BRICs, países do futuro?

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Minha infância durante o milagre econômico brasileiro foi marcada pelo ufanismo nacionalista, estatizante e protecionista, pela arrogância do sistema de planejamento central do regime militar, e pela onipresente expressão “Brasil, país do futuro”. Imagino que a expressão tenha sido tomada de empréstimo do título do livro de Stefan Zweig publicado em 1941. Zweig, nascido em Viena (hoje considerada pela classificação da Mercer como a cidade com a melhor qualidade de vida no mundo), radicou-se no Brasil (após passagem pelos EUA) para escapar da opressão nazista, mas suicidou-se com sua esposa em Teresópolis em 1942, um ano após sua chegada ao país, devido ao seu estado de desespero com os descaminhos da humanidade

Para mim é curioso notar, muitas décadas mais tarde, que a expressão “país do futuro” renasceu em escala mundial numa nova versão agora aplicada aos países apelidados de BRICs. Onde quer que eu vá, parece não haver dúvidas de que o Brasil, a Rússia, a Índia e a China estarão entre as grandes potências mundiais ao fim deste século.

Não sei como tal consenso se formou. Suspeito que seja o resultado de publicidade eficaz promovida pelos administradores dos fundos de investimento em Nova Iorque e Londres. É evidente que muita gente enriqueceu da noite para o dia com a intermediação de ativos dos BRICs. O fato, porém, é que há pouca qualidade analítica por trás dos argumentos utilizados para justificar previsões de futuros gloriosos para esses países.

Evidentemente, um dos mais importantes fenômenos históricos das últimas décadas foi a liberalização econômica que ocorreu na China, que serviu para aproximá-la um pouco mais das economias de mercado ocidentais. Mas nenhum dos BRICs chegou nem de longe a obter as condições mínimas necessárias para se tornar potência econômica, cultural e política. Entre outros problemas, falta-lhes descentralização e liberdade política, constituições baseada em princípios liberais clássicos, presença mundial como centro de referência cultural e científica para o resto da humanidade, e a eliminação da pobreza abjeta via aumento generalizado da produtividade do trabalho, o resultado de uma verdadeira mudança de valores e comportamentos sociais que de fato nunca alcançou os países menos desenvolvidos.

BRICs, anões do investimento direto estrangeiro

Cada um dos pontos acima poderia ser objeto de um artigo inteiro. Utilizarei o resto deste para exemplificar o ponto anterior e ao mesmo tempo desfazer um mito: o de que os BRICs são potências do investimento direto estrangeiro (IDE), um importante sinalizador do nível de abertura e internacionalização econômica de um país e do grau de desenvolvimento de sua economia. Infelizmente a realidade é que os BRICs estão muito longe de serem campeões de IDE.

A confusão se dá em parte pela dimensão continental dos BRICs e pelo tamanho das suas populações. As estatísticas de investimento direto estrangeiro são raramente ajustadas pela população de um país. Tal ajustamento ofereceria uma ideia mais precisa dos benefícios que cada habitante estaria colhendo como resultado da confiança das empresas estrangeiras no futuro do país.

Como ilustração, tomem-se os dados dos 16 países campeões de estoque de IDE recebido, mais os valores do Chile e da Índia, que aparecem na classificação da UNCTAD de 2007 respectivamente nas posições 27 e 35. Já fica claro que a Índia, a despeito de suas dimensões continentais e descomunal população, é um anão absoluto de IDE:

  País IDE
1. Estados Unidos 2.093.049
2. Reino Unido 1.347.688
3. Hong Kong 1.184.471
4. França 1.026.081
5. Bélgica 748.110
6. Holanda 673.430
7. Alemanha 629.711
8. Espanha 537.455
9. Canadá 520.737
10. Itália 364.839
11. Brasil 328.455
12. China 327.087
13. Rússia 324.065
14. Austrália 312.275
15. Suíça 278.155
16. México 265.736
27. Chile 105.558
35. Índia 76.226

 

De acordo com a classificação da UNCTAD o Brasil, a China e a Rússia parecem ir muito bem, afinal ocupam as posições 11,. 12 e 13 respectivamente. Entretanto, se os valores do estoque de IDE recebido forem ajustados para valores per capita (populações de 2009), obtém-se a seguinte reclassificação para os dezoito países acima:

  País IDE per capita
1. Hong Kong 168.574
2. Bélgica 69.093
3. Holanda 40.534
4. Suíça 35.739
5. Reino Unido 21.722
6. França 15.678
7. Canadá 15.261
8. Austrália 13.962
9. Espanha 11.676
10. Alemanha 7.702
11. Estados Unidos 6.765
12. Chile 6.180
13. Itália 6.048
14. México 2.471
15. Rússia 2.283
16. Brasil 1.702
17. China 244
18. Índia 65

 

Como indicado na tabela, os estoques de IDE per capita recebidos pelos BRICs são mais baixo que os de países menos badalados, mas certamente mais avançados em seu processo de desenvolvimento econômico, como o Chile e o México. É chocante a diferença entre os 168 mil dólares de investimentos diretos estrangeiros “disponíveis” para cada habitante de Hong Kong quando comparados aos paupérrimos 65 dólares “disponíveis” para cada habitante da Índia e aos míseros 244 dólares “disponíveis” para cada habitante da China. Em outras palavras, uma visão realista dos BRICs nos informa que são anões mundiais de IDE. Esse quadro dificilmente se modificará daqui ao final do século, graças às diferenças ainda exorbitantes entre os estoques de IDE dos BRICs e das nações mais avançadas.

 

* Publicado originalmente em 03/06/2010.