Custos da Copa: ninguém sabe, ninguém viu

Em setembro do ano passado, escrevi nesse blog que os custos reais da Copa do Mundo de 2014, apesar dos inúmeros levantamentos, ainda eram desconhecidos. Na ocasião, a ministra Miriam Belchior admitia desconhecer um estudo que pudesse esclarecer quanto o evento custará aos cofres públicos brasileiros.

O que a ministra já admitia era a possibilidade de que “o legado da Copa do Mundo”, exatamente o que – para o governo - justificaria a aplicação de dinheiro público e ficaria como herança do evento para a população, acabasse sendo menos vistoso do que o prometido anteriormente. Belchior reconheceu que os projetos de mobilidade urbana poderiam ficar para depois da Copa e que governo não descartava a possibilidade de decretar feriado nas praças onde os jogos serão realizados. Depois de os defensores da realização do evento no Brasil terem prometido prometido uma melhora significativa, e a preços módicos, no sistema de transporte, a simples entrega de alguns pontos facultativos para melhorar o trânsito não deverá figurar na lista de sucessos no evento patrocinado pelo governo brasileiro.

E a lista de “erros” de avaliação nos orçamentos para a Copa do Mundo parece não ter fim. Em artigo publicado ontem na página do Fórum da Liberdade, o economista Gil Castello Branco traz mais alguns dados sobre a diferença entre os valores orçados e valores finais dos projetos para a Copa. Castello Branco verifica ainda a dificuldade que o cidadão comum interessado em acompanhar os custos do evento encontraria ao trafegar pelos diversos sites que, ao invés de esclarecer dúvidas, fornecem informações desencontradas e contraditórias:

Outro exemplo de discrepância gritante entre o valor orçado e o real é o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. O custo frequentemente divulgado é de R$ 688,3 milhões. Nesse montante, porém, não está incluída a cobertura da arena que acaba de ser licitada, elevando o dispêndio para cerca de R$ 850 milhões. Também não constavam da previsão original as despesas com o gramado, a iluminação, as cadeiras, os elevadores, dentre outros “deta lhes”. Ou seja, a estimativa do Governo do Distrito Federal refere-se, basicamente, à estrutura de concreto. Algo como se fosse possível calcular o custo de uma casa sem telhado, piso, luz etc… De fato, encontrar o custo real do elefante branco em construção na Capital não é tarefa fácil. O valor de R$ 688,3 milhões (sem cobertura, gramado etc..) ainda é informado nos sites da CGU e do Ministério do Esporte. No site do Instituto Ethos encontra-se R$ 745,3 milhões. No site do Senado consta R$ 671,1 milhões. Até mesmo a foto do estádio que ilustra os portais do Tribunal de contas da União e do Ethos é a da versão inicial do projeto, já completamente alterada. Quanto à execução financeira, embora estejamos em fevereiro de 2012, os dados mais recentes computados no portal do Senado (30/6/2011) mostram que foram pagos R$ 223,8 milhões dos R$ 671,1 previstos (33%). No site da CGU os valores executados até 9 de novembro de 2011 somam R$ 73,99 milhões dos R$ 688,3 milhões previstos (11%). Para o governador Agnelo Queiroz, as obras já estão na metade. Assim como ocorre com o estádio em Brasília, os portais divulgam informações desatualizadas, incompletas e até contraditórias sobre outros empreendimentos, nas diversas cidades- sede. A promessa de que qualquer cidadão poderia acompanhar os custos da Copa ainda não foi cumprida.

Faltam pouco mais de dois anos para o início do evento. Em breve, começarão as obras em caráter “emergencial”, que driblarão licitações e cuja justificativa será baseada na necessidade da realização imediata do evento – como se tivéssemos sido informados de sua existência há poucos minutos.

No fim, não adiantará culpar a exigente FIFA pelos custos. A Copa do Mundo estava lá, quietinha, indo para algum outro país. Foi o Brasil quem se dispôs a sediá-la.