabalho. Dugiu de casa duas vezes. Na segunda vez, em abril de 1757, juntou-se à tripulação do King of Prussia, navio corsário que não encontrou muito que pilhar. Tentou costurar espartilhos novamente, depois foi professor de inglês e pastor metodista independente. Essa experiência de falar em público certamente lhe deu alguma idéia do que é necessário para comover uma grande quantidade de pessoas.

A decisão mais enigmática de Paine foi se tornar um cobrador de impostos sobre consumo. Ele foi demitido, conseguiu outro emprego igual, e foi demitido mais uma vez, depois de escrever um panfleto defendendo um aumento de salários. Paine testemunhou a habilidade dos contrabandistas, o ressentimento contra os cobradores de impostos e a difusão da corrupção governamental.

Exceto por alguns breves intervalos, Paine foi um “lobo solitário”. Acreditando que o casamento deveria ser baseado em amor e não no status social ou na fortuna, ele se casou com Mary Lambert, uma empregada doméstica, em setembro de 1759, porém, depois de um ano, ela morreu enquanto dava a luz a uma criança. Em março de 1771, ele se casou novamente, com Elizabeth Ollive, uma professora de 20 anos. Enquanto tentava obter seu sustento como dono de mercearia e negociante de fumo, ele foi a falência no início de 1774. A maioria de seus bens foram leiloados em 14 de abril. Dois meses depois, Paine e sua esposa se separaram.

Enquanto isso, ele obtinha sucesso nas discussões sobre filosofia e política prática. Em Lewes, Paine fazia parte do grupo de discussão Headstrong Club. O grupo se reunia semanalmente na White Horse Tavern, onde Paine saboreava cerveja e ostras. Um dos membros era um republicano fervoroso e defensor do rebelde libertário John Wilkes. As visões radicais libertárias de Paine começavam a tomar forma.

Curioso intelectualmente, Paine gostava de passear por livrarias, comparecer a palestrar sobre assuntos científicos e conhecer pessoas inteligentes. Ele auxiliou um astrônomo de Londres, que o apresentou a Benjamin Franklin, que então trabalhava para expandir o comércio com a Inglaterra. Franklin parece ter convencido Paine que ele poderia ter uma vida melhor nos Estados Unidos e providenciou uma carta de apresentação para seu enteado na Filadélfia.

Chegada à América

Paine desembarcou no dia 30 de novembro de 1774. Ele alugou um quarto nas ruas Market e Front, na esquina sudeste – de onde podia ver o mercado de escravos da Filadélfia. Ele passava seu tempo livre em uma livraria operada por Robert Aiken. Paine deve ter impressionado o livreiro como sendo um homem dinâmico e letrado, pois lhe foi oferecido o emprego de editor da nova publicação de Aiken, The Pennsylvania Magazine.

Para Paine, essa experiência foi um campo de provas. Ele escreveu 17 artigos, podendo ter escrito até 26, sempre assinando com pseudônimos como “Vox Populi”, “Justiça” e “Humanidade.” Ele avançou sobre a controvérsia da futura relação dos Estados Unidos com a Inglaterra. Ele atacou veementemente a escravidão e exigiu a emancipação imediata.

Então, veio a Batalha de Lexington, no amanhecer de 19 de abril de 1775. O major britânico John Pitcairn ordenou que suas tropas atirassem nos milicianos americanos reunidos em frente de um ponto de encontro, matando oito pessoas e ferindo dez. Paine, indignado, resolveu defender a liberdade americana.

Bom senso

No início de setembro, ele começou a fazer anotações para um panfleto. Provavelmente, ele começou a escrever por volta do dia primeiro de novembro. Ele trabalhava em uma mesa bamba, rabiscando as palavras com uma pena de ganso num papel áspero. O manuscrito evoluía devagar porque, para Paine, sempre foi difícil escrever. Ele discutia o rascunho que desenvolvia com o Dr. Benjamin Rush, que conhecera na livraria de Aiken. O rascunho foi finalizado no início de dezembro. Paine recebeu comentários do astrônomo David Rittenhouse, do fermentador Samuel Adams e de Benjamin Franklin. Paine pensou em chamar seu panfleto de Plain Truth [A pura verdade], mas o Dr. Rush recomendou um título mais simples, Common Sense [Bom senso].

Dr. Rush conseguiu que o panfleto fosse publicado por Robert Bell, um escocês que, na Filadélfia, tinha se tornado um editor famoso, um leiloeiro ocasional e um partidário secreto da independência americana. Custando 2 xelins, Bom senso, de 47 páginas – escrito anonimamente “por um inglês” – foi publicado em 10 de janeiro de 1776. Paine cedeu seus direitos ao Congresso Continental.

Com uma prosa simples, corajosa e inspiradora, Paine lançou um ataque furioso sobre a tirania. Ele denunciou os reis como um poder político inevitavelmente corrupto. Ele rompeu com pensadores políticos anteriores quando faziam distinções entre as imposições do governo e a sociedade civil, onde indivíduos levam vidas privadas produtivas. Paine imaginava uma “união continental”, baseada nos direitos individuais. Ele respondeu objeções daqueles que temiam a ruptura com a Inglaterra. Ele buscava uma declaração que incitasse as pessoas à ação.

Bom senso marcou com frases inesquecíveis. Por exemplo: “A sociedade é produzida a partir de nossa vontade e o governo a partir de nossa maldade... O sol nunca brilhou sobre uma causa de valor maior... Agora é hora de plantarmos a semente da união continental... Nós temos toda oportunidade, toda inspiração à nossa frente, para criarmos a constituição mais nobre, mais pura, da face da terra. Oh! Vocês que amam a humanidade! Vocês que se atrevem a se opor que não apenas à tirania, mas ao tirano, se apresentem!... Nós temos em nosso poder a chance de fazer com que o mundo comece de novo... O nascimento do novo mundo está em nossas mãos.”

A primeira edição se esgotou rapidamente. Logo, edições diferentes começaram a aparecer. Editoras em Boston, Salem, Nowburyport, Nowport, Providence, Hartford, :Norwich, Lancaster, Albany e Nova York lançaram novas edições. Após três meses, Paine estimava que mais de 120000 cópias tinham sido impressas. Dr. Rush recordava que “os seus efeitos sobre as mentes americanas foram súbitos e amplos. O livro era lido por homens públicos, repetido em clubes, declamado em escolas e, em uma ocasião, lido no púlpito ao invés do sermão de um sacerdote em Connecticut.” George Washington declarou que Senso Comum oferecia uma “doutrina profunda e um raciocínio irrefutável.”

As idéias incendiárias de Paine saltaram fronteiras. Uma edição foi publicada em francês, em Quebec. John Adams informou que “Senso Comum foi recebido na França e em toda Europa com entusiasmo.” Havia edições em Londres, Newcastle e Edimburgo. Senso Comum foi traduzido para o alemão e o dinamarquês e algumas cópias chegaram até a Rússia. Ao todo, mais ou menos 500 mil cópias foram vendidas.

Senso Comum mudou o clima político nos Estados Unidos. Antes de sua publicação, a maioria dos colonialistas ainda acreditava que as coisas poderiam ser resolvidas com a Inglaterra. Então, subitamente, esse panfleto precipitou debates onde um número cada vez maior de pessoas se declaravam abertamente em favor da independência. O Segundo Congresso Continental pediu a Thomas Jefferson que fizesse parte de um comitê de cinco pessoas que escreveriam a declaração que Paine sugeria em Senso Comum.

Senso Comum, de Thomas Paine,” refletiu Bernard Bailyn, historiador da Universidade de Harvard, “é o mais brilhante panfleto escrito durante a revolução americana, e um dos panfletos mais brilhantes já escritos em inglês. Como ele pode ter sido escrito por um quaker, um fabricador de coletes falido, que ocasionalmente era professor, pastor e dono de mercearia, além de ter sido um cobrador de impostos demitido duas vezes que, por acaso, atraiu a atenção de Benjamin Franklin na Inglaterra, e que só chegou aos Estados Unidos quatorze meses antes da publicação de Senso Comum, não se pode explicar, sem explicarmos o gênio em si.”

Quando a independência trouxe a guerra, Paine se alistou como secretário militar do General Daniel Roberdau, mais tarde, do General Nathaniel Greene, e, mais ou menos no ano de 1776, ele esteve com o General George Washington. Os americanos, mal treinados, mal pagos, geralmente servindo apenas por um ano, foram derrotados pelos bem treinados soldados britânicos e pelos implacáveis mercenários hessianos.

“Quanto mais difícil o conflito, mais glorioso é o triunfo”

Paine imaginava formas de aumentar o moral dos soldados. À noite, na fogueira do acampamento, ele começou a escrever um novo panfleto. Quando retornou à Filadélfia, levou seu manuscrito ao Philadelphia Journal, que o publicou em 19 de dezembro, como um ensaio de oito páginas, chamado A crise americana. No natal de 1776, George Washington o leu para seus soldados as linhas imortais de Paine: “São tempos como esses que testam as almas dos homens. O soldado pouco comprometido e o patriota ocasional irão, nessa crise, evitar servirem seu país; mas aquele que se levanta agora, merece o amor de homens e mulheres. A tirania, como o inferno, não é facilmente derrubada; ainda assim, temos o consolo de que quanto mais duro for o conflito, mais glorioso será o triunfo.” Dentro de algumas horas, os soldados, estimulados por Washington, realizaram um ataque surpresa sobre os hessianos que dormiam em Trenton, dando aos americanos uma preciosa vitória nessa batalha.

Quando a guerra revolucionária acabou, Paine já tinha escrito mais uma dúzia ensaios da Crise americana. Eles abordavam questões militares e diplomáticas, sempre com Paine fornecendo incentivos morais. No segundo ensaio, publicado em 13 de janeiro de 1777, Paine criou o nome “Estados Unidos da América.”

Depois da rendição dos britânicos em Yorktown, Paine estava sem dinheiro e não sabia como iria se sustentar. Ele queria uma pensão do governo pelo que tinha feito para ajudar na independência americana. O estado de Nova York lhe doou uma fazenda de 300 acres em New Rochelle, a 45 quilômetros da cidade de Nova York, que pertencia a um britânico contrário à independência. O congresso aprovou uma indenização de US$ 3000 a Paine, por despesas relacionadas à independência que ele teria pago de seu bolso.

Então, ele teve a idéia de ganhar dinheiro com o crescente número de construções de pontes nos Estados Unidos. Ele não encontrou patrocinadores americanos, então, sob recomendações de Franklin, ele buscou apoio na França e na Inglaterra. Embora o projeto tenha fracassado, ele lhe proporcionou entrar em contato com os liberais de mais destaque da época. Na França, ele se reaproximou de Marquês de Lafayette, que tinha servido na Revolução Americana. Lafayette apresentou Paine ao Marquês de Condorcet, um matemático francês e liberal influente. Na Inglaterra, Paine conheceu o parlamentar radical Charles James Fox, além de Edmund Burke, um parlamentar defensor da Revolução Americana e amigo do radical John Wilkes.

A explosão da Revolução Francesa, em julho de 1789, horrorizou Burke, que começou a escrever o seu manifesto contra-revolucionário Reflexões sobre a revolução na França. Ele defendia a monarquia e o privilégio aristocrático. O livro de Burke foi lançado em 1 de novembro de 1790, e supostamente vendeu 20000 cópias em um ano. Logo apareceram versões francesas, alemãs e italianas do livro.

Os direitos do homem

Enquanto isso, Paine, que vinha trabalhando em um novo livro sobre os princípios gerais da liberdade, tomou conhecimento dos principais pontos do manifesto de Burke e decidiu revisar o seu livro para transformá-lo em uma refutação. Ele se mudou para um quarto no Angel Inn, em Islington, onde poderia se concentrar no projeto. Ele começou a trabalhar em 4 de novembro. Ele trabalhou arduamente, às vezes, à luz de velas, por quase 3 meses. Ele terminou a primeira parte de Rights of Man [Os direitos do homem] em 29 de janeiro de 1791 – seu aniversário. Ele completava 54 anos. Carinhosamente, ele dedicou o trabalho a George Washington e o publicou no dia do aniversário de Washington, 22 de fevereiro.

Enquanto Burke impressionou o público com sua prosa florida, Paine respondeu com um discurso simples. Ele atacou ferozmente a tirania. Ele denunciou os impostos. Ele negou especificamente a legitimidade moral da monarquia inglesa e da aristocracia. Ele declarou que indivíduos têm direitos, independentemente do que as leis digam. Por séculos, as pessoas se resignaram à tirania e à guerra, porém, Paine trouxe esperança de que esses demônios possam ser contidos.

Paine defendeu a Declaração dos Direitos do Homem e dos Cidadãos, promulgada na França, que incluía um comprometimento com a propriedade privada. “O direito à propriedade é inviolável e sagrado, e dele ninguém deverá ser privado, exceto em casos e necessidade pública evidente, confirmada legalmente e sob a condição de uma indenização justa.”

A primeira edição se esgotou em três dias. A segunda, em horas. Houve uma terceira edição em março de 1791 e uma quarta em abril. Aproximadamente, 200000 cópias foram vendidas na Inglaterra, no País de Gales e na Escócia. Outras 100000 cópias foram vendidas nos Estados Unidos.

Os direitos do homem convenceu muitas pessoas a apoiar a Revolução Francesa e a dramática reforma na Inglaterra, e o governo reagiu com repressão. Os jornais pró-governo chamavam Paine de “Tom, o louco”. Sacerdotes faziam sermões atacando Paine. As pessoas penduraram retratos de Paine por toda Inglaterra. Em 17 de maio de 1792, o governo o acusou de calúnia subversiva, que poderia o levar ao enforcamento. Cobradores de impostos saquearam o quarto de Paine. Ele correu para Dover e embarcou em um barco para Calais em setembro de 1792. Um mandado de prisão chegou à Dover 20 minutos depois.

Uma multidão entusiasmada o recebeu. Foi concedida a Paine a cidadania honorária da França e ele foi eleito como representante de Calais na Convenção Nacional, que desenvolveria as reformas. Ele não falava francês e ele várias vezes não conseguiu perceber como a situação política estava mudando. Porém, ele sabia que era um aliado ideológico dos chamados Girondinos que eram a favor de um governo republicano com poderes limitados.

Os seus adversários eram os cruéis e xenófobos Jacobinos. Inacreditavelmente, Paine foi considerado suspeito porque tinha nascido na Inglaterra – mesmo que corresse o risco de ser enforcado, caso voltasse para lá. No meio da noite anterior ao natal de 1793, a polícia Jacobina o levou a uma prisão em Luxemburgo. Paine foi mantido em uma pequena cela solitária, sem julgamento. Em 24 de julho de 1794, o promotor público adicionou o nome de Paine à lista de prisioneiros que seriam guilhotinados, mas ele teve sorte. Por um engano, os guardas da prisão ignoraram sua cela quando reuniam as vítimas da noite. Três dias depois, em 27 de julho de 1794, as pessoas se cansaram do terror e guilhotinaram Robespierre, o mais fanático promotor da violência jacobina, e o pior passou.

A idade da razão

Antes de Paine ser preso, ele iniciou seu trabalho mais controverso, Age of Reason [A idade da razão], e continuou escrevendo, mesmo atrás das grades. Embora elogiasse a ética cristã, acreditasse que Jesus fora um homem virtuoso, e se opusesse à campanha jacobina para suprimir a religião, ele atacava a violência e as contradições de várias histórias bíblicas. Ele denunciava as ligações incestuosas entre a Igreja e o Estado. Ele insistia que a revelação religiosa autêntica chega aos indivíduos ao invés das igrejas estabelecidas. Ele defendia uma visão deísta de um Deus e uma religião baseada na razão. Ele buscava uma política de tolerância religiosa.

A Idade da Razão teve um grande impacto, em parte, porque Paine o escreveu com seu estilo simples e dramático, que despertava emoções fortes. O livro se tornou um Best Seller na Inglaterra e os esforços do governo de censurá-lo só estimulou ainda mais a demanda. O livro foi muito procurado na Alemanha, na Hungria e em Portugal. Houve quatro edições americanas em 1794, sete em 1795 e mais duas em 1796. As pessoas formavam sociedades buscando promover os princípios religiosos de Paine.

James Monroe, representante dos Estados Unidos na França exigiu que o governo francês julgasse Paine ou o libertasse. Monroe foi eloqüente: “os cidadãos dos Estados Unidos não podem olhar para a época de sua revolução sem se recordarem do nome de Thomas Paine, junto ao de outros distintos patriotas. Os serviços que ele os prestou em sua luta pela liberdade deixaram um sentimento de gratidão que nunca será apagado, já que continuam a merecer a reputação de um povo justo e generoso.”

Em 6 de novembro, frágil e de barbas grisalhas, Paine foi enfim libertado. Em 1801, o Primeiro-Cônsul Napoleão Bonaparte convidou Paine para jantar, esperando obter idéias para conquistar a Grã-Bretanha. Paine o recomendou uma política de paz – a última coisa que Napoleão desejava ouvir – e eles nunca mais se encontraram.

Paine retornou aos Estados Unidos em 1 de setembro de 1802. Ele tinha 65 anos. Um correspondente de um jornal de Massachusetts observou: “Os anos foram mais duros sobre seu corpo do que sobre sua mente. Seu corpo de curva ligeiramente à frente e mantém as mãos para trás enquanto anda. Ele se veste de forma simples, como um agricultor, e aparenta estar bem em sua pessoa... a sua conversa é extraordinariamente interessante; ele é alegre, tem bom humor e é cheio de histórias engraçadas – a sua memória preserva toda a sua capacidade e sua mente é cativante.”

Paine foi objeto de ataque pessoas da imprensa federalista, mas se pronunciou a respeito de temas controversos. Por exemplo, depois que Napoleão assumiu o controle da Louisiana em 1800, e o Rio Mississipi foi fechado à navegação de navios americanos, os Federalistas desejavam uma guerra contra a França. Paine encorajou o Presidente Jefferson a propor a compra do território da Louisiana. Enquanto o federalista Alexander Hamilton acreditava que Napoleão nunca aceitaria a idéia, Paine se baseava no que conheceu pessoalmente: “O tesouro francês não está apenas vazio, mas o governo já consumiu antecipadamente grande parte das receitas do próximo ano. Acredito que uma oferta robusta seria aceita...” Em maio de 1803, Napoleão vendeu o território da Louisiana por 15 milhões de dólares.

Embora os federalistas tenham condenado o presidente Thomas Jefferson por defender Paine, ele corajosamente convidou seu amigo à Casa Branca. Quando as filhas de Jefferson, Mary e Martha, deixaram claro que não gostariam de ter qualquer ligação com Paine, Jefferson respondeu que Paine “é muito merecedor da hospitalidade de todo americano, para eu não lhe ofereça alegremente a minha.”

Durante os últimos anos de Paine, ele buscava desesperadamente por dinheiro, sua saúde se deteriorou e ele vivia em uma pobreza deplorável. Ele pediu para se mudar para a casa de sua amiga Marguerite de Bonneville, na Grove Street, número 59, em Nova York, onde morreu na manhã de 8 de junho de 1809. Madame de Bonneville levou o seu enterro para a sua fazenda em New Rochelle porque nenhum cemitério quis o aceitar.

Paine não descansou em paz. Uma década mais tarde, o jornalista inglês William Cobbett, um inimigo de Paine que se tornou um discípulo, desenterrou secretamente o caixão e o enviou para a Inglaterra. De acordo com algumas opiniões, ele pensou os colocando em um lugar especial, poderia inspirar um grande número de pessoas a fazer pressão por uma reforma do governo e da Igreja da Inglaterra. Mas as pessoas não estavam muito interessadas nos ossos de Paine. Quando Cobbett morreu em 1835, eles estavam dispersos e perdidos, junto com seus objetos pessoais.

Paine permaneceu um fundador dos Estados Unidos esquecido por décadas. Theodore Roosevelt resumiu a visão vigente sobre Paine, quando se referiu a ele como “um ateu pequeno e vulgar”. A sua primeira biografia completa apareceu apenas em 1892. Ainda não existe uma coletânea oficial de suas obras completas.

O bicentenário americano ajudou a recuperar o interesse em Paine. Novas coletâneas de seus maiores trabalhos foram disponibilizados pela primeira vez e, pelo menos, três biografias foram lançadas desde então – duas só no último ano.

Talvez uma nova geração esteja redescobrindo esse homem maravilhoso. Ele não tinha muito dinheiro. Ele nunca teve poder político. Ainda assim, ele mostrou como um indivíduo sincero pode, ao defender uma questão moral em favor dos direitos naturais, estimular milhões a derrubarem seus opressores – e como isso poderia acontecer novamente.

* Clique para ler o original em inglês.