Dinheiro e juros na perspectiva da Escola Austríaca

Enquanto muitos teoremas da Escola Austríaca já foram integrados na teria econômica vigente, especialmente na microeconomia neoclássica, o mesmo não acontece com a teoria monetária e de juros. Ainda existe ampla ignorância a respeito da teoria macroeconômica da Escola Austríaca não somente entre o público geral, mas também entre os dirigentes da política monetária e economistas acadêmicos.
 
Princípios
 
Começando com a obra fundacional de Carl Menger (1840-1921), a Escola Austríaca de economia ganhou seus princípios de individualismo metodológico, subjetivismo de valor e do marginalismo das decisões econômicas. Em continuação desta abordagem, Eugen von Böhm-Bawerk (1851-1914) desenvolveu uma teoria do capital com base no subjetivismo da valorização dos bens. Ele introduziu o conceito de tempo na teoria do capital e explicou a taxa de juros em termos de preferência de tempo, como a consequência da valorização maior que o serviço de bens mais perto do presente tem em comparação com o mesmo serviço mais no futuro. Ao focalizar no aspecto temporal do capital e da taxa de juros, Böhm-Bawerk forneceu a base para o desenvolvimento da teoria monetária do ciclo de negócios.
 
Ludwig von Mises (1881-1973) e Friedrich von Hayek (1899-1992), através da elaboração da abordagem de Böhm-Bawerk e incorporando as teorias do sueco Knut Wicksel (1851-1826) formularam uma teoria integral de prosperidade, depressões e crises. A teoria austríaca aplica como técnica de investigação o individualismo metodológico e elabora uma teoria causal-realista na base de conceitos praxeológicos. A lógica da ação humana incorpora as categorias de tempo e causalidade e consequentemente a sequência entre o anterior e o depois. Individualismo, valorização subjetiva, irreversibilidade do tempo, causalidade e sequencialidade são as características principais desta metodologia. Na perspectiva da escola Austríaca de economia, problemas macroeconômicos – como inflação de preços e desemprego – têm as suas raízes na microeconomia, nas distorções de informações, em falsos incentivos e em erros de conhecimento que provocam descoordenação do processo econômico.
 
Na economia monetária moderna, o sistema de preços junto com a taxa de juros serve para fornecer as informações fundamentais para a alocação de recursos. Portanto, a teoria austríaca busca a origem de crises e depressões em distorções no sistema informacional e de incentivos e propõe como caminho para evitar crises e depressões estabelecer e manter um sistema monetário sadio que funciona sem intervencionismo político.
 
Economia monetária
 
O cálculo monetário é essencial para a formulação e a realização de planos econômicos em um sistema de divisão do trabalho. O cálculo monetário racional funciona eficientemente num ambiente de instituições sociais liberais que garantem a propriedade privada dos bens de produção e permitem a livre formação de preços de mercado pelo o uso de dinheiro para as transações. A importância do dinheiro resulta da sua função de servir como o meio geral de troca e nesta função está presente em todas as transações econômicas. Com o foco no dinheiro no nível micro e macroeconômico, a teoria econômica austríaca distingue-se de outros modelos da economia onde o dinheiro é excluído, passivo ou considerado neutro.
 
Na perspectiva da Escola Austríaca, o dinheiro é um agente ativo na economia que determina não somente o “nível de preços”, mas também muda os preços relativos e assim tem impacto sobre a alocação. Dado que a taxa de juros tem sua origem na preferência de tempo, uma taxa de juros manipulada pelos órgãos de política monetária é a razão principal da emergência de falsas alocações temporais na estrutura do capital. Isto acontece porque a taxa de juros pode se desviar da taxa natural devido à criação de dinheiro (ou a sua contração) nos mercados de crédito. Se a taxa de dinheiro cai abaixo da taxa natural e, portanto, afasta-se da taxa original de juros, a taxa monetária não mais reflete corretamente a avaliação original entre os bens presentes e futuros. Como consequência os bens futuros tornam-se relativamente mais baratos e a demanda por eles aumenta em relação aos bens mais próximos do consumo.
 
O dinheiro não pode ser neutro no processo econômico, pois entra na economia não de uma só vez, nem ao mesmo tempo, nem na mesma quantidade para todos os agentes econômicos. Enquanto um aumento da massa monetária pode alterar ou não o nível geral de preços, a moeda sempre mudará os preços relativos e com isso também as fortunas relativas de cada um dos agentes econômicos. O dinheiro afeta a estrutura do negócio, o tamanho e a direção de produção e os vários ramos de consumo. Dinheiro entra a economia em pontos específicos para destinatários específicos e afeta o restante dos agentes econômicos de diferentes maneiras. De onde e como o dinheiro entra na economia e como o dinheiro se difunde no processo econômico muda a distribuição da riqueza da população e assim dinheiro não é neutra apenas no sentido econômico, mas também para a sociedade.
 
Enquanto este grupo que consegue obter o novo dinheiro em primeiro lugar ainda pode aproveitar do antigo nível de preços, os grupos que seguem depois precisam pagar preços para bens e ativos que se tornam cada vez mais altos por causa do aumento da massa monetária.
 
Taxa de juros
 
Na aplicação dos princípios metodológicos para a moeda, a teoria econômica austríaca considera a taxa de juro e a demanda por moeda como o resultado da valorização humana. A teoria praxeológica da taxa de juros mostra que ela reflete a avaliação subjetiva de tempo na ação humana. Em sua forma original, a taxa de juros é o desconto que a ação humana impõe aos bens que estão disponíveis mais tarde em comparação com os produtos que podem fornecer o mesmo serviço mais cedo. Assim, em termos da ação humana, a taxa de juros é o desconto que os bens mais distantes do consumo recebem. Este fato representa uma lei a priori da praxeologia porque, caso contrário, o homem não agiria. Isto significa que a taxa de juros não pode ser eliminada. A estrutura inerente à ação humana implica necessariamente uma preferência para a satisfação mais imediata.
 
A essência da teoria monetária é a cognição de que o dinheiro induz mudanças nos preços, nos salários e na taxa de juros nem no mesmo tempo nem na mesma medida nem para todos os agentes econômicos no mesmo grau. Assim a taxa monetária de juros não pode ser uma taxa neutra no sentido de que seria a expressão monetária da taxa original. Entre a taxa monetária de juros e a taxa de juros originária há uma diferencia categorial. A taxa originária de juros reflete a ação humana segundo a lei de valorizar mais o serviço de um bem quando está mais próximo do consumo. Enquanto a taxa originária de juros é uma categoria praxeológica, a taxa monetária manifesta-se como expressão da quantidade de moeda na economia e aparece em dois tipos: primeiro como taxa monetária natural quando a taxa de juros é o resultado do livre mercado e reflete as valorizações dos agentes econômicos; segundo como taxa de juros quando resulta do intervencionismo político, seja de sua fixação pelo banco central ou por causa da expansão e contração da massa monetária e denota um desvio da taxa originária de juros.
 
Conclusão

A Escola Austríaca de economia se distingue de outras teorias macroeconômicas fundamentalmente com as posições de que (1) a moeda não é neutra e (2) a taxa de juros é um fenômeno da ação humana.

A moeda entra na a economia não de uma só vez para todos os agente ao mesmo tempo, mas passo a passo, para agentes diferentes. Isto implica que uma expansão monetária muda os preços relativos e consequentemente a distribuição salarial e patrimonial na economia. Na perspectiva da Escola Austríaca, a taxa de juros não aparece apenas como uma taxa monetária, mas na sua essência é o resultado da preferência temporal. Por necessidade, a ação humana atribui um valor maior a estes serviços que estão temporalmente mais perto do consumo. Políticas monetárias intervencionistas junto com a existência de um sistema financeiro fraudulento fabricam taxas monetárias de juros que disseminam sinais falsos e geram incentivos perversos que provocam alocações erradas na economia.