Crescimento econômico sem milagres

Na estatística oficial do crescimento econômico não se faz distinção entre o crescimento econômico sustentável, que representa uma expansão da capacidade produtiva e um aumento da produção apenas devido à demanda, que produz somente um aumento transitório da produção. Um pacote de estímulo fiscal ou monetário, por exemplo, serve para aumentar a demanda, mas o seu efeito sobre a capacidade produtiva pode ser de fato negativo no longo prazo e levar a uma redução do crescimento genuíno. Mais demanda pode estimular o aumento da produção com os recursos presentes, mas o crescimento sustentável acontece no lado da oferta, no nível dos fatores de produção, que fornecem o fundamento da prosperidade durável.

Tipos de crescimento econômico

Um crescimento econômico que aumenta e melhora a capacidade produtiva de uma economia é bem diferente de uma expansão da produção que é o resultado do aumento do uso da capacidade existente. O primeiro tipo de crescimento econômico representa crescimento econômico sustentável porque reflete a expansão dos fatores de produção. Este tipo de crescimento econômico é feito dos milhares de milhares trabalhadores, empreendedores e inovadores individuais. O segundo tipo de crescimento econômico é o resultado de maior demanda. Este tipo de crescimento é feito de mais gastos do governo e de um aumento da massa monetária do banco central. O primeiro tipo de crescimento econômico é sustentável, o segundo é necessariamente efêmero. Se fosse possível criar crescimento contínuo com mais demanda, não existiria pobreza no mundo. Não é a falta de dinheiro que limita o progresso econômico, mas a escassez existe nos fatores de produção. O que falta em países pobres não é dinheiro, mas o que carece são os fatores de produção principalmente na forma de capital físico e humano e da tecnologia.

Uma expansão da demanda resultada de gastos mais elevados, como tal, é principalmente um fenômeno monetário. Uma recuperação econômica pode começar com uma expansão da demanda, mas isso não vai fazer a economia crescer por muito tempo, se esta expansão não for acompanhada por um aumento da capacidade produtiva. Quando a expansão monetária aumenta a demanda além do nível da utilização da capacidade, inflação de preços é o resultado. Tal política, em vez de criar prosperidade, produz distorções na economia e finalmente mais miséria. Como fenômeno monetário, o crescimento econômico em termos de expansão da demanda não tem um limite próprio porque a produção de dinheiro acontece fora da lei da escassez e assim, é bem diferente da economia real. Dinheiro não pode eliminar a lei da escassez que se manifesta no nível dos fatores de produção. Não muito diferente da lei da gravidade, que diz que quanto mais se ignora a lei, mais forte ela reclama sua validez. Nesta perspectiva, fenômenos como recessões, depressões e outras formas da “queda” da atividade econômica são resultados da negação da lei de escassez. O que acontece com um crescimento econômico insustentável de uma nação é a mesma coisa que acontece com a inadimplência de uma pessoa que queria uma moradia (ou carro ou barco) grande demais dado seus recursos limitados. Depois de ser forçado a declarar bancarrota, não só não obteve a casa grande, mas nenhuma casa e ficou somente com mais dívidas.

Crescimento com endividamento

A política de demanda nega o princípio de que a produção deve vir antes do consumo. Não dá para negar a existência de sequências na vida econômica. De fato, as leis econômicas devem ser respeitadas não menos do que as leis da natureza. Conhecer e respeitar as leis econômicas e as leis da natureza é o caminho para a prosperidade, enquanto ignorar e violar estas leis prepara o caminho para a miséria. Para que haja alguém que absorva mais que produz, é preciso de outra entidade econômica que produz mais que absorve. O limite do endividamento é o limite do credor de emprestar. Uma entidade econômica -- seja uma família, uma empresa ou o governo -- pode correr na frente de sua própria produção atual e absorver mais se tiver acesso a empréstimos ou transferências. Quando um país inteiro absorve mais que produz, acumulará um déficit comercial, que, por sua vez, também requer empréstimos ou doações do exterior. Qualquer gasto a mais de produção tem como contraposição mais obrigações.

As leis fundamentais da economia como, a produção vem antes do consumo, são tão rigorosas como as leis da natureza e na verdade pode-se argumentar que as leis econômicas são ainda mais rigorosas do que as leis da natureza porque são as próprias leis da ação humana. No entanto, é comum não só indivíduos buscarem ações que tentam violar as leis econômicas, mas sim, sobretudo, os governos escolhem desrespeitar as leis básicas da economia. Sob um regime de moeda fiduciária, não há limite para os gastos do governo. No entanto, um aumento de gastos com base na expansão monetária não implica que a produção poderia se expandir no mesmo ritmo. Enquanto os gastos monetários são ilimitados e não há escassez na adição de cada vez mais zeros nos preços, a produção é limitada pela lei da escassez. O problema com as políticas de demanda é que se nega a sequência natural de produção e consumo e implicitamente, assim se nega a existência de escassez. Políticas de demanda baseiam-se na ilusão que mais consumo e gastos do governo podem criar riqueza. No entanto, na realidade econômica é impossível que o consumo possa preceder a produção. A ilusão monetária de empréstimo sugere que este milagre acontece de verdade. A realidade sempre volta: o resultado destas políticas vai ser mais inflação, e em vez de criar riqueza estas políticas tornam a sociedade mais pobre.

Crescimento com maus investimentos

Crescimento genuíno acontece com o aumento e a melhoria dos fatores de produção. Crescimento econômico falso ocorre quando o produto interno bruto (PIB) se expande por causa da demanda na forma de maus investimentos - seja pelas empresas ou pelo governo. Crescimento econômico insustentável ocorre quando os consumidores expandem seus gastos além da sua capacidade de pagar. Entre esses três grupos: empresas, governo e consumidor - o governo é o que pode prolongar por mais tempo a sua expansão da demanda. Políticas monetárias frouxas permitem a acumulação de dívidas no financiamento de projetos sem rendimento suficiente. Quanto mais longa a política monetária expansiva continuar, maior vai ser o mau investimento e mais tempo vai demorar para reequilibrar a economia.

Tal tipo de crescimento econômico geralmente acontece devido a impulsos monetários que elevam a demanda agregada além da capacidade. Este tipo de crescimento econômico, enquanto geralmente é elogiado pela imprensa e aclamado pelos políticos em exercício, contém as sementes da sua própria destruição. Este tipo de crescimento econômico, que produz investimentos ruins, geralmente vem em conjunto com as grandes oscilações do ciclo de negócios. Os grandes ciclos de negócios andam junto com os ciclos financeiros que, por sua vez, são provocados por uma política monetária expansionista. Não é raro que esses ciclos de negócios ocorrem em um ambiente de um clima favorável ao investimento, que é uma das razões que emprestar torna-se fácil e os formuladores das políticas monetárias e fiscais não se preocupam com o crescimento do crédito. Este tipo de crescimento econômico – a expansão econômica na forma de mau investimento - produz fortes ilusões econômicas. Sua capacidade de destruição permanece escondida à análise econômica convencional. Principalmente e apenas a escola austríaca de economia que fornece uma teoria capaz de explicar o crescimento econômico insustentável. A escola austríaca de economia explica este fenômeno do mau investimento como o resultado de uma expansão monetária que não tem a base na economia real. A criação artificial de dinheiro com a disponibilidade de crédito fácil produz a ilusão de riqueza que não existe na realidade. O engano sobre a disponibilidade real dos recursos induz empresas e consumidores a prosseguirem com projetos que excedem a disponibilidade de recursos reais. Consequentemente, quando a escassez se manifesta, precisa-se abandonar os projetos que eram grandes demais. Capital é perdido e, em vez de produzir prosperidade, a sociedade é agora mais pobre do que antes. A melhoria do desempenho econômico que fica atribuído aos pacotes de estímulo mostra-se como fonte de decepção para políticos e investidores. Enquanto as taxas de crescimento econômico medidas nas estatísticas aumentam, a capacidade produtiva da economia, o que chamamos de crescimento econômico genuíno, entra em declínio. Assim, após um período transitório, onde havia um aumento do produto interno bruto, a falta de um verdadeiro crescimento levará a um declínio da produção. A história econômica está cheia de exemplos de canções de triunfo sendo cantadas pelos crentes em crescimento com a expansão dos gastos, que pouco tempo depois tiveram que aprender que eles têm elogiado uma ilusão.

Crescimento autêntico

O crescimento autêntico que, se mostra sustentável, é realizado pelo trabalho cotidiano de trabalhadores, empreendedores e inovadores em sua busca de melhorar as suas existências. Não precisa planejamento para este processo acontecer, precisa sim de liberdade para a iniciativa privada e a segurança de ganhar os frutos dos próprios esforços. Hoje em dia são, principalmente, empresas que servem como o lugar de mobilização da cooperação entre indivíduos e a sua combinação com capital. Crescimento econômico é uma maratona. Os resultados acontecem pouco a pouco e passo a passo. Quando se atua na fronteira dos conhecimentos, não há mapa. Cada um é um pioneiro de sua vida. Os avanços econômicos acontecem em um processo de tentativa e erro, de atuação e correção. Como ninguém sabe com certeza quais vão ser os produtos e procedimentos do futuro, precisamos de muitos atores com ideias diferentes, todos prontos para experimentarem os seus planos de realização dos seus sonhos e suas visões. Esta é a função da competição. Diferente da tese que insinua que a função da concorrência é estabelecer equilíbrio no ponto do mínimo dos custos médios, a verdadeira função da competição na economia de mercado é a busca para encontrar soluções cada vez melhores de aliviar os problemas da escassez. O capitalismo livre funciona do jeito que, para ganhar dinheiro com a sua solução, o pioneiro empresarial precisa revelar o seu produto no mercado e assim, se quer ou não quer, abre o caminho para imitações da inovação.

O caminho genuíno do crescimento econômico começa no nível da microeconomia com os esforços de todos os atores econômicos. Cada invenção e inovação, cada aumento do capital humano melhora os fatores de produção e amplia a oferta. A escolha final é feita pelo consumidor. O consumidor não somente decide sobre os produtos de consumo, mas indiretamente também sobre os meios da produção que se instalam para produzir os produtos que o consumidor quer. Neste sentido, na última instância, o dono das empresas não é "o capitalista", mas o consumidor.

Conclusão

Crescimento econômico baseado em mais demanda não é crescimento autêntico, apenas representa crescimento derivado. Muitos danos foram produzidos pelos formuladores de políticas que promoveram políticas macroeconômicas expansionistas, sem reconhecerem que contribuíram para enfraquecer a capacidade produtiva da economia. Depois da festa não só não se conseguiu criar mais prosperidade, mas na verdade deixou o povo mais pobre. O que foi promulgado dos governos como um milagre de prosperidade, no final, se revelou como uma onerosa quimera. Crescimento econômico autêntico não precisa do intervencionismo estatal. Ao contrário: quanto mais livre e diversificado se deixar o processo de busca, mais certo se obtem bons resultados. Este crescimento econômico é um crescimento sem milagres. A sua fonte é simplesmente a pesquisa assídua de indivíduos que querem melhorar as suas situações.