Como mudar o mundo?

Existem algumas coisas no mundo que qualquer pessoa interessada em política gostaria de mudar. Então podemos nos perguntar: o que causa a mudança de paradigmas na política e na sociedade?

Nigel Ashford, do Institute of Humane Studies, fez estas e outras indagações durante um dos seminários ministrados aos estagiários do Cato Institute e da Atlas Network.

Neste texto, serão abordadas três visões diferentes apresentadas pelo palestrante que explicam as mudanças sociais e como elas se relacionam entre si.

Ideias?

O primeiro modelo é baseado na primazia das ideias, tal como apresentada pelo economista ganhador do Prêmio Nobel, Friedrich Hayek, em seu famoso ensaio entitulado "Os Intelectuais e o Socialismo".

Primeiramente, Hayek define os intelectuais como os "comerciantes de segunda mão nas ideias": professores, jornalistas, autores, ministros de igreja, artistas, etc. Mas esta definição pode não satisfazer o que queremos discutir aqui. Como descrever um pensador original? Podemos dizer que Hayek não era um intelectual? Talvez uma melhor definição de intelectual seria aquele engajado na criação, distribuição e aplicação de ideias.

Segundo, intelectuais tendem a ser 'socialistas' ou pelo menos em favor de um estado ativo. Isto surge a partir de três aspectos: eles identificam que existem males no mundo, eles assumem que sabem como resolver estes males e por último, que precisam de poder ou recursos para alcançar aquele objetivo.

Hayek reconheceu que haviam, de fato, muitas coisas erradas na sociedade, mas ele foi fundamentalmente contra a ideia de que nós sabemos como resolvê-las. Nós, como sociedade, sofremos de um "problema de conhecimento", isto é, não sabemos, e não podemos saber, todas as consequências de qualquer ação política.

Terceiro, ele acreditava que os intelectuais tinham um poder enorme na sociedade.

"It is no exaggeration to say that, once the more active part of the intellectuals has been converted to a set of beliefs, the process by which these become generally accepted is almost automatic and irresistible", porque eles formam as opiniões de pessoas comuns e os políticos respondem à opinião pública.

Quarto, ele acreditava que era possível convencer os intelectuais de seus erros de pensamento através da razão e do debate. "[I]t is neither selfish interests nor evil intentions but mostly honest convictions and good intentions which determine the intellectual's views." Portanto, ele tinha uma explícita crença no poder da razão e argumentação e que assim, os intelectuais reconheceriam os méritos de uma sociedade liberal.

Isto levou-o a escrever vários livros destinados à classe dos intelectuais. Por exemplo, ele acreditiva que a visão negativa do capitalismo mantida por muitos dos intelectuais era fruto de uma interpretação pessimista das consequencias da Revolução Industrial para a classe trabalhadora. Ele, portanto, editou o livro "Capitalismo e os Historiadores", demonstrando que os melhores historiadores da Revolução Industrial tinham uma visão "otimista" da melhoria das condições para os trabalhadores decorrentes da industrialização.

No seu último livro, "A arrogância fatal: Os erros do socialismo", ele clamou por uma série de debates ao redor do mundo sobre os méritos e falhas do capitalismo, atraindo as melhores mentes de cada lado. Ele pensou que tal debate aberto iria convencer a maioria dos intelectuais à visão positiva do capitalismo.

Similarmente, Milton Friedman acreditava que a aceitação do intervencionismo keynesiano era consequência de um mal entendido das causas da Grande Depressão, que foi amplamente, e erroneamente, atribuida à falha do livre mercado.

Friedman argumentava que a causa principal da depressão de 1929 fora o mal uso da oferta monetária, feito pelo governo. Além disso, foi amplamente aceito que as políticas intervencionistas do New Deal acabaram com a depressão. Conclusão que já foi extensivamente debatida entre austríacos, monetaristas, keynesianos, etc.

Se as ideias são o fator principal na condução das políticas públicas, a recuperação de ideias capitalistas no fim do século XX podem ser atribuidas à influência de intelectuais como Hayek e Friedman.

"[A] grande mudança na política social e econômica é precedida por uma alteração no clima da opinião intelectual...Cada tendência permanece por um longo período – décadas, não horas – uma vez que começa a alagar, e deixa suas marcas em sua sucessora mesmo depois que recua. " 

A característica destas tendências é que elas são graduais, globais e afetam a política após um grande atraso. Friedman identificou três tendências:  a ascensão do laissez faire, a ascensão do estado do bem-estar social e a ressurreição do livre mercado.

Interesses?

De qualquer forma, o paradigma dominante tanto em economia quanto em política é que os indivíduos são movidos principalmente por interesse próprio. Isto é refletido tanto no agente econômico maximizador de utilidade quanto na teoria pluralista da política, que percebe o comportamento político determinado por interesses, seja de negócios, sindicatos, etc. Estudiosos da teoria da Escolha Pública (public choice), como James Buchanan e Gordon Tullock, muitas vezes partilham conclusões similares às de Hayek e Friedman mas, mesmo assim, suas percepções do processo político são diferentes. Ideias são muito menos importantes do que os interesses. Eles explicam o comportamento político em termos de interesse próprio dos atores políticos: políticos buscam reeleição, burocratas buscam maximização de tamanho (ou construção de impérios) e grupos de interesse buscam usar o poder do governo para apoiar os seus interesses.

A escola da Escolha Pública identificou o problema dos "benefícios concentrados e custos dispersos". Mesmo se os eleitores perceberem que menos governo é algo interessamente, eles são vencidos quando se trata de uma decisão política em particular, por causa dos interesses concentrados dos beneficiários do governo, o que os economistas chamam de "rent-seekers".

Interesses dos intelectuais?

Uma terceira história é apresentada por um grupo de intelectuais americanos conhecidos como "neoconservadores".  Este termo é associado com uma visão particular de política externa, mas os primeiros "neocons" eram principalmente preocupados com a política interna do país. Eles aceitavam que os intelectuais tinham poder real na sociedade, então neste aspecto se aproximam do conceito de Hayek e Friedman. Isto surgiu de quatro fatores principais. Eles ocupavam cargos estratégicos como acadêmicos e jornalísticos. A cultura era um fator mais importante do que a economia e a política para determinar uma mudança social. Eles tinham habilidades significantes e recursos, como despesas discricionárias, poder organizacional, escrita, etc. Finalmente, houve uma falta de oposição eficaz a eles, por não conseguirem entender o seu poder. No entanto, a sua opinião de que a maioria dos intelectuais são socialistas está mais próxima da escola da Escolha Pública. Eles eram impulsionados principalmente por seus interesses e não pelo poder das ideias. Primeiro, eles têm mais influência sobre o estado do que o mercado, favorencendo então mais recursos nas mãos do governo. Segundo, eles sofrem de algo chamado "ansiedade de status". Eles acham que o mercado não os remunera ou os respeita no status apropriado para o seu "conhecimento superior". Terceiro, os intelectuais são utópicos, comparando o ideal com o real e assumindo que o ideal pode ser alcançado. Quarto, eles são alienados sociologicamente da sociedade.

Os neoconservadores, portanto, concluem que os intelectuais não podem ser convencidos a abandonar o socialismo e que a solução é enfraquecer as suas influências na sociedade.

Este debate levanta várias perguntas mas podemos destacar algumas como: os intelectuais têm poder ou influência na sociedade? Porque a grande maioria deles são estatistas? Como mudaremos o mundo, através das ideias: contendo o poder dos interesses ou reduzindo o poder dos intelectuais?

Leituras sobre o tema:

 "O uso do conhecimento na sociedade" de F.A. Hayek.

"As tendências0 nos assuntos humanos" de Milton e Rose Friedman.

"The Intellectuals and Socialism" de F.A. Hayek.