Combustíveis em SP: prendendo frentistas como se fosse 1986

Esqueçam as roupas retro, esqueçam as festas que tocam hits de décadas passadas. O verdadeiro espírito dos anos 80 continua solto em plena cidade de São Paulo. Um protesto de caminhoneiros contra restrições impostas ao tráfego de caminhões diminuiu a quantidade de combustível disponível na cidade e fez com que espíritos controladores de preços deixassem as suas tumbas.

Surpresos com o aumento do preço de um produto – e com a existência da Lei da Oferta e da Procura –, os consumidores chamaram a polícia. Dois frentistas de um posto acabaram presos, sob acusação de “aumento abusivo”. Nesse momento, a nova geração de fiscais do Sarney já deve estar pelas ruas, de tabelinha na mão, “controlando os preços”.

De acordo com o cabo Marcelo da Costa, do 9º Batalhão da PM, uma equipe do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) foi ao local depois de receber uma denúncia. O gerente do posto não estava no momento. Dos três frentistas que estavam no posto, dois foram detidos. A sala de imprensa da PM, no entanto, às 11h confirmava apenas uma prisão. No local, a gasolina comum era vendida na manhã desta quarta a R$ 4,49, a aditivada a R$ 4,99, e o etanol e o diesel a R$ 2,49. Segundo motoristas que circulam pela região, o preço da gasolina comum antes do boicote dos caminhoneiros era R$ 2,69. Os preços começaram a aumentar na tarde desta terça-feira, quando subiu para R$ 3,50. De acordo com o site da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a média da gasolina cobrada no estado de São Paulo é de R$ 2,62 o litro para o consumidor e de R$ 2,228 o litro para a distribuidora.

Tendo o benefício de escrever 25 anos depois do fracasso do Plano Cruzado, permitam-me o spoiler: isso não vai dar certo.

Depois da paralização dos caminhoneiros, a referência do preço médio do litro da gasolina no estado de São Paulo – medido antes da paralização - vale o mesmo que uma nota de 1000 cruzados. E é risível que a base para qualificar um preço como “abusivo”, e prender trabalhadores que não têm nada a ver com o preço dos produtos que vendem, seja o preço médio cobrado por um produto. Imaginem um policial chegando para um lanchinho em um aeroporto. Seria cadeia para a garçonete. Na hora.

A “Polícia de Proteção à Cidadania” pode prender quantos frentistas estiverem ao seu alcance; o fato é que a quantidade de combustível nas bombas continuará a mesma.

E se não podem fazer com que mais gasolina esteja disponível nos postos de São Paulo, é melhor que a polícia recolha as suas viaturas, deixe o sistema de preços operar e economize combustível para operações em que a sua presença possa realmente fazer alguma diferença.


Lembremos a SUNAB e os "fiscais do Sarney", nesse vídeo chocante: