Conhecimento, desentendimento e poder

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O pluralismo é um fato de qualquer sociedade humana, dizia John Rawls. Em verdade, não há grupo sem desentendimento. Não importa o quão alinhado ideologicamente determinado grupo se considere, sempre haverá espaço para a discordância, e é nesse espaço que um grau desproporcional da energia do grupo será alocada. O desentendimento sempre será uma atualidade.

Entender o pluralismo como fato pode nos conduzir a aceitar quase imediatamente a legitimidade de um rei-filósofo. A existência continuada de uma sociedade depende de um alto grau de concordância entre seus membros. Se nos desentendemos em uma série de questões fundamentais (o que é a boa vida, qual o propósito do universo, como as crianças devem ser educadas) a duração da nossa convivência depende de um critério claro de estabelecimento da verdade e de sua execução. Quem seria capaz de mais capaz de compreender e estabelecer a verdade comum a todos? Certamente o membro mais sábio de uma sociedade.

Ocorre, no entanto, que as sociedades onde as pessoas alienaram mais completamente suas decisões a uma autoridade central, não se tornaram centros de ordem, progresso e sabedoria. Passaram para a história como narrativas de estupidez, declínio e caos genocida.

A espécie de coletivismo que permitiria o exercício pleno do rei-filosófo parece degenerar para as formas mais banais de totalização da estupidez.

O economista F.A. Hayek, ao examinar os totalitarismos da primeira metade do século XX, destacava um motivo pelos qual os sistemas coletivistas premiavam a escória de uma sociedade. Uma ampla coletivização de uma única visão de mundo implica no mais ínfimo denominador comum:

"Quanto mais alta se tornar a educação e a inteligência dos indivíduos, mais diferenciadas serão suas preferências e opiniões. Se quisermos encontrar um alto grau de uniformidade de perspectivas, temos de descer às regiões de padrões morais e intelectuais onde prevalecem os instintos mais primitivos".

Mas se institucionalizar a concordância por meio da sabedoria de uma autoridade leva ao caos e à estupidez, qual a alternativa?

O grande avanço civilizacional do liberalismo foi institucionalizar o desentendimento, reconhecendo o fato pluralismo. Em vez de debater o que é o correto, o liberalismo mudou a questão para “quem tem o direito de decidir o que é correto?”. Como se pergunta David Schmidtz no final de “Elements of Justice”: “Não é estranho que nossos maiores sucessos em aprender a viver juntos não vem de concordar sobre o que é correto, mas em concordar em deixar as pessoas decidirem por conta própria?”

Chame de privatização da verdade, ou de separação entre Estado e filosofia, mas de fato o pacto social liberal é marcado pelo consenso de que o conhecimento não legitima o poder. Não importa o quanto você já tenha estudado sobre teologia escolástica, seu tempo diariamente dedicado a meditações espirituais, seus dias em monastérios, seu diálogo com mestres religiosos do presente e do passado: você não tem o poder de determinar minha religião.

Separação entre conhecimento e poder é algo difícil de conceber antes de experimentar: não é apenas negar a legitimidade do rei-filósofo, mas é coroar todos os ignorantes igualmente. Num mundo onde todos são monarcas de si próprios, a monarquia perde o significado.

Eis o grande paradoxo: quando queremos que os melhores tomem as decisões por toda a sociedade, os piores a tomarão. É quando deixamos que as escolhas sejam feitas por cada um de nós, não importa quão idiotas nós somos, as melhores mentes prevalecerão. Este é o paradoxo do poder de escolha. Aceitá-lo é permitir a melhor civilização que homens imperfeitos e desentendidos podem construir.
 

* Publicado originalmente em 10/12/2010.