Biografia: William S. Gilbert

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Poucas outras pessoas foram tão aclamadas publicamente por desafiar a autoridade quanto William S. Gilbert, e ele o fez divertindo a todos. Por duas décadas após ter emergido como o principal dramaturgo da Inglaterra, com trinta e oito peças em seu nome, Gilbert colaborou com o compositor Arthur Sullivan e criou óperas cômicas que ridicularizavam o status quo com alegria. Entrevistado por um repórter, o rebelde Mark Twain “falou particularmente bem de Gilbert... Disse que era maravilhoso que um homem tivesse o dom de dizer não apenas as coisas mais espirituosas, mas também de dizê-las em verso, e que havia ficado embasbacado ao ler as óperas de Gilbert”.

O individualista H. L. Mencken escreveu: “a grande qualidade do humor de Gilbert era seu frescor permanente, uma aparente espontaneidade que não desaparecia com a familiaridade... Era, de fato, humor que o próprio Aristófanes poderia ter criado, humor do qual Rabelais poderia ter-se orgulhado... Humor que fez dele, acima até mesmo de Mark Twain, o grande cômico de sua geração”.

O escritor Isaac Asimov escreveu: “Muitos compositores poderiam ter sido quase tão bons quanto Sullivan para escrever a música, mas ninguém, antes ou depois de Gilbert, chegou nem perto do humor de seus diálogos ou de suas letras mais inteligentes. Ninguém. Cole Porter pode ser o segundo colocado – ele estudou Gilbert cuidadosamente – mas é um distante segundo lugar”.

Gilbert entretia as pessoas falando de coisas sérias. Este trecho é de H. M. S. Pinafore (1878): “Sempre votei conforme meu partido manda, / jamais pensei em pensar por minha própria conta”. E este é de Princess Ida “Princesa Ida”: “Sei da renda de todos, e o que todos ganham; e cuidadosamente comparo com as declarações de impostos”. E este, de The Pirates of Penzance “Os piratas de Penzance”: “Vão, heróis, rumo à glória, / embora morram em sangrento combate, / viverão em canções e na história. / Vão, rumo à imortalidade!”

O crítico Clement Scott escreveu na revista Theatre, em maio de 1880: “O estilo de humor... foi chamado de excêntrico, deformado, exagerado, caricatural, grotesco; foi comparado ao efeito de um homem vendo seu reflexo em uma colher... O sr. Gilbert faz de sua consciência... um amigo zombeteiro”. O acadêmico Alan Jefferson escreveu: “As situações são... baseadas em temas atemporais, como desencontros amorosos, trocas de lugar entre ricos e pobres, erros de identidade, maldições. Os libretti não têm nada da sofisticação superficial das operetas francesas e vienenses, mas as alternativas de Gilbert em humor e excentricidade são um entretenimento muito mais cativante”.

O próprio Gilbert explicou em uma entrevista em 1895: “Não tenho ambições de escrever à altura do gosto epicurista, me contento em escrever para a compreensão de todos. Por exemplo, quando estou escrevendo, imagino que é para um indivíduo particularmente bobo, que não entende uma ideia muito rapidamente; então não faço nada longo e explanatório, mas sim curto, direto e claro”. Gilbert fazia a maior parte de seu trabalho entre as onze horas da noite e as três da manhã. “A essa hora se tem paz absoluta”, refletiu ele. “O carteiro já fez seu pior, e ninguém pode interromper, a não ser um ladrão”.

Até Gilbert aparecer, o teatro inglês era dominado por atores e empresários que faziam o que quisessem com a obra dos dramaturgos. Gilbert escrevia libretos de alta qualidade e insistia que eles fossem seguidos à risca. Um ator exasperado explodiu: “Não serei intimidado! Eu sei as minhas falas!” Gilbert retrucou: “Pode até ser, mas não sabe as minhas!”

Gilbert e Sullivan eram uma dupla notável. Um repórter do New York Herald Tribune escreveu, em 1879: “O sr. Gilbert é um homem belo, bem-feito e robusto, aparenta quarenta e cinco anos, de estatura acima da média, o rosto belíssimo e corado, bigodes castanhos e costeletas curtas apenas levemente grisalhos, olhos azuis grandes e claros, e testa alta, larga, e de ar intelectual. Sua voz é profunda e sua pronúncia é rápida e entrecortada... O sr. Sullivan é muito diferente... É baixo, redondo e gordo, de pescoço grosso, tão moreno quanto seu ‘colaborador’ é claro, e de rosto maravilhosamente expressivo e sensível... Com tudo isso, o sr. Sullivan, que tem sempre um monóculo pendurado sobre um olho enquanto o outro pisca alegremente para você e cujos bigodes e cabelos escuros são delicadamente cacheados, também é um homem refinado e moderno”.

William Schwenk Gilbert nasceu na casa de seu avô, no número 17 da rua Southampton, Strand, Londres, em 18 de novembro de 1836. Sua mãe, Anna Mary Bye Morris, era escocesa. Seu pai, Dr. William Gilbert, era um cirurgião da marinha aposentado, e autor de Memoirs of a Cynic [“Memórias de um cínico”].

Gilbert passou grande parte de sua juventude viajando pela Europa com seus pais. Quando ele tinha dois anos – e era chamado pelo apelido “Bab” – sua família estava de férias em Nápoles quando dois ladrões o arrancaram de sua babá. Seu pai comprou-o de volta. Como ator na Great Ealing School, em Londres, ele interpretou o rebelde Guy Fawkes, que havia tentado explodir o rei e o Parlamento em 1605. Talvez porque seus pais estivessem sempre brigando, observou o biógrafo Hesketh Pearson, Gilbert alegrava sua vida “indo ao teatro, pregando peças, escrevendo versos, desenhando charges e flertando com garotas que chamassem sua atenção”. Ele se matriculou no King’s College da Universidade de Londres em março de 1853, e se formou três anos depois.

Em 1861, Gilbert vendeu um artigo satírico e uma caricatura para a revista semanal de humor Fun, e por dez anos produziu poemas, charadas, trocadilhos e caricaturas semanalmente. Seu trabalho mais conhecido para a Fun foram as Bab Ballads [“Baladas de Bab”], que muitas vezes satirizavam instituições incluindo a marinha, o exército e a Igreja Anglicana.

Gilbert começou a escrever comédias. Sua primeira, An Old Score [“Uma velha disputa”], foi concluída em 1869. A primeira que saiu com seu nome foi Dulcamara!, or The Little Duck and the Great Quack [“Dulcamara!, ou O pequeno pato e o grande charlatão”]. O charlatão de Gilbert, Dr. Dulcamara, diz: “Eu acumulo o dinheiro de meus pacientes dizendo-lhes que estão todos mal de saúde”. A peça estreou em 29 de dezembro de 1866, e ficou aproximadamente três meses em cartaz. Em The Wedding March “A Marcha Nupcial”, Gilbert encontrou o estilo que mais tarde usaria em seu trabalho com Sullivan. Conforme explicou a biógrafa Jane W. Steadman, “O sucesso de uma peça depende principalmente da ausência de exagero nas roupas e na ‘maquiagem’... As coisas mais improváveis sendo feitas da forma mais sincera por pessoas comuns”.

Talvez confiante de que sua carreira estava encaminhada, aos trinta e um anos Gilbert casou-se com Lucy Agnes Blois Turner, de dezenove anos, em 6 de agosto de 1867. Sua família havia servido na Índia, e ela conhecia Gilbert havia três anos. “Ela era”, segundo Steadman, “pequena e delicada, ‘frágil’, como seus contemporâneos a descreviam. Mesmo na meia-idade, seus braços e pele ainda eram belos e joviais... Sua voz era doce e suave”. Embora não tenham tido filhos, os dois tiveram uma vida longa e feliz juntos.

Em novembro de 1869, Gilbert foi apresentado a Arthur Sullivan pelo compositor Frederic Clay após um intervalo num ensaio de sua comédia musical Ages Ago [“Tempos atrás”] na Royal Gallery of Illustration, em Lower Regent Street. Gilbert tinha trinta e três anos. Sullivan, aos vinte e sete, era o compositor mais conhecido da Inglaterra. Nascido em 13 de maio de 1842 em Lambeth, Londres, ele cresceu em circunstâncias humildes. Seu pai, Thomas Sullivan, era mestre de banda na Royal Military College, em Sandhurst. Arthur ganhou a primeira bolsa Mendelssohn de estudos na Royal Academy of Music e estudou no conservatório de Leipzig, fundado por Felix Mendelssohn. Ele escrevia música para óperas cômicas (Cox and Box e The Contrabandista), além de uma sinfonia, oratórios, balés, aberturas, marchas e hinos como Onward, Christian Soldiers [“Avante, soldados cristãos”]. Ele viajou a Paris com Charles Dickens e visitou o compositor italiano Gioacchino Rossini.

Foi em Paris que Sullivan conheceu Fanny Ronalds, uma socialite americana que, embora separada do marido, nunca se divorciou – presumivelmente porque isso teria escandalizado seus amigos. Ela e Sullivan ficaram juntos por vinte e sete anos, até a morte dele.

A primeira colabiração de Gilbert e Sullivan foi Thespis, or the Gods Grown Old [“Téspis, ou os deuses envelhecidos”], a trigésima-nona peça de Gilbert. Uma companhia de atores sobe o Monte Olimpo, encontra os dissolutos deuses, e os encoraja a misturar-se às pessoas comuns para reconquistar sua influência. Estreou em 23 de dezembro de 1871, e foi encenada sessenta e quatro vezes – um fracasso financeiro. As partituras não foram preservadas, mas Sullivan adaptou grande parte delas para operetas posteriores.

O empresário de trinta e um anos Richard D’Oyly Carte (nascido Richard Doyle McCarthy) estava convencido de que uma nova colaboração de Gilbert e Sullivan poderia ser um sucesso. Ele administrava o Royalty Theatre, no Soho, que estava tendo dificuldades para preencher os assentos com La Périchole, uma ópera cômica do compositor francês Jacques Levy Offenbach. Carte pediu a Gilbert uma peça curta para abrir as apresentações, e ele respondeu que, sete anos antes, havia escrito uma balada para a Fun chamada Trial by Jury [“Julgamento por júri”]. Ele a transformou em uma comédia musical em um ato, e Carte sugeriu que trabalhasse com Sullivan. “Gilbert veio a meu apartamento e leu a peça inteira para mim de um jeito meio perturbado, com uma indignação crescente, como um homem consideravelmente desapontado com o que havia escrito. Assim que chegou à última palavra, ele fechou o manuscrito violentamente, aparentemente sem perceber que tinha atingido seu objetivo, pois eu estava gritando de tanto rir o tempo inteiro. As letras e músicas foram escritas e os ensaios se completaram em apenas três semanas”.

Trial by Jury estreou em 25 de março de 1875, e foi encenada 175 vezes. Era a primeira ópera cômica inglesa realmente nova desde The Beggar’s Opera [“A ópera do mendigo”], de John Gay (1728). Ambas se baseiam em personagens inglesas, instituições inglesas e canções populares inglesas. Trial by Jury conta a história de um processo por quebra de promessa iniciado por uma dama cujo noivo queria cancelar o casamento. O juiz resolve a disputa concordando em casar-se com ela.

Entusiasmado com o sucesso, Carte fundou a Comedy Opera Company. Gilbert e Sullivan ajudaram a selecionar não magníficas vozes operísticas, mas atores que articulavam bem as palavras. Eles se apresentariam na Opera Comique.

Em 1876, Gilbert leu o conto “An elixir of Love” [“Uma poção do amor”] e o transformou em um libreto de três atos para The Sorcerer [“O Feiticeiro”]. O protagonista, John Wellington Wells, dá uma poção do amor para todos os habitantes de um vilarejo, e todos se apaixonam pelas pessoas erradas. The Sorcerer estreou em 17 de novembro de 1877, e ficou em cartaz por 178 apresentações.

Gilbert se dedicou a um novo libreto que satirizava a política e a marinha britânica: H.M.S. Pinafore, or The Lass That Loved a Sailor [“H.M.S. Pinafore, ou a moça que amava um marinheiro”]. H.M.S. Pinafore estreou em 25 de maio de 1878. Uma onda de calor afastou as pessoas dos teatros, e muitos se ofendiam com a ideia de satirizar a marinha britânica. O conservador Benjamin Disraeli, o primeiro-ministro notório por promover o imperialismo britânico, escreveu que “nunca havia visto algo tão ruim quanto Pinafore”. Mas Sullivan popularizou Pinafore tocando partes dela nos concertos populares que regia no Covent Garden Opera House. Em setembro, os ingressos para a Comedy Opera Company se esgotavam todas as noites, e as lojas de música vendiam até dez mil cópias das partituras para piano a cada dia. A temporada de H. M. S. Pinafore teve mais de 700 apresentações. Sullivan voltou a encher sua conta bancária, que ele havia gasto nas mesas de jogo de Monte Carlo, e Gilbert comprou seu primeiro iate, o Druidess. Produções não-autorizadas atraíam grandes plateias nos Estados Unidos. Havia oito produções não autorizadas em cartaz apenas na cidade de Nova York. Na Filadélfia havia uma produção com elenco inteiramente negro, e uma produção de Boston era estrelada por “cinquenta vozes de diversas igrejas católicas”.

Carte, Gilbert e Sullivan formaram uma sociedade e concordaram que a única forma de impedir as produções não autorizadas de seu trabalho nos Estados Unidos era fazer com que a próxima opereta, The Pirates of Penzance [“Os piratas de Penzance”], estreasse nos Estados Unidos, para que os direitos autorais fossem válidos no país. A estréia aconteceu em 31 de dezembro de 1879, em Nova York, mas a estratégia não funcionou. A história é sobre uma quadrilha de piratas ingleses que têm dificuldades em lucrar com a pirataria. Eles têm uma regra – jamais machucar um órfão – e todos os seus prisioneiros sempre alegam ser órfãos. Apesar de todas as produções não-autorizadas, Gilbert, Sullivan e Carte ganharam muito dinheiro. Apenas nas primeiras seis semanas, os shows em Nova York renderam mais de US$4.000 em royalties por semana. The Pirates of Penzance estreou em Londres em 2 de abril de 1880, e teve 363 apresentações.

A seguir, Gilbert ridicularizou intelectuais pretensiosos e militaristas machistas em Patience, or Bunthorne’s Bride [“Paciência, ou A noiva de Bunthorne”], que estreou em 23 de abril de 1881. Durante a temporada de 578 apresentações, a peça mudou-se para um novo teatro de 1292 lugares, o Savoy, o primeiro teatro com luz elétrica, projetado especialmente para D’Oyly Carte. A partir daí, as operetas de Gilbert e Sullivan passaram a ser comumente chamadas de “Savoy operas”, e seus atores, de “Savoyards”.

Gilbert escreveu Iolanthe, or the Peer and the Peri [“Iolanthe, ou O lorde e a peri” (descendente de anjos caídos)]. Baseada em uma de suas Bab Ballads, a história é sobre um conflito entre fadas e políticos. A peça estreou em 25 de novembro de 1882, o dia em que Sullivan soube que havia perdido tudo em seus investimentos em ações. Ele regeu tranquilamente na noite de estréia, e Iolanthe teve 398 apresentações.

Gilbert então transformou o poema Princess [“Princesa”], de Alfred Tennyson, em Princess Ida, or Castle Adamant [“Princesa Ida, ou o castelo Adamant”], com farpas dirigidas contra feministas, machistas, e militaristas. Princess Ida estreou em 5 de janeiro de 1884 e ficou em cartaz por 256 apresentações. O primeiro-ministro William Ewart Gladstone adorou.

Em 22 de maio de 1883, a rainha Vitória nomeou Sullivan cavaleiro por sue música “séria”, não por seu trabalho com Gilbert. Esse ato pareceu desdenhar Gilbert, porque o público geral conhecia Sullivan por seu trabalho com Gilbert.

Quando uma espada japonesa de execuções caiu da parede de Gilbert e chegou ao chão com estrépito enquanto ele tentava inventar uma nova história, ele se lembrou de que a cultura japonesa havia cativado a imaginação do público. Ele escreveu o libreto de The Mikado, or the Town of Titipu [“O Mikado, ou A cidade de Titipu”], sobre a loucura de um governante (o Mikado) que interfere na vida privada. Uma lei estipulava pena de morte para qualquer um que fosse apanhado flertando, mas o carrasco já havia sido condenado por flertar, então seria obrigado a cortar sua própria cabeça antes de cortar a cabeça de qualquer outro – algo que ele parecia incapaz de fazer. The Mikado estreou em 14 de março de 1885, e teve 672 apresentações. Tornou-se a opereta mais popular do repertório de Gilbert e Sullivan.

Gilbert decidiu adaptar sua peça Ages Ago, de 1869, transformando-a em uma sátira de melodrama: Ruddygore, or The Witch’s Curse “Ruddygore, ou A maldição da bruxa”. A história se passa no início do século XIX, e explora visões populares de moralidade. Ruddygore estreou em 22 de janeiro de 1887, e ficou em cartaz por 288 apresentações. Gilbert relatou que Ruddygore rendeu-lhe ?7.000.

Andando em uma estação de trem, Gilbert notou um anúncio que mostrava uma fotografia de um dos guardas de Torre de Londres. Gilbert viu possibilidades cômicas em uma história sobre a torre, mesmo que tantas pessoas tenham sido executadas nela. Sullivan sugeriu o título, The Yeomen of the Guard, or The Merriman and His Maid [“Os homens da guarda, ou O bobo da corte e sua donzela”]. A peça estreou em 3 de outubro de 1888, com a competência de Gilbert evidente do início ao fim. Houve 423 apresentações.

Gilbert escreveu The Gondoliers, or The King of Barataria [“Os gondoleiros, ou O rei de Barataria”]. Passada em Veneza, é uma brilhante sátira de igualitários como Karl Marx, que alegavam que um governo poderoso tornaria a vida das pessoas melhor. A peça estreou em 17 de dezembro de 189, e teve 559 apresentações.

Em abril de 1899, quando Gilbert voltou de uma viagem férias à Índia, descobriu que seus pagamentos de royalties eram menores do que ele esperava. Ele acusou Carte de cobrar dele e de Sullivan a aquisição de novos carpetes para o Savoy Theater. Cansado, Sullivan ficou do lado de Carte na “querela do carpete”. Gilbert processou e ganhou, mas a relação profissional ficou desgastada.

Sullivan disse a Gilbert que queria se concentrar em uma grande ópera, e que Carte construiria a Royal English Opera House para exibi-la. Gilbert observou que “quanto mais inconsequente e irresponsável o libretto, mais temos tido sucesso”. A grande ópera de Sullivan, Ivanhoe [“Ivanhoé”], estreou em 31 de julho de 1891, e foi um fracasso de bilheteria. Carte teve de minimizar seu prejuízo vendendo o novo teatro para um grupo de vaudeville. Ironicamente, quando a rainha Vitória deu a Sullivan a honra de pedir uma apresentação particular no castelo de Windsor, ela não escolheu Ivanhoe, mas sim The Gondoliers, seu trabalho com Gilbert, que ela havia esnobado.

Gilbert mimou-se ao comprar Grim’s Dyke, uma extravagante mansão de estilo Tudor de 1875 em Harrow Weald, ao norte de Londres. A atriz Nancy McIntosh recordou: “Ele tinha uma variada coleção de lêmures, pombos, gatos, grous, cães, que tinham uma característica comum – adoravam ficar na biblioteca... Uma grande janela francesa se abria para o sul, pela qual os animais podiam passar livremente. Os pombos vinham em busca de cinzas de charuto, os lêmures entravam na hora do chá para pedir frutas, e, quando uma família de uma dúzia de perus escapou do galinheiro, até eles vieram direto para a biblioteca, onde o sr. Gilbert os encontrou... tendo uma animada discussão, aparentemente sobre o manuscrito que estava sobre a mesa”.

Gilbert começou a trabalhar em Utopia Limited, or The Flowers of Progress [“Utopia limitada, ou As flores do progresso”], sobre um paraíso tropical onde dois sábios são obrigados a explodir o rei se ele violar as leis. O espetáculo estreou em 7 de outubro de 1893, e, embora tenha muitas passagens excelentes, foi uma decepção após The Gondoliers, e teve apenas 245 apresentações.

Finalmente, Gilbert escreveu o libreto de The Grand Duke, or The Statutory Duel [“O grande duque, ou O duelo regulamentar”]. A história envolve um plano para derrubar o grande duque: as partes sorteiam cartas. O perdedor morre, mas o vencedor tem de assumir as responsabilidades do perdedor. A peça estreou em 7 de março de 1896, e ficou em cartaz por apenas 123 apresentações, até 10 de julho – a temporada mais curta desde Thespis, quase um quarto de século antes.

Gilbert estava viajando quando Sullivan morreu de pneumonia por volta das seis horas da manhã de 22 de novembro de 1900, em sua residência em Queen Anne’s Mansion. Tinha cinquenta e oito anos. Foi enterrado na cripta da St. Paul’s Cathedral. Seu sobrinho Herbert Sullivan pediu a Gilbert que sugerisse algumas frases para o busto de seu tio que seria instalado em Embankment Gardens, e ele escolheu trechos de The Yeomen of the Guard.

A saúde de Gilbert também estava piorando. “Tive gota por toda a minha vida”, refletiu ele, “até 1900, quando apareceu a artrite reumatóide. Elas fugiram juntas – o único escândalo que já tive em minha família”. Gilbert foi finalmente nomeado cavaleiro pelo rei Eduardo VII em julho de 1907.

Em 29 de maio de 1911, Gilbert levou duas amigas, Isabel Emery e Ruby Preece, para nadar no lago de sua propriedade. Preece chegou a um lugar muito fundo e gritou que estava se afogando. Gilbert apressou-se para salvá-la. “Ponha as mãos nos meus ombros”, ele orientou. E então ele sofreu um ataque cardíaco fatal e afundou. Tinha setenta e quatro anos. As duas mulheres sobreviveram. As cinzas de Gilbert foram enterradas no cemitério da St. John the Evangelist Church, em Stanmore, perto de sua mansão.

Pouco depois da morte de Gilbert, H. L. Mencken escreveu: “The Mikado foi encenada em Baltimore no ano passado sem mudanças em uma linha sequer... Após um quarto de século, como pareceu deliciosamente ágil e animada... Pinafore fez sucesso em Nova York uma noite dessas – pela vigésima ou trigésima vez em 33 anos... Nenhuma outra ópera cômica já escrita – de fato, nenhuma peça de qualquer tipo – foi tão popular... de Moscou a Buenos Aires, da Cidade do Cabo a Shanghai; em Madrid, Ottawa e Melbourne; até mesmo em Paris, Roma, Viena e Berlim”. Gilbert e Sullivan, continuou Mencken, “deixaram o mundo mais alegre do que o encontraram. Tiveram vidas cheias de esforço honesto, grandes conquistas e serviços úteis”.

Ao longo dos anos, foram publicadas dúzias de livros sobre Gilbert e Sullivan, diversas biografias de Sullivan, um pouco de crítica literária, e apenas três biografias de Gilbert: W. S. Gilbert, de Edith Browne (1907), escrito a partir de entrevistas dadas por Gilbert à autora; W. S. Gilbert: His Life and Letters “W. S. Gilbert: sua vida e correspondência”, de Sidney Dark e Roland Grey, que reúne muitas cartas e anedotas divertidas; e W. S. Gilbert, a Classic Victorian and His Theatre [“W. S. Gilbert, um vitoriano clássico e seu teatro”], de Jane W. Steadman, o primeiro livro a examinar sua prolífica carreira antes de Sullivan.

O produtor novaiorquino Joseph Papp mostrou como atrair novas gerações com sua encenação de The Pirates of Penzance no Central Park, com sintetizadores, estrelas do rock, e algumas canções de outras operetas de Gilbert e Sullivan. “A plateia adorou e mesmo puristas como eu temos de concordar que o espetáculo foi muito divertido e, de um modo estanho, fiel ao espírito do original”, escreveu o comentarista da BBC Ian Bradley.

A D’Oyly Carte Opera Company fechou em 1982, aparentemente porque insistia em oferecer peças de época ao invés de interpretações vivas, mas o interesse em produções de Gilbert e Sullivan continuou forte. Seis anos mais tarde, a D’Oyly Carte voltou a funcionar, com estilo e produções atualizadas, e fez muito sucesso.

Harry Benford, que compilou o Gilbert and Sullivan Lexicon, relata que apenas nos Estados Unidos há cerca de 150 companhias teatrais que produzem ao menos uma opereta de Gilbert e Sullivan por ano. Segundo Bradley, da BBC, a obra dos dois “só não é executada mais frequentemente do que a dos Beatles... Em número de encenações tanto amadoras quanto profissionais, eles estão bem à frente de parcerias musicais mais recentes, como Rodgers e Hammerstein ou Rice e Lloyd Webber”. Vídeos de Gilbert e Sullivan são populares. Sites da internet atraem entusiastas de todo o mundo. O espírito livre de Gilbert está entrando rapidamente no novo milênio.

* Publicado originalmente em 24/04/2009.