Conselhos de competitividade: consumidor é o pato

Produtores querem sempre ganhar mais nas costas dos consumidores. Até aí tudo bem. Estamos falando de capitalismo e mercado. Cada um busca seu ganho maior.

Há, entretanto, uma esquina da história na qual se encontram com frequência Adam Smith, Karl Marx e Milton Friedman. Lá eles esquecem suas discordâncias e falam alegremente de um tema a respeito do qual os três concordam enfaticamente: quando homens de negócios se reúnem, mesmo que socialmente, logo eles começam a arquitetar formas de ganhar mais nas costas dos consumidores.

Isso se complica quando participam dessa conspiração os sindicatos, porque sempre que setores mais organizados se juntam terão, em princípio, maior capacidade de se articular para extrair mais dos menos organizados, que dados o seu número e a sua dispersão são os consumidores. Estratégias mais articuladas de setores organizados tendem a derrotar setores menos organizados.

O alarmante é quando todos fazem isso com a conivência do governo, que é o que vai acontecer, gradualmente, com os Conselhos de Competitividade. Eles são a nova fantasia das Câmaras Setoriais.

No tempo das Câmaras Setoriais eu era consultor de um grupo de empresários norte americanos. Encontrava-me com eles uma vez por mês para discutir políticas governamentais e como defender-se delas. Quando surgiram as Câmaras Setoriais, um destes presidentes,  recém-chegado dos Estados Unidos, que, como costumava acontecer com presidentes de muitas empresas, não entendia nada de Brasil. Guiava-se apenas pelas aparência e só havia lido sobre o Brasil um livro chamado “Brasil para principiantes” que se concentrava nas mazelas da Pindorama.

E, todos os meses, esse mesmo presidente reclamava de tudo no Brasil, sobretudo das Câmaras Setoriais. Depois de meses de reclamações, um de seus colegas disse: Ô Brian, para de reclamar e vê se aprende um pouco mais sobre o Brasil. As Câmaras Setoriais são uma das maiores bênçãos que já tivemos. Nunca ganhamos tanto dinheiro! Você já pensou em reunir-se com seus competidores e com os sindicatos e estabelecer os preços mais lucrativos para sua empresa cobrar e os melhores salários para os sindicatos?

O Brian, perplexo, reagiu: Mas eu não poderia fazer isso. Eu iria para a cadeia. Isso é crime de price fixing!

Então, Brian, abandone um pouco seus preconceitos e pense que isso, no Brasil, não é crime. Aqui você pode conspirar contra os consumidores com a anuência, a concordância, e mais, com a participação do governo. Caia na real Brian. Desse dia em diante ele nunca mais reclamou do Brasil.

Agora teremos a reedição dessas mesmas políticas, só que com nova fantasia, Dessa vez a fantasia é de Conselhos de Competitividade, mas a essência é exatamente a mesma: empresários de setores escolhidos porque fizeram um lobby mais eficiente, reunir-se-ão com sindicatos idem e com representantes do governo, para garantir os melhores lucros para aquelas, os melhores salários para estes e impostos maiores para o governo. Trocado em miúdos, você, leitor-consumidor, pagará o pato.

Essa é a solução mais fácil porque não entra na essência do problema, A culpa será jogada em cima dos chineses (o preconceito é sempre mais facilmente exercido em relação quem tem uma característica diferente, como ter uma cor de pele diferente, olhos puxados ou falar uma língua enrolada que ninguém entende). Com isso teremos, na realidade, mais protecionismo, que é a maneira mais eficiente que os empresários ineficientes encontraram de “proteger-nos” (a nós consumidores) contra preços mais baratos.

Em jantar na Casa Branca, pouco antes da morte de Steve Jobs, presidente da Apple (ele compareceu), num determinado momento o anfitrião, Obama, disse aos convidados: Nós precisamos trazer de volta alguns desses empregos que migraram para a Ásia. E Jobs respondeu: Esses empregos não voltarão aos Estados Unidos, senhor presidente,

Sempre que aparecem novos competidores nos mercados. Escolhe-se um novo vilão. Agora são os chineses, cujos brinquedos são acusados de intoxicar as crianças com suas tintas e os eletrônicos que são taxados de ordinários.

Mas esse filme é reprise. Fui um fotógrafo amador aficionado nos tempos da fotografia de filme e lembro-me bem quando apareceram no mercado umas câmeras com umas marcas esquisitas. Dizia-se que eram todas feitas de plástico e não prestavam para nada. Coisas como Nikon, Canon, todas feitas no Japão, o vilão de então.

Fotógrafos tradicionais ficavam sempre com dois pés atrás, acostumados que estavam com marcas tradicionais do tipo Leica, Voigtlander, Rolleiflex e outros nomes germânicos.

O mundo deu várias voltas, as marcas japonesas ainda são as melhores, mas passaram a ser produzida em Singapura, Coréia e agora estão globalizadas: cada parte é produzida onde custe mais barato.

Enquanto o governo, os empresários e os sindicatos não entenderem que o segredo de ser competitivo é ser criativo e conseguir produzir melhores bens a custos mais baratos ao invés de erguer muralhas tarifárias e não tarifárias para produtos estrangeiros melhores, mais eficientes, e mais baratos, continuaremos a correr na esteira: conseguimos cansar-nos, mas não saímos do lugar.

Enquanto isso, os consumidores brasileiros estarão pagando mais caro, as indústrias ineficientes seguirão sendo assim e o estado acreditará que poderá seguir cobrando impostos excessivamente caros. Ao consumidor restará pagar o pato.

No ensaio da peça dos BRICS temos cinco atores em busca de um papel. Os chineses já sabem qual será o seu, e tudo indica que estão se saindo muito bem. Vamos ver quanto tempo os outros quatro atores vão aprender a desempenhar bem os seus.

Qualquer coincidência entre a existência de conselhos de competitividade, câmaras setoriais e outras práticas oligopolísticas patrocinadas pelo governo e aumentos de preços não são mera coincidência. Os conselhos aparecem como parte do programa Brasil Maior, que é uma fantasia da realidade. Vamos chamá-lo pelo nome certo: Programa Brasil Mais Caro.