Biografia: William Gladstone

Wglad

William Ewart Gladstone dominou a política britânica durante o auge do liberalismo clássico. Ele entrou no Parlamento aos vinte e três anos, tornou-se ministro pela primeira vez aos trinta e quatro, e fez seu último discurso como membro do governo aos oitenta e quatro. Foi primeiro-ministro quatro vezes. O vencedor do prêmio Nobel F. A. Hayek considerava Gladstone um dos maiores amigos da liberdade, e Lord Acton acreditava que a “supremacia [de Gladstone] era indiscutível”. O historiador Paul Johnson declarou que “suas realizações não têm paralelo na história da Inglaterra”.

Tendo sido ministro das finanças em quatro governos, Gladstone combateu os grupos de interesse mais poderosos. Ajudou a abolir mais de mil tarifas britânicas — cerca de 95% das que existiam, e diminuía ou abolia outras taxas ano após ano. Imagine o imposto sobre a renda americano com uma única alíquota de 1,25%. Foi isso que sobrou do imposto de renda britânico quando Gladstone terminou de golpeá-lo. No entanto, ele não ficou satisfeito, porque queria eliminá-lo. Gladstone acreditava que o custo da guerra deveria ser um fator de dissuasão do militarismo e insistia em uma política de financiamento da guerra por impostos. Ele se opunha a tomar empréstimos para a guerra, porque isso tornaria os conflitos mais fáceis e deixaria um fardo injusto para as gerações futuras.

As campanhas políticas mais gloriosas de Gladstone, contra o imperialismo britânico e a favor da autonomia dos oprimidos irlandeses, ocorreram no fim de sua vida. Gladstone demonstrou que mesmo em tais causas perdidas, os amigos da liberdade tinham a força e a coragem para sustentar uma luta tremenda que jamais seria esquecida.

Gladstone pairava acima de seus rivais. O mais famoso deles foi Benjamin Disraeli, o Tory que promoveu impostos mais altos, governo mais poderoso, e conquistas imperiais. Os rivais liberais de Gladstone eram em sua maioria fãs do Visconde Palmerston, notório pela dureza no trato com países mais fracos. No fim do século XIX, o principal rival liberal de Gladstone foi Joseph Chamberlain, um socialista que se tornou um grande imperialista. Se não fosse por Gladstone, a liberdade provavelmente teria tido menos ganhos, e suas perdas teriam ocorrido mais rapidamente.

A contribuição mais duradoura de Gladstone foi enfatizar o imperativo moral da liberdade. Jeremy Bentham e John Stuart Mill, influentes filósofos britânicos, haviam quase banido a moralidade das discussões políticas ao defender o princípio do bem maior para o maior número, mas Gladstone destacava as dimensões morais dos impostos, do comércio, e de tudo o mais. “Tudo que ele fazia”, comentou o historiador A. J. P. Taylor, “era uma causa sagrada”. O fervor moral de Gladstone era uma das chaves de sua popularidade. Conforme observou o historiador J. L. Hammond, “podemos dizer com segurança que para cada retrato de qualquer outra pessoa nas casas da classe trabalhadora, havia dez de Gladstone”.

Suas muitas realizações se deveram em parte a sua energia prodigiosa. Ele trabalhava catorze horas por dia para se tornar o principal conhecedor de finanças governamentais da Inglaterra. Conforme escreveu o biógrafo Richard Shannon, “Gladstone falava copiosamente. Estima-se que ele tenha preenchido quinze mil colunas do Hansard [transcrições dos debates parlamentares] e aparecido em 366 volumes daquela publicação em mais de sessenta anos como membro do Parlamento... E ele não era muito menos prolixo ‘ao ar livre’... Deixou trinta e oito volumes de Speeches and Pamphlets [“Discursos e panfletos”] e onze volumes de Speeches and Writings [“Discursos e escritos”], principalmente extraídos da imprensa“. Em seu tempo livre, Gladstone escrevia livros, principalmente sobre literatura grega e romana (ele amava Homero); gostava de andar a cavalo; e cortar árvores era um de seus passatempos preferidos. Ele fazia longas caminhadas — de até quarenta quilômetros — até bem depois dos setenta anos, e foi por isso que Roy Jenkins declarou que, para ele, tentar escrever uma biografia de Gladstone “é como decidir repentinamente, tardiamente na vida e após uma meia-idade tranquila, escalar a face mais perigosa do Matterhorn”.

Gladstone tirava forças de sua fé anglicana e de sua felicidade doméstica. Casou-se com a apaixonada Catherine Glynne em 25 de julho de 1839. Tiveram quatro filhos e quatro filhas e ficaram juntos por mais de meio século, até a morte dele. Viviam em Carlton House Terrace, em Londres, e em Hawarden, o castelo onde ela nasceu, no topo de uma colina, com vista para a cidade de Liverpool. Lá Gladstone tinha uma biblioteca que atingiu os vinte e sete mil volumes. Hawarden havia sido hipotecado para ajudar a financiar as empreitadas do irmão de Gladstone, e ele passou anos pagando as dívidas para preservar a propriedade da família.

Gladstone levava a caridade a sério, mesmo quando isso o expunha ao ridículo. Durante cerca de quarenta anos, passou cerca de três noites por semana trabalhando para ajudar mulheres londrinas a saírem da prostituição, e participou da fundação da Church Penitentiary Association for the Reclamation of Fallen Women [“Associação penitenciária (apostólica) para a recuperação de mulheres perdidas”], que levantava dinheiro para lares onde essas mulheres podiam mudar de vida. Ele também fundou o Newport Home of Refuge [“Casa de refúgio Newport”] (Soho Square) e o St. Mary Magdalen Home of Refuge [“Casa de refúgio Santa Maria Madalena”] (Paddington), e integrou o comitê administrativo da penitenciária de Millibank, para onde eram enviadas as prostitutas presas. Ele frequentemente trabalhava com sua esposa, e, juntos, eles fundaram a Clewer Home of Mercy [“Casa de misericórdia Clewer”]. Ele gastou ?83.500 nessas iniciativas.

O aspecto imperioso de Gladstone fazia com que ele parecesse um gigante, mas sua altura era apenas mediana (cerca de um metro e oitenta), com ombros largos, rosto pálido e grandes olhos que eram quase negros. Por volta de seus cinquenta anos, seus espessos cabelos pretos escassearam e começaram a ficar brancos. Ele deixou-os crescer em volta de seu rosto, formando uma barba ao estilo em moda na época. Sua voz forte e musical era uma de suas grandes vantagens como orador público.

Embora por vezes fosse prolixo (um de seus discursos estendeu-se por cinco horas), era muito eloquente. Combinava domínio dos fatos com a capacidade de inspirar indignação moral. Durante uma campanha eleitoral, frente a uma multidão hostil de vinte mil pessoas, seu comovente discurso de duas horas culminou em um voto de confiança unânime.

O biógrafo H. C. G. Matthew resumiu sua importância: “Ao oferecer liberdade, governo representativo, progresso econômico pelo livre comércio, cooperação internacional através de discussão e arbitragem, probidade no governo e na sociedade em geral, como os objetivos principais da vida pública e em uma ideologia que os combinava e harmonizava, Gladstone ofereceu muito à idéia de uma sociedade civilizada de nações”.

William Ewart Gladstone nasceu em 29 de dezembro de 1809 no número 62 de Rodney Street, em Liverpool. Seu pai, John Gladstone, era um político e investidor escocês proprietário de plantações nas Índias Ocidentais. Sua mãe, Anne Robertson, era uma escocesa frágil.

Gladstone teve uma boa educação, inicialmente estudando com um clérigo local, e depois, aos onze anos, indo para a prestigiada Eton, onde adquiriu o gosto por literatura grega e latina que o acompanharia por toda a vida. Em outubro de 1829, ele se matriculou em Christ Church, em Oxford.

Seu pai estava determinado a fazer com que ele se tornasse um estadista. Então, um amigo da família, o duque de Newcastle, indicou-o para ser candidato à representação de Newark no Parlamento. Ele venceu a eleição em dezembro de 1832, e no ano seguinte começou a estudar direito em Lincoln’s Inn.

Fiel devoto da Igreja Anglicana, em 1838 Gladstone escreveu The State in Its Relation with the Church [“O Estado em sua relação com a Igreja”], que expressava a opinião de que apenas uma religião poderia existir em uma sociedade, e que o governo deveria torná-la obrigatória. O livro é lembrado principalmente porque Thomas Babington Macaulay criticou-o na Edinburgh Review (abril de 1839), e o ensaio foi reimpresso nas popularíssimas coleções de Macaulay.

Apesar de suas crenças Tories, Gladstone instintivamente defendia os povos oprimidos. Em 1840, ele falou contra a guerra do ópio, na qual o governo britânico se envolveu com o objetivo de ajudar comerciantes com contatos na política a vender ópio na China. Após visitar Nápoles em 1850 e descobrir que Ferdinando II, rei das Duas Sicílias, tinha cerca de vinte mil prisioneiros políticos, ele escreveu uma carta indignada que circulou por toda a Europa.

Foi o importante e reservado Tory Robert Peel, fundador do Partido Conservador, que reconheceu as capacidades de Gladstone e nomeou-o para um cargo no ministério das finanças. Ao longo de uma série de governos, Gladstone ganhou um domínio de finanças governamentais superior ao de qualquer outro, e ocupou muitos postos importantes, incluindo o de subsecretário de guerra e das colônias, vice-presidente do conselho de comércio, presidente do conselho de comércio, e mestre da Casa da Moeda.

Enquanto isso, Benjamin Disraeli, o inteligente político conservador, entrou em evidência. Era um parlamentar magro e escuro, com longos cachos de cabelos negros. Durante anos, foi conhecido como um dândi que vestia camisas bordadas com pedras preciosas e anéis por cima das luvas. Seu gosto pela vida elegante excedia seus modestos recursos, e ele passou grande parte de sua vida esforçando-se para evitar situações constrangedoras causadas por atrasos no pagamento de dívidas. Nasceu em dezembro de 1804, filho de um intelectual judeu, mas mais tarde foi batizado na Igreja Anglicana. Ele criticava as ideias pró-mercado de Adam Smith e sentia-se mais à vontade entre aristocratas protecionistas, apesar do anti-semitismo de muitos deles. Disraeli rejeitava o princípio da tolerância religiosa.

Disraeli tornou-se conhecido durante os debates de 1846 sobre as Corn Laws [“Leis do milho”] (tarifas sobre grãos), em discursos notáveis pelo estilo controlado e discreto, pelas frases bem-construídas e pelos violentos ataques pessoais. Disraeli liderou esforços bem-sucedidos para derrubar o governo Tory de Robert Peel, que havia apoiado a abolição das Corn Laws. Quando se tornou o ministro das finanças de um governo Tory, em fevereiro de 1825, propôs um orçamento que supostamente seria equilibrado se os impostos sobre as casas fossem dobrados. Gladstone fez um comovente discurso contra o orçamento, intensificando sua rivalidade, a mais memorável da política britânica desde William Pitt, o Jovem, e Charles James Fox. O governo Tory renunciou em 17 e dezembro de 1852.

Gladstone lançou uma grande campanha para cortar impostos quando foi nomeado ministro das finanças no governo de coalizão de Lord Aberdeen. Seu primeiro discurso sobre o orçamento, em abril de 1853, defendia redução do imposto de renda, abolição do imposto sobre o sabão, e reduções de impostos sobre o chá e sobre anúncios. Ele fez mais cortes no imposto de renda em 1863, 1864 e 1865 (ano em que ele também cortou pela metade o imposto sobre seguros contra incêndio), acabando por diminuir o imposto sobre a renda de 10% durante as guerras napoleônicas e 6,6% durante a guerra da Criméia (1854-1856) para 1,25%.

Em 1860, como ministro das finanças do governo de Lord Palmerston, Gladstone aprovou o plano de Richard Cobden para negociar um tratado de liberalização do comércio com a França, que inspirou uma tendência de maior liberdade de comércio em toda a Europa. Disraeli liderou a oposição Tory aos cortes de tarifas alfandegárias, mas os Liberais prevaleceram e o número de tarifas foi reduzido de 1.163 em 1845 para 460 em 1853 e 48 em 1859 — apenas quinze das quais tinham verdadeiros efeitos. Entre 1861 e 1864, Gladstone convenceu o Parlamento a abolir a tarifa sobre o papel, a taxa sobre o lúpulo, e tarifas sobre madeira e pimenta, além de baixar as tarifas sobre o açúcar, o chá, o vinho engarrafado e os táxis. Ele anunciou tratados de liberalização comercial com a Áustria, a Bélgica, e os estados alemães.

Suas políticas foram um sucesso estupendo. Cada esforço para reduzir o imposto sobre a renda, tarifas alfandegárias e outros impostos envolvia uma briga com os grupos de interesse afetados, mas Gladstone persistiu, e quanto mais ele cortava o custo do governo, mais a população prosperava. “A melhora no padrão de vida dos trabalhadores manuais”, escreveu o historiador econômico Charles More, “foi paralela às melhoras no padrão de vida tanto da classe média quanto dos ricos”.

Em 1864, Gladstone havia assustado muitas pessoas ao declarar que “Todo homem que não seja presumivelmente incapaz, por alguma consideração de incapacidade pessoal ou perigo político, tem o direito moral de ser incluído na Constituição”. Disraeli zombeteiramente disse que Gladstone “reviveu a doutrina de Tom Paine”. Gladstone não conseguiu expandir o direito ao voto, mas dois anos depois Disraeli mudou de posição e manobrou para que uma versão mais ambiciosa da proposta de Gladstone fosse aprovada pela Câmara dos Comuns, acrescentando cerca de um milhão de pessoas às listas de eleitores.

Gladstone então se concentrou nas injustiças na Irlanda. Lá, a situação havia deteriorado durante séculos, e tornou-se mais grave quando o Parlamento assumiu o controle direto da Irlanda em 1800. Na época, o parlamentar libertário Charles James Fox havia avisado “que não devemos arrogar-nos o poder de legislar por uma nação com cujos sentimentos e afeições, desejos e interesses, opiniões e preconceitos não temos nenhuma empatia”. Em 1868, Gladstone propôs uma resolução segundo a qual camponeses católicos pobres não teriam de pagar impostos à Igreja (protestante) da Irlanda. O primeiro-ministro Disraeli objetou, argumentando que um ataque à Igreja da Irlanda seria um convite a ataques à Igreja Anglicana. Mas a Câmara dos Comuns aprovou a resolução, e Disraeli renunciou. Os Liberais venceram as eleições subsequentes, e Gladstone tornou-se primeiro-ministro em dezembro de 1868. No ano seguinte, o Parlamento aprovou a lei de Gladstone que desoficializava a Igreja da Irlanda. A seguir, veio sua Lei Irlandesa de Terras (1870): um arrendatário que fosse despejado da terra em que trabalhava teria direito a indenização por construções e outras melhorias que tivesse feito.

Após seis anos como primeiro-ministro, Gladstone havia ofendido um grande número de poderosos grupos de interesse; Disraeli acusou Gladstone de atacar “todas as instituições e todos os interesses, todas as classes e vocações do país”. Quando os Liberais sofreram uma derrota retumbante nas eleições de fevereiro de 1874, Disraeli, aos setenta anos de idade, tornou-se primeiro-ministro. Ele conseguiu a aprovação das Leis das Fábricas de 1874 e 1878, aumentando a regulamentação governamental das empresas. Sua Lei dos Sindicatos essencialmente pôs os líderes sindicais acima da lei. Com a Lei da Venda de Alimentos e Medicamentos, o governo de Disraeli tomou para si a responsabilidade pela saúde das pessoas. A Lei de Habitação dos Artesãos autorizou governos locais a tomarem propriedade privada para projetos habitacionais.

Mais alarmante para Gladstone, Disraeli promoveu o imperialismo. Ele gastou mais dinheiro em armas, envolveu-se em uma guerra entre a Rússia e a Turquia, ocupou o Chipre e enviou tropas britânicas para invadir o Transvaal, na África do Sul, e Cabul, no Afeganistão. Ele garantiu proteção a três estados na Península Malaia e reivindicou cerca de duzentas ilhas do Pacífico. Ele então adquiriu participação no controle do Canal de Suez, uma ação que garantiu acesso mais seguro à Índia britânica mas culminou em uma ocupação do Egito que duraria oitenta anos, incluindo guerras, grandes gastos militares, e constrangimentos políticos. Disraeli lisonjeou a rainha Vitória ao nomeá-la Imperadora da Índia, e ela se orgulhava de ideia de que o sol nunca se punha no Império Britânico.

Mas um império traz problemas. Entre abril e agosto de 1876, forças turcas massacraram cerca de doze mil cristãos búlgaros rebeldes. Disraeli minimizou o fato, porque apoiava o regime turco para contrabalançar a influência russa. Gladstone insistiu que padrões morais se aplicam a todos, e seu panfleto The Bulgarian Horror and the Question of the East [“Os horrores búlgaros e a questão do oriente”] logo vendeu 200.000 mil cópias. Disraeli rosnou: “podem existir homens mais infames [do que Gladstone], mas não creio que haja ninguém mais maligno”.

Gladstone fez alertas sobre boas intenções que levam a derramamento de sangue e dinheiro em guerras no estrangeiro. Em 7 de maio de 1877 ele declarou: “Considerem como nós conquistamos, nos instalamos, anexamos e nos apropriamos de todos os pontos da bússola, de modo que poucos pontos da superfície da Terra não estão próximos de alguma região ou algum lugar sob domínio britânico... E então, vos pergunto, que disputa pode surgir entre dois países, ou que guerra, no qual não seja possível, se houver tal intenção, estabelecer interesses britânicos como motivos para interferência”.

Seus alertas se concretizaram. Disraeli desentendeu-se com o emir do Afeganistão, que se recusou a permitir a entrada de diplomatas britânicos no país. Na África do Sul, cerca de oitocentos soldados britânicos foram mortos pelos zulus, e pressões europeias levaram Disraeli a pedir a expansão da presença naval britânica no Mediterrâneo. Como primeiro-ministro, Disraeli aumentou impostos em cinco milhões de libras, e incorreu em um déficit de seis milhões de libras, contra os cinco anos anteriores, em que a gestão de Gladstone caracterizou-se por doze milhões de libras em reduções de impostos e dezessete milhões em superávit orçamentário.

Mas o imperialismo era popular, e Gladstone reconhecia que não conseguiria seu fim apenas debatendo questões políticas dentro do Parlamento. Em 24 de novembro de 1879, ele começou a fazer campanha por um assento no Parlamento em Midlothian, na Escócia, há muito ocupado por Tories. Foi a primeira campanha política britânica que começou antes da data das eleições ser definida. Gladstone defendia uma política externa baseada em seis princípios. Primeiro, manter o governo pequeno para que as pessoas possam prosperar. Segundo, promover relações pacíficas entre as nações. Terceiro, manter a cooperação na Europa. Quarto, evitar “envolvimentos complexos”. Quinto, tentar tratar todas as nações igualmente. Sexto, “a política externa inglesa deve sempre ser inspirada pelo amor à liberdade... na liberdade fundam-se as bases mais firmes da lealdade e da ordem”. Disraeli chamou Gladstone de “arqui-vilão”, mas em março de 1880 os Liberais derrotaram os Tories, e Gladstone tornou-se primeiro-ministro novamente. Embora tenha retirado-se do Afeganistão, de modo geral ele não conseguiu reverter as políticas imperialistas de Disraeli. Mesmo assim, ele não envolveu a Grã-Bretanha em mais conflitos no estrangeiro. A amarga rivalidade terminou com a morte de Disraeli, em 19 de abril de 1881.

A Lei de Reforma de 1884, concatenada por Gladstone, ampliou o número de eleitores de cerca de 3 milhões para 5 milhões, mas a Irlanda tornou-se a principal questão dos longos anos finais de sua carreira. Ele acreditava que só haveria paz na Irlanda quando o feudalismo desaparecesse, e os camponeses se beneficiassem significativamente de seu próprio trabalho. Ele dedicou suas energias à Lei Irlandesa de Terras de 1881, que aumentava a proteção aos arrendatários que pagassem seu aluguel e obedecessem às leis.

Charles Stewart Parnell, proprietário de terras irlandês protestante e influente membro do Parlamento, chamou a nova Lei Irlandesa de Terras de fraude, e exortou à contínua resistência irlandesa. Seu bloco votou contra Gladstone, forçando o primeiro-ministro a renunciar em 9 de junho de 1885. Mas os Tories não conseguiram apoio suficiente na eleição subsequente, e recusaram-se a formar um novo governo. Gladstone formou seu terceiro ministério em janeiro de 1886. Os seguidores de Parnell haviam conquistado oitenta e cinco assentos nas eleições parlamentares, e isso parece ter convencido Gladstone de que era o momento para uma ação ousada. Em 8 de abril ele anunciou ser a favor da autonomia, que significava a instalação de um Parlamento Irlandês para decidir a política interna. A Irlanda continuaria pertencendo ao Império Britânico, e o Parlamento Britânico controlaria suas relações internacionais. A Irlanda contribuiria parte de sua receita para ajudar a cobrir as despesas imperiais. Não haveria mais representantes irlandeses no Parlamento Britânico, o que possibilitaria o fim das táticas obstrucionistas da Irlanda.

A questão da autonomia causou uma cisão no partido Liberal. Muitos se opunham ao que consideravam concessões a camponeses violentos. Em junho de 1886, noventa e quatro parlamentares Liberais votaram contra a lei de autonomia proposta por Gladstone, derrotando-a, e levando a eleições gerais que os Liberais perderam. Gladstone, no entanto, preservou sua posição de liderança porque era “o velho homem”, a personalidade política mais famosa de todo o país. Ele ainda considerava a autonomia irlandesa sua principal prioridade e um precedente para administração local na Inglaterra, na Escócia e no País de Gales. Os Liberais venceram as eleições gerais de julho de 1892, e Gladstone formou seu quarto ministério.

Ele começou sua última batalha política em 13 de fevereiro de 1893. “Gladstone jamais falou tão bem quanto na apresentação da segunda lei de autonomia”, relatou o biógrafo Walter Phelps Hall. “Os velhos e familiares golpes sobre a mesa retornaram; a voz mágica, tão grave, tão eloquente, elevava-se e baixava em cadência musical, exortando os ingleses”. Em 1º de setembro de 1893, a Câmara dos Comuns aprovou a lei. Uma semana depois, a Câmara dos Lordes, dominada pelos Tories, rejeitou-a, forçando Gladstone a renunciar ao cargo de primeiro-ministro. Ele disse a John Morley, seu biógrafo e fiel colega: “Fui criado para odiar e temer a liberdade. Aprendi a amá-la. Este é o segredo de toda a minha carreira”.

Gladstone morreu de câncer em Hawarden, em 19 de maio de 1898, cercado por sua esposa e filhos. Tinha oitenta e oito anos. O caixão foi colocado em Westminster Hall, e estima-se que 250.000 pessoas tenham comparecido para homenageá-lo. Ele foi enterrado na abadia de Westminster, perto de seu mentor, Robert Peel, que havia se convertido ao livre comércio. “Os únicos funerais comparáveis fora da família real nos últimos 150 anos”, relatou o biógrafo Roy Jenkins, “foram os do duque de Wellington e o de Churchill”.

Como Gladstone havia previsto, os irlandeses tomaram o controle de seu destino. O Estado Livre Irlandês foi estabelecido em 6 de dezembro de 1921. Em 1937, veio a constituição da República da Irlanda. A Irlanda do Norte, ainda sob governo britânico, permanece uma fonte de violência crônica.

Biógrafos recentes ficaram fascinados com a publicação de The Gladstone Diaries [“Os diários de Gladstone”] (1825-1896, 14 volumes), com abundância de detalhes sobre sua intensa religiosidade e sua determinação a ajudar as prostitutas a encontrarem outro tipo de trabalho. Foram publicadas biografias pelo historiador Richard Shannon (1984, 1999), o historiador H. C. G. Matthew (1986, 1995), e o trabalhista Jenkins (1997).

Gladstone fez muito pela liberdade. Foi um dos grandes redutores de impostos, que cortou radicalmente os gastos do governo e deu aos contribuintes mais influência sobre seu governo. Ele garantiu o triunfo do livre-comércio. Ele promoveu a causa da libertação da Irlanda. Ele corajosamente se opôs ao imperialismo, exortando as pessoas a adotar a liberdade e a paz ao invés do poder e do prestígio, e demonstrou o tipo de fervor moral que poderia ajudar a liberdade a levantar-se mais uma vez.

 

* Publicado originalmente em 01/05/2009.