Como criar uma identidade criativa

O Brasil nunca escapou totalmente da mentalidade desenvolvimentista. Na última campanha presidencial, o candidato do PSDB contava e repetia sua política industrial para o Brasil. Iria tomar as rédeas da economia nas próprias mãos para guiá-la rumo a sua grande visão de desenvolvimento nacional. Derrotado o candidato, mas não a ideia, hoje o BNDES vem batendo recordes de empréstimos para escolher as indústrias que devem tornar o Brasil a grande economia industrial do futuro.

A não ser que nosso futuro esteja no século XIX, é melhor nos acostumarmos com uma era em que a prosperidade não está na capacidade industrial de uma economia, mas em sua capacidade de descobrir suas próprias vantagens comparativas.

Não é fácil desfazer a mentalidade desenvolvimentista. Os alunos já chegam com ela na faculdade, e não se desapegam com argumentos que mostram como a ideologia de desenvolvimentismo industrial é a praga dos países subdesenvolvidos.

Semana passada estive em uma palestra do economista Pedro Cavalcanti, da FGV-RJ. Cavalcanti criticou o favorecimento às indústrias campeãs do BNDES. Os frigoríficos brasileiros têm sido os maiores receptores do crédito subsidiado do banco estatal. Apenas o JBS-Friboi levou R$7.5 bilhões em empréstimos e venda de títulos.

Depois da palestra, alguns alunos continuavam defendendo as práticas do BNDES porque favoreciam setores importantes da indústria brasileira. Outros respondiam que setores importantes são aqueles que melhor servem ao consumidor. E os que melhor servem ao consumidor conseguem lucrar com suas atividades. Não precisam de subsídios.

Veio então o argumento nacionalista. O Brasil é uma país caracterizado pela pecuária extensiva etc. Devemos liderar a humanidade na produção de carnes. Não podemos deixar nossa tradição morrer.

Triste. Nenhum país do mundo deve ser escravo de uma indústria. Se a indústria dá certo, prospera e conquista espaço em outras partes do mundo, excelente! Se para de dar certo, não adianta injetar dinheiro público. Em vez de permitir que a indústria se adapte e se torne mais competitiva, o incentivo público a torna mais acomodada e dependente. Sucesso se conquista, não se subsidia.

E aí está o problema da identidade. Como o brasileiro tem um problema eterno de definir sua própria identidade, certas indústrias e empresas conseguem, assim que crescem um pouco, carregar com elas a personificação do que o Brasil realmente é.

Assim foi a Varig. Governo e população gostam de ter empresas campeãs que demonstrem a grandeza do país no exterior. Mais do que uma empresa, as pessoas viam na Varig um símbolo do que era o Brasil. Assim é a Petrobrás hoje. Assim querem que seja a Brasil Telecom no futuro. Sem ter uma identidade nacional solidificada, os brasileiros querem que o governo subsidie nossa identidade.

O problema econômico óbvio é que o desenvolvimento não ocorre por decreto oficial. Tudo o que o governo pode fazer é tirar a renda de uma sociedade produtiva para empregar em outras áreas. Só que falta ao governo (qualquer governo) a inteligência e os incentivos para a aplicação sábia desses recursos. Os planos governamentais costumam tombar com o próprio gigantismo. Projetos que começam como hinos ao triunfo acabam como monumentos ao fracasso.

As histórias de sucesso da nossa época não são histórias de planejamentos, mas de descobertas. Do sul e sudeste asiático até a nova África, as empresas que dão certo são as descobertas pelo empreendedorismo da população. Quando uma sociedade permite que milhares de experimentos ocorram ao mesmo tempo, a maioria fracassa, alguns poucos dão certo. Os que fracassam morrem, os que dão certo crescem e se reproduzem - são copiados, adaptados e melhorados por outros empreendedores.

O Brasil precisa parar de buscar sua identidade em símbolos do passado, e descobrir sua identidade em ideias.

Parte do sucesso da economia dos Estados Unidos se deu porque os americanos se identificam mais com a cultura de negócios do que com negócios específicos. Até o seu declínio nos anos 80, a Pan-Am era a principal empresa aérea americana. Seu sucesso era parcialmente garantido por favores monopolísticos do governo. Quando as proteções do governo diminuíram, a Pan-Am faliu. Mas a identidade americana não saiu ferida. Porque, em grande parte, os americanos não depositam sua identidade em empresas.

Depositam em ideias, como empreendedorismo e livre concorrência.

O Brasil também não precisa depender de marcas. Nós temos identidade: somos inovadores, criativos e experimentais. Nos vemos assim, e assim somos vistos pelos estrangeiros. Europeus às vezes reclamam de como seus países são avessos à novidades. Os brasileiros não. Logo aderem e se adaptam às novas tecnologias, sejam elas telefones celulares ou redes sociais. Mas nossa criatividade inovadora fica restrita a áreas muito específicas, como filmes, design e publicidade. Quando é para produzir outros bens que melhorem o bem estar, o empreendedorismo brasileiro fica amarrado pela burocracia.

Leva-se 120 dias para abrir uma empresa no Brasil. Depois que se abre, a empresa precisa lidar com encargos trabalhistas exploratórios e tributos sufocantes. Quando, por incompetência ou pelo fardo estatal, finalmente fracassa, o processo de falência no Brasil acaba levando em média 4 anos.

Como Tim Harford diz no seu novo livro Adapt, sucesso depende do fracasso. Uma economia que não permite a existência de vários experimentos, mas drena os recursos da sociedade para projetos que os planejadores consideram melhor, não conseguirá ter um ambiente propício à experimentação, ao fracasso e ao sucesso.

A criatividade brasileira não precisa ficar restrita aos camelôs e aos comerciais de TV. Precisamos de uma cultura de experimentação, que permita o fracasso ocorrer e o sucesso ser recompensado. Quando o brasileiro parar de tentar encontrar a sua identidade em personalidades e empresas campeãs, e começar a se identificar com uma cultura de criatividade e inovação, o apoio público aos gigantes que o BNDES cria poderá diminuir. Não precisamos de indústrias gigantes para nos afirmar como país. Com liberdade para empreender, seremos finalmente gigantes pela própria natureza.