De onde vêm e de onde não vêm as inovações?

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Certas inovações só puderam aparecer quando apareceram porque, umas inovações dependem de outras.

O trem e o navio a vapor só foram possíveis depois que a tecnologia da utilização do vapor foi dominada.

Os facebooks da vida só se tornaram possíveis depois que a tecnologia da Internet passou a existir.

Há também os casos das inovações que surgem antes que o mercado esteja pronto para elas, como foi o caso do telefone com imagem, que existe desde os anos 1960, mas que o mercado não adotou porque as pessoas não estavam prontas para receber um telefonema e aparecer desarrumadas ou as mulheres sem pintura ou com rolinhos nos cabelos. Tomou impulso com a Internet e hoje é corriqueira em quase todos os computadores conectados com a Internet.

A palavra de ordem desta segunda década do século XXI é inovação. Lê-se na imprensa que é preciso mais inovação, o governo diz que o Brasil só vai progredir se houver mais inovação, etc.

O problema é que, para isso, antes de tudo as pessoas têm que ter a liberdade de ser excêntricas, ou seja, de pensar de maneira diferente da maioria das pessoas que as circundam.

Alguns lugares facilitam isso, outros dificultam. Estar no vale do silício nas décadas de 1970-80 era uma vantagem. Já havia vários laboratórios de pesquisa científica por ali, o da Hewlett-Packard, hoje conhecida como HP e o da Xerox. Inventar o primeiro computador da Apple ali não foi uma coincidência. O ambiente ajudou.

Bill Gates escrever o primeiro código para os PCs na área de Seattle tampouco caiu do céu. Ele teve acesso a um dos primeiros computadores pessoais simples e começou a fazer programação e foi dispensado de algumas aulas na sua escola secundária para poder perseguir essa aventura. Acabou na Microsoft.

Quando a IBM resolveu meter-se no negócio dos microcomputadores, alguns de seus diretores rapidamente entenderam que não seria dos tradicionais ibemistas de ternos azul marinho, camisas brancas e gravatas discretas que sairia a inovação. Criaram uma fábrica isolada da IBM tradicional em Boca Raton, na Florida, para permitir que a inovação emergisse.

Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal e um dos primeiros financiadores do Facebook, estabeleceu através de uma fundação uma bolsa de estudos para inovação e empreendedorismo, mas, já tendo aprendido o poder que as universidades e professores burocráticos têm de bloquear a inovação determinou que as bolsas seriam para estudantes menores de 20 anos, que passam a ter a possibilidade de ganhar cem mil dólares para sair da universidade e desenvolver suas ideias orientados, não por professores, mas por empresários que já provaram seu sucesso em empresas bem sucedidas.

Visto isso, temos conjuntos de condições que ajudam ou inibem as inovações.

Nisso estamos mal no Brasil. Por um lado, os brasileiros são extremamente otimistas a respeito do futuro, por outro, estão amarrados por regras burocráticas inflexíveis das universidades brasileiras que, de maneira geral, operam com o olho no retrovisor, ou seja, vivem mirando  o passado, sem enxergar o futuro.

As grandes preocupações universitárias são seguir as regras do Ministério da Educação e publicar artigos em revistas reconhecidas por ele que, como bem destacou Simon Schwartzman, são lidas praticamente por ninguém. O sistema de julgamento de pares atrasa a velocidade da publicação, que pode demorar dois anos ou mais. E dois anos hoje são uma eternidade...para ninguém ler.

Recentemente eu soube de um caso de um rapaz que hoje tem 22 anos. Há cinco, botou o pé no avião e foi para a Irlanda estudar numa faculdade em tempo integral. Terminou seu curso de administração e aproveitou o vento que soprava favorável à Irlanda, antes que a crise arribasse por lá.

Meteu-se num navio de cruzeiro e rodou o mundo como tripulante.  Viu de tudo e ganhou experiência. Voltou para Brasília e foi confrontado com uma família chorosa que o quer por perto e foi ver o que podia fazer. Sua alternativa era uma faculdade. Quatro anos de estudos de relações internacionais, estudando a história do FMI e quantas diretorias nele há, sem que ninguém lhe ensine como funciona o mercado financeiro mundial.

Está na encruzilhada. Comentou que ficará quatro anos nessa faculdade estudando estas coisas inúteis enquanto o mundo gira e a Lusitana roda.

Está com sérias duvidas sobre se deve desperdiçar quatro anos para aprender um conjunto de coisas pouco úteis, num mundo que gira cada ver mais rápido e num universo que se expande cada vez mais, para marcar passo burocrático enquanto o progresso passa e ele estará preso a uma carteira de escola.

Em suma, além da liberdade para ser excêntrico, coisa que não existe dentro da faculdade, ele consegue antecipar que seus quatro anos na faculdade serão desperdiçados e corre o sério risco de perder o bonde do progresso na vida por falta de ambiente livre, adequado para desenvolver todo o ímpeto que tem para inovar e fazer coisas interessantes.

Corre o risco de entrar para a carreira diplomática e passar 20 anos carimbando passaportes antes de ter qualquer impacto em política pública, se é que terá. Outra alternativa é tornar-se professor de uma faculdade onde, além de gastar quase todo o tempo escrevendo artigos em revistas que ninguém lê, terá que dedicar ainda uma boa dose de energia em manter atualizado o seu currículo Lattes, a autenticação cartorial do Conselho Nacional de Pesquisas, exigida pelo mercado universitário de ensino para provar que ele vale alguma coisa. Sem falar de copiar e autenticar todos os seus diplomas e certificados.

Talvez eu não tenha respondido tão completamente quanto desejava de onde vem a inovação mas, certamente, tendo clareza a respeito de onde ela não vem, pelo menos ele já saberá, e espero que muitos outros jovens brasileiros também venham a sabê-lo, de modo a não perderem o supersônico da história que voa cada vez com mais rapidez.

* Publicado originalmente em 20/08/2012.