Cultura e desenvolvimento econômico

Culturalawareness

por Lawrence Harrison

Desde que comecei a me envolver com o auxílio ao desenvolvimento internacional, há quase meio século, os paradigmas de desenvolvimento dominantes mudaram. Entre eles, já estiveram os estágios de crescimento econômico de Rostow, o planejamento nacional, o foco nos mais pobres entre os pobres, a tecnologia apropriada, a dependência, o foco no setor privado, o Consenso de Washington e o desenvolvimento institucional. Durante esses cinqüenta anos, vimos algumas histórias de sucesso, a maior parte delas no sul e no leste asiático. Porém, o que melhor captura esses momentos é uma sensação de desapontamento, de frustração – de “fadiga do desenvolvimento” – advinda do fato de que a vasta maioria dos países da África, da América Latina e do mundo islâmico não conseguiu atingir taxas de crescimento econômico transformadoras.

Em nenhum momento nessa odisséia paradigmática enfrentamos a questão das atitudes e valores culturais. É verdade que desde os anos 1970 antropólogos culturais têm participado do planejamento de projetos. Mas essa participação se limita, geralmente, a garantir que as realidades culturais estejam adequadamente refletidas no planejamento e raramente ela é utilizada para encorajar mudanças culturais. Muitos antropólogos, na realidade, muitos cientistas sociais, são adeptos do relativismo cultural, a teoria de que cada sociedade ou cultura deve definir seus próprios valores e que culturas não são melhores ou piores, apenas diferentes. Podemos imaginar as reações histéricas ao comentário feito por David Landes, autor de A Riqueza e a Pobreza das Nações, na conferência do Banco Mundial em 2000: “... existem culturas que eu chamaria de “tóxicas”... [que] limitam as pessoas que aderem a elas.” (1)

O relativismo cultural reforça e combina muito bem com a inclinação de muitos economistas para presumir que as pessoas são iguais em todo o mundo. Como escreveu William Easterly, autor de The White Man’s Burden [O fardo do homem branco] e ex-economista do Banco Mundial, em sua crítica do meu livro Who Prospers? [Quem prospera?], “Talvez ainda exista muito a ser dito sobre a visão conservadora dos economistas, segundo a qual as pessoas são iguais em todo o mundo e reagem igualmente aos corretos incentivos e oportunidades econômicas.” (2) Então, como Easterly poderia explicar por que em países multiculturais onde as oportunidades econômicas e os incentivos estão disponíveis para todos, algumas minorias étnicas ou religiosas se saem bem melhor do que a maior parte da população – como no caso das minorias chinesas na Indonésia, nas Filipinas e na Tailândia – ou de qualquer outro lugar para onde os chineses imigraram, inclusive os Estados Unidos? Por que o Consenso de Washington funcionou tão bem na Índia e tão mal na América Latina (com a exceção do Chile), onde o socialismo, ou até mesmo o socialismo autoritário, no caso de Cuba e Venezuela, aparentam estar vivos e saudáveis? Os fatores culturais podem não fornecer uma explicação completa, mas certamente são relevantes.

Alan Greenspan compreendeu isso de forma correta quando declarou, logo após o colapso da economia russa no fim dos anos 1990, “eu costumava pensar que o capitalismo era a natureza humana. Mas não é. O capitalismo é cultura.”

 

Alguns economistas sensíveis à cultura

Alguns economistas estudaram a cultura e acreditaram que ela poderia ser útil para a compreensão do desenvolvimento econômico. Talvez a afirmação mais ampla tenha sido feita por David Lander: “Max Weber estava certo. Se aprendemos algo a partir da história do desenvolvimento econômico, foi que a cultura faz quase toda a diferença.” (3) Desenvolvendo o tema de Landes, o economista japonês Yoshihara Kunio escreveu: “uma razão que explica o desenvolvimento do Japão é que o país possuía uma cultura adequada. Os japoneses valorizam (a) as realizações materiais; (b) o trabalho duro; (c) a poupança, visando o futuro; (d) o investimento em educação; e (e) os valores comunitários.” (4)

Até mesmo Jeffrey Sachs, um cético em relação às influências culturais, reconhece o peso da cultura. Seu capitulo em A cultura importa diz basicamente que a cultura não importa. E embora esse assunto ecoe em seu novo livro, O fim da pobreza, em determinado ponto ele diz: “Mesmo quando os governos tentam promover suas culturas, o ambiente cultural pode ser um obstáculo para o desenvolvimento. Por exemplo, as normas culturais ou religiosas podem bloquear a participação das mulheres, deixando metade da população sem direitos econômicos ou políticos...” (5)

O economista italiano Guido Tabelllini empreendeu recentemente um estudo do desempenho econômico comparativo nas regiões européias, empregando dados do World Values Survey em relação à confiança, controle sobre o próprio destino e respeito pelos outros (todos os três fatores positivamente correlacionados ao desenvolvimento econômico), e obediência (fator negativamente correlacionado ao desenvolvimento econômico).

Suas conclusões foram que essas características culturais são fortemente correlacionadas, não apenas com o desenvolvimento econômico de regiões européias, mas também com o desenvolvimento econômico e os efeitos institucionais em uma amostra mais ampla de países... Assim, podemos deduzir, a partir dessa análise, que não existe uma primazia das instituições formais sobre a cultura. Pelo contrário. Possivelmente, ambas moldarão e interagirão com funcionamento efetivo das instituições do mundo real, e influenciarão os incentivos e o comportamento dos agentes políticos e econômicos. (6)

 

Moynihan e o projeto de pesquisa “A Cultura Importa”

Entre 2002 e 2005, liderei o projeto de pesquisa “A cultura importa” (CMRP), na Escola Fletcher, em Tufts, uma seqüencia do livro A cultura importa, co-editado por mim e Samuel Huntington. Aproximadamente 65 especialistas de 25 países participaram e grandes confêrencias aconteceram na Fletcher em 2003 e 2004. Três livros do CMRP foram publicados em 2006: o livro que dava um panorama geral do projeto, The Central Liberal Truth A verdade central do liberalismo, escrito por mim; Developing Cultures: Essays on Cultural Change Desenvolvendo Culturas: Ensaios sobre mudanças culturais co-editado por mim e Jarome Kagan; e Developing Cultures: Case Studies Desenvolvendo Culturas: Estudos de Caso, co-editado por mim e Peter Berger.

O objetivo do CMRP era formular diretrizes para uma mudança cultural progressiva, que aparecem no último capítulo de The Central Liberal Truth. Para atingirmos esse objetivo, concentramo-nos em três questões:

  1. O que em uma cultura influencia o comportamento, que por sua vez influencia o desempenho econômico, social e político?

  2. Quais são as instituições e instrumentos de transmissão cultural e de mudança?

  3. O que nós podemos aprender sobre cultura e mudança cultural a partir dos estudos de casos de sucesso e fracasso?

As descobertas do CMRP confirmam a sabedoria do famoso aforismo de Daniel Patrick Moynihan: “a verdade central do conservadorismo é que é a cultura, e não a política, o que determina o sucesso de uma sociedade. A verdade central do liberalismo é que a política pode mudar uma cultura e salvá-la de si mesma.” Essa última parte é, obviamente, a fonte do título do meu livro mais recente. A cultura importa poderia muito bem ter sido intitulado A verdade central do conservadorismo.

Desagregando “a cultura”

A resposta à primeira pergunta é uma tipologia de 25 fatores que são vistos de forma bem diferente em culturas com tendências ao progresso e em culturas resistentes a ele. O seu principal arquiteto é o jornalista e intelectual argentino Mariano Grondona, que tinha os Estados Unidos como modelo de cultura com tendências ao progresso e a Argentina, junto com toda América Latina, era seu modelo de cultura resistente ao progresso. Os 25 fatores são divididos em quatro grupos: visão de mundo, valores e virtudes, comportamento econômico e comportamento social. Esses compartimentos não são totalmente isolados – fatores que influenciam o desempenho econômico podem ser encontrados em todos os compartimentos. Por exemplo, o fator “visão em relação ao destino” coloca em contraste a opção “Eu posso influenciar o meu destino” (que se inclina ao progresso) e o “fatalismo” (resistente ao progresso) – com implicações pesadas para o empreendedorismo, um dos fatores chave no grupo Comportamento Econômico. Outros componentes desse grupo são:

 

  • Trabalho / realizações, que contrasta o “viver para trabalhar” (favorável ao progresso) com o “trabalhar para viver” (resistente ao progresso).

 

  • Frugalidade: “a mãe do investimento” versus “uma ameaça à igualdade”.

 

  • A propensão ao risco: moderado em uma cultura favorável ao progresso; baixo, com aventuras ocasionais, em culturas resistentes a ele.

 

  • Competição: meio para a excelência versus uma ameaça à igualdade – e ao privilégio.

 

  • Inovação: a cultura favorável ao progresso está aberta à inovação e se adéqua a ela rapidamente, enquanto culturas resistentes ao progresso desconfiam de suas inovações e se adéquam a elas lentamente.

 

  • Melhora de vida: mérito versus conhecimentos familiares / ajuda de um protetor.

 

Transmissão cultural

A pergunta número 2, instituições e instrumentos de transmissão cultural, inclui as práticas de criação de crianças, vários aspectos da educação, religião, mídia, lideranças políticas e projetos de desenvolvimento. De todos esses fatores, a religião deve ser o mais relevante para o desenvolvimento econômico. Nós agrupamos 117 países tendo por base a religião predominante neles e registramos seus desempenhos em dez indicadores ou índices de progresso, dois dos quais refletem diretamente a prosperidade (o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, que inclui o PIB per capita, além de três fatores sociais; e o PIB per capita do Banco Mundial, que tem seu cálculo baseado na paridade do poder de compra). Alguns outros itens, entre esses dez, também são relevantes, por exemplo, confiança, corrupção e a distribuição de renda.

Os dados confirmam totalmente a tese de Max Weber em A ética protestante e o “espírito” do capitalismo: os países protestantes se saem melhor do que os países católicos na geração de prosperidade. Certamente, a média dos países católicos é prejudicada pelo lento desenvolvimento da América Latina, mas mesmo quando olhamos apenas para as sociedades capitalistas do primeiro mundo, os países protestantes ainda se encontram em situação econômica melhor que os países católicos em relação à prosperidade, confiança e corrupção.

Indo mais além, a análise das religiões sugere que as sociedades protestantes, judias e confucianas têm melhores resultados que as católicas, islâmicas ou cristãs ortodoxas, porque compartilham consideravelmente valores de um comportamento econômico favorável ao progresso da tipologia, enquanto outras religiões tendem a valores mais resistentes ao progresso. Um símbolo dessa divisão é a persistente ambivalência da Igreja Católica em relação à economia de mercado, uma questão destacada por Michael Novak em seu livro A ética católica e o espírito do capitalismo. Porém, a religião não é a única fonte de comportamentos favoráveis ao progresso: os bascos, além de ser grandes empreendedores, são católicos fiéis; e o Chile, exibindo o melhor desempenho econômico sustentado da América Latina, também é um dos seus países mais católicos – e o país latino-americano que possui, proporcionalmente, o maior número de descendentes de bascos.

Em todo caso, os precedentes sugerem a existência de uma Cultura Universal do Progresso: os mesmos valores econômicos comportamentais, quaisquer que sejam suas raízes, criam prosperidade em qualquer ambiente geográfico/climático, político, institucional e cultural. Até onde sabemos, a cultura não tem nada a ver com os genes. Enquanto a mudança cultural não é uma proposição simples ou fácil, ela ocorre constantemente ao redor do mundo e não há nenhuma razão irresistível pela qual os “valores universais do progresso” deveriam estar além do alcance de qualquer sociedade humana.

 

As lições dos estudos de caso e Moynihan

Dos 27 estudos de caso, dez são histórias de sucesso econômico: os quatro países confucianos – China, Japão, Cingapura e Coréia do Sul; Índia; Chile; e quatro sociedades ocidentais: Irlanda, a província de Quebec, Espanha e Suécia. Embora todos os dez locais combinem elementos da Verdade Central do Conservadorismo (cultura dominante) e a Verdade Central do Liberalismo (politicamente dominante), o progresso nos quatro países confucianos, no Chile e na Suécia deve ser, em minha opinião, atribuído principalmente à cultura pré-existente, enquanto o progresso na Irlanda, Espanha e na província de Quebec deve ser atribuído às políticas que promoveram mudanças culturais. A Índia é um caso intermediário que requer mais estudo.

O leste asiático

Os países “confucianos” (para sermos mais exatos, países fortemente influenciados pela cultura chinesa, que também engloba, além do confucionismo, taoísmo, budismo e o culto aos ancestrais) todos dividem, consideravelmente, a cultura universal do progresso: educação, realização, ética do trabalho, mérito e a frugalidade são bastante valorizados nas sociedades leste-asiáticas. Seu sucesso econômico contradiz a análise de Weber em A religião da China, em que ele afirma que um rápido desenvolvimento capitalista era bastante improvável na China, em grande medida pela ausência de qualquer coisa parecida com a “tensão” calvinista causada pela incerteza sobre ser ou não o “eleito”.

Vários observadores atribuíram a estagnação das economias leste-asiáticas (exceto a japonesa) no meio do século XX, ao confucionismo, particularmente ao papel influente desempenhado pelos intelectuais mandarins (sendo Mao o seu protótipo) e o baixo prestígio atribuído à atividade econômica no contexto confuciano mais geral. Porém, tudo que foi necessário para que a corrente da educação/realização/mérito/frugalidade fosse libertada para realizar sua mágica econômica foi um encorajamento das lideranças políticas e, nos casos da Coréia do Sul e Taiwan, estimulado pelas preocupações com a segurança. O estopim para a mágica chinesa foi o pronunciamento “Enriquecer é maravilhoso,” feito por Deng Xiaoping em 1978, colocando na prática um fim à revolução marxista de Mao.

Uma vez que o encorajamento e os incentivos estavam postos, os valores universais do progresso realizaram milagres econômicos, da mesma forma que o fizeram quando os líderes Meiji do Japão decidiram, em 1868, atualizar-se em relação ao ocidente.

Chile

Torna-se evidente a diferença do Chile em relação aos outros países latino americanos quando examinamos sua implementação eficiente das políticas do Consenso de Washington – o único país da América Latina a segui-las. Seu status único na América Latina deriva também de sua posição no Índice de Percepções da Corrupção da Transparência Internacional: junto com o Japão, na vigésima primeira posição, com os países latino-americanos mais próximos sendo o Uruguai, na trigésima segunda posição e Costa Rica e El Salvador, dividindo a qüinquagésimo primeiro lugar. E ao contrário do comportamento geralmente criminoso da polícia, observado em outros países latino-americanos, a polícia nacional chilena, os carabineros, possui uma reputação sólida de profissionalismo e honestidade.

O Chile também goza de uma atípica tradição empresarial. Nas últimas décadas do século XIX, os chilenos se destacavam no Cone Sul por suas capacidades empresariais e forneceram um impulso considerável ao crescimento da economia argentina, bem como ao crescimento da sua própria economia. Embora outros fatores, inclusive a geografia e o clima do Chile, sejam similares aos da Califórnia, o que certamente também contribuiu para o desenvolvimento da capacidade empresarial chilena, a desproporcional influência basca deve ter sido outra fonte importante dessa inclinação chilena.

Suécia

Pela medida dos dez índices ou indicadores de desenvolvimento político, econômico e social, índices que vão do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU aos dados do World Values Survey sobre a confiança, os países nórdicos são os campeões do progresso. (7)

Todos os cinco países nórdicos – Finlândia, Suécia, Noruega, Dinamarca e Islândia – compartilham uma formação luterana, mesmo que poucas pessoas freqüentem igrejas. O luteranismo é a fonte de grande parte do sistema de valores que produziu altos índices educacionais, amplos programas de assistência social e alta qualidade empresarial, simbolizada pela finlandesa Nokia e as suecas Volvo, Saab e Ikea. A compatibilidade entre a eficiência econômica e os gastos sociais no contexto nórdico é evidente a partir da avaliação do Fórum Econômico Mundial de 2006. A revista The Economist observou recentemente que “os altos impostos e a generosa segurança da assistência social estatal não precisam enfraquecer a competitividade... as economias escandinavas estão bem classificadas no jogo...” (8) (A Suécia era o país número dois no mundo em competitividade.)

O sucesso econômico das sociedades nórdicas – e das sociedades protestantes em geral – nos trazem fortes indícios de que o foco de Weber na “tensão” calvinista era estreito demais e que são as virtudes protestantes da educação, realização, ética do trabalho, mérito, frugalidade e honestidade – a cultura universal do progresso – as forças reais por trás do espírito do capitalismo.

Irlanda e Espanha

Os milagres econômicos da Espanha e da Irlanda têm muito em comum. Em grande parte, ambos foram ativados pela abertura de políticas econômicas que até o momento tinham um enfoque internalizado. O investimento externo e, particularmente na Espanha, o turismo, desempenharam papéis importantes, compensando no início a falta tanto de capital quanto de iniciativa naqueles países. Espanha e Irlanda se beneficiaram bastante dos programas de assistência da União Européia. Os dois países se dedicaram à educação. No caso irlandês, se transformando, em apenas 40 anos, de um dos países menos educados da Europa para um dos mais educados. Além disso, em ambos os países, a influência da Igreja Católica caiu acentuadamente, a tal ponto que se escuta o termo “pós-católico” aplicado às duas nações. Nesse processo, ambas as culturas foram transformadas.

Quebec

Antes da “Revolução Tranqüila” (1960-1975), Quebec era subdesenvolvida em comparação com as outras províncias canadenses: mais pobre, menos industrializada, menos educada, menos saudável e menos democrática. Hoje, os indicadores de progresso em Quebec são comparáveis ao resto do Canadá em alguns aspectos, por exemplo, os seus índices de abandono escolar no ensino médio são os menores do Canadá. Mas o que teria gerado essa transformação?

 

  • O uso de um nacionalismo inclusivo para promover a unidade, o esforço e o sacrifício.

 

  • Um processo de “desclericlerização”, no qual a influência da igreja foi drasticamente reduzida, sobretudo na educação, em um período de cinco anos (1961-66). Como a Irlanda e na Espanha, ocasionalmente Quebec também é chamada de “pós-católica.”

 

  • Grandes alocações de recursos para a educação.

 

Promoção da igualdade de gênero, particularmente nos locais de trabalho.

 

  • A criação de um estado moderno, criativo, que liderou um desenvolvimento que abrangia do Cirque Du Soleil às avançadas indústrias tecnológicas. A abordagem “corporativista” reunindo o comércio, o trabalho e os profissionais para a discussão de políticas com o governo tem sido – em geral – bem sucedida.

 

  • Esforços liderados pelo Estado visando a redução da desigualdade.

 

Ironicamente, ao mesmo tempo em que os números de Quebec se aproximavam dos números do Canadá anglófono, crescia um sentimento em favor da soberania da província.

Índia

Será uma surpresa para muitos – como foi para mim – saber que, pelo menos de acordo com os dados de Angus Maddison, a Índia sob os Mongóis era responsável por mais de 20% do PIB mundial no início do século XVIII, principalmente por conta de sua produção agrícola e têxtil. (9) Esse fato, ligado ao sucesso econômico de vários indianos emigrantes, inclusive aqueles que imigraram para os Estados Unidos, sugere a presença dos valores universais do progresso na cultura indiana. Além disso, os paralelos entre o desenvolvimento do milagre econômico indiano e os milagres no leste-asiático são impressionantes: a abertura da economia indiana no início dos anos 1990 produziu uma resposta similar àquela produzida pelo “enriquecer é maravilhoso” na China.

Certamente, a explosão econômica da Índia foi alimentada, pelo menos em parte, pela grande quantidade de pessoas no país que dominam a língua inglesa, um bem valioso que a Irlanda também possui, e pelo investimento estrangeiro voltado para esse trunfo lingüístico. Mas os empreendedores indianos também desempenharam um papel de destaque nesse crescimento.

Precisamos desenvolver uma melhor compreensão do contexto cultural do milagre indiano. A Índia é um país de numerosos grupos étnicos e religiosos – é, por exemplo, a segunda maior população mulçumana do mundo (depois da Indonésia). Quais grupos são os maiores participantes e beneficiários da explosão econômica? Qual é o efeito sobre os elementos majoritários da sociedade que não participam diretamente dos setores modernizantes? Qual é o efeito sobre as mulheres, cujo papel de subordinação na sociedade indiana é ressaltado pelo fato de que mais de 50% das mulheres indianas são analfabetas? Essas são algumas questões – entre tantas – levantadas pelo incipiente “milagre” indiano.

Conclusão

A cultura é realmente importante para o desenvolvimento econômico, e os governos, as instituições de assistência ao desenvolvimento, os think tanks e universidades devem comparar a cultura e a mudança cultural. A incorporação da análise cultural e das mudanças culturais à mistura de políticas e formulação de projetos pode acelerar significativamente o passo do desenvolvimento econômico.

Notas:

[1] Banco Mundial, Culture Counts: Financing, Resources, and the Economics of Culture In Sustainable Development (Washington DC, 2000), p. 30.

[2] Banco Mundial e FMI, Finance and Development, março 1994, 51.

[3] “Culture Makes Almost All the Difference”, em Lawrence Harrison e Samuel Huntington, eds., Culture Matters (New York: Basic Books, 2000), 2.

[4] Citado em Lawrence Harrison, The Central Liberal Truth (New York and Oxford: Oxford University Press, 2006), 128.

[5] Jeffrey D. Sachs, The End of Poverty (New York: Penguin, 2005), 60.

[6] http://ideas.repec.org/p/ces/ceswps/_1492.html

[7] Harrison, The Central Liberal Truth, Capítulo 4.

[8] The Economist, 30 de setembro de 2006.

[9] Angus Maddison , Monitoring the World Economy, 1820-1992 (Paris: OECD, 1995), p.30.

Original em inglês.