Capital, dinheiro e crises econômicas

Um dos grandes destaques da Escola Austríaca de Economia é a sua elaborada teoria do capital. Diferente da teoria macroeconômica convencional, como ela está representada nos livros-texto populares, nos quais a teoria do capital sofre negligência, na Escola Austríaca ela goza de um papel central. Uma apropriada teoria de capital é essencial para entender bem os processos macroeconômicos e para explicar os ciclos de prosperidade e crises econômicas.

O capital na teoria convencional

A teoria do capital na macroeconomia convencional da chamada síntese neoclássica não é apenas muito rudimentar, ela é também conceitualmente errada. A teoria convencional distorce a natureza do capital quando define capital como homogêneo no sentido de que seja maleável como um pedaço de argila fresca. Esta teoria presume que capital seja algo que pode ser modelado livremente em qualquer configuração e aumentado por adição e reduzido por subtração sem mudar a sua estrutura.

A teoria macroeconômica da síntese neoclássica que hoje em várias formas domina o discurso da política macroeconômica mostra-se bastante ingênuo em propor, por exemplo, uma “política econômica expansiva” para “estimular” a economia. O modelo por trás deste conselho é baseado no principio da demanda efetiva que diz que mais consumo ou mais investimento implicam quase automaticamente mais emprego e mais crescimento econômico. Se o método de ganhar prosperidade fosse tão simples como estes modelos insinuam, não existiria razão para que uma nação ficasse pobre porque todos os países poderiam tornar-se muito ricos em pouco tempo só por estimular a demanda agregada com mais gastos do governo e para o consumo.

Para a teoria convencional da macroeconomia, o capital é homogêneo, unidimensional e atemporal. Esta definição de capital como uma entidade sem estrutura causal-temporal estabelece-se em completo contraste com a realidade. Deficiências deste tipo no nível conceitual provocam severos enganos para a política econômica. Foi imenso o dano cometido com estes modelos nas políticas de crescimento e desenvolvimento.

A teoria austríaca do capital

Na perspectiva da Escola Austríaca de Economia, capital é heterogêneo e possui uma estrutura intertemporal e causal. Para produzir um lápis, por exemplo, o produto final é o resultado de uma longa cadeia de conexões causais que requerem tempo e conhecimento para a sua realização. A produção tem uma dimensão intertemporal e os diferentes estágios do processo da produção possuem definidas conexões causais. O lápis não pode ser produzido na fábrica sem antes ter minado o grafite e cortada a árvore. O capital tem uma estrutura “horizontal” ao longo do tempo que é determinada pelas causalidades entres os diversos processos de produção. Juntamente com essa estrutura horizontal existe também uma estrutura “vertical” de conexões causais complementares. Para se conseguir a madeira para fabricar o lápis se necessita transportar as árvores para a serraria, o que requer um caminhão, que tem a sua própria cadeia de produção. Na combinação dos estágios horizontais e verticais manifesta-se a imensa complexidade da estrutura do capital. O processo econômico existe para gerenciar, descobrir e aplicar estas conexões causais que produzem valor econômico.

Enquanto o modelo da síntese neoclássica pode presumir uma economia sem empreendedor, esto não é o caso com a teoria austríaca do capital. Para a teoria do capital da Escola Austríaca o papel do empreendedor é o de gerenciar o processo de manter e reestruturar o capital em seus vários detalhes e ramificações. O capital de uma economia caracteriza-se por altíssima complexidade que transcende drasticamente a capacidade de um só dirigente ou de um comitê central de dirigentes. Isto leva a conclusão de que mais avançada uma economia é, que mais complexa a estrutura do capital será e consequentemente mais descentralizado deve ser o sistema econômico. Quanto mais moderna a economia, mais importante o papel do empreendedor.

 

Moeda e capital

Numa economia monetária as transações econômicas são efetuadas com dinheiro. A massa monetária determina o nível geral dos preços enquanto mudanças da massa monetária não apenas afetam o nível de preços, mas também os preços relativos. O dinheiro não é neutro diante das relações dos preços de diversos bens. Os impulsos monetários se difundem na economia em sequências e afetam os preços individuais em diferentes graus e a diferentes momentos.

Uma política de dinheiro fácil, por exemplo, que traz mais dinheiro para a economia e reduz a taxa monetária de juros não apenas terá um efeito sobre a taxa de inflação de preços, mas também transformará as relações entre os preços dos diversos bens e serviços.  A taxa de juros mais baixa que a política monetária expansiva gera não somente faz o financiamento de novos projetos mais barato, mas incentiva também a realização de investimentos com um horizonte de tempo maior. A redução da taxa de juros pelo banco central sinaliza para os investidores uma preferência temporal menor enquanto este não é o caso. A taxa originária de juros não mudou, mas os investidores recebem um sinal falsificado de que os consumidores poderiam esperar mais tempo até que o resultado do investimento se concretizasse em novos produtos finais. Enquanto os consumidores não praticam a abstinência do consumo hoje em favor de mais consumo amanhã, os investidores prolongam a estrutura intertemporal do capital com novos investimentos.  Estes novos investimentos não apenas fazem o estoque de capital expandir, mas transformam a estrutura intertemporal e causal do capital. A política monetária expansiva lança a economia num caminho de investimentos errados e de uma estrutura do capital distorcida.

Crises econômicas

Uma política monetária que reduz a taxa de juros abaixo de seu nível natural provoca a realização de maus investimentos na economia porque estimula investimentos enquanto os agentes econômicos não querem reduzir o seu consumo ou mesmo aumentam o consumo se os consumidores também têm acesso ao dinheiro barato. O resultado disso é uma conjuntura artificial baseada em projetos de investimentos que excedem a vontade e a capacidade de poupar. Na economia faltam os recursos necessários para concluir e manter os novos projetos.

Até o momento, mesmo quando o colapso acontece os indicadores convencionais pintam um quadro de exuberância de alto crescimento e emprego. É somente com a crise que se nota a extensão dos maus investimentos que foram cometidos durante o boom. Crises econômicas são fases de corrigir os erros do passado e curar a economia de suas distorções. Este processo da reestruturação está acompanhado de bancarrotas e desemprego.

Enquanto a política keynesiana promete que mais demanda pode curar a crise, o fato é que a crise foi provocada por um aumento da demanda agregada em primeiro lugar. Quando se continua com esta política, a má estrutura de capital piora ainda mais. Em vez de curar, a política de novos estímulos interrompe o processo de cura.

Uma política de estimulo que quer suavizar este processo fabrica o contrário da intenção porque atrapalha o processo de adaptação e prolonga a agonia.

Conclusão

Para a Escola Austríaca de Economia, o capital tem uma estrutura intertemporal e causal. Este processo multidimensional e dinâmico requer o empreendedor como agente de atuação para assegurar que a estrutura de capital encontre-se em maior concordância possível com os requerimentos das circunstâncias específicas de tempo e espaço. Quando o banco central manipula a taxa monetária de juros com o objetivo de estimular a economia, ele planta as sementes da crise. Crises e depressões são provocadas por políticas monetárias que transmitem sinais errados sobre a preferência temporal e, assim, sobre a disponibilidade de recursos. Crises econômicas servem para corrigir estes erros e curar a deformidade da estrutura do capital.