Chávez descobre uma mentira na internet

Não faço ideia de como é a vida online de Hugo Chávez, que sites frequenta, que contas de Twitter segue, nem quais feeds ele assina. Só sei que surfando ele se deparou com algo horrível, trágico. Em suas palavras, “um crime”. Chávez encontrou uma mentira na internet!

Espero que o leitor tenha coração forte.

Uma mentira! O site Noticiero Digital disse que estava morto um sujeito que estava vivo. Parece que a internet está cheia de coisas assim. Há um site que diz que Elvis está vivo. Outro diz que Paul McCartney está morto.

Essas coisas podem acontecer nos Estados Unidos capitalista, ou na Europa ocidental, mas não na Venezuela de Chávez. Não, senhores. Chávez prefere seguir o modelo de Irã e China para prevenir que seus cidadãos sejam ludibriados pelo caos da informação online. Afinal de contas, de acordo com Chávez, “a internet não pode ser uma coisa aberta onde qualquer coisa é dita e feita". O Twitter, por exemplo, se tornou um "instrumento de terrorismo", de acordo com o comandante venezuelano. É preciso tratar a internet da forma que o governo da Venezuela trata o resto da imprensa, tirando estações de rádio do ar e não renovando concessões de canais de TV. O papo de imprensa livre, onde qualquer um pode fazer o que bem entender é papo de liberal. Ou de golpista!

Isso tudo parece muito ridículo. Mas não se pode menosprezar motivações ridículas. Quantas guerras não foram declaradas, genocídios perpetrados, campos de concentração instalados, por motivações ridículas? Achar que gente de outra cor ou de outra religião é menos gente que você é ridículo. Mas a ridicularidade não impediu que os Tutsis fossem exterminados pelos Hulus na Rwanda dos anos 1990. Motivos ridículos geram conseqüências sérias.

Obrigar alguém a escolher de acordo com as minhas escolhas, a patrocinar as causas que eu considero importantes, é ridículo, mas é esse ridículo princípio que está no núcleo de todo socialismo. Não há nada de acidental na repressão socialista. Como disse Mises, todo socialista é um ditador disfarçado. Se a pluralidade de opiniões fomenta uma democracia liberal, a mesma pluralidade ameaça um regime socialista, porque o socialismo significa concentrar milhões de vidas sob um único mecanismo de decisão. A pluralidade de vozes não é interpretada como debate aberto, mas como dissidência perigosa.

O século XXI iniciou com a avalanche multiplicadora da informação. Nunca foi possível acessar tantas mentiras, exageros, xingamentos, e manipulações com a facilidade que temos agora. No entanto, nunca a população mundial esteve tão bem informada. O caos de informação online é acompanhado pela demanda de coordenação, de filtro, de verificação. E é na própria liberdade online que surgem os intrumentos para esses fins. Não é preciso autoridade central alguma para determinar a veracidade de cada post, cada email, cada tweet. Há sites destinados a corrigir a propagação de mentiras e, o mais importante, há a desconfiança generalizada sobre a informação que se consome online. A Wikipedia não derrotou a Enciclopédia Britânica por ser mais confiável; derrotou-a exatamente por ser desconfiável. É por isso que ela funciona: porque você pode ir verificar o erro e consertá-lo.

A nossa liberdade de informação alucinante amedronta os governos baseados na uniformidade do pensamento. Cada vez mais os ditadores disfarçados inventarão motivos, terminologia e retórica para controlarem nossa liberdade online. Dizem que um mundo mais complexo necessita de mais controle. Pelo contrário. É a simples sociedade tribal que pode ser facilmente controlada de cima para baixo. A complexidade social e tecnológica necessita de maior diversidade de gerenciamento, mais ambientes para experimentação, mais regras emergindo da cooperação voluntária. Enfim, requer maior liberdade.

Quando você começar a ouvir que dissidência política é “golpe de estado”, que a mídia é golpista, que é preciso ter um controle democrático da internet, não se assuste. É so o disfarce politicamente correto do ditador começando a desmanchar.